Direção: Dennis GanselRoteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth, baseado no romance de Todd Strasser
Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Elias M'Barek, Cristina do Rego e Jacob Matschenz.
O cinema alemão contemporâneo parece carregar certa preocupação já há considerável tempo, demonstrando através de filmes políticos reconhecer o que o país causou ao mundo, através de sua administração governamental, durante parte do século passado. Ótimos exemplos como Adeus, Lênin!, Edukators e A Vida dos Outros justificam a afirmação anterior, assim como A Onda, filme que se une ao segmento supracitado que, além de agregar mérito à cinematografia alemã recente, serve como base para análises sociológicas muito pertinentes a questões nem sempre levantadas.
A Onda se inicia com uma informação que pode impressionar quem conhece previamente o tema do filme: é baseado em fatos. No filme, o professor Rainer Wenger deve trabalhar com seus alunos a autocracia, embora estivesse esperando a anarquia como temática para sua disciplina de curta duração. Em dúvida sobre como levantar tal assunto em aula, ainda mais quando seus alunos apresentam certo desinteresse, decide demonstrar na prática o significado da autocracia e dos mecanismos fascistas que hoje fazem parte do passado do governo alemão.
Na turma de Rainer, professor que já era admirado por seus alunos anteriormente, em parte por ser jovem e dono de estilo despojado - uma camiseta da banda Ramones é peça de seu vestuário no primeiro dia de aula, por exemplo -, o movimento começa através do sugerido poder pela disciplina, fazendo com que sua turma siga algumas regras a fim de se tornar obediente. Proclamado o líder, Rainer segue alimentando o movimento com indicações, que passam cada vez mais a agradar os alunos: define um nome para o grupo (Die Welle, no original, traduzido como A Onda), um símbolo, um cumprimento e um uniforme. Através de cada pequena imposição o professor vê suas intenções funcionando, mas não as consequências, já que a experiência sai da sala de aula e se torna ideologia dos jovens influenciados. O Die Welle então se torna um movimento do coletivo, que termina com a individualidade e livre arbítrio dos membros em benefício à suposta ordem e união. A manifestação rapidamente se dissipa pela escola e cada vez mais alunos decidem integrar o grupo, que discrimina qualquer um que não faça parte dele.
Ocorrido originalmente na Califórnia, em 1967, o experimento que deu origem ao filme foi batizado de A Terceira Onda e proposto por Ron Jones, professor de história que devia abordar o fascismo em aula. Jones optou pela experiência quando percebeu que seus alunos não compreendiam a declarada ignorância do povo alemão em relação ao extermínio de judeus, durante o regime nazista. O professor decidiu então simular em uma espécie de microcosmo social, composto por ele e seus alunos, o término da democracia para elevar o poder da unidade, enquanto seguia a máxima “força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho”.
Através de ótica pessimista, A Onda funciona tanto como obra cinematográfica inteligente quanto crítica social, embora peque vez ou outra ao inserir resoluções que obviamente favorecem mais o drama que a realidade. Enquanto acerta no tom com que demonstra as transformações vividas pelo personagem do professor, que fica cego pelo controle e não percebe as implicações prejudiciais de seu experimento, o filme apresenta a juventude através de um viés pouco aprofundado, acrescentando personagens inverossímeis que se enquadram em arquétipos recorrentemente utilizados no cinema com ambientação escolar: o esportista popular, a garota inteligente e alternativa, o jovem deslocado e incompreendido, dentre outros.
Com direção competente de Dennis Gansel, realizador que reconheceu a força da história que tinha em mãos e procurou a beneficiar com sua direção, e não se sobrepor a ela, A Onda ainda conta com um elenco que, diferentemente do Die Welle, funciona tão bem na unidade quando no coletivo. Uma boa surpresa é a performance de Jürgen Vogel, intérprete de Rainer, que não desequilibra a narrativa com excessos e apresenta desempenho bastante satisfatório. No roteiro de Peter Thorwarth e do próprio Gansel ainda se percebe a preocupação de ambos em destinarem o tempo correto de participação e destaque tanto ao núcleo adolescente quanto ao personagem do professor, o que serve para que o espectador se integre à realidade da obra em questão e sinta maior empatia e identificação para com seus personagens, assimilando as motivações de cada um para suas atitudes – mas nem sempre as compreendendo ou as aceitando.
A Onda revisita situações e levanta questionamentos que parecem distantes da realidade social de hoje para muitos, mas que são facilmente identificados, uma vez que se considere a homogeneização da população contemporânea, massificada não apenas pela mídia – como corretamente é dito – mas também por si própria. O pensamento fabricado é realidade latente de nosso tempo e aparece no grupo de A Onda como crítica ao comportamento do jovem do novo século, facilmente influenciável, que busca a integração em grupos sociais e abnega sua liberdade individual para fazer parte de algo maior.



Fugirei da tentação de começar este texto versando sobre a pouca audiência que Som & Fúria teve. Não gastarei um parágrafo, sequer, tentando entender esta quimera chamada “público” que prefere um filme de ação desenfreada sendo exibido na emissora concorrente, em detrimento da beleza de uma minissérie que tem a coragem de falar de Shakespeare na televisão aberta. Mesmo querendo fugir de tais críticas e de uma visão mais incisiva sobre a “audiência”, acabei por me trair e falei um pouco do que não me propus a falar. Agora sim, farei de conta que os números não contam, que os resultados não influem no desenvolvimento da arte e falarei somente do que importa, que é a própria arte.
Som & Fúria foi uma realização belíssima, um programa com o refinamento do qual precisávamos na televisão brasileira, tão dominada por shows que maquiam a realidade ou mesmo programas que nos transformam em macacos de auditório. Meu entusiasmo com estes primeiros doze capítulos (torço por uma segunda temporada) é tamanho que ouso a dizer que, desde Cidade de Deus, Meirelles não apresentava uma obra tão densa e relevante, tão cheia de nuances, independente do meio. O diretor geral começou acertando na escolha do tema: Shakespeare. O dramaturgo inglês, que em sua época buscava escrever para um público amplo, acabou sendo erroneamente elitizado com o tempo, e no aspecto da aproximação de seus textos e temáticas universais com o grande público, Fernando Meirelles acertou no tom leve, irônico, sem abdicar de passagens emocionantes, dramáticas, emulando, mesmo que limitado pelo meio, a pluralidade de temas que Shakespeare abordou em seus escritos. Porém, os acertos da equipe de produção não se limitaram a abordagem sensível das obras imortais de Shakespeare.
Uma viagem pessoal pelo cinema americano
No início, uma cena forte, belissimamente filmada, mostra Kelly, uma mulher batendo em um homem bêbado que, representado pela câmera subjetiva, cambaleia, levando o público a começar o filme num misto de agonia e espanto. Já dá, de início, para perceber que as cenas de Fuller são fortes. Os personagens bem delineados e multidimensionais só aumentam o interesse pela trama, que ganha novos contornos com a chegada de Kelly a uma cidadezinha do interior. Ela guarda um segredo, que não o será por muito tempo, ainda mais quando sua presença começa a criar raízes na comunidade, influenciando a vida de todos, mas especialmente a de um policial, a de um solteiro rico, a da dona de um bordel e a rotina da clínica de reabilitação ortopédica para crianças, aonde Kelly trabalhará. O que marca muito a narrativa desenvolvida por Samuel Fuller é a utilização freqüente de elipses, de uma dinâmica que privilegia o desenrolar ágil dos acontecimentos, sem que para isso se sacrifique a fluidez, sem que o enfoque se torne apressado, atropelado. Fotografado em preto-e-branco, o filme tem um interessante jogo de luz e sombra, que auxilia no desenvolvimento psicológico dos personagens. 