sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Crítica: Goodbye... Solo

Direção: Ramin Bahrani
Roteiro: Ramin Bahrani e Bahareh Azimi
Elenco: Souleymane Sy Savane, Red West, Diana Franco Galindo, Lane 'Roc' Williams, Mamadou Lam, Carmen Leyva.


Quando lançado há poucos meses nos cinemas norte-americanos, o drama independente Goodbye... Solo não despertou grande interesse por parte do público, mas teve considerável repercussão pelas diversas láureas que recebeu em premiações, e também através dos comentários positivos da crítica especializada. É surpreendente e animadora a aparição de tal produção no circuito brasileiro, destino que uma minoria de filmes independentes recebem em nosso país.

Logo na primeira sequência do filme conhecemos seus dois protagonistas e aquilo que guiará a dinâmica em suas relações: um senhor chamado William toma um táxi, onde o motorista é um simpático senegalês - o Solo do título. O primeiro faz uma proposta curiosa ao estrangeiro, pedindo que o leve, dentro de alguns dias, até uma afastada região, especificamente à montanha Blowing Rock, por uma considerável quantia em dinheiro. Solo passa a temer as intenções de William para realizar a viagem, já que esta é composta apenas pela ida.

Goodbye... Solo impressiona instantaneamente pela composição de seus atores principais, e ainda mais quando se conhece os processos com que os mesmos foram desenvolvidos. Não se percebem atores no filme, e sim um taxista chamado Solo e seu passageiro de nome William. Souleymane Sy Savane, intérprete de Solo, foi tempos atrás um comissário de bordo, profissão almejada por seu personagem, e Red West, que vive William, era amigo de Elvis Presley durante a escola e foi seu motorista particular por muitos anos. Ambos têm em Goodbye... Solo um espaço para demonstrar seus talentos até então não explorados, e não desperdiçam a oportunidade. Ramin Bahrani, roteirista e diretor do filme, trabalhou com seus atores durante meses a fio, desenvolvendo oficinas intensas com a intenção de conseguir credibilidade para seus personagens. Pode-se dizer com segurança que seu sucesso nesse quesito é evidente na produção.

O filme de Bahrani não é simplesmente sobre a dinâmica da estranha amizade entre Solo e William, embora esta seja uma das várias leituras que podem ser feitas. Goodbye... Solo mostra nos extremos da personalidade dos protagonistas o otimismo e pessimismo com que a vida pode ser levada, e então a narrativa do filme passa a ser construída, mostrando o velho suicida tendo que conviver com o taxista intrometido. Solo chega a constranger pelo modo com que se impõe e batalha para se aproximar de William – enquanto este reluta contra a aproximação -, mas as investidas altruístas do primeiro refletem apenas sua preocupação admirável e fora do comum para com o destino de um estranho.

A capacidade excepcional do diretor para o drama humano fica evidente no filme, onde ele aplica uma série de recursos que engrandecem a aparentemente singela história de dois homens e suas maneiras de encarar o mundo. Bahrani ainda expande sua trama inicial ao inserir questões sobre diferenças culturais e relacionamentos familiares, economizando em peripécias estéticas e de linguagem, decisão que beneficia o texto escrito por ele próprio juntamente com Bahareh Azimi.

Goodbye... Solo merece destaque entre o cinema de qualidade exportado pelos Estados Unidos nos últimos anos, e Ramin Bahrani ocupa posição importante ao lado de novos realizadores pensantes do país, como James Gray, por exemplo. Bahrani e Gray seguem vertentes particulares do mesmo cinema influenciado pelo neo-realismo italiano, retratando com humanismo as relações sociais contemporâneas através de um olhar sincero e muito original.

Os outros dois trabalhos de Bahrani compõem com Goodbye... Solo uma espécie de trilogia sobre a vida de estrangeiros nos Estados Unidos e a forma positiva com que os mesmos encaram o universo de que fazem parte. O próprio diretor, que apesar do nome é norte-americano, mencionou em entrevistas ter se sentido um estrangeiro durante parte da infância, já que seus pais são imigrantes do Irã. Sua empatia com os estrangeiros é também notável em seus dois outros filmes, Man Push Cart, de 2005, e Chop Shop, de 2007. Provavelmente seja justamente a visão singular e realista de Bahrani a responsável pelos diversos prêmios que o mesmo conquistou com seus filmes, incluindo o de Melhor Filme pela Crítica, por Goodbye... Solo, no Festival de Veneza em 2008, e por ser presença constante em festivais importantes como o de Sundance e Cannes.

Roger Ebert, renomado crítico norte-americano, é o responsável por um dos comentários mais elogiosos a respeito de Goodbye... Solo, quando escreveu que “onde quer que você viva, quando este filme estrear, será o melhor filme em exibição na cidade”, na mesma resenha onde diz que Ramin Bahrani, a mente por trás do filme, é “o novo grande diretor americano”. Confesso que não vi todos os filmes que atualmente estão em exibição nos cinemas, assim como obviamente não conheço todos os diretores contemporâneos dos Estados Unidos, mas a experiência com o filme de Bahrani é tão intensa e única que se torna impossível discordar de Ebert em ambas as colocações.


Texto publicado originalmente em www.cineplayers.com

Crítica: A Bela Junie

Direção: Christophe Honoré
Roteiro: Christophe Honoré e Gilles Taurand, inspirados pelo livro de Madame de La Fayette
Elenco: Léa Seydoux, Louis Garrel, Grégoire Leprince-Ringuet, Esteban Carvajal-Alegria, Simon Truxillo, Agathe Bonitzer, Anaïs Demoustier, Clotilde Hesme e Chiara Mastroiani


Cineastas que se repetem podem ser facilmente identificados no cinema contemporâneo e, quando se constata a homogeneidade presente em suas obras, fica a impressão de que uma identidade própria se sobrepõe à importância que deveria ter o conteúdo daquilo que produzem. Christophe Honoré é um dos raros exemplos de realizador que, mantendo o mesmo gênero de cinema e com temática semelhante, está longe de soar repetitivo. Em seu novo trabalho, A Bela Junie, Honoré deixa de lado qualquer traço de otimismo presente em seu filme anterior, Canções de Amor, e realiza através de perspectiva bastante madura uma leitura singular sobre o amor.

Inspirado no romance A Princesa de Clèves, publicado anonimamente por Madame de La Fayette em 1678, A Bela Junie apresenta, através de uma gama enorme de personagens, o amor na juventude e suas mais diversas implicações, com ênfase nas paixões repentinas e arrebatadoras. A Junie do título, inquestionavelmente bela, é uma garota que se muda para a casa do primo após a morte da mãe e passa a frequentar a mesma escola e círculos sociais que o rapaz. Ela instantaneamente desperta o interesse de vários rapazes, e dois deles farão parte do triângulo amoroso complexo que a confunde: o colega de classe Otto e o professor de italiano Nemours.

As comparações entre Canções de Amor e A Bela Junie são inevitáveis, ainda que os filmes possuam tramas e narrativas muito diferentes. Se em Canções de Amor todo diálogo honesto e profundo era exposto pelos personagens através das ótimas composições do músico Alex Beaupain, em A Bela Junie Honoré procura, com a ajuda fundamental de seu elenco, demonstrar sentimentos e intenções através de olhares que em certos momentos dizem muito mais do que outras sequências faladas. Todo close do diretor em uma face pede por uma análise do espectador, que tem a oportunidade de conhecer melhor todos os envolvidos na ciranda amorosa de sua história. Uma das cenas mais belas da produção, que faz uso do artifício acima descrito, acontece na aula de italiano de Nemours, quando todos se calam para ouvir Maria Callas interpretando a dilacerante Il Dolce Suono, da ópera Lucia de Lammermoor. As expressões captadas pelas câmeras de Honoré são mais significativas que muitos dos diálogos presentes no filme.

Ainda em Canções de Amor, um dos principais questionamentos do diretor era, assim como o amor na juventude, a temporalidade evidente nos relacionamentos de hoje, questão explícita em uma das mais belas falas do filme: “Ama-me menos, mas ama-me por mais tempo”. Aqui tal tema é novamente levantado e refletido nos envolvimentos rápidos e superficiais dos personagens e, de forma evidente, aparece no diálogo entre Junie e Nemours, onde a primeira demonstra com franqueza toda sua insegurança sobre o destino de um relacionamento que sequer teve início. É interessante notar a insistência do diretor quando aborda novamente as relações amorosas gratuitas e apenas convenientes, que começam intensas apenas para, em pouco tempo, terminarem no sofrimento de um dos envolvidos. Essa é a realidade que desestabiliza Otto, Henri, Marie, Florence e ainda outros personagens de seu filme, que em algum momento priorizaram a impulsão do amor ao invés da razão e acabam feridos por suas escolhas.

Para enriquecer sua narrativa melancólica, Honoré conta com a fotografia inspirada de Laurent Brunet, que constrói uma Paris triste em seus tons apagados de cinza, responsável pela sensação de frio e solidão que apenas enriquece o contexto do filme. Honoré ainda conta com presenças marcantes de outros filmes seus, como a do próprio Beaupain, responsável pela tocante trilha sonora de A Bela Junie, que inclusive tem aqui uma de suas músicas interpretadas novamente por Grégoire Leprince-Ringuet, ator que deu voz à várias de suas composições em Canções de Amor. Ainda em A Bela Junie, Honoré trabalha mais uma vez com o prolífico Louis Garrel, Clotilde Hesme, e até mesmo inclui um cameo bastante simpático de Chiara Mastroianni.

Junto ao elenco supracitado se encontra Léa Seydoux, intérprete da “bela pessoa” que aparece no título original da produção. Lembrando um pouco a estonteante Laura Smet e ainda mais a musa da nouvelle vague Anna Karina, Seydoux é portadora de uma beleza que serve muito bem ao papel de Junie, que compete apenas com seu talento impressionante para o drama. Por citar o movimento máximo do cinema francês, as alusões à nouvelle vague não ocorrem apenas através da protagonista do filme, como também na forma com que Paris é retratada, na estética e, principalmente, no cinema de autor que Honoré sabiamente desenvolve.

Com uma gama imensa de pequenas histórias escritas através do olhar pouco romanceado de Gilles Taurand e do próprio Honoré, A Bela Junie merece ser visto pela forma com que aborda os temas já mencionados, sempre com muita razão e veracidade. O filme serve ainda como uma resposta ao infinito de produções comerciais açucaradas sobre o amor, que irresponsavelmente tratam da temática universal de forma frívola e tendenciosa. Se o amor é doce ou amargo cabe a cada um julgar, mas é gratificante ver que em seus filmes Christophe Honoré insiste em apresentar mais de uma perspectiva ao sentimento.


Texto publicado originalmente em www.cineplayers.com

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Novidades

Novidades à vista no The Tramps. Estamos há quase dois anos no ar, escrevendo sobre cultura da maneira como a percebemos, e este trabalho, dos mais prazerosos, está rendendo frutos. Fomos convidados para assinar a coluna de cinema da mais nova revista de Caxias do Sul, a ME!, que será lançada no início do mês de outubro.

Outra boa nova é que o The Tramps terá uma correspondente no festival de Cinema do Rio de Janeiro, que se inicia no próximo dia 24 e vai até o dia 08 de outubro. A responsável pela cobertura será a psicóloga carioca, e cinéfila, Ana Carolina Grether, que mandará textos curtos sobre os filmes vistos e sobre a movimentação deste que é um dos maiores festivais de cinema da América Latina e que, neste ano, contará com presenças de cineastas de renome como Quentin Tarantino e Agnès Varda. Em breve, mais informações.

EXTRA:
Na edição desta quinta-feira, dia 17 de setembro, do Jornal Pioneiro, o blog foi destaque na coluna cultural 3X4 de Carlinhos Santos, profissional a quem agradecemos pela atenção e excelente divulgação.

domingo, 13 de setembro de 2009

Enquanto isso

Olá, caro amigo-leitor!
Passado algum tempo, o qual seria e sou incapaz de contar munido de exatidão, surjo, sim, surjo como espectro para a surpresa dos que não me aguardam. Eis um belo motivo para minha aparição, Enquanto a Noite Não Chega (1978), do escritor gaúcho Josué Guimarães (1921 -1986), notório pela trilogia inacabada, A Ferro e Fogo.

O romance aborda a vida de três idosos em uma cidade abandonada por todos, mesmo fantasma: o casal Dom Eleutério e Dona Conceição, e o amigo coveiro, Teodoro, cujo destino aguarda a morte dos cônjuges a fim de enterrá-los e seguir caminho por outras estradas.

Em pouco mais de 110 páginas, Guimarães traça, por meio de diálogos simples e verossímeis dos personagens, onde um narrador se faz necessário ao descrever as ações e sentimentos pessoais que não se permitem o externo, um panorama tocante e melancólico. A cidadezinha em ruínas, é reflexo interno de seus fiéis moradores, cuja riqueza é a arquitetura da memória de tempos idos, verdadeira ou não, dúvida possível devido à escassez de comida e luminosidade, que abrem portas ao delírio, transportando ao escrito, aura lúdica.

O livro, do tido maior escritor gaúcho na história moderna, após o mestre Erico Verissimo, de quem era amigo, é grata descoberta de autor novo, ao menos pela perspectiva subjetiva. Aguardo outras deste nível, enquanto a noite não chega.

Abraçosss


PS: O livro deu origem ao homônimo filme deste ano, o qual toma liberdades em relação à obra de Josué Guimarães. Segue uma pequena matéria vinculada no programa Vitrine, da TV Cultura




segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Festa da Menina Morta

Diretor: Matheus Nachtergaele
Roteirista: Matheus Nachtergaele e Hilton Lacerda
Elenco: Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré, Jackson Antunes, Cássia Kiss, Dira Paes

Filme que marca a estreia de Matheus Nachtergaele como diretor de cinema, ele que é um dos mais respeitados e competentes atores brasileiros dos últimos anos, A Festa da Menina Morta se enquadra num tipo de cinema autoral, uma vertente na qual somos, historicamente, muito bem sucedidos e que, de alguma maneira, marca o cinema brasileiro, principalmente depois do Cinema Novo. É um filme que chega em boa hora, para equilibrar a balança da produção nacional, que este ano está marcada por grande êxitos de público, acerca de filmes com estética mais televisiva, que tem o entretenimento como norteador. Isso é bom também. Parece que estamos, nós os brasileiros, finalmente contando com a diversidade de que qualquer cinematografia precisa para sobreviver: de um lado filmes de estética popular, que atraem público e que dão fôlego financeiro para a “indústria”; do outro, filmes como este, que por sua coragem e por falar sobre temas, nem sempre tão fáceis, são vistos por poucos, mas que enriquecem artisticamente o portfólio da nossa cinematografia.

Em seu debut atrás das câmeras, Nachtergaele não teve medo de se expor, de ser incisivo em sua abordagem, de procurar temas espinhosos e difíceis de serem retratados, com a força com que acontecem na vida real. A "Festa da Menina Morta" é celebrada todo ano, numa comunidade ribeirinha do alto do rio Amazonas e tem em Santinho seu epicentro. Quando criança, ele recebeu da boca de um cachorro os restos do vestido de uma menina que desapareceu e a quem, começou se atribuir o advento de milagres, tudo por intermédio de Santinho, aquele a quem a população outorgou a missão de servir de intermediário entre a menina que virou santa e o mundo terreno. Santinho é afeminado, vive dando chiliques e é egocêntrico, nada estranho quando se pensa que ele cresceu como o núcleo de uma comunidade inteira. Ele é interpretado por um Daniel de Oliveira em estado de graça, naquilo que mais parece uma incorporação. Seu Santinho vive com o pai, um homem que só pensa em beber e que mantém um caso incestuoso com ele, a quem tomou por esposa depois que a sua foi embora de casa. O pai, interpretado por Jackson Antunes, pensa em ganhar dinheiro com a festa, numa clara alfinetada àqueles que lucram com a fé alheia. Os personagens periféricos são alegorias de uma parcela do povo brasileiro, desiludido, pobre culturalmente e que vê na religião uma maneira de viver, um meio pelo qual ainda enxergam algum sentido para a vida.

Nachtergaele é um diretor promissor e isso se comprova pela maneira como narra o filme, a partir de fragmentos, e também pela forma como compõe certos enquadramentos belíssimos. Paradoxalmente, os grandes problemas estão exatamente nos excessos narrativos e na preocupação estética exacerbada, na inexperiência do diretor aliada com um deslumbramento pelo detalhe, pela fração, que faz com que ele exercite, por vezes, a composição visual do filme, com mais afinco e garra do que a composição dos personagens e da história. Os personagens são ótimos, tem profundidade, mas seu desenvolvimento esbarra na intenção de Nachtergaele de não se prender muito a eles, numa tentativa, um pouco frustrada, de criar um painel em que estas figuras dramáticas não passam de meras representações metafóricas de uma situação, esta sim a protagonista do filme. Mesmo assim, sucumbindo as inconstâncias de um diretor que peca pela inexperiência em seu primeiro trabalho, A Festa da Menina Morta se apresenta como um filme que se não nos pega pelo vigor ou mesmo pelos personagens, infelizmente pouco desenvolvidos, expõe uma vontade de se fazer um cinema contundente, que fale sobre assuntos mais urgentes e difíceis do que estamos acostumados. Já é muita coisa.

sábado, 22 de agosto de 2009

Crítica: A Onda

Direção: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth, baseado no romance de Todd Strasser
Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Elias M'Barek, Cristina do Rego e Jacob Matschenz.


O cinema alemão contemporâneo parece carregar certa preocupação já há considerável tempo, demonstrando através de filmes políticos reconhecer o que o país causou ao mundo, através de sua administração governamental, durante parte do século passado. Ótimos exemplos como Adeus, Lênin!, Edukators e A Vida dos Outros justificam a afirmação anterior, assim como A Onda, filme que se une ao segmento supracitado que, além de agregar mérito à cinematografia alemã recente, serve como base para análises sociológicas muito pertinentes a questões nem sempre levantadas.

A Onda se inicia com uma informação que pode impressionar quem conhece previamente o tema do filme: é baseado em fatos. No filme, o professor Rainer Wenger deve trabalhar com seus alunos a autocracia, embora estivesse esperando a anarquia como temática para sua disciplina de curta duração. Em dúvida sobre como levantar tal assunto em aula, ainda mais quando seus alunos apresentam certo desinteresse, decide demonstrar na prática o significado da autocracia e dos mecanismos fascistas que hoje fazem parte do passado do governo alemão.

Na turma de Rainer, professor que já era admirado por seus alunos anteriormente, em parte por ser jovem e dono de estilo despojado - uma camiseta da banda Ramones é peça de seu vestuário no primeiro dia de aula, por exemplo -, o movimento começa através do sugerido poder pela disciplina, fazendo com que sua turma siga algumas regras a fim de se tornar obediente. Proclamado o líder, Rainer segue alimentando o movimento com indicações, que passam cada vez mais a agradar os alunos: define um nome para o grupo (Die Welle, no original, traduzido como A Onda), um símbolo, um cumprimento e um uniforme. Através de cada pequena imposição o professor vê suas intenções funcionando, mas não as consequências, já que a experiência sai da sala de aula e se torna ideologia dos jovens influenciados. O Die Welle então se torna um movimento do coletivo, que termina com a individualidade e livre arbítrio dos membros em benefício à suposta ordem e união. A manifestação rapidamente se dissipa pela escola e cada vez mais alunos decidem integrar o grupo, que discrimina qualquer um que não faça parte dele.

Ocorrido originalmente na Califórnia, em 1967, o experimento que deu origem ao filme foi batizado de A Terceira Onda e proposto por Ron Jones, professor de história que devia abordar o fascismo em aula. Jones optou pela experiência quando percebeu que seus alunos não compreendiam a declarada ignorância do povo alemão em relação ao extermínio de judeus, durante o regime nazista. O professor decidiu então simular em uma espécie de microcosmo social, composto por ele e seus alunos, o término da democracia para elevar o poder da unidade, enquanto seguia a máxima “força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho”.

Através de ótica pessimista, A Onda funciona tanto como obra cinematográfica inteligente quanto crítica social, embora peque vez ou outra ao inserir resoluções que obviamente favorecem mais o drama que a realidade. Enquanto acerta no tom com que demonstra as transformações vividas pelo personagem do professor, que fica cego pelo controle e não percebe as implicações prejudiciais de seu experimento, o filme apresenta a juventude através de um viés pouco aprofundado, acrescentando personagens inverossímeis que se enquadram em arquétipos recorrentemente utilizados no cinema com ambientação escolar: o esportista popular, a garota inteligente e alternativa, o jovem deslocado e incompreendido, dentre outros.

Com direção competente de Dennis Gansel, realizador que reconheceu a força da história que tinha em mãos e procurou a beneficiar com sua direção, e não se sobrepor a ela, A Onda ainda conta com um elenco que, diferentemente do Die Welle, funciona tão bem na unidade quando no coletivo. Uma boa surpresa é a performance de Jürgen Vogel, intérprete de Rainer, que não desequilibra a narrativa com excessos e apresenta desempenho bastante satisfatório. No roteiro de Peter Thorwarth e do próprio Gansel ainda se percebe a preocupação de ambos em destinarem o tempo correto de participação e destaque tanto ao núcleo adolescente quanto ao personagem do professor, o que serve para que o espectador se integre à realidade da obra em questão e sinta maior empatia e identificação para com seus personagens, assimilando as motivações de cada um para suas atitudes – mas nem sempre as compreendendo ou as aceitando.

A Onda revisita situações e levanta questionamentos que parecem distantes da realidade social de hoje para muitos, mas que são facilmente identificados, uma vez que se considere a homogeneização da população contemporânea, massificada não apenas pela mídia – como corretamente é dito – mas também por si própria. O pensamento fabricado é realidade latente de nosso tempo e aparece no grupo de A Onda como crítica ao comportamento do jovem do novo século, facilmente influenciável, que busca a integração em grupos sociais e abnega sua liberdade individual para fazer parte de algo maior.

Cinema? Futuro?

James Cameron é mesmo um homem visionário, um tipo estranho numa indústria como a de Hollywood na qual, geralmente, separamos em guetos os chamados "diretores autores", evitando que eles tenham contato, pelo menos em nossas cabeças, com os chamados “diretores comerciais”. Cameron é um “tipo estranho”, pois todos sabem de sua vocação para o entretenimento, para o desenvolvimento de novas tecnologias de captação de imagens e, ainda assim, não há como negar a qualidade dele como contador de histórias, como diretor de filmes que, se não são unanimidade crítica, transitam bem entre o puro entretenimento e a relevância artística. Eu sei, nem todo mundo gosta de O Exterminador do Futuro e Titanic, só para citar duas de suas obras mais famosas. Porém, não há como negar suas importâncias para a história do cinema: o primeiro pela abordagem de um futuro apocalíptico, com a utilização de efeitos especiais nunca antes vistos, e o segundo por deter o recorde de bilheteria, de todos os tempos. Ambos são filmes comerciais, mas são ótimos exemplares de cinema também.

Pois bem, desde os idos anos de 1997, quando lançou Titanic, Cameron não apresentou filme algum. Estaria ele satisfeito com a montanha de dinheiro que ganhou com a história de Jack e Rose? Por certo sim, quem não estaria? Satisfeito sim, mas não acomodado. Nestes anos o diretor veio aperfeiçoando uma tecnologia que, segundo ele, iria causar outra revolução no cinema, tal qual a proporcionada por O Exterminador do Futuro. Esta tão alardeada tecnologia está a serviço de Avatar, o projeto no qual Cameron trabalhou nestes doze anos e que chega, cercado de muitas expectativas, no final deste ano aos cinemas americanos. Dizem que esta nova tecnologia engloba desde um significativo melhoramento da experiência 3D, passando por câmeras que proporcionam ao diretor uma interação em tempo real (durante a filmagem) entre cenários digitais e atores, indo até um aperfeiçoamento da técnica de motion capture, ou captura de movimentos, aquela em que um ator é revestido de eletrodos e “interpreta” as cenas, para depois ser inteiramente, ou em partes, reconstruído em processos digitais/artificiais.

Com custo aproximado de 300 milhões de dólares, Avatar vem sendo objeto de uma campanha massiva de marketing (é claro, o objetivo é recuperar e multiplicar dinheiro). Então, depois de doze anos de espera, chega à internet o primeiro teaser trailer de Avatar, e toda esta introdução é para que eu possa contextualizar e comentá-lo. Primeiramente, as imagens são maravilhosas, mostram um mundo criado artificialmente, mas que parece cada vez mais real. Os personagens gerados pela motion capture de Cameron são incrivelmente expressivos, o que, aparentemente, também deve significar um considerável ganho de qualidade desta técnica. É isso que tenho a falar do trailer de Avatar, só. A julgar pela amostra, a técnica é a vedete do filme, já que sabemos pouco ou quase nada da história. Dá a impressão de que é mais um excelente trabalho da Pixar. E fico ainda me perguntando: não teria sido melhor construir Avatar como uma animação? Para que os atores? Pode ser precipitado de minha parte e, num futuro próximo, pode ser que vocês leiam uma resenha elogiosa ao filme aqui no blog, eu sei. Mas queria comentar sobre minha primeira e crua impressão a respeito do que Avatar pode ser, um passo para novos tempos. Preocupam-me estes tempos em que uma boa atuação pode ser subjugada por criaturas feitas totalmente nos computadores das empresas de efeitos especiais. Este temor se reforçou quando li, no site Omelete, matéria referente à presença de Cameron e Peter Jackson na última Comic Con, quando Cameron disse: "...os atores não têm de ficar preocupados. Eles têm é de saber mais sobre essa tecnologia. Ela não os substitui, mas dá mais poder a eles. Agora, eles não precisam mais ficar horas fazendo maquiagem e as suas expressões estão ainda mais visíveis. Por isso não gosto de chamar de captura de movimento, mas sim de captura de performance, pois pega todas as expressões do corpo e rosto. Atuar não é só se mover, é mostrar emoção. Hoje em dia é possível capturar 100% do que o ator está fazendo. Com essa tecnologia, uma atriz pode fazer o papel de um ator, um menino de 24 anos pode fazer um velho de 95 e vice-versa. Will Smith vai poder fazer um filme de ação aos 75 anos e com a aparência que ele tem hoje, se ele quiser. Mas não acho que seria legal ter um filme da Marilyn Monroe porque não é mais ela atuando. Mas se Clint Eastwood quiser fazer um novo Dirty Harry, eu com certeza iria ver..."

Eu também Sr. Cameron, adoraria ver Clint Eastwood ainda por muitos e muitos anos no cinema, desde que se mantenham as rugas que o tempo lapidou em seu rosto e a verdade que somente uma atuação real pode passar. Sou extremamente a favor da tecnologia, do uso inventivo que alguns diretores fazem dela para contar histórias, que antes não poderiam, como em O Senhor dos Anéis ou em O Curioso Caso de Benjamin Button. Sou contra a centralização do processo na tecnologia, em expedientes que, de alguma maneira, descaracterizam esta centenária arte. Estes híbridos entre animação e cinema, salvo raras exceções, me parecem uma tentativa de deslocar para a forma a importância do conteúdo. Se estes são os tempos do vindouro cinema, em que atores e diretores se renderão ao artificialismo canalha como norteador de suas produções, fico feliz que ainda existam os clássicos e que possamos olhar para trás e ver do que realmente é feito o cinema. Abaixo, o teaser trailer de Avatar.