domingo, 3 de janeiro de 2010

Vincere

Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio e Daniela Ceselli
Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Pier Giorgio Bellocchio, Paolo Pierobon, Bruno Cariello

Regimes totalitários e ditaduras sempre deixaram feridas abertas. Estas feridas, que sangram vez ou outra, são importantes para que a memória não pereça com o tempo, para que os mesmos erros não se repitam, seja em nome de uma raça supostamente superior, tese na qual se apoiava o nazismo, ou mesmo de um regime nacionalista que prometia mundos e fundos à sua população, que o seguiu em nome da supremacia nacional, tal qual no fascismo italiano, que tinha em seu principal nome, o do então Primeiro-Ministro Benito Mussolini, chamado por todos de Il Duce. O cinema, ora por necessidade artística, ora por puro senso de oportunidade, historicamente sempre fez questão de ser um dos responsáveis pela não cicatrização das feridas destes sistemas opressores travestidos de governo. Vincere, do diretor italiano Marco Bellocchio, fala sobre a criação do partido fascista, a ascensão de Mussolini ao cargo que o tornou famoso, mas é mesmo um filme sobre a amante de Il Duce, Ida Dalser, aquela que ajudou a carreira de Mussolini, que lhe ofereceu amor incondicional quando ele era somente mais um militante em meio a uma Europa devastada pelo caos.

Bellocchio cria em Vincere uma ópera em dois atos, definição esta que li em alguma resenha, e da qual me aproprio, pois acredito que define muito bem esta pérola italiana. No primeiro deles, vemos o então militante Mussolini, sua amante Ida e todo movimento político/ideológico em torno de discussões socialistas, do cerceamento à imprensa e o embrião do que seria o Partido Fascista. O mérito de Bellochio, nesta primeira parte, é criar uma narrativa extremamente interessante, mesmo quando no centro estão os mais densos assuntos sobre a política italiana e sobre os movimentos do país durante a Primeira Guerra Mundial. Por meio da devoção de Ida a Benito e seus tórridos encontros, que sempre acabavam na cama, dá para sentir nele uma inclinação à liderança, já que mesmo na intimidade o militante parece nunca se desligar das dialéticas políticas, enquanto ela permaneceu devota ao seu amor, acompanhando as mudanças italianas, esperançosa que seu afeto fosse correspondido, regado e incentivado. Já no segundo ato, Bellochio nos mostra Mussolini através apenas de cines-jornais, revelando com isso uma sagacidade imprescindível para o desenrolar de Vincere. Il Duce já está no poder, é um ídolo nacional, e Ida passa por dificuldades. Não precisamos mais ver Mussolini, pois, assim como naquele tempo, sua presença era quase que tátil, em qualquer ambiente, ainda mais pela disseminação rápida e impiedosa dos princípios do fascismo. Este segundo ato da ópera deslumbrante de Marco Bellochio, que por vezes nos extasia, tanto pela construção narrativa como pela beleza plástica de algumas cenas, se aproxima mais do melodrama, sem perder seu cunho político e ideológico, numa mistura forte.

Curiosamente um dos personagens mais presentes em Vincere é o próprio cinema, bem como fez Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios, seu pastiche delicioso contra (outra semelhança) o regime totalitário do nazismo. Na verdade, um pouco diferente de Tarantino, que escancara e faz do cinema personagem ativo e praticamente tangível de sua obra, Marco Bellochio o incorpora como elemento quase onipresente, mas de uma maneira tão naturalista que não se sente estardalhaço, como intencionalmente Tarantino faz. O cinema é ferramenta narrativa por meio dos cines-jornais, responsável por uma das cenas mais emblemáticas num hospital de campanha no qual se projeta A Paixão de Cristo para os doentes e veículo para uma das cenas emocionais mais impressionantes do filme, composta por Chaplin e uma mãe desesperada.

Ainda que não tenha estreado comercialmente no Brasil, Vincere foi uma das grandes coqueluches do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo, no ano passado. Não é difícil corroborar com tantos elogios, quando se vê uma obra tão pulsante, que mistura uma narrativa absolutamente arrebatadora, um senso estético subserviente a mise-en-scène, não se prestando à fogo de artifício, e o discernimento histórico que não comunga do didatismo de algumas obras, que se mostram deveras preocupadas com a história, esquecendo-se do cinema, não sendo eficazes nem como documento, muito menos como narrativa. Vincere é um dos melhores filmes italianos que vi nos últimos anos, em parte, acredito eu, porque, por meio do amor e da obstinação de uma mulher que teve seu nome apagado da história oficial, faz questão de manter abertas as feridas do regime totalitário que tanto oprimiu a Itália e seu povo, sem ser enfadonho, panfletário, traçando ainda um paralelo inteligente com o presente. Alguém duvida que Berlusconi, o atual Primeiro-Ministro italiano, pode ser visto, mesmo que somente nas nossas mentes, e guardadas as devidas proporções, no lugar de Mussolini, fazendo aqueles discursos?



sábado, 2 de janeiro de 2010

Cenas de um Casamento

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö, Gunnel Lindblom, Anita Wall, Barbro Hiort af Ornäs

Cenas de um Casamento é uma série exibida na televisão sueca na década de setenta que fez, além de muito sucesso, aumentar consideravelmente o movimento nos consultórios de psicologia familiar e nas sessões de tribunal dedicadas ao divórcio. Escrita e dirigia por Ingmar Bergman, a série, que em muitos países teve sua duração suprimida para exibição nos cinemas, fala sobre o casamento de Johan e Marianne, duas pessoas bem sucedidas profissionalmente, que passam aos amigos e familiares a imagem da união plena, do relacionamento modelo. Dez anos de um casamento aparentemente perfeito, mas que esconde feridas abertas, repressões, mágoas e um embate devastador entre o amor e a rotina, não exatamente aquela que sistematiza nossos dias, mas a que faz, dos sentimentos, reféns das neuroses, da falta de auto-conhecimento e das pressões internas e externas.

Dizer que Cenas de um Casamento lança um olhar deveras negativo sobre o amor, seria demonstrar certa miopia diante das construções dramáticas de Bergman e do seu ponto de vista, quando, pelo contrário, a série exalta este como possível, necessário e, fatalmente, incontrolável. Não se trata de vilanizar a afeição, como se ela fosse a responsável pelos problemas do mundo, mas de lançar luz sobre nossa fragilidade emocional, que sufoca nobres sentimentos em função de trivialidades, ou engrenagens difíceis de se azeitar. O viés pessimista/realista é direcionado ao domicílio conjugal, a todo este entorno, às ligações periféricas estabelecidas entre pessoas que se amam, ou que, por algum motivo, anseiam dividir o mesmo teto. O relacionamento é apontado como grande problema para a deterioração do casamento de Johan e Marianne. O ciúme, a possessividade, os sentimentos (positivos e destrutivos) que afloram e que, geralmente são sufocados, as muitas concessões que Johan e Marianne precisam fazer para manter a estabilidade da convivência ao longo dos anos, ironicamente destroem o relação entre eles, por mais que o amor que sintam um pelo outro seja fortemente verdadeiro. Ainda as convenções sociais, as satisfações que, inerente a nossa vontade e/ou alienação, precisamos conferir aos de nosso convívio, são também sinalizadas por Bergman, por meio da história destes dois analfabetos sentimentais - maneira pela qual o próprio gostava de defini-los - como agressores da instituição do casamento, já que a pressão destas entidades intangíveis asfixia o amor, faz ele se apequenar perante sua força opressora. Segundo Bergman, não basta amor, pois ele não triunfa onde inexiste toda uma gama de fatores indispensáveis, ou onde outros tantos danosos abundam.

Bergman, na época precisando criar algo e com pouco orçamento, faz dos closes, marca registrada de sua carreira, os planos predominantes de Cenas de um Casamento. Ninguém registra ou jamais registrou a alma dos personagens melhor que o sueco, e muito disso se deve a esta capacidade de utilizar o close com propriedade única. Cenas de um Casamento é ainda engrandecido pelo estado de graça dos atores que interpretam Johan e Marianne, respectivamente, Erland Josephson e Liv Ullmann, colaboradores contumazes de Bergman. Donos da cena, já que os episódios são praticamente seis conversas, de quase uma hora cada, entre eles, Erland e Liv exibem o que se convencionou chamar de “química”, na busca destas duas personas tão contraditórias, tão intimamente frágeis. Se por vezes há um pequeno jogo de vilania entre estes personagens, logo Bergman trata de nos mostrar que não devemos classificar as pessoas tomando por base apenas dois rótulos, os bons e os maus. E é por esta profundidade e por não conferir ao amor o peso excessivo de único fator determinante para que uma relação dê certo, que Bergman cria mais uma obra poderosa, propondo além da visualização da derrocada de uma relação, tentando assim entender porque todos temos que, seja por nosso egoísmo ou puramente por nossa infantilidade retardada, estragar algo tão único, importante e puro. Todo relacionamento está fadado ou ao erro ou a uma vida de frustrações, e a culpa é nossa. Pessimismo? Pode até ser, mas você vai negar que ele está mais próximo da realidade do que o otimismo infantil das comédias românticas que tratam o amor como aquele que tudo vence, tudo pode?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Preciosa

Direção: Lee Daniels
Roteiro: Geoffrey Fletcher, baseado no romance escrito por Sapphire
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Sherri Shepherd, Lenny Kravitz, Stephanie Andujar, Chyna Layne

Outro dos postulantes a êxito na próxima festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no Kodak Theatre, por seu desempenho nos festivais pré-Oscar e seu sucesso entre crítica e público estadunidense, Preciosa é um drama, um filme de pequeno orçamento, que trata da vida sofrida de Claireece Precious Jones. Não é simplesmente uma trajetória sofrida como a de muitos casos reais transformados em narrativas diegéticas (sim, Preciosa é baseado num livro que, por sua vez, é fundamentado numa história verídica), mas uma das mais sofridas, daquelas que se não soubéssemos ser galgada em fatos, sairíamos a disparar contra seus autores, acusando-os de inverosimilhança. A lista de agruras pelas quais Claireece passa durante sua vida é imensa, mas esmiúçá-la traria a ira do leitor que ainda não viu o filme, pelo fato do simples adiantamento destas informações configurar-se numa abstração de descobertas que, gradativamente, constroem o filme.

Atrevo-me a relativizar a recepção exacerbadamente calorosa que Preciosa vem tendo em inúmeras resenhas por aí. Colocar em cena uma excluída social, sofrendo por conta de um destino, no qual nada pôde escolher, se configura, por si só, em elemento de aproximação com o espectador, que sente logo empatia e pena dela. Neste filme, esta força natural tira da atriz principal o fardo de ser convincente, já que sua presença física, pura e simples, mortifica e cria uma atmosfera que, tal como uma bruma, disfarça a atuação de Gabourey Sidibe, que se limita ao automático, bem ao contrário de, por exemplo, Mo’Nique, que interpreta fortemente a mãe de Claireece, no papel mais complexo e interessante de Preciosa. Lee Daniels parece ter caído na armadilha de fetichizar um pouco demais a imagem de sua protagonista, esvaziando os entornos, ou os estereotipando. A utilização de velhos clichês como a professora que luta pela salvação da aluna, a funcionária do serviço social que serve de válvula de escape, numa representação do papel do Estado e da maneira como ele trata, ou deveria tratar, os menos favorecidos, não chega a incomodar, por mais que salte agressivamente aos olhos, vez ou outra.

Mesmo que fale sobre uma vida de percalços, privação e extrema falta de oportunidade, Preciosa sofre de uma alienação incômoda, que desvia um pouco o foco. Algo não ajuda no desenvolvimento do filme, certas opções, principalmente do roteiro e direção, resolutos em nos deixar penalizados, paradoxalmente ao mesmo tempo em que atenuam alguns dramas por meio da curta duração de sua exploração, trazendo ao filme uma leveza mais próxima dos contos de fadas, ainda que o que discorra na tela seja algo monstruoso. Nada contra a abordagem “conto de fadas pelos olhos da Gata Borralheira”, só que, estilizando a caminhada de Claireece na luta contra seus problemas ou mesmo na busca de coisas normais, como um namorado, boa condição de vida para si e seus filhos, o diretor Lee Daniels criou uma narrativa correta, mas que peca por uma edulcoração velada, uma suavização travestida de opção estética, que chateia pelo falsete. Preciosa é um bom filme, não nos furta ótimos momentos, mas falha no intuito de ser maior e melhor, exatamente por não se deter com paixão ou mesmo crueldade em quase nada, se mostrando um rascunho, uma versão meio que oca da existência desta mulher que personifica o mundo-cão.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Torre de Vidro

Desta vez eu tomei a liberdade de tirar um tempo e criar um texto para o antológico longa-metragem Inferno na Torre (1974). O que falar de um filme-catástrofe, com mais de 2h30min, que gira em torno de apenas um edifício que pega fogo? Clichê total? Talvez sim, talvez não. Podemos falar muita coisa: além de ser um dos precursores do gênero, e daí podemos citar também Aeroporto, O Destino do Posseidon, Terremoto, entre outros, ele traz em seu elenco estrelas de primeira categoria dos idos tempos em que fazer cinema não era apenas ter como protagonistas caras bonitas, mas interpretações “fortes”. Dirigido por John Gullerman e produzido por Irwin Allen, o prédio mais alto do mundo, que é um testemunho arquitetônico para a ingenuidade e para a inovação – o prédio também é a armadilha mais mortal que existe – leva aos seus ambientes, entre os 135 andares, nomes como os de Steve McQueen, Paul Newman (Brad Pitt da época), William Holden, Faye Dunaway, Fred Staire, Richard Chamberlain, O.J.Simpson e Robert Wagner. Uma década em que se concentravam nos sets nomes estelares da sétima arte. Só isso já basta para dar uma conferida, sem falar nos figurinos (as mulheres de longos coloridos e os homens de smoking com suas borboletas gigantes). Lógico que não podemos comparar Inferno na Torre com os atuais filmes-catástrofe, como O Dia Depois de Amanhã, ou mesmo 2012, que utilizam de recursos digitais para fazer o espectador ir além daquilo que realmente ele está vendo. Se você que ainda não assistiu correr à locadora para pegar, poderá sair um pouco decepcionado, uma vez que os efeitos especiais, como dito antes, comparado com os de agora, são praticamente toscos. Mas para quem conferiu em seu lançamento, sem dúvida alguma, vale a pena rever. Até porque, cinema é assim mesmo e confesso cá com os meus botões: nada como ter visto Inferno na Torre no escurinho do cinema Guarany – hoje o banco Banrisul na Marquês do Herval, em Caxias do Sul - que levou às suas telas filmes como este, de tirar o fôlego. Eu aplaudo esta estrutura metálica transformada em um verdadeiro inferno.

Raulino Prezzi, especial para o The Tramps

domingo, 20 de dezembro de 2009

Avatar


Olá, caro amigo-leitor.

Domingo, nas vésperas do Natal, calor escaldante para os padrões caxienses de temperatura, Marcelo, meu irmão e contribuinte mais assíduo deste blog, e eu fomos assistir Avatar, o mais novo exemplar da filmografia do diretor canadense James Cameron.

Jake (Sam Worthington), paraplégico e ex-fuzileiro naval das forças armadas norte-americanas, é convidado à expedição ao planeta Pandora, em busca de um minério altamente valioso devido ao potencial energético deste. A atmosfera do local é tóxica aos terráqueos, então foi criado o "Projeto Avatar", onde o DNA humano é misturado ao dos nativos humanóides, os Na’vi, dando origem a uma espécie de receptáculo de consciência controlado à distância - avatar, utilizado por alguns componentes responsáveis por estudos, sobretudo biológicos, do planeta.

Não gostaria, mas serei breve, devido às palavras que me fogem. Avatar inicia meio truncado, talvez com excesso de explicações diretas, que não fluem de forma orgânica com os diálogos que se entrelaçam. Didatismo direcionado ao público, sem muita maquiagem. As engrenagens da trama começam suas atividades na cena em que Jake tem sua consciência pela primeira vez em seu avatar. Comovente sua reação pueril, tendo em vista a anulação de qualquer limitação física no tido mundo real, no seu mundo. O personagem centro da trama negligencia mais a cada minuto sua realidade sobre a cadeira de rodas, conforme se relaciona de maneira afetiva com uma das tribos de Pandora.

O visual mereceria um post solo, tamanha sua qualidade. Gollum, personagem digital de O Senhor do Anéis, que há poucos anos impressionou à todos, vira esboço perante o trabalho desenvolvido em Avatar por Cameron e a Weta Digital, responsável pelos efeitos visuais de ambas as produções. As imagens oferecidas pelo diretor de Titanic são exuberantes e icônicas.

Logo que houve o lançamento do trailer, alguns o apontaram como trabalho da Pixar, famigerada produtora de animações de altíssima qualidade em 3D. Os que temem isso, ou até mesmo algo tecnicamente perfeito e oco como cinema, podem se acalmar. Cameron conseguiu convergir o apelo popular à qualidade artística. O roteiro, bem amarrado, não conta com inovações, segue, inclusive, narrativas que o antecedem. A surpresa é rara durante a projeção e um pontilhado a frente indica o rumo que a película tomará em seu tempo restante. A segregação racial, a mensagem ecológica são passadas por metáforas claras e óbvias. Porém, nada disso atrapalha. A teia formada pela relação estabelecida entre os Na’vi e o meio em que vivem é fantástica. Uma conversação seria mais adequada no garimpo de interpretações, ao contrário de uma via unilateral, que é o que temos, neste espaço, apesar do campo de comentários que nos fornece uma resposta não imediata.

De qualquer maneira, Avatar é um grande filme, pode se orgulhar do título efêmero de melhor de todos os tempos, que não é tanto assim, se levarmos em conta a ainda infância da mídia, no quesito efeitos visuais, contudo, não é só. Enfim, basta torcermos para que sigam em tal toada suas sequências, então teremos uma franquia que os amantes do cinema aguardam e merecem.



Abraçosss

sábado, 19 de dezembro de 2009

35 Doses de Rum

Direção: Claire Daines
Roteiro: Jean-Pol Fargeau e Claire Denis
Elenco: Alex Desças, Mati Diop, Nicole Dogue, Grégoire Colin, Jean-Christophe Folly, Djédjé Apali, Eriq Ebouaney, Julieth Mars Toussaint

Tendo o hábito de ler críticas de cinema, às vezes nos deparamos, num texto aqui outro acolá, com um crítico dizendo que certo filme “vai crescendo após a projeção”, ou seja, que ele vai melhorando depois que acaba, quando o espectador assimila o que viu. Os que acusam estes críticos de pedantismo têm a visão estreita de que este é o tipo de argumento inválido, ou seja, que ou se gosta de um filme durante a audiência do mesmo ou não se gosta, sendo a percepção imutável. Estes, os que não dão valor ao crescimento da percepção a cerca de uma obra depois do contato, provavelmente não procuram algo mais do que entretenimento, ou mesmo não sacrificam seus preciosos minutos para “divagar” sobre os efeitos que um filme pode provocar. Acredito piamente que o cinema, quando compreendido como expressão artística, contribuinte da nossa formação humana, não se limita ao tempo de duração de seus filmes.

Tudo isso para falar de 35 Doses de Rum, filme francês, dirigido pela experiente Claire Denis que, em mim, se configurou exemplar, se levarmos em conta o primeiro parágrafo deste texto. Daines desenvolve sua narrativa em um aparente fiapo de história, envolvendo um pai, uma filha, uma vizinha que é taxista, um vizinho meio que perdido na existência e um colega de trabalho do primeiro, que acaba de se aposentar e vê sua vida meio que perder o sentido. O desenvolvimento é lento e gradual, numa daquelas narrativas das quais somos cúmplices, pois vamos acompanhando a evolução da história e a edificação das relações entre os personagens, aos poucos fazendo as conexões necessárias para entender o porquê dos olhares perdidos, as motivações de uma ou outra atitude intempestiva e as implicações das relações. Daines despoja seu filme de qualquer sentimentalismo barato, até mesmo quando há uma cena de forte impacto emocional, as lágrimas são contidas, rebaixadas num confronto com a realidade, na qual, geralmente, não as vertemos aos cântaros.

35 Doses de Rum é forte porque se estabelece nas conexões, na maneira como os personagens se ligam, ou tentam se ligar, uns nos outros. Não somos inundados de explicações, cenas do passado que auxiliam na tarefa de construir o filme, aqui as sutilezas são pontuais. Uma carta da qual podemos ver um pedaço, uma palavra aparentemente solta, uma situação que parece destoante, uma reação inesperada, é assim que ele se constrói, principalmente sobre a relação entre Lionel (interpretado com uma veracidade dolorosa por Alex Descas) e sua filha, no casulo com o qual se protegem, no qual ambos procuram a felicidade, na distância segura que mantém de outras relações sentimentais.

35 Doses de Rum é um filme que cresce após a sessão pela opção narrativa da diretora, que nos dá a oportunidade de revelá-lo aos poucos. Isso não quer dizer que a fruição do mesmo não seja intensa quando o estamos vendo, mas ele realmente cresce porque fica conosco, e esta reverberação vai nos revelando coisas que enriquecem a experiência. Dá gosto uma visão tão sensível como a de Daines, que nos oportuniza uma experiência como esta, na qual somos convidados a investigar sentimentos, não exatamente buscando respostas definitivas, pois elas não existem quando falamos de humanos e do que eles sentem.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Dexter e o Passageiro

Atenção! O texto a seguir contém spoilers das quatros temporadas de Dexter.

Dexter
é meu seriado favorito. Alguns amigos já me disseram que eu adoraria outros, como, por exemplo, House, Ugly Betty, True Blood, The Office, Mad Men, entre tantos desta leva riquíssima que iça a qualidade da televisão americana e, por conseguinte, da televisão mundial, se levarmos em conta que quase todos estes são ou serão importados para os quatro cantos do mundo. Devido à falta de tempo, acabo tendo de racionar minha audiência, escolhendo, neste momento, duas séries, das quais sou fã de carteirinha: LOST e Dexter. Não poderiam estas serem mais diferentes entre si, tanto na sua temática como no seu desenvolvimento. Enquanto LOST instiga (e a mim instiga muito) por uma série de desdobramentos, que envolve desde viagens no tempo até influência da mitologia egípcia, Dexter me fascina pelo estudo do personagem, no caso de um personagem dos mais complexos, Dexter Morgan. Criança que viu a mãe ser esquartejada, adotado por um policial que logo o “diagnosticou” como hospedeiro de um “passageiro negro”, analista forense que assassina criminosos impunes para alimentar o tal passageiro, pai de família.

A primeira temporada de Dexter é primorosa. A caça ao “Assassino do Caminhão de Gelo”, as implicações da ligação do passado do mesmo com o de Dexter e toda tensão e violência do final da temporada, são elementos que deixaram tarefa ingrata aos produtores, já que a impressão causada pedia uma continuidade à altura. No segundo ano, Dexter passa por períodos de turbulência, trai a namorada, coloca em risco suas ligações sociais, busca ajuda para seu vício em matar, encontra uma pessoa tão ou mais perturbada psicologicamente que ele, a quem acaba liquidando, como catarse. Dexter procura alguém que o compreenda, que entenda seus lados, na busca de aceitação. Os personagens secundários são muito bem desenvolvidos, seus dramas pessoais, muitas vezes, se configuram numa ferramenta de enriquecimento da figura central, sem que isso tire a importância individual deles. Na terceira temporada, a busca de Dexter por aceitação se intensifica e ganha contornos de aparente sucesso quando encontra alguém que parece lhe compreender, não se horrorizar com seu lado negro, e até compartilhar de sua necessidade de matar. Mas como Dexter logo descobriu, lidar com as implicações psicológicas do ato de matar não pode ser assimilado por qualquer um, e o fascínio mórbido exercido pela morte foi tão devastador em seu “amigo” que o mesmo saiu do controle, não obedeceu a nenhum código e teve de sucumbir pelas mãos do mestre a quem não soube ouvir.

E aí chegamos a quarta temporada, na qual já vemos um Dexter casado, pai de três filhos, sendo um biológico e dois que herdou ao casar-se com Rita. Dexter então é um americano aparentemente comum ou, pelo menos, vive o dia-a-dia como pai zeloso, marido um tanto quanto ausente, assimilando de maneira profunda esta nova condição, a de homem de família. O esquema do antagonista principal das outras três temporadas é mantido, mas as implicações da existência deste personagem para o desenvolvimento da história de Dexter são tão fortes que somente podem ser equiparadas, em equivalência, às do “vilão” da primeira temporada. Dexter encontra um assassino em série, ligado em um padrão, que tem uma família, responsabilidades sociais que o ajudam a encobrir o monstro interior, exatamente como ele nesta fase de sua vida. Dexter então vê em Arthur, o adversário em questão, um farol, alguém com quem pode aprender sobre a administração destas vidas paralelas. A temporada se desenvolve neste aprendizado, na relação que se estabelece entre Dexter e Trinity (Arthur). A evolução do personagem central da série foi gigantesca a partir desta relação e da constatação, tanto do público quanto dele próprio, de que Dexter não é tão diferente da maioria das pessoas, a não ser pela necessidade que tem de usurpar a vida de outros. Ele se vê arriscando suas caçadas em nome do bem-estar de sua família, numa crescente aceitação de seu lado humano, diferente do Dexter da primeira temporada, que se achava quase que órfão de elementos humanos. Estava indo tudo bem, a temporada ia se alinhando como uma das melhores (na verdade é a melhor desde a primeira) e seguindo para um desfecho ambiguamente feliz, parecido com o da terceira temporada, quando veio o décimo segundo e último episódio do quarto ano ou, mais precisamente, seus três minutos finais. Nestes, aproximadamente, 180 segundos aconteceu um fato que, de tão brilhante, parecia improvável. Confesso que o ocorrido me tocou demais, fiquei mortificado, com uma sensação pesada, dolorosa. Não se tratou, pura e simplesmente, de segurar a audiência para a quinta temporada, mas sim de dar uma guinada completa, tanto na história como na continuidade do personagem central. Ainda reverberam em mim aqueles minutos, e eles ecoam a seguinte pergunta: E agora?