sábado, 9 de janeiro de 2010

Melhores Filmes de 2009


Não, não é novidade alguma, e nós sabemos. São famosas e recorrentes as listas de melhores filmes, que pipocam nos sites especializados de cinema. Nós do The Tramps, seguindo o que fizemos no ano passado, também elegemos nossos prediletos. Então, seguem abaixo as listas individuais dos mais relevantes (em nossa opinião, é claro) filmes lançados comercialmente no Brasil em 2009.

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Conrado Heoli

1. Amantes
2. Entre os Muros da Escola
3. Bastardos Inglórios
4. A Teta Assustada
5. Goodbye... Solo
6. Deixa Ela Entrar
7. Up - Altas Aventuras
8. Há Tanto Tempo que te Amo
9. A Bela Junie
10. (500) Dias com Ela

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Marcelo Müller

1. Bastardos Inglórios
2. Entre os Muros da Escola
3. Anticristo
4. Desejo e Perigo
5. O Visitante
6. Sinédoque, Nova York
7. Gran Torino
8. O Equilibrista
9. Casamento Silencioso
10. Quem quer ser um Milionário?

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Rafa Müller


1. Quem quer ser um Milionário?
2. Sinédoque, Nova York
3. Bastardos Inglórios
4. Watchmen
5. O Visitante
6. O Lutador
7. Avatar
8. (500) Dias com Ela
9. Gran Torino
10. Entre os Muros da Escola

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Indicações: Brothers e O Dia da Transa

É extremamente difícil imaginar algum paralelo interessante entre os dois filmes mencionados no título dessa postagem, e não pretendo quebrar a cabeça para encontrar algum. O encontro de tais obras em um mesmo texto, filmes que possuem origens e intenções tão distintas, serve apenas para indicar a validade na experiência cinematográfica com qualquer uma das produções. Brothers e O Dia da Transa, que são comandados por mulheres dotadas de extrema competência nas funções que exercem, são pequenos e gratificantes achados em meio a recorrentes decepções com produções mais conhecidas.

Brothers, da dinamarquesa Susanne Bier, é um drama protagonizado por um trio excepcional composto por Ulrich Thomsen (de Festa de Família), Connie Nielsen (de Gladiador) e Nikolaj Lie Kaas (que já havia trabalhado com Bier em Corações Livres). A diretora, que fez/faz parte do Dogma 95, deixa de lado alguns preceitos de tal movimento para apostar no melodrama ao apresentar uma família que passa por um período bastante turbulento.
Em Brothers conhecemos Michael, que é erroneamente dado como morto no Afeganistão. Sua esposa, Sarah, estreita as relações com seu cunhado, Jannik, enquanto supera tal perda. Quando o último retorna para sua família, no entanto, alguns traumas de guerra passam a desestabilizar todas essas relações.
Bier desenvolve com cautela todas as faces de seus personagens, dando credibilidade aos mesmos, fator com o qual colaboram em muito seus atores. Em geral, no entanto, fica a sensação que a diretora se dedicou com maior intensidade a momentos errados do filme, excedendo na atenção à Michael e sua estada no Afeganistão e menos na relação de seu irmão com sua esposa, assim como no convívio de sua família após sua "morte". Brothers ganhou um remake norte-americano que, se desinteressa simplesmente pelo fato de ser uma refilmagem, ganha credibilidade por ser comandado pelo ótimo Jim Sheridan. É esperar para ver se as incorreções da produção dinamarquesa foram descartadas e se todos os seus méritos foram mantidos.




Humpday, que ganhou o interessante título de O Dia da Transa quando exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é uma comédia independente cativante, que trabalha incrivelmente bem com os personagens preferidos de Judd Apatow: os novos adultos.
Dirigido e roteirizado por Lynn Shelton, que faz uma participação no filme como a liberal Monica, O Dia da Transa foi concebido no melhor estilo Mike Leigh: meses para o desenvolvimento dos personagens, roteiro sendo desenvolvido nas filmagens e muita improvisação por parte de seu elenco. Tais escolhas beneficiam em muito os fatos que culminam no tal "dia da transa": Ben e Andrew são amigos que se reencontram e, bastante embriagados em uma festa, decidem fazer um pornô gay artístico para um festival do gênero. Dentre os problemas do desafio estão o fato de ambos serem heterossexuais e de Ben ser casado. O que os motiva? Ben quer, mesmo que não assuma, comprovar que pode ser descolado, enquanto Andrew deseja mais que tudo terminar um projeto em sua carreira de arte.
Os atores são incríveis, ainda mais quando se sabe que os mesmos foram os responsáveis por quase todo o desenvolvimento de seus personagens. Joshua Leonard, que despontou em A Bruxa de Blair, andava apagado até encarnar o extrovertido Andrew, dotado de uma gargalhada contagiante. Mark Duplass, que ainda é diretor e roteirista de alguns outros filmes, também dá o tom certo ao criar um simpático Ben, que esconde um garoto por trás da pose de homem.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, O Dia da Transa é uma grata surpresa e merece ser conferido, principalmente pela abordagem madura ao conhecido "bro love" (amor de "manos") e até onde ele pode ir. O final melancólico do filme apenas confirma a qualidade do mesmo, sendo totalmente compreensível a vontade de se passar mais algumas horas na companhia desses personagens bastante únicos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Vincere

Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio e Daniela Ceselli
Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Pier Giorgio Bellocchio, Paolo Pierobon, Bruno Cariello

Regimes totalitários e ditaduras sempre deixaram feridas abertas. Estas feridas, que sangram vez ou outra, são importantes para que a memória não pereça com o tempo, para que os mesmos erros não se repitam, seja em nome de uma raça supostamente superior, tese na qual se apoiava o nazismo, ou mesmo de um regime nacionalista que prometia mundos e fundos à sua população, que o seguiu em nome da supremacia nacional, tal qual no fascismo italiano, que tinha em seu principal nome, o do então Primeiro-Ministro Benito Mussolini, chamado por todos de Il Duce. O cinema, ora por necessidade artística, ora por puro senso de oportunidade, historicamente sempre fez questão de ser um dos responsáveis pela não cicatrização das feridas destes sistemas opressores travestidos de governo. Vincere, do diretor italiano Marco Bellocchio, fala sobre a criação do partido fascista, a ascensão de Mussolini ao cargo que o tornou famoso, mas é mesmo um filme sobre a amante de Il Duce, Ida Dalser, aquela que ajudou a carreira de Mussolini, que lhe ofereceu amor incondicional quando ele era somente mais um militante em meio a uma Europa devastada pelo caos.

Bellocchio cria em Vincere uma ópera em dois atos, definição esta que li em alguma resenha, e da qual me aproprio, pois acredito que define muito bem esta pérola italiana. No primeiro deles, vemos o então militante Mussolini, sua amante Ida e todo movimento político/ideológico em torno de discussões socialistas, do cerceamento à imprensa e o embrião do que seria o Partido Fascista. O mérito de Bellochio, nesta primeira parte, é criar uma narrativa extremamente interessante, mesmo quando no centro estão os mais densos assuntos sobre a política italiana e sobre os movimentos do país durante a Primeira Guerra Mundial. Por meio da devoção de Ida a Benito e seus tórridos encontros, que sempre acabavam na cama, dá para sentir nele uma inclinação à liderança, já que mesmo na intimidade o militante parece nunca se desligar das dialéticas políticas, enquanto ela permaneceu devota ao seu amor, acompanhando as mudanças italianas, esperançosa que seu afeto fosse correspondido, regado e incentivado. Já no segundo ato, Bellochio nos mostra Mussolini através apenas de cines-jornais, revelando com isso uma sagacidade imprescindível para o desenrolar de Vincere. Il Duce já está no poder, é um ídolo nacional, e Ida passa por dificuldades. Não precisamos mais ver Mussolini, pois, assim como naquele tempo, sua presença era quase que tátil, em qualquer ambiente, ainda mais pela disseminação rápida e impiedosa dos princípios do fascismo. Este segundo ato da ópera deslumbrante de Marco Bellochio, que por vezes nos extasia, tanto pela construção narrativa como pela beleza plástica de algumas cenas, se aproxima mais do melodrama, sem perder seu cunho político e ideológico, numa mistura forte.

Curiosamente um dos personagens mais presentes em Vincere é o próprio cinema, bem como fez Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios, seu pastiche delicioso contra (outra semelhança) o regime totalitário do nazismo. Na verdade, um pouco diferente de Tarantino, que escancara e faz do cinema personagem ativo e praticamente tangível de sua obra, Marco Bellochio o incorpora como elemento quase onipresente, mas de uma maneira tão naturalista que não se sente estardalhaço, como intencionalmente Tarantino faz. O cinema é ferramenta narrativa por meio dos cines-jornais, responsável por uma das cenas mais emblemáticas num hospital de campanha no qual se projeta A Paixão de Cristo para os doentes e veículo para uma das cenas emocionais mais impressionantes do filme, composta por Chaplin e uma mãe desesperada.

Ainda que não tenha estreado comercialmente no Brasil, Vincere foi uma das grandes coqueluches do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo, no ano passado. Não é difícil corroborar com tantos elogios, quando se vê uma obra tão pulsante, que mistura uma narrativa absolutamente arrebatadora, um senso estético subserviente a mise-en-scène, não se prestando à fogo de artifício, e o discernimento histórico que não comunga do didatismo de algumas obras, que se mostram deveras preocupadas com a história, esquecendo-se do cinema, não sendo eficazes nem como documento, muito menos como narrativa. Vincere é um dos melhores filmes italianos que vi nos últimos anos, em parte, acredito eu, porque, por meio do amor e da obstinação de uma mulher que teve seu nome apagado da história oficial, faz questão de manter abertas as feridas do regime totalitário que tanto oprimiu a Itália e seu povo, sem ser enfadonho, panfletário, traçando ainda um paralelo inteligente com o presente. Alguém duvida que Berlusconi, o atual Primeiro-Ministro italiano, pode ser visto, mesmo que somente nas nossas mentes, e guardadas as devidas proporções, no lugar de Mussolini, fazendo aqueles discursos?



sábado, 2 de janeiro de 2010

Cenas de um Casamento

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö, Gunnel Lindblom, Anita Wall, Barbro Hiort af Ornäs

Cenas de um Casamento é uma série exibida na televisão sueca na década de setenta que fez, além de muito sucesso, aumentar consideravelmente o movimento nos consultórios de psicologia familiar e nas sessões de tribunal dedicadas ao divórcio. Escrita e dirigia por Ingmar Bergman, a série, que em muitos países teve sua duração suprimida para exibição nos cinemas, fala sobre o casamento de Johan e Marianne, duas pessoas bem sucedidas profissionalmente, que passam aos amigos e familiares a imagem da união plena, do relacionamento modelo. Dez anos de um casamento aparentemente perfeito, mas que esconde feridas abertas, repressões, mágoas e um embate devastador entre o amor e a rotina, não exatamente aquela que sistematiza nossos dias, mas a que faz, dos sentimentos, reféns das neuroses, da falta de auto-conhecimento e das pressões internas e externas.

Dizer que Cenas de um Casamento lança um olhar deveras negativo sobre o amor, seria demonstrar certa miopia diante das construções dramáticas de Bergman e do seu ponto de vista, quando, pelo contrário, a série exalta este como possível, necessário e, fatalmente, incontrolável. Não se trata de vilanizar a afeição, como se ela fosse a responsável pelos problemas do mundo, mas de lançar luz sobre nossa fragilidade emocional, que sufoca nobres sentimentos em função de trivialidades, ou engrenagens difíceis de se azeitar. O viés pessimista/realista é direcionado ao domicílio conjugal, a todo este entorno, às ligações periféricas estabelecidas entre pessoas que se amam, ou que, por algum motivo, anseiam dividir o mesmo teto. O relacionamento é apontado como grande problema para a deterioração do casamento de Johan e Marianne. O ciúme, a possessividade, os sentimentos (positivos e destrutivos) que afloram e que, geralmente são sufocados, as muitas concessões que Johan e Marianne precisam fazer para manter a estabilidade da convivência ao longo dos anos, ironicamente destroem o relação entre eles, por mais que o amor que sintam um pelo outro seja fortemente verdadeiro. Ainda as convenções sociais, as satisfações que, inerente a nossa vontade e/ou alienação, precisamos conferir aos de nosso convívio, são também sinalizadas por Bergman, por meio da história destes dois analfabetos sentimentais - maneira pela qual o próprio gostava de defini-los - como agressores da instituição do casamento, já que a pressão destas entidades intangíveis asfixia o amor, faz ele se apequenar perante sua força opressora. Segundo Bergman, não basta amor, pois ele não triunfa onde inexiste toda uma gama de fatores indispensáveis, ou onde outros tantos danosos abundam.

Bergman, na época precisando criar algo e com pouco orçamento, faz dos closes, marca registrada de sua carreira, os planos predominantes de Cenas de um Casamento. Ninguém registra ou jamais registrou a alma dos personagens melhor que o sueco, e muito disso se deve a esta capacidade de utilizar o close com propriedade única. Cenas de um Casamento é ainda engrandecido pelo estado de graça dos atores que interpretam Johan e Marianne, respectivamente, Erland Josephson e Liv Ullmann, colaboradores contumazes de Bergman. Donos da cena, já que os episódios são praticamente seis conversas, de quase uma hora cada, entre eles, Erland e Liv exibem o que se convencionou chamar de “química”, na busca destas duas personas tão contraditórias, tão intimamente frágeis. Se por vezes há um pequeno jogo de vilania entre estes personagens, logo Bergman trata de nos mostrar que não devemos classificar as pessoas tomando por base apenas dois rótulos, os bons e os maus. E é por esta profundidade e por não conferir ao amor o peso excessivo de único fator determinante para que uma relação dê certo, que Bergman cria mais uma obra poderosa, propondo além da visualização da derrocada de uma relação, tentando assim entender porque todos temos que, seja por nosso egoísmo ou puramente por nossa infantilidade retardada, estragar algo tão único, importante e puro. Todo relacionamento está fadado ou ao erro ou a uma vida de frustrações, e a culpa é nossa. Pessimismo? Pode até ser, mas você vai negar que ele está mais próximo da realidade do que o otimismo infantil das comédias românticas que tratam o amor como aquele que tudo vence, tudo pode?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Preciosa

Direção: Lee Daniels
Roteiro: Geoffrey Fletcher, baseado no romance escrito por Sapphire
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Sherri Shepherd, Lenny Kravitz, Stephanie Andujar, Chyna Layne

Outro dos postulantes a êxito na próxima festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no Kodak Theatre, por seu desempenho nos festivais pré-Oscar e seu sucesso entre crítica e público estadunidense, Preciosa é um drama, um filme de pequeno orçamento, que trata da vida sofrida de Claireece Precious Jones. Não é simplesmente uma trajetória sofrida como a de muitos casos reais transformados em narrativas diegéticas (sim, Preciosa é baseado num livro que, por sua vez, é fundamentado numa história verídica), mas uma das mais sofridas, daquelas que se não soubéssemos ser galgada em fatos, sairíamos a disparar contra seus autores, acusando-os de inverosimilhança. A lista de agruras pelas quais Claireece passa durante sua vida é imensa, mas esmiúçá-la traria a ira do leitor que ainda não viu o filme, pelo fato do simples adiantamento destas informações configurar-se numa abstração de descobertas que, gradativamente, constroem o filme.

Atrevo-me a relativizar a recepção exacerbadamente calorosa que Preciosa vem tendo em inúmeras resenhas por aí. Colocar em cena uma excluída social, sofrendo por conta de um destino, no qual nada pôde escolher, se configura, por si só, em elemento de aproximação com o espectador, que sente logo empatia e pena dela. Neste filme, esta força natural tira da atriz principal o fardo de ser convincente, já que sua presença física, pura e simples, mortifica e cria uma atmosfera que, tal como uma bruma, disfarça a atuação de Gabourey Sidibe, que se limita ao automático, bem ao contrário de, por exemplo, Mo’Nique, que interpreta fortemente a mãe de Claireece, no papel mais complexo e interessante de Preciosa. Lee Daniels parece ter caído na armadilha de fetichizar um pouco demais a imagem de sua protagonista, esvaziando os entornos, ou os estereotipando. A utilização de velhos clichês como a professora que luta pela salvação da aluna, a funcionária do serviço social que serve de válvula de escape, numa representação do papel do Estado e da maneira como ele trata, ou deveria tratar, os menos favorecidos, não chega a incomodar, por mais que salte agressivamente aos olhos, vez ou outra.

Mesmo que fale sobre uma vida de percalços, privação e extrema falta de oportunidade, Preciosa sofre de uma alienação incômoda, que desvia um pouco o foco. Algo não ajuda no desenvolvimento do filme, certas opções, principalmente do roteiro e direção, resolutos em nos deixar penalizados, paradoxalmente ao mesmo tempo em que atenuam alguns dramas por meio da curta duração de sua exploração, trazendo ao filme uma leveza mais próxima dos contos de fadas, ainda que o que discorra na tela seja algo monstruoso. Nada contra a abordagem “conto de fadas pelos olhos da Gata Borralheira”, só que, estilizando a caminhada de Claireece na luta contra seus problemas ou mesmo na busca de coisas normais, como um namorado, boa condição de vida para si e seus filhos, o diretor Lee Daniels criou uma narrativa correta, mas que peca por uma edulcoração velada, uma suavização travestida de opção estética, que chateia pelo falsete. Preciosa é um bom filme, não nos furta ótimos momentos, mas falha no intuito de ser maior e melhor, exatamente por não se deter com paixão ou mesmo crueldade em quase nada, se mostrando um rascunho, uma versão meio que oca da existência desta mulher que personifica o mundo-cão.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Torre de Vidro

Desta vez eu tomei a liberdade de tirar um tempo e criar um texto para o antológico longa-metragem Inferno na Torre (1974). O que falar de um filme-catástrofe, com mais de 2h30min, que gira em torno de apenas um edifício que pega fogo? Clichê total? Talvez sim, talvez não. Podemos falar muita coisa: além de ser um dos precursores do gênero, e daí podemos citar também Aeroporto, O Destino do Posseidon, Terremoto, entre outros, ele traz em seu elenco estrelas de primeira categoria dos idos tempos em que fazer cinema não era apenas ter como protagonistas caras bonitas, mas interpretações “fortes”. Dirigido por John Gullerman e produzido por Irwin Allen, o prédio mais alto do mundo, que é um testemunho arquitetônico para a ingenuidade e para a inovação – o prédio também é a armadilha mais mortal que existe – leva aos seus ambientes, entre os 135 andares, nomes como os de Steve McQueen, Paul Newman (Brad Pitt da época), William Holden, Faye Dunaway, Fred Staire, Richard Chamberlain, O.J.Simpson e Robert Wagner. Uma década em que se concentravam nos sets nomes estelares da sétima arte. Só isso já basta para dar uma conferida, sem falar nos figurinos (as mulheres de longos coloridos e os homens de smoking com suas borboletas gigantes). Lógico que não podemos comparar Inferno na Torre com os atuais filmes-catástrofe, como O Dia Depois de Amanhã, ou mesmo 2012, que utilizam de recursos digitais para fazer o espectador ir além daquilo que realmente ele está vendo. Se você que ainda não assistiu correr à locadora para pegar, poderá sair um pouco decepcionado, uma vez que os efeitos especiais, como dito antes, comparado com os de agora, são praticamente toscos. Mas para quem conferiu em seu lançamento, sem dúvida alguma, vale a pena rever. Até porque, cinema é assim mesmo e confesso cá com os meus botões: nada como ter visto Inferno na Torre no escurinho do cinema Guarany – hoje o banco Banrisul na Marquês do Herval, em Caxias do Sul - que levou às suas telas filmes como este, de tirar o fôlego. Eu aplaudo esta estrutura metálica transformada em um verdadeiro inferno.

Raulino Prezzi, especial para o The Tramps

domingo, 20 de dezembro de 2009

Avatar


Olá, caro amigo-leitor.

Domingo, nas vésperas do Natal, calor escaldante para os padrões caxienses de temperatura, Marcelo, meu irmão e contribuinte mais assíduo deste blog, e eu fomos assistir Avatar, o mais novo exemplar da filmografia do diretor canadense James Cameron.

Jake (Sam Worthington), paraplégico e ex-fuzileiro naval das forças armadas norte-americanas, é convidado à expedição ao planeta Pandora, em busca de um minério altamente valioso devido ao potencial energético deste. A atmosfera do local é tóxica aos terráqueos, então foi criado o "Projeto Avatar", onde o DNA humano é misturado ao dos nativos humanóides, os Na’vi, dando origem a uma espécie de receptáculo de consciência controlado à distância - avatar, utilizado por alguns componentes responsáveis por estudos, sobretudo biológicos, do planeta.

Não gostaria, mas serei breve, devido às palavras que me fogem. Avatar inicia meio truncado, talvez com excesso de explicações diretas, que não fluem de forma orgânica com os diálogos que se entrelaçam. Didatismo direcionado ao público, sem muita maquiagem. As engrenagens da trama começam suas atividades na cena em que Jake tem sua consciência pela primeira vez em seu avatar. Comovente sua reação pueril, tendo em vista a anulação de qualquer limitação física no tido mundo real, no seu mundo. O personagem centro da trama negligencia mais a cada minuto sua realidade sobre a cadeira de rodas, conforme se relaciona de maneira afetiva com uma das tribos de Pandora.

O visual mereceria um post solo, tamanha sua qualidade. Gollum, personagem digital de O Senhor do Anéis, que há poucos anos impressionou à todos, vira esboço perante o trabalho desenvolvido em Avatar por Cameron e a Weta Digital, responsável pelos efeitos visuais de ambas as produções. As imagens oferecidas pelo diretor de Titanic são exuberantes e icônicas.

Logo que houve o lançamento do trailer, alguns o apontaram como trabalho da Pixar, famigerada produtora de animações de altíssima qualidade em 3D. Os que temem isso, ou até mesmo algo tecnicamente perfeito e oco como cinema, podem se acalmar. Cameron conseguiu convergir o apelo popular à qualidade artística. O roteiro, bem amarrado, não conta com inovações, segue, inclusive, narrativas que o antecedem. A surpresa é rara durante a projeção e um pontilhado a frente indica o rumo que a película tomará em seu tempo restante. A segregação racial, a mensagem ecológica são passadas por metáforas claras e óbvias. Porém, nada disso atrapalha. A teia formada pela relação estabelecida entre os Na’vi e o meio em que vivem é fantástica. Uma conversação seria mais adequada no garimpo de interpretações, ao contrário de uma via unilateral, que é o que temos, neste espaço, apesar do campo de comentários que nos fornece uma resposta não imediata.

De qualquer maneira, Avatar é um grande filme, pode se orgulhar do título efêmero de melhor de todos os tempos, que não é tanto assim, se levarmos em conta a ainda infância da mídia, no quesito efeitos visuais, contudo, não é só. Enfim, basta torcermos para que sigam em tal toada suas sequências, então teremos uma franquia que os amantes do cinema aguardam e merecem.



Abraçosss