Substituir Krzysztof Kieslowski não é fácil, pelo menos eu imagino que não seja. Quando morreu em 1996, o polonês trabalhava no que seria sua mais nova trilogia, inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri. Após a Trilogia das Cores, composta de três filmes sublimes, Kieslowski iria levar às telas Paraíso, Inferno e Purgatório. Morreu antes de iniciar qualquer um dos três e levou consigo a possibilidade de mais uma trinca de obras-primas com a sua assinatura. Seu co-roteirista habitual Krzysztof Piesewicz escreveu os três roteiros e os ofereceu a jovens cineastas europeus. Inferno foi dirigido pelo emergente diretor bósnio Danis Tanovic, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Terra de Ninguém, um belíssimo relato de guerra. Felizmente o debut de Tanovic não foi sorte de principiante, ele é um realizador de méritos, mas não é Kieslowski e isso fica claro.
Há os que dizem que um estilo estabelecido se copia facilmente, afinal os códigos estão visíveis e ao alcance de qualquer um. Não é bem assim, pois se fosse, Almodóvar, Lynch e Allen, só para citar três grandes diretores de estilo marcado, teriam cópias de seus filmes aos borbotões. Cópias são cópias e nunca saem como o original, pelo menos não com o mesmo alcance. Tanovic se esforça para entregar algo digno da herança de Kieslowski. É nesta reverência demasiada que reside a armadilha onde Tanovic cai principalmente no primeiro terço do filme. A preocupação de entregar algo sensível, condizente com o histórico do projeto e com a densa narrativa proposta, das três irmãs de almas fragmentadas que sofrem por conta da herança que lhes impuseram, visivelmente faz com que o bósnio se exceda de início nas metáforas visuais, nos momentos de suspensão. Ele quase passa do ponto ao sublinhar demais musicalmente algumas cenas que seriam beneficiadas por momentos de silêncio. Sente-se a pressão que o nome Krzysztof Kieslowski exerce sobre o diretor, então com 36 anos, em seu segundo longa-metragem. Aos poucos, felizmente, ele vai se soltando, segurando as rédeas da trama conforme suas convicções, e aí o desenrolar fica mais interessante e o filme cresce consideravelmente.
As irmãs protagonistas sofrem por serem herdeiras de um drama pesado de desfecho trágico. O passado influencia fortemente seus tempos presentes e, consequentemente, sua trajetória vindoura. Lembrei-me de Bergman ao assistir Inferno, de início pela forma como Tanovic estreita o foco nestas mulheres, seus olhares furtivos, suas atitudes passionais e extremamente humanas, condicionadas, repito, a acontecimentos do passado. Bergman, suas mulheres e a maneira como as retratou através de personas cinematográficas, são também referências quase que tangíveis. As paredes vermelhas de uma das residências também me lembraram o sueco e o rubro leito de morte de Agnes em Gritos e Sussurros. Há ainda uma piscadela para quem assistiu a Trilogia das Cores, esta sim uma homenagem aberta, interessante e bem bonita. Não há nada de errado em homenagear, reverenciar, desde que isto não salte aos olhos do espectador como prato principal da narrativa. Em Inferno isso quase acontece, felizmente quase.
No final de tudo, entre prós e contras, Inferno se configura em um drama interessante e profundo. Tanovic sai-se bem num drama urbano, buscando outros ares para sua narrativa, fora dos campos de batalha. Não fosse a necessidade de emular Krzysztof Kieslowski, expediente que imagino impossível, além de cansativo, Danis Tanovic poderia ter feito um filme mais regular. Seu talento, porém, é suficiente para que esqueçamos a grandiloquência dos acordes iniciais, os excessos que soam como perfumaria, e embarquemos sem cinto de segurança nos traumas destas três mulheres, procurando as respostas que elas precisam, e nos envolvendo com um belo e humano filme, irregular, mas nem por isso menos bonito e interessante.










