Direção: Claire DainesRoteiro: Jean-Pol Fargeau e Claire Denis
Elenco: Alex Desças, Mati Diop, Nicole Dogue, Grégoire Colin, Jean-Christophe Folly, Djédjé Apali, Eriq Ebouaney, Julieth Mars Toussaint
Tendo o hábito de ler críticas de cinema, às vezes nos deparamos, num texto aqui outro acolá, com um crítico dizendo que certo filme “vai crescendo após a projeção”, ou seja, que ele vai melhorando depois que acaba, quando o espectador assimila o que viu. Os que acusam estes críticos de pedantismo têm a visão estreita de que este é o tipo de argumento inválido, ou seja, que ou se gosta de um filme durante a audiência do mesmo ou não se gosta, sendo a percepção imutável. Estes, os que não dão valor ao crescimento da percepção a cerca de uma obra depois do contato, provavelmente não procuram algo mais do que entretenimento, ou mesmo não sacrificam seus preciosos minutos para “divagar” sobre os efeitos que um filme pode provocar. Acredito piamente que o cinema, quando compreendido como expressão artística, contribuinte da nossa formação humana, não se limita ao tempo de duração de seus filmes.
Tudo isso para falar de 35 Doses de Rum, filme francês, dirigido pela experiente Claire Denis que, em mim, se configurou exemplar, se levarmos em conta o primeiro parágrafo deste texto. Daines desenvolve sua narrativa em um aparente fiapo de história, envolvendo um pai, uma filha, uma vizinha que é taxista, um vizinho meio que perdido na existência e um colega de trabalho do primeiro, que acaba de se aposentar e vê sua vida meio que perder o sentido. O desenvolvimento é lento e gradual, numa daquelas narrativas das quais somos cúmplices, pois vamos acompanhando a evolução da história e a edificação das relações entre os personagens, aos poucos fazendo as conexões necessárias para entender o porquê dos olhares perdidos, as motivações de uma ou outra atitude intempestiva e as implicações das relações. Daines despoja seu filme de qualquer sentimentalismo barato, até mesmo quando há uma cena de forte impacto emocional, as lágrimas são contidas, rebaixadas num confronto com a realidade, na qual, geralmente, não as vertemos aos cântaros.
35 Doses de Rum é forte porque se estabelece nas conexões, na maneira como os personagens se ligam, ou tentam se ligar, uns nos outros. Não somos inundados de explicações, cenas do passado que auxiliam na tarefa de construir o filme, aqui as sutilezas são pontuais. Uma carta da qual podemos ver um pedaço, uma palavra aparentemente solta, uma situação que parece destoante, uma reação inesperada, é assim que ele se constrói, principalmente sobre a relação entre Lionel (interpretado com uma veracidade dolorosa por Alex Descas) e sua filha, no casulo com o qual se protegem, no qual ambos procuram a felicidade, na distância segura que mantém de outras relações sentimentais.
35 Doses de Rum é um filme que cresce após a sessão pela opção narrativa da diretora, que nos dá a oportunidade de revelá-lo aos poucos. Isso não quer dizer que a fruição do mesmo não seja intensa quando o estamos vendo, mas ele realmente cresce porque fica conosco, e esta reverberação vai nos revelando coisas que enriquecem a experiência. Dá gosto uma visão tão sensível como a de Daines, que nos oportuniza uma experiência como esta, na qual somos convidados a investigar sentimentos, não exatamente buscando respostas definitivas, pois elas não existem quando falamos de humanos e do que eles sentem.
Tudo isso para falar de 35 Doses de Rum, filme francês, dirigido pela experiente Claire Denis que, em mim, se configurou exemplar, se levarmos em conta o primeiro parágrafo deste texto. Daines desenvolve sua narrativa em um aparente fiapo de história, envolvendo um pai, uma filha, uma vizinha que é taxista, um vizinho meio que perdido na existência e um colega de trabalho do primeiro, que acaba de se aposentar e vê sua vida meio que perder o sentido. O desenvolvimento é lento e gradual, numa daquelas narrativas das quais somos cúmplices, pois vamos acompanhando a evolução da história e a edificação das relações entre os personagens, aos poucos fazendo as conexões necessárias para entender o porquê dos olhares perdidos, as motivações de uma ou outra atitude intempestiva e as implicações das relações. Daines despoja seu filme de qualquer sentimentalismo barato, até mesmo quando há uma cena de forte impacto emocional, as lágrimas são contidas, rebaixadas num confronto com a realidade, na qual, geralmente, não as vertemos aos cântaros.
35 Doses de Rum é forte porque se estabelece nas conexões, na maneira como os personagens se ligam, ou tentam se ligar, uns nos outros. Não somos inundados de explicações, cenas do passado que auxiliam na tarefa de construir o filme, aqui as sutilezas são pontuais. Uma carta da qual podemos ver um pedaço, uma palavra aparentemente solta, uma situação que parece destoante, uma reação inesperada, é assim que ele se constrói, principalmente sobre a relação entre Lionel (interpretado com uma veracidade dolorosa por Alex Descas) e sua filha, no casulo com o qual se protegem, no qual ambos procuram a felicidade, na distância segura que mantém de outras relações sentimentais.
35 Doses de Rum é um filme que cresce após a sessão pela opção narrativa da diretora, que nos dá a oportunidade de revelá-lo aos poucos. Isso não quer dizer que a fruição do mesmo não seja intensa quando o estamos vendo, mas ele realmente cresce porque fica conosco, e esta reverberação vai nos revelando coisas que enriquecem a experiência. Dá gosto uma visão tão sensível como a de Daines, que nos oportuniza uma experiência como esta, na qual somos convidados a investigar sentimentos, não exatamente buscando respostas definitivas, pois elas não existem quando falamos de humanos e do que eles sentem.








