quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cinema 3D. Diferente. Deslumbrante. Duvidoso.

3D. Nunca se ouviu falar tanto de uma tecnologia que já existe há mais de meio século, mas que apenas no último ano encontrou seu lugar no cinema – graças, em grande parte, a (ou por culpa de) James Cameron. Já é lugar comum falar da revolução que Avatar causou em seus semelhantes, os blockbusters, e não é minha proposta com o presente texto ressaltar a grande verdade supracitada. O que procuro é tentar expressar em palavras o que acontece com um movimento tão recente para a sétima das artes, que ainda não é inteiramente compreendido pelos que trabalham com ela – realidade evidenciada através do excesso de produções pífias produzidas constantemente – e ainda menos por seus espectadores.

Diferente

Uma arte estagnada, que não evolui ou se diferencia, pode ser dada como morta a qualquer momento. O cinema há tempos procura por meios de se renovar, seja em novas propostas artísticas e técnicas ou em táticas para sempre estar em evidência. O marketing nunca foi tão fundamental para o cinema como hoje, pelo óbvio motivo de que um filme não visto acaba ignorado. Em sua evolução, as ditas grandes revoluções foram com o advento do som e a cor no cinema, e agora o 3D já é reverenciado por ser a mais nova delas – embora seja um tanto precipitado creditar tal mérito a um recurso tão pouco explorado.

O 3D está no cinema há muitos anos, demorou para ser amplamente exaltado e conquistar audiências. Produções como A Casa de Cera (a versão original, de 1953), e até mesmo Disque M para Matar, de Alfred Hitchcock, experimentavam as primeiras reações do grande público, até então bastante céticos com a tecnologia. As produções 3D seguiram e a tecnologia foi evoluindo ao longo dos anos, mais comumente sendo utilizada em filmes de suspense, terror e ficção. Com o surgimento do IMAX em 1985 o 3D passou a ser explorado novamente, mas apenas em 2003 ele entrou no cinema comercial, sendo James Cameron o principal técnico creditado pelo sistema de filmagem digital utilizado a partir deste momento.

O 3D retornou às salas que suportavam a exibição de filmes no formato através de produções de gosto duvidoso direcionadas ao público infanto-juvenil - idade pueril onde a curiosidade e a inocência antecedem o senso crítico. Logo depois passou a ser aplicado novamente em filmes de terror e aventura – e posteriormente Avatar estreou, fez a maior bilheteria do mundo e agora todas as produções do gênero (e de gênero) querem ser como ele.

Deslumbrante

E então o público se encantou com o 3D. Sedento pela novidade, muitos passaram a creditar inventividade e evolução a cada produção que utilizava o recurso e preenchiam em massa as salas de exibição. Ainda que uma sessão não estivesse lotada, meia sala de espectadores em um filme 3D equivalia a uma sala inteira de público no modelo de projeção convencional, devido ao alto custo dos ingressos. Com isso a tecnologia se propagou e passou a funcionar perfeitamente para as intenções comerciais de estúdios e distribuidoras, assim como dos espaços exibidores.

Ir ao cinema ficou mais parecido com uma visita a um parque de diversões. A falsa interatividade que o 3D proporciona encantou o público, que pretere a qualidade da produção cinematográfica em benefício aos efeitos e alegorias digitais – como um inocente inseto que se aproxima da luz, extasiado.

Assistir a um filme em 3D causa realmente um efeito singular no espectador, que ainda é antecipado por um misto de curiosidade pela novidade e grande evolução. Para alguns, a experiência é mais completa, mais real – o que soa incoerente, já que os filmes que até então fizeram uso da tecnologia estão mais próximos da fantasia que da realidade. O que pode se tirar disso é que a tridimensionalidade aplicada nessas histórias as torna mais críveis, ou mais fáceis de serem experimentadas pelos espectadores.

De qualquer forma, é por essas e outras que o 3D permanece tão em evidência recentemente. Para a indústria cinematográfica, por consequência, o pote de ouro no final do arco-íris finalmente foi encontrado.

Duvidoso

Como tudo o que é novo causa controvérsia, o 3D divide opiniões. Há aqueles que apreciam a técnica, quando bem empregada, e que acreditam que a mesma veio para ficar, enquanto outros julgam que o recurso não durará muito tempo e toda a excitação em torno da tecnologia se dissipará em breve.

O assunto se torna polêmico quando entramos no espectro recente e já recorrente dos filmes que foram desenvolvidos originalmente em duas dimensões e que estão sendo convertidos para o 3D. Com custo mais baixo, a conversão garante aos estúdios, distribuidores e exibidores que o filme ocupará salas que comportam o tipo de projeção, faturando assim muito mais do que se lançassem o filme apenas em salas convencionais.

O problema das produções convertidas, a princípio, é que as mesmas não foram pensadas em 3D durante todo o processo que consiste na feitura de um filme. Mas isso não atrapalha as empresas especializadas nas conversões, que garantiram o lançamento do recente Alice no País das Maravilhas no formato, para citar apenas um exemplo das tantas produções planejadas para o 2D que posteriormente foram (ou serão, no caso de vários filmes) convertidas.

Nesse sentido, podemos exaltar o Avatar de James Cameron. A produção foi pensada e realizada inteiramente em três dimensões, com equipamento desenvolvido especificamente para isso. O processo é difícil e custoso, mas gratificante para realizador e espectador, proporcionando para o segundo a experiência completa do que se propõe o cinema tridimensional.

Ainda é muito cedo para se fazer previsões, acusações e análises mais fundamentadas, mas deve-se esperar um mundo de produções do gênero ocupando as salas do cinema mais próximo de você e, mais cedo do que se imagina, sua casa também. Má notícia para os cinéfilos tradicionais.


domingo, 2 de maio de 2010

Sexo, Drogas e a Revolução do Cinema Americano

Tudo começou com uma viagem de duas motos e seus pilotos pelo interior dos EUA. Em Sem Destino, Dennis Hopper e Peter Fonda simbolizaram uma era, espelharam na tela o sentimento de toda uma geração. O filme a rigor não falava a respeito de nada, era sobre muita coisa, é certo, mas não tinha uma trama guia, não era um exemplar movido pela história, e sim pelos personagens, que, meio sem eira nem beira, desafiaram a mentalidade fechada de uma parcela do povo americano que ainda rezava pela cartilha do conservadorismo. O inesperado sucesso de Sem Destino, até então um exemplar sem precedentes no cinema americano, que vivia uma crise por conta da debandada do público, abriu os olhos das pessoas, mudou as regras do jogo, fez com que a tese do cinema de autor, proposta pela Nouvelle Vague e seus críticos que viraram diretores, fosse a tônica dominante. Jovens diretores americanos queriam ser Godard, Truffaut, Bergman, procuravam a libertação dos grilhões da narrativa convencional, dos finais felizes. O povo americano não queria mais ver finais felizes. A contestação e a contracultura estavam em voga, e os estúdios americanos foram salvos da falência por jovens que queriam fazer do cinema a arte que melhor expressaria o que o povo sentia e/ou queria. Coppola, Scorsese, Schrader, Hopper, Ashby, Friedkin, Bogdanovich, Altman, e tantos outros, ganharam poder de uma hora para outra, foram alçados ao patamar de gênios com seus trabalhos iniciais. Fizeram fortuna, ensaiaram a revolução, pois queriam que o cinema americano fosse mais do que cifras, queriam que a essência da arte prevalecesse.

Os estúdios se adaptaram aos tempos, seguiram a onda financiando os filmes que davam certo, que o povo queria ver, e foram salvos por esta geração que, paradoxalmente, questionou seu poder e que parecia enfadada do velho sistema. Aí veio o declínio, os diretores começaram a afundar em sua própria megalomania, em rompantes de ações descabidas que denotavam que os egos estavam acabando com talentos. As drogas também tiveram importância fundamental neste significativo capítulo da história cinematográfica mundial. Os idealizadores da Nova Hollywood foram aos poucos perdendo poder, sendo suplantados por, entre outras coisas, acreditarem demais na genialidade que lhes atribuíram. Os estúdios retomaram o poder, os profissionais, aos poucos, em sua grande maioria, foram se formatando. Muitos consideram que O Portal do Paraíso de Michael Cimino tenha jogado a última pá de terra em cima de toda esta chamada Nova Hollywood, mas foi por meio da recepção fria, para não dizer gélida, que Touro Indomável (um dos melhores filmes americanos dos últimos cinquenta anos) teve por parte da platéia, que se verificou que algo mudara, que o público não queria mais refletir, pensar, ver algo complexo, tudo por conta de uma transformação social que começou lá, e que ecoa até hoje.

Peter Biskind, em seu livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood, tece com pouca parcimônia todo o panorama da ascensão e queda da Nova Hollywood, desde que os easy riders cortaram as estradas americanas até o momento em que Jake LaMotta se olha no espelho. O livro é uma leitura delíciosa, indispensável a qualquer cinéfilo, principalmente àqueles que costumam, por puro preconceito, relacionar “cinema americano” com blockbuster, esquecendo que na terra do Tio Sam se faz e, principalmente, se fez muita coisa magnífica em prol do cinema mundial, por meio de filmes que figuram, tranquilamente, na lista dos melhores desta arte já mais do que centenária. Um livro que tem de grandes discussões artísticas a histórias de alcova, e que organiza suas linhas de abordagem tão bem, que nós, leitores que não vivemos o período no olho do furacão, conseguimos ter a dimensão do que a revolução no cinema americano dos anos sessenta foi capaz e também de como ela, já nos anos oitenta, era só uma saudosa lembrança.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Opinião: Viva a burrocracia!

Tentarei fazer um texto breve, não reacionário ou irado, pois isso tiraria qualquer sensatez ou mesmo a completa validade de minhas palavras. Embora seja uma tarefa difícil e delicada, a de não se inflamar um discurso quando o tema provoca imensamente o autor, farei o possível. O assunto da vez foge da proposta principal desse espaço – embora se relacione diretamente com ela. Então peço licença aos leitores desse blog para falar sobre a burrocracia dos censores de projetos artísticos de Caxias do Sul que intencionam ser financiados pelo município.
A burocracia (abrindo mão temporariamente do neologismo), intransigência e irredutibilidade desses censores e daqueles que ditam as regras para a apresentação dos projetos é, sem dúvidas, uma pedra no sapato de qualquer pessoa que queira iniciar uma carreira no meio nessa cidade. Acredito que a realidade deve ser semelhante em outros locais do país, mas posso apenas dizer com certeza que o problema ocorre aqui – e tende a piorar.

Não julgo incorreta a necessidade de mil justificativas, currículos, orçamentos e tudo mais que é necessário para a inscrição de um projeto pelo qual se intenciona financiamento municipal, muito pelo contrário: é assim que se verifica a validade e coerência desses projetos e se diferencia os realizadores e produtores culturais de “artistas” mal intencionados, que procuram no financiamento de um projeto uma forma de remuneração, antes de qualquer coisa.

A necessidade de tais comprovações é essencial, insisto, porém não é no que consiste o projeto, e sim na proposta do mesmo. Isso, porém, é descartado inteiramente de início. O que se avalia primeiramente é a composição de intermináveis três vias do projeto apresentado, devidamente encadernadas, com todas as páginas numeradas e rubricadas. Como na pré-escola, o aluno mais caprichoso e atencioso ganha uma pequena estrela dourada, que aqui é o encaminhamento para a avaliação do projeto em si e ao que o mesmo se propõe. Aquele que comete uma falha, por menor que seja, é repreendido e, diferente da professora da pré-escola supracitada, que permite uma correção e reparação do erro, a intolerante comissão avaliadora inabilita o projeto sem sequer saber qual é a proposta do mesmo – sem chances de quaisquer recursos para que o problema seja resolvido. E nesse momento não há argumentação que seja válida.

Se o leitor se faz agora uma inevitável pergunta, respondo de antemão: sim, era proponente em um projeto cultural que foi inabilitado. O motivo? Em uma das três intermináveis vias do meu projeto um erro foi encontrado, onde um orçamento estava incorreto e diferente das outras duas vias. Não peço perdão pelo meu erro, por ter imprimido um orçamento errado. Pelo contrário, assumo-o! O que espero, e efetivamente solicitei quando soube da inabilitação, é a possibilidade de corrigir o problema, de substituir uma simples folha por outra onde o problema inexistisse. Mas esta não era uma opção – embora tenha sido nos editais de outros anos.

E assim como no caso acima relatado, outros vários projetos recusados esperavam por seus proponentes, que se desolariam assim que chegassem à Secretaria Municipal da Cultura e recebessem a péssima notícia da inabilitação. Por informação recebida dentro do próprio local, mais de 25 outros projetos seriam devolvidos – por erros tão simples quanto ou ainda menos que o descrito previamente.

E então a intenção que se aproxima do altruísmo, de trabalhar para promover a cultura através de diferentes meios dentro de nossa cidade - que ainda engatinha nesse aspecto – se acaba para muitos. Mas não para mim e para aqueles que aceitaram promover a primeira mostra de cinema e debates de Caxias do Sul, incluindo os outros dois editores desse blog, Marcelo e Rafael Müller. O projeto segue em frente, seja com ou sem financiamento, com ou sem o apoio daqueles que deveriam fomentar a produção cultural feita por cidadãos da cidade - fomento que se torne cada vez mais curioso, começando pelo fato da cidade ter doado sem quaisquer explicações concretas R$ 100 mil para uma produção da capital gaúcha.


E viva a incoerência, viva a burrocracia!

domingo, 25 de abril de 2010

O Terceiro Tiro

Olá, caro amigo-leitor.

Bom, hoje visitei paragens que poucas vezes sentiram minha presença em anos, devido a minha ausência sem motivo específico para existir. De forma mais objetiva, assisti ao filme de 1955, apesar de não datado, O Terceiro Tiro (The Trouble with Harry), do mestre inglês Alfred Hitchcock, do qual pequeníssima parte de sua filmografia assisti.

O filme traça a história peculiar de quatro personagens ligados pelo confronto com o acaso: um corpo, estendido no bosque às margens de um pequeno vilarejo. Mescla genial de suspense e comédia, caracterizando como heterogêneo um produto final estupendo. Comove pela destreza utilizada em todo o detalhe de sua realização. Hitchcock têm movimentos elegantes de câmera, os quais capturam imagens de um colorido outonal com perda de saturação. O roteiro é excêntrico à princípio, tom que a película toma de assalto como eixo para sua narrativa, não só no tocante às palavras, mas também ao visual e sonoro.

Nada é por acaso na produção. Há momentos em que o diretor inglês suspende nossa atenção, curiosidade e apreensão de maneira que presenciei em oportunidades escassas. Certas cenas que despertam tais sentimentos e reações divertem o cineasta diante da ingenuidade dos que apreciam a sucessão dos acontecimentos, quando estes são plenamente banais para o incrível cozer sinuoso e peralta do artista.

E parto em busca de visitais mais rotineiras à sua famigerada obra. Acredito que não hoje, mas ontem, como talvez afirmaria o carismático Arnie.


sábado, 24 de abril de 2010

O cinema, a sociedade e seus personagens

Você já assistiu algum filme finlandês? Se sua resposta for negativa, não se sinta culpado, até porque são filmes que não chegam facilmente ao Brasil, e a Finlândia não é bem um país referencial no quesito cinema. Mesmo assim, e baseado na qualidade dos filmes de lá a que tive a oportunidade de ver, não resisti em fazer um comentário sobre a forma como eles parecem refletir bem a sociedade onde estão inseridos. Cada filme, ao menos aqueles feitos com um pouco de esmero e talento, carregam um pouco da sociedade em que nasceram. Mesmo que seja um exemplar de perfil internacional, geralmente alguma coisa o caracteriza como sendo de uma localidade, algo o coloca em simbiose com a cultura que o gestou e o pariu. E assistir a filmes de diversos países pode nos trazer este conhecimento, mesmo que limitado pela visão do diretor e da equipe, sobre as culturas, os povos e as formas como se estruturam seus sistemas sociais.

Assisti, não há muito tempo, alguns filmes de Aki Kaurismäki, um dos mais célebres realizadores da Finlândia. Pois bem, os filmes de Kaurismäki são ótimos, urbanos e movidos pelos personagens, que são sempre pessoas simples, sem um aparente elemento de interesse destacado. São pessoas comuns, buscando coisas simples, procurando a felicidade em coisas banais que as farão, de fato, felizes. É a tal máxima de que a felicidade está nas pequenas coisas. O que chama atenção, são as reações destes personagens do diretor, aparentemente distanciadas, frias mesmo. É como se eles pouco se importassem com a desgraça, ou mesmo pouco comemorassem as alegrias. Meu irmão, o Rafa, até brinca que ver um filme de Kaurismäki é como “comer chocolate diet”. Preciso discordar dele neste sentido. Os personagens dos filmes e Kaurismäki são frios, pois a sociedade finlandesa é assim (deduzi pelo que li e por conta destes filmes), muito diferente da passionalidade que nos domina, dos rompantes e exteriorização de sentimentos que são próprios de nossa sociedade. Dentro deste contexto, e utilizando o expediente de analisar com afinco o sofrimento e os dilemas dos personagens, penso que não tendo estas reações catárticas que a maioria dos filmes nos mostram (porque a maioria das sociedades é assim) os finlandeses, aqui representados pelas personas de Kaurismäki, sofrem angustiados, represam suas emoções. A agonia de não demonstrar sentimentos, de passar quase que de forma plácida pelas adversidades e seus vilões cotidianos, fazem dos personagens de Kaurismäki uma lição, não somente do ponto de vista da diversidade cinematográfica, mas como representantes diegéticos da sociedade onde foram concebidos.

Não digo que todos tenham de gostar, entrar na onda, até porque, às vezes, o mistério de nosso envolvimento com um filme é, como eu mesmo nominei, um mistério, que transcende as teorias ou nossa racionalização. Do outro lado, fica a dica de reflexão, para que não fiquemos alheios ao resto do mundo, bitolados a apenas o que nos é próximo, familiar. Os personagens de Aki Kaurismäki não são como eu e, provavelmente, não como você, mas são o recheio ideal para que entendamos uma sociedade tão diferente da nossa, com valores, crenças, anseios e dificuldades tão distintos mas que, de alguma forma, podem encontrar eco em nossos próprios problemas, ou em nossas pequenas felicidades.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um Poderoso Cinema


Uma das coisas que se espera de um cinéfilo é que ele tenha visto todos os filmes conhecidos, todas as obras seminais, os blockbusters, os filmes de arte, enfim, todos os perfis, além de artistas, linhas narrativas, e ainda que tenha todos os nomes na ponta da língua. Acredito que um cinéfilo mesmo, daquele interessado no cinema como arte de modificar o ser humano por meio de sua sucessão de quadros por segundo (e sempre que posso faço mesmo esta diferenciação, pois os anseios deste perfil de apreciador de cinema são muito distintos, muito específicos, mais profundos, eu diria), tenha como meta esta abrangência toda, este conhecimento. O problema é que este conhecimento leva muito tempo para ser construído, muito estudo em torno do cinema, suas ferramentas e linguagens, e mesmo a absorção destes conhecimentos, ou mesmo dos nomes dos profissionais que com o cinema trabalham, leva tempo. Então, se você é reconhecido por muitos amigos como “aquele cara que sabe tudo de cinema”, apronte-se para ser sabatinado de pouco em pouco sobre o tema. Sempre terá um espírito-de-porco que colocará à prova seu saber, seu domínio acerca da sétima arte. Este perfil de inquisidor (faça-se jus, nem sempre de todo mal intencionado) parece nascido para propor testes que mostrem aos outros que você “não é tudo isto”, que “não sabe tanto assim”.

Falo isto pois, um dos filmes que me pediam, com frequência, se já tinha sido por mim visto era O Poderoso Chefão, a obra máxima de Francis Ford Coppola. Quando minha resposta iniciava-se com um “não”, muitos demonstravam perplexidade - “como você ainda não viu?”, e a vergonha, confesso, tomava conta de mim. Não por causa da minha falha de conhecimento ou mesmo pelo medo de não ser reconhecido como “alguém que entende de cinema”, mas pela falta que sabia estar cometendo comigo mesmo em não ter visto o filme e, por conseguinte, suas sequências. Deixo claro, não é o ego que faz com que me coloque na figura de alguém em quem as pessoas veem um referencial de conhecimento sobre cinema, até porque nem acho que isto me traria alguma vantagem, pelo menos não uma substancial. É que num meio cheio de pessoas que enxergam no cinema apenas a magia do entreter, qualquer um que buscar ter um olhar mais apurado, transpor algumas camadas em busca da complexidade da arte cinematográfica, será visto como um ET que “entende tudo de cinema”. Acontece com você também, certo?

Digo tudo isto, correndo o risco do enfado que a prolixidade geralmente traz, para externar que há menos de uma hora assisti, finalmente, O Poderoso Chefão, a primeira parte da trilogia. Poderia, como pensei ao final do filme, escrever uma espécie de resenha crítica do mesmo, mas para isto precisaria que ele e seus efeitos decantassem mais, e a absorção de sua excelência como cinema ainda ocorre em mim, portanto tenho medo de ser omisso ou raso em meu texto. Mas também senti a necessidade de escrever algo, pôr no papel (mesmo que ele seja virtual), um pouco do que achei do filme: uma verdadeira obra-prima. Coppola criou, por meio da máfia e tendo como base um best seller, um tratado sobre a família, a vingança, a sobriedade, sobre viver e morrer pelos filhos, a fragilidade da existência, o poder, enfim, sobre tanta coisa. É um dos melhores filmes que já vi, e não atribuo esta euforia à ainda fresca audiência, mas ao espetáculo narrativo que Coppola me proporcionou; às luzes e sombras de Gordon Willis; à música de Nino Rota; à um Al Pacino, em tenra idade, mostrando a transformação de um ser humano por conta das circunstâncias (nada forçado, muito sutil, verossímil); e à Marlon Brando, o maior ator que já se exibiu para uma câmera de cinema, com o qual chorei por duas vezes neste filme, exatamente quando ele se mostra frágil por conta das desgraças dos filhos, quando seu pranto parece romper uma casca, uma carcaça cansada de tanto sangue do seu sangue derramado.

Assistir O Poderoso Chefão foi um pagamento de dívida a mim mesmo e, agora que sei o que as sequências podem me trazer, pelas críticas históricas e por minhas próprias expectativas, não demorarei muito a assistí-las, não por medo de ser taxado como “alguém que não sabe tudo de cinema”, isto não me importa, de verdade, mas porque eu quero saber mais, e as grandes obras fazem isto conosco, alargam nosso saber. E se alguém, algum dia, aceitar a alcunha de “sabe tudo de cinema”, prontamente rechassem, pois ninguém sabe “TUDO” de cinema, nem de qualquer coisa que seja.

domingo, 11 de abril de 2010

Tubarões e Predadores


O blockbuster, este verdadeiro palavrão ofensivo aos cinéfilo mais xiitas, praticamente nasceu sob a forma de um tubarão que buscava sobrevivência, enxotado de seu habitat natural por conta de alguns que queriam apenas ocupar um espaço que não era o seu, pelo menos não de direito. Steven Spielberg é amado, mas também bastante odiado por gerações de gente de cinema, de gente que gosta de cinema, e tudo porque se atreveu a criar um suspense eficiente, divertido, tenso, que arrebatou platéias do mundo todo, fazendo com que ir ao cinema voltasse a ser moda. Também não exageremos, afinal de contas, o jovem Steven foi um dos cineastas da chamada “Nova Hollywood”, que mudou as coisas no cinemão, que trouxe novas formas de se fazer filmes, distribuir filmes, lançar filmes, ou seja, transformou o cinema em negócio novamente, e dos grandes. A diferença é que, enquanto Dennis Hopper, Arthur Penn, Warren Beatty, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Francis Ford Coppola, entre tantos outros, traziam consigo uma forte influência dos europeus e mesmo dos grandes mestres americanos, tendo verdadeira obsessão pela forma artística do cinema, Spielberg vislumbrava números, gostava da indústria, era um nerd no que dizia respeito a fazer filmes, a entreter. Seu Tubarão é, repito, um filme tenso, muito bem construído, um entretenimento assustador, com lampejos de obra maior. É diversão, e isto não pode ser visto como pecado, é uma das faces do negócio. Ah se tivéssemos hoje blockbusters tão inspirados. Ele criou verdadeiramente um mostro, que engoliu facilmente um modo de se fazer cinema, sufocou o autor, o artista, valorizando novamente a bilheteria, as campanhas. Esta foi a parte ruim. Como bem define uma passagem do livro Como a Geração Sexo Drogas e Rock'n'roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, "...Spielberg foi o cavalo de tróia através do qual os estúdios recobraram o poder". Começava a volta de Hollywood ao caminho da produção, dos engravatados no poder, em detrimento de uma visão mais poética, como pregavam os diretores que a tinham salvado da derrocada anteriormente. O sistema se aproveitou destes caras, destes diretores que tinham o que dizer e sabiam como, e, quando pôde, os tirou do poder, lentamente, passando a ser novamente seu empregador, retomando o controle.

Esta geração que ganhou crédito colocando o dedo na ferida, que chegou botando banca de novos donos da indústria, respaldados por ótimas bilheterias, críticas positivas que ressaltavam a qualidade, o viés político, a juvenil inconsequência, que lhes permitia acertar sem medo de errar, ou mesmo mandar tudo ao inferno caso houvessem críticas negativas, promoveu uma mudança, sem dúvida. E o tubarão - a criatura - de Spielberg, mais do que um êxito, até então sem precedentes, pode ser visto como símbolo, mesmo que apenas na cabeça deste que vos escreve, da “Velha Hollywood”, já que ambos eram os, vamos dizer assim, donos do habitat: produzindo da forma como queriam, caçando para alimentar uma fome de gigante. Feras descomunais, maiores que os naturais de sua espécie. Os novos, esta geração que veio tomar de assalto Hollywood, seriam, segundo esta analogia, como os humanos que triunfaram contra a fera, contra o sistema que quis os engolir, mas que acabou subjugado, explodido. Saindo agora da metáfora, mas não muito, a ironia é que Tubarão foi um dos filmes que, ao abrir os olhos da indústria para a mina de ouro que tinham nas mãos (falamos de muito, muito dinheiro) deu um jeito de ressuscitar, domesticar os predadores, fazendo deles aliados, praticamente sufocando o cinema de autor americano, tonando ele uma exceção. Qual a lição de tudo isto? Não se subestima uma fera, ainda mais quando ela navega em águas que conhece como poucas. Em Tubarão, Spielberg parece profético nesta relação - sim, voltamos fortes à metáfora, pois, em dado momento um dos personagens diz que os tubarões fazem “tubarõenzinhos”. Se a “Velha Hollywood” certa vez explodiu, como o tubarão do jovem Steven, logo vieram seus herdeiros que, como que atraídos por uma mancha de dinheiro no oceano da indústria do cinema, souberam muito bem domesticar os predadores humanos ligados à arte, e os fizeram presas fáceis, utilizando eles mesmos e sua força criativa como mandíbula.