segunda-feira, 14 de junho de 2010

Melhorias no The Tramps


Depois de quase dois anos com o mesmo layout (em parte porque somos uma negação com esta coisa de editar em HTML) o The Tramps está de cara nova. A mudança não é tão drástica assim, está mais a serviço de melhorar a navegação e dar certo estilo ao blog, com espaços mais delimitados e uma imagem de fundo, que pode ser facilmente cambiável. Coisas das novas formatações do blogger, muito mais práticas e dinâmicas, diga-se de passagem. Outra novidade é a criação do twitter do The Tramps. Relutamos um pouco em entrar na onda, pois não queríamos perder o foco de atualizações do blog, mas chegamos à conclusão que seria legal ter um espaço para textos curtos, indicações, ou qualquer outra coisa que não renderia, de qualquer forma, um post mais longo. O twitter andará, é claro, por suas próprias pernas, mas foi concebido, principalmente, como um canal de informação dentro do espaço principal, por meio da caixa localizada à direita, logo abaixo da descrição do The Tramps. Para quem quiser nos seguir, o endereço é http://twitter.com/thetramps

Desde que instalamos um sistema que nos possibilita identificar as leituras ao blog, constatamos que um número considerável de não conhecidos nos acompanha, inclusive de outros países, principalmente EUA e Portugal. Sentimos falta, porém, de uma maior participação destes leitores por meio de comentários, que além de motivadores do nosso trabalho, são maneira de expandir as discussões. Então pedimos que comentem, conversem conosco, discordem, critiquem e elogiem, caso achem que devam.

Então, agradecemos pela leitura e prometemos que vem coisa boa por aí, como, por exemplo, uma cobertura, maior que a do ano passado, do Festival de Cinema do Rio de Janeiro.

Equipe The Tramps

domingo, 13 de junho de 2010

Central do Brasil

A tour de force de Fernanda Montenegro em Central do Brasil poderia muito bem ser o grande motivo de sucesso cinematográfico deste que é um dos maiores filmes brasileiros, pelos menos das últimas décadas, indiscutivelmente. A entrega física de Fernanda, que se despe de qualquer vaidade para dar lugar a Dora, é emocionante. Dora é humana, e isso faz com que o trabalho de Fernanda seja impressionante, pois não é fácil para uma atriz com a exposição que ela tem, sumir, dando pleno lugar à personagem. Cremos em Dora, só depois lembramos que ela é Fernanda. A simbiose com o então estreante Vinícius de Oliveira é total, e a dependência mútua de seus personagens só poderia ser tão bem evidenciada como foi, tendo em cena uma atriz como Fernanda Montenegro, e um diretor tão hábil e sensível quanto Walter Salles, para mim, o maior motivo (e sua grandeza não diminui os outros fatores) pelo qual Central do Brasil é grande.

Filmado com extrema perícia, o filme que foi amplamente discutido e premiado, não somente no Brasil, mas, e, principalmente fora dele, demonstra o esmero de Salles com a técnica e a forma. Walter preocupa-se, porém, mais claramente com os personagens, com sua evolução durante a jornada, que toma como caminho principal as estradas entre o sudeste e o nordeste, numa espécie de volta ao sertão, o caminho inverso do que, por exemplo, muitos migrantes nordestinos fizeram, ao buscar melhores oportunidades no centro do país. É como se o retorno fosse necessário para sublinhar a necessidade de se buscar a raiz, como forma de estabilidade emocional, não somente para Josué que almeja o pai que nunca conheceu, mas também para Dora, que se não volta ao lugar de concepção, projeta na busca do menino sua chance de humanizar as próprias emoções, de tatear seus sentimentos em busca de um reencontro consigo mesma.

Tudo isto, os solitários se ajudando à procura da felicidade, nem que seja de apenas um deles, evidenciado ainda na participação de Othon Bastos, outro monumento das artes dramáticas, é reforçado pelo deslocamento, pela angústia, pelas provações que Dora e Josué passam para alcançarem seus objetivos. Vemos ecos de De Sica e seu Ladrões de Bicicletas quando Dora rouba, quando sacrifica sua própria figura para que a de Josué fique imaculada. A necessidade faz a ocasião, mas Dora preserva o menino, já que ele possui um futuro. Pelo menos é assim que ela o vê, como alguém que pode ser e ter o que ela não foi capaz de ser e nem ter. Outras referências/reverências aparecem ao longo do filme, e isto não é nada estranho quando temos na direção alguém que além de gostar, entende muito de cinema.

Central do Brasil utiliza ainda elementos regionais, que dão maior personalidade e raiz ao filme, mas que, pelo tratamento aos personagens, não o limita aos rótulos deste regionalismo, que é utilizado como elemento de caracterização, não como entrave para audiências estrangeiras. Esta bem poderia ser uma história passada em qualquer parte do mundo, mas isto não quer dizer que cada quadro não seja genuinamente brasileiro, rememorando, inclusive nas palavras do próprio Salles, o sertão visitado em tempos idos pelos cinemanovistas, em especial por Nelson Pereira dos Santos, no aclamado Vidas Secas. A comparação não diminui em perspectiva o grande Vidas Secas, pois ambos são retratos pungentes e, mesmo que distintos em abordagem e separados pelo tempo, de alguma maneira, complementares ideologicamente.

sábado, 5 de junho de 2010

As Teias de Chabrol

















Erro imperdoável nunca ter assistido a um filme de Claude Chabrol, um dos pilares do cinema francês. Confesso o erro, aproveito para deixá-lo no passado, pois assisti há pouco A Teia de Chocolate, que encontrei num sebo ontem à tarde. Benditos sebos que nos trazem estas pérolas perdidas ou há muito tempo não disponíveis para compra. Feita a grata digressão, devo ressaltar minha empolgação por conta de A Teia de Chocolate e, por conseguinte, pela mise-en-scène de Chabrol. Ao tomar contato com um cineasta pela primeira vez, o ideal seria acompanhar sua evolução, em termos práticos, seguir sua carreira em ordem cronológica, sendo esta a maneira mais límpida pela qual conseguiríamos enxergar o artista em formação e a transmutação de seus olhares, seus pontos de vista. Nem sempre se faz possível respeitar a linha do tempo de um artista, mas me contento em poder, seja em que ordem for, colocar suas obras em perspectiva.

Finda mais esta digressão, A Teia de Chocolate me instigou, claro, pelo suspense criado, pela forma como Chabrol vai engendrando seus personagens, abrindo buracos e os preenchendo lá adiante para criar um clima envolvente e que verdadeiramente nos deixa suspensos. Mas creio que o que mais me chamou a atenção foi o rigor de Chabrol na busca de uma integração ideal entre este clima, os personagens, sejam eles misteriosos ou não, a constância de sua narrativa e a trilha sonora que, segundo o próprio diretor nos extras do DVD, é o que dá ritmo a este filme, muito mais do que qualquer outro elemento. Chabrol é frequentemente comparado a Hitchcock, obviamente por conta da predileção pelo suspense, gênero que o inglês dominou como ninguém, e que, a julgar pela primeira impressão que Chabrol me deixou com este A Teia de Chocolate - onde ainda temos a magnífica interpretação de Isabelle Huppert, também parece campo ideal para a encenação e para os personagens “chabrolianos”. Por ser infindável meio de descobertas e redescobertas, o cinema é tão magicamente indispensável.

sábado, 29 de maio de 2010

High Five: A imprensa norte-americana vai ao cinema












Após um hiato considerável, a quase extinta coluna High Five retorna com suas habituais indicações, menções, apontamentos ou o que quer que seja, sempre listando através de um tema em específico cinco obras relevantes para o assunto escolhido. Para tal retomada, deixando pílulas de didatismo e dados acadêmicos de lado, listo agora cinco filmes essenciais quando o assunto é a imprensa norte-americana e seus profissionais.

Sejam inescrupulosos ou extremamente éticos, críticos ou sensacionalistas, em outros casos tudo isso, tais profissionais foram retratados em vários grandes filmes e aqui vão cinco deles, por ordem de lançamento. Clique no título dos filmes para obter mais informações sobre os mesmos.

Cidadão Kane
Citizen Kane, de Orson Welles (1941)

Entre 10 listas sobre os maiores filmes já feitos, 9 e ½ delas apresentam Cidadão Kane nas primeiras posições. A importância do filme para a evolução do cinema é indiscutível e o mesmo também não pode ser ignorado quando se pensa nos maiores filmes sobre a indústria midiática norte-americana, aqui em específico a de mídia impressa. A história de Charles Foster Kane, garoto pobre que se torna um dos homens mais influentes e ricos do mundo, pode ter sido baseada na vida do magnata William Randolph Heast, que chegou a ser proprietário de 28 jornais. Ainda que negasse tal inspiração, Orson Welles escreveu, dirigiu e interpretou um dos mais icônicos personagens que Hollywood jamais vira em sua história. O filme mostra como a imprensa pode ser manipulada e se posicionar quando o poder máximo da informação está no controle supremo de um único homem.



A Montanha dos Sete Abutres
Ace in the Hole, de Billy Wilder (1951)

Exatamente uma década depois de Orson Welles e seu Cidadão Kane, o gênio das comédias Billy Wilder dirigiu aquele que é considerado por muitos profissionais da área o mais importante filme feito sobre o trabalho de um jornalista. Kirk Douglas interpreta o multifacetado Charles Tatum, jornalista que caiu no ostracismo depois de uma série de trabalhos infelizes. Quando é encaminhado para cobrir um acontecimento tedioso para um emprego que deveria ser temporário, mas que se estende por mais de um ano, Tatum encontra na simplicidade de um fazendeiro e no acidente em que o mesmo se envolveu a oportunidade para conseguir seu tão estimado prestígio de volta. Com um roteiro elaborado de Wilder em parceria com Lesser Samuels e Walter Newman, que privilegia e desenvolve ao máximo tanto a ação quanto seus personagens, “A Montanha dos Sete Abutres” apresenta temas como ganância, falta de ética, polêmica e sensacionalismo no jornalismo, tão presentes nesta e em várias outras profissões.



No Silêncio de uma Cidade
While the City Sleeps, de Fritz Lang (1957)

Ainda que seja mais lembrado por seu envolvimento com o cinema expressionista alemão e pelas sombrias obras que realizou no país europeu, não se deve ignorar o período em que Fritz Lang produziu filmes nos Estados Unidos, quando dirigiu significativos filmes de suspense, como “Suplício de uma Alma”, ou dramas arrebatadores, como “Só a Mulher Peca”. No final dessa fase, Lang comandou o excelente “No Silêncio de uma Cidade”, espécie de noir que apresenta o jornalismo investigativo levado às últimas consequências, quando certos profissionais se arriscam por uma matéria e acabam exercendo a atividade de detetives e policiais. “No Silêncio de uma Cidade” faz uma leitura do jornalismo dentro de um prisma mais amplo, incluindo em sua narrativa principal a mídia de forma impressa, televisiva e até mesmo através do extinto telex.



Rede de Intrigas
Network, de Sidney Lumet (1976)

Nos anos 70 o prolífico realizador Sidney Lumet dirigiu no mínimo três grandes obras: Serpico, Um Dia de Cão (considerados dois dos melhores filmes de Al Pacino) e este Rede de Intrigas. Reconhecido por sua maneira peculiar de filmar, sempre com muitos ensaios e dando atenção imensa ao seu elenco e liberdade para o desenvolvimento de seus personagens, Lumet nos presenteou em Rede de Intrigas com os desempenhos memoráveis de William Holden, Faye Dunaway e de Peter Finch, inesquecível como o surtado Howard Beale – performance que lhe rendeu um Oscar póstumo. Outro filme inesquecível que apresenta de forma bastante realista e inteligente até onde a televisão pode ir quando o que está em jogo é o índice de audiência.



Boa Noite e Boa Sorte
Good Night and Good Luck, de George Clooney (2005)

George Clooney já não era apenas um galã de cinema que nascera na televisão quando dirigiu este “Boa Noite e Boa Sorte”, mas, mesmo assim, seu prestígio aumentou consideravelmente e o filme fez com que o ator fosse levado ainda mais a sério como um artista. Além de merecer destaque no currículo de Clooney, o filme ficou marcado por ter revelado tardiamente todo o talento de David Strathairn, que até então não tivera um papel de tamanha representatividade. Apresentando a delicada relação entre a imprensa e a política, assim como fizera “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, “Boa Noite e Boa Sorte” constrói uma narrativa tensa e instigante sobre o período que ficou conhecido como a “caça às bruxas” nos Estados Unidos e o duelo entre o Senador Joseph McCarthy e Edward Murrow e a rede televisiva CBS. Não apenas um dos melhores filmes sobre o jornalismo no cinema, “Boa Noite e Boa Sorte” merece figurar em quaisquer listas com os grandes filmes dos últimos anos.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

LOST - O Fechar dos Olhos


Confesso que as lágrimas me vieram aos cântaros durante várias partes do último episódio de LOST. Acho que era um misto de tristeza, por estar assistindo ao fim de um programa que acompanho fervorosamente há seis anos, e de alegria por ter chegado até aquele momento, não ter parado pelo meio do caminho como muitos fizeram. Aos desertores, aos que, assim como alguns personagens queriam, saíram logo da ilha, não agüentaram as perguntas se amontoando e as respostas que pareciam cada vez mais rarear, fica minha tristeza por não poder compartilhar o que, para mim, foi uma das melhores séries que já assisti. Só neste último episódio consegui compreender porque segui em frente, porque não me importava com a opinião dos que me diziam para abandonar, que LOST era um engodo, uma enrolação. Primeiro, pois, firmemente, nunca achei que a série estava enrolando e sempre tive confiança de um final satisfatório e, por mais que não o tivesse, já teriam valido os anos de ilha, a jornada. Ou só o final interessa?

Não queria todas as respostas e não as tive, e por isto agradeço, pela audácia dos produtores em enxergar no público uma potencial inteligência, a capacidade de completar certas lacunas e de manter viva a mitologia. Não ficou vago, mas também não explicado nos mínimos detalhes como se precisássemos de tudo mastigado. Mas o motivo principal de minha devoção por LOST, e isto somente percebi com clareza neste catártico último episódio, são os personagens. A forma como cada um, dentro de sua história pregressa, suas atitudes e evolução, foi conduzindo uma trama cheia de mistérios, de facções conflitantes, de embates entre fé e ciência, é o que realmente deu alma a LOST. E isto fica muito claro pela maneira como os produtores encerraram a jornada, mostrando-nos que o que importa são as pessoas, suas ligações. O final, de uma beleza ímpar, transcendeu meu ceticismo na vida real, e fez com que eu achasse que se há alguma poesia na morte, ela deve ser bem como pregou este último e doloroso episódio.
Memorável.

Para textos mais detalhados sobre o encerramento, sobre a série como um todo, recomendo lerem este de Ana Maria Bahiana e este de Pablo Villaça, não por acaso, LOST maníacos, como eu.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Palma a Apichatpong


















O Festival de Cinema de Cannes 2010 outorgou seu prêmio máximo, a Palma de Ouro, a um cineasta que é amado por alguns, por conta de suas imagens livres das amarras narrativas convencionais, mas visto com ressalvas por outros, por tornar suas obras cifradas em demasia, essencialmente herméticas. Apichatpong Weerasethakul é este diretor de sensível olhar que aposta na mistura do realismo e do minimalismo da mise-en-scène com elementos fantásticos que reforçam o tom metafórico de suas histórias. Mal dos Trópicos (tomado aqui como exemplo, por seu o único de seus filmes que vi), uma das mais celebradas obras de Apichatpong, é assim: livre para experimentar, para dialogar com camadas menos óbvias de nossa percepção. É difícil, requer uma entrega grande do espectador, principalmente quando o subtexto adquire formas de narrativa principal, propiciando a abertura para um "segundo filme", confuso e complementar ao primeiro. É um cinema que precisa de decantação para ser absorvido. E nem sempre nos é possível ou permitido, pela comunicação mais instintiva/etérea entre as imagens, os sons, as palavras e nossos sentidos. Mas como não acredito na força da máxima "a curisosidade matou o gato", desde já fico curioso para ver Lung Boonmee Raluek Chat, nem que seja para fugir da mesmice.

Palma de Ouro
Lung Boonmee Raluek Chat, de Apichatpong Weerasethakul

Grande Prêmio do Júri
Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois

Prêmio do Júri
Un Homme qui Crie, de Mahamat-Saleh Haroun

Melhor direção
Mathieu Amalric, por Tournée

Melhor roteiro
Lee Chang-Dong, por Poetry

Melhor ator
Javier Bardem, por Biutiful
Elio Germano, por La Nostra Vita

Melhor atriz
Juliette Binoche, por Copie Conforme

Câmera D'Or (para cineastas estreantes)
Año Bisiesto, de Michael Rowe

Melhor curta-metragem
Chienne D'Histoire, de Serge Avédikian

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Cinema Brasileiro e seus Diretores

O cinema brasileiro vive uma crise de identidade. Não sabe se tem de ser hermético, se tem de ser chanchada, se tem de ser televisão. Alguns dizem: “falta roteirista bom neste país de novelistas”. Outros rebatem: “o Brasil só sabe falar de favela”. Já alguns levantam a questão: “o problema é que não temos diretores bons, como antigamente”. A discussão é batida, eu sei, e esta profusão de questionamentos, por vezes repetidos, deve ser reflexo desta busca por respostas, por um norte, um rumo para o cinema feito por aqui. Vou, por enquanto, e para não ficar batendo em teclas através das quais muitos já tiraram notas mais melodiosas do que eu poderia, me deter na problemática apontada sobre os diretores, estes profissionais catapultados à instância de artistas supremos do filme, por conta da política de autores dos críticos da Cahiers du Cinéma, através da revolução que foi a Nouvelle Vague.

Comparar a atual safra de cineastas com as de idos anos é uma covardia, não somente em nível nacional. Não há como colocar lado a lado os gênios que povoavam nas telas, fazendo um recorte específico, da década de 50 até o final dos anos 70, com os bravos que fazem cinema nos tempos de hoje. Há grandes diretores na ativa, e muita gente boa aparecendo, mas na quantidade e profusão vistas outrora, de fato não. Então, objetivamente, de pouco adianta comparar o Cinema Novo e o Marginal com o contemporâneo da produção nacional, pois aí, para ser justo, precisaria comparar a atual cinematografia americana com os saudosos tempos em que Hollywood era composta por nomes como Billy Wilder, Orson Welles, Alfred Hitchcock, entre outros. Covardia. O passado é primordial, imprescindível para que se entenda o presente e, porque não, o futuro, mas vamos nos ater ao momento atual. 


Telão e telinha

No Brasil, e isto acontece em outras partes do mundo também, há alguns diretores que veem na comunicação entre televisão e cinema, uma maneira de aproximar o espectador. Jorge Furtado é um deles. Sucesso estrondoso de crítica com seu curta-metragem Ilha das Flores, o gaúcho fez alguns longas, uns ótimos, outros nem tanto, o que é normal, mas ele não consegue esconder um veio televisivo, ou um meio termo, já que as produções que dirige para a televisão têm um pouco de cinema também. Não questiono o talento de Furtado, gosto muito de alguns filmes dele e de suas produções de TV. Até dos filmes dos quais desgosto consigo tirar algo que me agrade. Mas não há como negar que suas imagens são como híbridos, que sua linguagem, não sei se por buscar uma homogeneização como forma de acostumar o olhar do público que é viciado em TV, é uma quimera entre a telona e a telinha. É uma linguagem, uma via, e não há porque defenestrá-la.


Cidade de Deus e a arte para as massas

Temos muitos autores no Brasil, poucos devidamente reconhecidos. A maioria é formada por figuras carimbadas de festivais, de cineclubes, de redutos de crítica mais apurada, ou seja, de guetos. É a velha dicotomia: popular vs alternativo. Alguns diretores conseguem se equilibrar bem entre o comercial e a arte, mas esta não é uma característica dominante, ou pelo menos, não são muitos os que conseguem contrapesar estas duas frentes. Mas há alguns que conseguiram a mistura perfeita: filme excelente que foi bem de público, como Fernando Meirelles, com Cidade de Deus. Meirelles, aliás, é um caso curioso. Fez um dos melhores filmes brasileiros das últimas décadas. Cidade de Deus é um relato poderoso, o cinema atingindo níveis excitantes em terras brasilis. Tanto é que o sucesso internacional do filme fez com que ele, o diretor, fosse alçado à categoria dos artistas emergentes no cenário internacional, o que lhe possibilitou, entre outras coisas, entrar no mercado internacional. Dirigiu filmes como O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Entusiasta que sou de Cidade de Deus, tinha muita expectativa quanto aos projetos internacionais de Fernando, mas devo dizer que me decepcionei, com ambos. Jardineiro Fiel arrebatou prêmios, fez relativo sucesso, mas a meu ver é um filme que peca pela esterilidade, tanto da história como de seus personagens. Já em Ensaio Sobre a Cegueira, Meirelles construiu um filme distante, frio no sentido de não permitir que nos aproximemos dos personagens, um filme quase gélido, meio estéril também para falar a verdade. As recentes declarações de Meirelles de que filmará no Brasil apenas obras televisivas, deixando sua carreira no cinema para o exterior, fazem com que eu não tenha muita fé no diretor. Não é nacionalismo da minha parte, mas um entendimento de que Meirelles tende a se transformar mais em artesão, trabalhando em projetos menos pessoais de exportação, do que confirmar a veia autoral exposta em Cidade de Deus. Fernando tem qualidades, sem dúvidas, mas meu medo é de que já tenha feito seu grande filme e seja, mesmo que inconscientemente, acomodado por isto.


Walter Salles, o espelho de uma geração

Um grande diretor brasileiro, em minha opinião o melhor deles atualmente, que não goza de muito apelo frente ao grande público, é Walter Salles. Dono de um conhecimento enciclopédico sobre cinema, Walter, que é irmão do excelente documentarista João Moreira Salles, vem, ao longo dos últimos vinte anos, construindo uma carreira sólida, composta por filmes, sejam eles premiados ou não, de comprovado valor artístico para a cinematografia brasileira. Filmes como Central do Brasil, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta, só para citar alguns, são obras inspiradoras, maravilhosos estudos de personagem. É claro que Walter teve incursões erráticas pelo cinema internacional, como em Água Negra, mas seu prestígio continua de tal forma intacto, que foi o escolhido por Francis Ford Coppola para levar às telas um dos livros mais importantes da cultura americana, a bíblia beatnik Pé Na Estrada (On Te Road), com filmagens previstas para iniciarem em agosto. Portanto, seu próximo filme é, desde já, cercado de muita expectativa. Além de seu olhar como diretor, Walter Salles é ainda muito respeitado por sua atuação, por meio de VideoFilmes, como produtor (incluídos aí os filmes mais recentes do excelente argentino Pablo Trapero). Aliás, a VideoFilmes ainda presta serviços inestimáveis à memória cinematográfica do país por meio da restauração e do lançamento em DVD de obras seminais, como os filmes de Leon Hirszman, por exemplo.


Um certo olhar brasileiro

Na verdade, são muitos os cineastas brasileiros que merecem destaque e deferência por seus trabalhos. Vários deles, e isso é um problema que também acomete os nomes mais badalados, têm dificuldades para emendar um projeto atrás do outro. Sempre o velho problema do financiamento, das burocracias. No entanto, estes cineastas superam as dificuldades, remam contra a maré do conformismo. Nominar é sempre difícil, pois no recorte sempre faltam nomes que mereceriam citação. Mas não temos como falar de produção cinematográfica brasileira contemporânea sem citar nomes como: Claudio Assis, Hector Babenco, Philippe Barcinski, Selton Mello, Beto Brant, Karim Aïnouz, José Padilha, Marcelo Gomes, Lais Bodanzky. Tampouco dá para esquecer que nomes muito ativos e celebrados em outros tempos ainda fazem cinema. Nelson Pereira dos Santos, Andrea Tonacci, Júlio Bressane e Eduardo Coutinho são alguns destes velhos lobos do mar, que encararam as mudanças do tempo, a ditadura, o fim da Embrafilme, a retomada, e mesmo que de maneira menos profílica, tocam seus projetos, alguns bastante celebrados quando submetidos a público e crítica, inclusive. Até Arnaldo Jabor promete lançamento este ano, depois de décadas longe das câmeras.

É claro que este texto é uma tentativa, não de explicar, de apontar caminhos e soluções. Os destaques e recortes feitos foram pautados pela subjetividade e dotados de inevitáveis omissões, seja por falta de conhecimento ou esquecimento mesmo. Também devo dizer que foquei mais na produção de longas ficcionais por não conhecer a fundo a produção nacional de filmes curtos e dos documentários. Não tenho dúvidas de que o Brasil tem muitos talentos guiando filmes, muitas contribuições à pluralidade da cinematografia brasileira. Se peguei Furtado, Meirelles e Salles como “Cristos”, cada qual dentro de um perfil de trabalho, poderia tê-lo feito com outros diretores, pois há muitos que dialogam com a televisão, poucos que agregam sucesso de crítica e público (mas estes tendem a, com o tempo, enveredar por campos que busquem somente agradar o público, fazendo à ele concessões) e os que se dedicam com toques de poeta ao ofício da escrita cinematográfica mas que, infelizmente, criam obras pouco vistas pela massa. Estas não são as únicas definições, há muitas mais, muitas nuances que me fogem e/ou que me pareceram, de certa forma, dispensáveis para a linha de pensamento que se fez presente no texto. Então se temos bons diretores, qual é o problema? Dizem muitos que o problema é a falta de roteiristas. Matéria para uma próxima reflexão. É como disse no início, as discussões sobre os rumos do cinema brasileiro são muitas, até saturam às vezes, mas uma das maneiras de enriquecimento do meio, principalmente quando olhamos a sétima das artes como forma de modificação, como agente transformador dos indivíduos de uma sociedade, se dá pela discussão, troca de idéias e, porque não, pela teorização das problemáticas como busca das soluções. Diálogo nunca é demais. A busca por respostas continua.

Como sequência da refexão, indico o ótimo texto de Luiz Zanin sobre os Impasses do Cinema Brasileiro.