quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Festival do Rio: Bad Lieutenant - Port of Calls New Orleans


Sempre que falamos em Werner Herzog, lembramos de filmes que viraram referência para o cinema como: O Enigma de Kaspar Hauser, Stroszek, Fitzcarraldo e a própria refilmagem de Nosferatu, e mais tantos outros que estão vinculados com o novo cinema Alemão. Por isso talvez fique mais difícil associar sua imagem e seu trabalho às produções com estilo totalmente diferentes de seu gênero, mais voltado para filmes comerciais como O Sobrevivente de 2006 e este Bad Lieutenant:Port of Calls New Orleans. Mais complicado ainda é não comparar Bad Lieutenant:Port of Calls New Orleans com o Vício Frenético, de Abel Ferrara (1992). Mesmo Herzog tendo afirmado que o seu não é uma refilmagem e que ele nem assistiu ao filme de Ferrara, fica difícil, eu diria quase impossível, não lembrar do espetacular Harvey Keitel na primeira versão, interpretando um policial viciado, compulsivo e transgressor que vive um conflito consigo mesmo por não conseguir se livrar dos vícios e por isso viver metido em encrencas que só vão piorando ao longo do filme. Na minha opinião, este foi o melhor papel de Harvey Keitel. Ele se superou do início ao fim do filme, assim como o próprio Ferrara, responsável pela direção impecável.

Nicolas Cage que neste longa do Herzog encarna o papel que antes foi de Harvey Keitel, não deixa a desejar quanto a atuação. Ele convence como um policial, viciado, compulsivo e descontrolado, mas o mais interessante são as cenas em que ele delira, alucina. Cenas estas que segundo Herzog foram inseridas propositalmente para dar uma pitada de humor. Cage nos faz lembrar da vez que atuou em Vivendo no Limite de Scorsese, onde o personagem vivia perturbado , insone , prestes a perder sua sanidade mental. Particularmente gosto muito desse ator e sou de opinião que mesmo ele tendo se prestado a uns papéis medíocres e sem peso algum, só pelo fato de ter interpretado Ben Sanderson, alcoólatra de Despedida em Las Vegas, papel que inclusive lhe rendeu o Oscar de melhor ator e Sailor Ripley de Coração Selvagem, já vale muito e prova o talento desse grande ator. Nicolas Cage está bem nesse filme de Herzog, ele cumpre com o papel e nos faz entrar no ritmo do filme, sem dúvida alguma. Já Eva Mendes deixa muito a desejar, interpretando uma prostituta viciada. Novamente digo ser inevitável não comparar este com o filme de Ferrara onde também há uma personagem com as mesmas características, só que muito mais convincente. Eva Mendes está sedutora, linda e forma um belo par com Cage, fora isso, na minha opinião, não disse a que veio, num papel que poderia ter sido muito mais explorado.

O filme em si é atraente, tem cenas muito boas, em especial as que envolvem humor. Nicolas Cage também dá show de versatilidade quando incorpora um doidão, lunático, compulsivo, engraçado e com trejeitos perfeitos de um doente da coluna. Uma pena a curta aparição de Michael Shannon, que interpretou um perturbado mental em Foi Apenas um Sonho e antes em Possuídos, ambas interpretações maravilhosas! Val Kilmer também faz parte desse elenco e está bem como um policial da equipe de Nicolas Cage. Tenho a impressão que quem não assistiu Vício Frenético de Abel Ferrara pode até gostar deste trabalho do Herzog, que ao que se propõe vai bem, cumpre seu papel e atrai o público para um filme dramático com ação, envolvente e com um elenco de peso. Mas para quem já viu, as lembranças da produção do Ferrara certamente ficarão martelando o filme inteiro e as comparações serão inevitáveis.



terça-feira, 29 de setembro de 2009

Festival do Rio: Curtas-metragens

Seguindo o importante trabalho de exibição de curtas-metragens no Brasil, o Porta Curtas Petrobras disponibiliza nove curtas que estão sendo exibidos no Festival do Rio e que concorrem ao Prêmio Porta Curtas. Os dois vencedores serão contratados para exibição permanente no site. O resultado será divulgado no dia 09 de outubro. Você pode ainda fazer comentários que serão lidos pelos diretores ou recomendar curtas para alguém votar. Assista.


Festival do Rio: Abraços Partidos


Os filmes de Almodóvar são sempre uma ótima surpresa para o público! Após estes filmes que acompanhei no festival, Abraços Partidos foi o primeiro que vi sendo aplaudido ao término da sessão, que por sua vez não era de estréia, muito menos no Odeon. Foi a primeira sessão do dia, em plena segunda-feira, e lá estava a sala lotada e pessoas voltando, pois os ingressos haviam se esgotado há pelo menos uma semana.

Uma senhora que se sentava nas primeiras fileiras, pouco antes do filme começar se preocupou em contar quantos homens estavam presentes na sessão, e rindo, disse à moça que estava ao lado, que pelas suas contas não havia mais de oito. Nesse momento pensei e constatei que de fato o Almodóvar atrai em massa o público feminino, não à toa, é claro. Sabemos que quase todas suas referências se reportam ao feminino de uma forma ou de outra. E isso não exclui a ala masculina, muito pelo contrário, talvez até desperte interesse para seu cinema.

Abraços Partidos, bem como outros filmes de Almodóvar, elege a tragédia como ponto de partida para o enredo que quase sempre se mistura à ficção. Neste ele trata com mais seriedade essa tragédia, conduzindo o roteiro para uma linha quase noir, de suspense investigativo. Ainda assim não deixa de lado os elementos sempre presentes em seus filmes anteriores, que incluem o exagero, a comédia rasgada, mulheres histriônicas e figuras já conhecidas pelos fãs desse diretor que sempre agrada o público. Penélope Cruz deveria ser a vida inteira dirigida por ele. É impressionante como ela cresce e brilha nos filmes de Almodóvar. Destaque também para Lluís Homar que já havia trabalhado em Má Educação, e que em Abraços Partidos interpreta maravilhosamente bem o personagem Harry Caine, um roteirista cego, e para Mateo Blanco, intérprete de um diretor de cinema.

É também no momento em que o filme é remontado, como aliás é de costume em seus trabalhos anteriores, que identificamos o estilo "Almodoviano" de inserir explicações metafóricas e dar sentido àquilo que no início da trama ficou "perdido". Não podia ser outra a cor tão explorada em seus cenários, personagens, figurinos e etc, se não o vermelho, que aparece em todas as sequências, seja na boca das mulheres, nas unhas dos pés, na mala da senhora, no quadro atrás da mesa, no carro que está envolvido num desastre e claro, no sangue que dá lugar a tragédia expressa tão bem pelos personagens dirigidos por ele. Fico sempre com a sensação de que será quase impossível sairmos incólumes de uma sessão de cinema desse diretor que consegue afetar o público, inclusive aqueles que não gostam do seu estilo, sem nos identificarmos com seus personagens, com suas histórias tão reais e viscerais que tocam de uma maneira ou de outra. Assistam Abraços Partidos! Se trata de mais uma maravilha entre as outras já feitas por Almodóvar!


domingo, 27 de setembro de 2009

Festival do Rio: O Desinformante!


Baseado em fatos, O Desinformante! conta a história de Mark Whitacre, personagem vivido por Matt Damon , funcionário de uma grande empresa que ansiava por ocupar a presidência. Em meio a um assédio para ser informante do FBI, Mark cede e passa a espionar sua empresa de origem. A confusão que ele se mete durante o filme poderia ser desenvolvida como um ritmo frenético e de perseguições implacáveis e tudo mais, mas Steven Soderbergh opta por uma comédia sofisticada com uma trilha maravilhosa que dá um toque especial ao filme.

Matt Damon nunca esteve tão bem caracterizado. Imaginem ele com alguns anos a mais do que seus 38 anos reais e um visual bem setentista, com direito a óculos quadrados, uns quilos a mais e bigode. Além dos trejeitos perfeitos de um sujeito sob pressão, estressado e diagnosticado como bipolar. A meu ver, ele é a alma do filme. Por sinal, um filme que, devido ao gênero, se torna cansativo em alguns momentos, por ter muita descrição, detalhes, nomes, informações, tornando-o confuso. Mas nada tira o brilho de Matt Damon que se supera na interpretação.

sábado, 26 de setembro de 2009

Festival do Rio: Doce Perfume


Com o peso e a densidade que lhe são peculiares, Andrzej Wadja narra um filme dentro de um outro filme. Cada cena nos dá a impressão de que foi feita artesanalmente. Muita ênfase nas interpretações soberbas, intensas, fazendo lembrar os filmes de Bergman, com aquela estrutura densa, profunda, diálogos sofridos, angustiantes. Sem falar na fotografia, linda! Parte do filme acontece como uma espécie de monólogo, onde a protagonista, vivida pela atriz Krystyna Janda, ensaia falas dentro de um quarto que contém apenas uma cadeira e uma cama, com pouca iluminação, impregnado de um clima claustrofóbico. O filme vai se explicando a partir desses monólogos e tomando corpo com a história em si sendo contada através dessas imagens que contém elementos oníricos e metafóricos.

Tive a impressão de que tamanha dureza, retratada nos diálogos e no próprio roteiro, não caíram em momento algum num melodrama ou numa sofrida angústia nua e crua. Pode parecer estranho, mas acho que Andrzej Wadja conseguiu ser suave, e nos convidar a mergulhar fundo nesse universo de dor e tristeza sem ser apelativo. Natural, e para quem viu o filme talvez entenda a reação de muitos saírem do cinema como aconteceu hoje, antes da metade. Pois incomoda, entristece, angustia, mas ao mesmo tempo Doce Perfume expressa uma beleza única, ímpar, onde todo detalhe é cuidadosamente trabalhado, cada cena traz consigo um recorte do filme inteiro.

Andrzej Wadja foi generoso escrevendo e dirigindo esse belo filme. Não é pra qualquer um, não deve cair nas graças da maioria e pode facilmente ser taxado de "filme arrastado". Em contrapartida quem adere ao estilo desse diretor polonês se apaixona e deve sair do cinema assolado, encantado, mas também triste. Gostaria de rever Doce Perfume, achei imperdível! E senti que quem ficou até o fim saiu com esta mesma sensação.


Festival do Rio: Distante Nós Vamos


No 2º dia de Fest Rio, um tanto quanto movimentado e falado, o público ainda estava sob impacto de Aconteceu em Woodstock de Ang Lee, que abriu o festival, e com o vídeo que antecedeu o filme, o qual homenageava a atriz francesa Jeanne Moreau. Agnès Varda também esteve presente na abertura.

Na fila para compra e troca de ingressos na bilheteria de um cinema que possui 600 lugares, me impressionei com o entusiasmo das pessoas achando que todos iriam assistir Distante Nós Vamos! Pensei: ainda bem que garanti meu ingresso com antecedência, pois se chegasse em cima da hora, perderia com certeza. Mas, para minha surpresa, o entusiasmo expresso na fila era para compra de Abraços Partidos do Almodóvar. E de fato só se ouvia falar em Almodóvar e a preocupação de 80 % daquelas pessoas em garantir seus ingressos. Este mesmo cinema que possui pouco mais de 600 lugares deve ter sido ocupado em mais ou menos 10%, no máximo. Distante Nós Vamos, em seu 2º dia de exibição, não lotou as salas, curiosamente.

O público, mais variado possível, fazia jus a um grupo de amantes que vem crescendo no RJ. Um senhor que devia ter seus 70 anos ocupava uma das cadeiras e me deu a honra de conversar por alguns minutos antes do filme começar. Paulista, cinéfilo que acompanha todos os anos os festivais do RJ e SP, me disse que sua média de filmes para esse ano era 60 e que desde 1940, após quase todos os filmes que assiste, faz questão de registrar em um livro que guarda todas suas impressões desta data até os dias de hoje. Ele escreve para o "Scoretrack" e é membro de uma comunidade chamada "Confraria Lumière". Confesso que me emocionei em ver um homem daquela idade com tanta paixão, esperança e disposição para enfrentar uma maratona de filmes que, segundo ele, faziam parte de sua vida.

Por falar em esperança, Distante Nós Vamos trata de uma forma esperançosa a questão do amor, cumplicidade e identidade. Em meio a um mundo neurotizado, como saber quem somos nós? Como identificar nossos desejos e anseios, sem nos basear numa "realidade" fabricada? Sam Mendes, diferentemente dos seus trabalhos anteriores, propõe uma linha bem mais light e menos carregada de emoções fortes. Um road movie que nos leva a acompanhar o filme do início ao fim com euforia, nos dando certeza a todo tempo que o filme não sairia muito daqueles moldes, nada de surpresas, mas ainda assim valia à pena! Ora comédia, ora drama, esse mix de estilos presentes no filme deu certo. Destaque para o protagonista, interpretado por John Krasinski, que dentro da proposta, arrasa e comove, cativa a todo momento. Devo admitir que pra quem tem Foi Apenas um Sonho como uma referência e profunda admiração como eu, Distante Nós Vamos fica atrás, inevitavelmente. Sinto falta dos dramas pesados e realísticos que Sam Mendes injetou em filmes como Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho. A ingenuidade, simplicidade e aproximação de um gênero bastante explorado hoje pelos cineastas, só reforça a idéia de que essa fórmula funciona, e como! O filme é bonito, sensível e vale à pena. Só não me faz lembrar muito do Sam Mendes e de seu cinema.



domingo, 20 de setembro de 2009

Festival do Rio: Expectativas

Este ano o Festival do Rio, que terá início dia 24, em sua 11ª edição exibirá mais de 300 filmes, de mais de 60 países, durante 15 dias. São no total 20 Mostras, que incluem filmes de alguns diretores consagrados e tão aguardados pelo público, como: Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino e Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, que abrirá o festival. Junto com as Mostras de todos os anos (Panorama do Cinema Mundial, Première Brasil, Latina, Midnigth Movies, Limites e Fronteiras, Mundo Gay, Dox e Gerações) algumas novidades entram no circuito este ano, são elas: Meio ambiente (8 filmes que exploram questões ecológicas e sociais), O Brasil do Outro (a visão estrangeira do nosso país) e mais seis longas da Turquia. O cinema francês terá lugar especial nesse festival, por conta do ano da França no Brasil, nos presenteando com mais 4 Mostras. Isabelle Huppert e Jeanne Moreau serão as homenageadas. Uma seleção de filmes menos conhecidos da atriz Isabelle Huppert será exibida também. As expectativas são as melhores para esse ano. Os cariocas estão ansiosos pelos eventos que envolvem a visita de Agnès Varda, Quentin Tarantino e Jeanne Moreau, além do argentino Juan Jose Campanella.

Clique aqui e confira a lista completa de filmes do Festival do Rio 2009.