sábado, 17 de julho de 2010

O Discreto Charme de Buñuel


O homem não pode limitar-se ao trabalho. Desconfie dos que são somente obstinados pelo ofício, pois deles não se conseguirá extrair muito. Viciados em trabalho devem ter alguma falha, alguma rachadura que nunca se consegue tapar por completo. Temos a visão romântica de que o artista, que subsiste de sua virtuosa relação com a arte, seja diferente, de que viva apenas em função da criação, da expansão de sua labuta artística, ainda em nossa visão apoiada no romantismo, muito mais edificante do que qualquer outra.

Livros sobre personalidades do cinema geralmente fazem alarde quanto às obras, à criação. Não são raros os casos de relatos que bidimensionalizam seu objeto de estudo em busca do viés puramente artístico, numa espécie de negação daquilo que alimenta o artista: a própria vida e suas experiências. Já li alguns ótimos livros dedicados exclusivamente a diretores de cinema: Conversas com Woody Allen, Conversas com Almodóvar, e Imagens, sobre a vida de Ingmar Bergman. Destes, o que mais gostei foi de Imagens, não só por ter como personagem meu diretor favorito, mas por ser o que apresenta em sua narrativa, dividida conforme a filmografia do sueco, mais elementos das angústias de Bergman como ser humano, o que proporciona um entendimento profundo e verdadeiro de suas magníficas criações.

Acabei há pouco (há 6 minutos, para ser correto) Meu Último Suspiro, que fala sobre a vida e obra de um dos maiores diretores de todos os tempos: Luis Buñuel. Já tinha profunda admiração pelos filmes do espanhol, agora esta se encontra profundamente ligada a uma ternura pela pessoa. Buñuel não era homem das letras, ele mesmo diz no começo do livro, portanto chamou seu mais querido colaborador, o roteirista Jean-Claude Carrière, para transformar sua memória prodigiosa em palavras. Lendo, compreende-se a simbiôntica amizade que os unia, pois a narrativa se desenrola de tal maneira íntima, que se não soubesse do processo, refutaria qualquer autor do livro, que não o próprio Buñuel. Por vezes cheguei até a duvidar que o diretor não tivesse entrelaçado de próprio punho os fios condutores da obra, que conta sua vida de maneira comovente, pela entrega à tarefa do relato.

Dar conta de uma vida rica como a de Buñuel não é fácil, ainda mais em torno de menos de quatrocentas páginas. O triunfo de Carrière é a estrutura que repele a cronologia, que vai e volta no tempo, e a entrega do próprio Buñuel em revelar angústias, preocupações e frivolidades com o mesmo afinco. Lutando a vida toda pela revolução, pela queda de desigualdades e por seus personagens e histórias que fugiram do óbvio, nada mais justo que esta biografia seja uma homenagem ao estilo libertário e transgressor de Buñuel, sem que para isto precisasse pintá-lo com tintas de reverência exacerbada ou mistificação em torno de sua arte. Buñuel antes de artista era homem e este espírito que rege Meu Último Suspiro, faz deste um dos melhores livros que já li sobre um cineasta. Saudades de ti, Don Luis.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Jovem Rainha Victoria

Houve um entrave preocupante àqueles que estiveram envolvidos com a monarquia britânica no início do século XIX, e ele dá título ao filme que recorta um período da vida da moça que ficou conhecida como A Jovem Rainha Victoria. Próxima daquela que é considerada a maioridade em nosso país, Victoria estava prestes a tomar o trono da Inglaterra, mas não com a benção daqueles que a cercavam. Enquanto muitos insistiam para que ela cedesse ao governo da Inglaterra em favor de algum regente, ela persistiu e, contra todos, aguardou o título e a posição que lhe era de direito – independente de sua idade ou inexperiência.

Assim se inicia o drama histórico A Jovem Rainha Victoria, filme co-produzido entre os Estados Unidos e o Reino Unido que remonta os primeiros anos da era vitoriana – esta que viria a definir um longo período britânico reconhecido pela prosperidade e crescimento de sua população, assim como de grande valor para a ascensão das artes. Curiosamente, o filme é lançado no Brasil dois dias antes do aniversário de 173 anos da cerimônia que coroou a Rainha Victoria e fez com que a supracitada era tivesse início.

Talvez pecando pelo excesso de narrações, principalmente quando estas são feitas através da leitura de cartas, o filme enfatiza as relações de Victoria a partir do momento que soube de seu futuro posto na monarquia britânica. Sua história é rapidamente apresentada e então a produção desenvolve de forma bastante romanceada o envolvimento de Victoria com o príncipe Albert e com lorde Melbourne, que passam a servir a nova rainha como conselheiros e a serem os principais candidatos a esposo da mesma.

Fica evidente que certas liberdades são tomadas no filme e que o mesmo passa a ganhar um tom desnecessariamente melodramático, porém a intenção de se utilizar o romance para conduzir a narrativa fica explícita desde o início da projeção – o que torna tais liberdades compreensíveis. Embora o foco central do filme esteja no relacionamento amoroso de Victória, o roteiro de Julian Fellowes, de Assassinato em Gosford Park, ainda dá espaço para uma satisfatória apresentação do período histórico na Inglaterra e das condições políticas e sociais na época em que tal rainha assumiu o trono britânico.

A Jovem Rainha Victoria acumula vários outros acertos, começando pela direção competente de Jean-Marc Vallée, que havia apresentado sua capacidade no canadense C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor. Vallée possui uma direção ágil e mostra versatilidade num gênero reconhecido pela monotonia, empregando ritmo em sequências que, em tantos outros filmes, servem meramente como espaços de transição – como na preparação do castelo para um grande jantar. Sua condução é nitidamente beneficiada pela grande equipe que o cerca, que apresenta belos exemplos de direção de fotografia e arte, sem esquecer do incrível figurino.

Ainda sobre o figurino, o trabalho de pesquisa histórica de Sandy Powell, que foi merecidamente laureada (mais uma vez) com o Oscar e com o prêmio de seu sindicato, salta aos olhos pela fidedignidade com as imagens que se encontra da jovem monarca e de seus contemporâneos na aristocracia inglesa. Se Emily Blunt, mesmo ótima no papel, não se pareça fisicamente com a robusta rainha, os figurinos de Powell se encarregam da tarefa de torná-la mais próxima à imagem da mesma.

Também no elenco, composto por várias e significantes presenças, destacam-se Miranda Richardson, como a mãe manipulada e manipuladora, Jim Broadbent, como o excêntrico tio de Victoria, e Mark Strong, que, mesmo coadjuvando, toma para si a maioria das cenas em que figura. No entanto, Rupert Friend e Paul Bettany, que são as presenças masculinas principais, apenas preenchem o elenco de faces conhecidas, mantendo desempenhos pouco notáveis.

Por fim, A Jovem Rainha Victoria é um filme que merece ser visto e que facilmente agrada. Com uma trama interessante que serve bem o gênero do drama de época, funciona por apresentar no contexto histórico uma história de amor atemporal, além de possuir passagens memoráveis - adjetivo que cabe ainda e principalmente à sua irretocável produção artística.

O Humano Grotesco de Pasolini


O ser humano é um bicho complexo, quisá o mais complexo de todos. É certo que não seria justa qualquer comparação com nossos irmãos do reino animal, pois, se contarmos apenas o fato de termos consciência, esta complexidade inerente a todo ser humano já se justifica. A arte sempre se propôs a investigar com profundidade os meandros do comportamento humano, tão difícil de descrever e entender quanto a própria natureza humana. É certo que temos códigos em comum, como a moral e a ética, que são uma espécie de legislação não escrita, uma série de comportamentos que se fazem necessários, ainda mais se contextualizarmos o humano como animal social, que divide espaço com outros de sua espécie. Nossa intimidade é cada vez menor, nosso espaço particular reduzido em prol da construção de algo maior, que é esta teia chamada sociedade. Os grandes filmes são aqueles que tentam dar conta desta multiplicidade de comportamentos, que não deixam com que sejamos facilmente classificáveis, inteiramente justificáveis e muito menos totalmente compreensíveis.

Pier Paolo Pasolini, cineasta italiano controverso, parece querer com Saló ou os 120 dias de Sodoma expandir a individualidade, nem que para isso precise deixar aflorar perversões e experiências masoquistas nesta busca de libertação. Libertação esta que vem, é bom dizer, não somente aos que torturam. Sob um olhar mais superficial, pode parecer uma ode a violência, ao lado mais perverso que habita a alma humana, afinal de contas não é sempre que vemos sodomizações, pessoas se alimentando de fezes, outros sendo obrigados a ingerir alimentos cheios de pregos ou mesmo forçados a urinar em seus algozes para que estes alcancem o êxtase. O prazer, aliás, é o conduto pelo qual os personagens parecem chegar a uma espécie primitiva de virtude libertária. 

Por mais que Saló ou os 120 dias de Sodoma seja um filme muito mais para ser sentido do que racionalizado, há de se entender que Pasolini, fiel a seus ideais e às batalhas que travava diariamente contra o preconceito e o sistema, ataca os poderes instituídos como responsáveis por disseminar ainda mais os conceitos que fazem da sociedade esta coisa predominantemente vazia. Os torturadores principais são representantes destes poderes que criam as regras, e sua presença nada mais é do que a tentativa de Pasolini de mostrar o que eles fazem conosco, utilizando para isto a metáfora extrema que carrega o filme. 

Creio que muitos não chegariam nem a metade caso se propusessem assistir Saló ou os 120 dias de Sodoma, não tanto por conta da violência gráfica, da imagem que oprime quem assiste, ora causando náuseas, ora despertando incomodamente uma pulsão sexual primitiva, mas pelo clima, pela maneira violenta como a forma entra em simbiose com a fábula. Aberração, quimera cinematográfica, Saló ou os 120 dias de Sodoma é um filme de extremidades que, paradoxalmente, evoca o poder da palavra, sobrepondo ele ao da imagem, já que mesmo com mulheres e homens nus a sua disposição, as pessoas só se excitam de verdade ao ouvirem relatos, imaginando situações para depois pô-las em prática. Em todo filme é sintomático este relevo da palavra.

Complexo e libertário, bem ao estilo de Pasolini, este ainda é um filme forte no alcance de suas intenções ao nos mostrar que o humano é bem mais do que amor e necessidades básicas. Ele, o humano, é tão multifacetado que nem mesmo o mais competente estudo, ou mesmo a mais brilhante obra de arte, pode chegar à utopia da definição. Cada coisa é uma partícula da tentativa, numa busca eterna. Não por acaso, e dada sua complexidade, Saló ou os 120 dias de Sodoma possui até uma bibliografia essencial como parte de seus créditos iniciais, coisa que nunca tinha visto em minhas experiências com o cinema.

sábado, 10 de julho de 2010

John Woo volta à Batalha com Filmaço


Adoro filmes de guerra. Não sei totalmente porque, mas acredito que seja pela forma como um confronto destes, entre homens que não fosse terem nascido em locais diferentes, intercederem a deuses diferentes, terem ideologias diferentes, ou qualquer outro motivo, faz com que certos aspectos inerentes aos seres humanos aflorem, ou se mostrem com mais clareza. O heroísmo de alguns e a covardia de outros. Numa guerra ficam mais evidentes estes indivíduos arquetípicos, geralmente comandantes de tropas que lutam sem ao menos saber por que estão lutando. No cinema americano são celebres os filmes de guerra. Os melhores (e são muitos os excelentes) exploram com profundidade a colisão, os aspectos psicológicos, os danos causados aos que vão e aos que ficam. Os comuns são ufanistas, exaltam um patriotismo falso como justificativa para a expansão de territórios ou mesmo para a obtenção de recursos que não são os seus.

Na China existe uma tradição de filmes de guerra que voltam ao passado das dinastias para mostrar embates entre reinos, num trabalho de resgate de sua história milenar, da qual pouco se sabe com precisão, a não ser por registros da escrita e das pinturas antigas. Em geral não gosto tanto destes filmes chineses, eles não me empolgam muito, assim como os filmes ocidentais rasos sobre as guerras, por apresentarem as mesmas falhas, as mesmas tipificações errôneas e reducionistas. A despeito das carências de estrutura, muitos gostam destes filmes pela beleza, pela grandiosidade das produções, pelas coreografias belíssimas de luta. Para mim isto não é o suficiente na construção de um todo, é mera técnica escondendo fissuras narrativas, de timming, de atuação. Enfim, cada um sabe o que lhe agrada ou deixa de agradar no cinema. Grandes e celebrados filmes recentes, como Herói e O Clã das Adagas Voadoras, só para citar dois, possuem estilo visual belíssimo, mas deixam a desejar em alguns dos elementos supracitados. Este texto não é um desagravo aos filmes chineses de guerra, longe disto, até porque considero alguns ótimos, verdadeiras aulas de certos aspectos cinematográficos. Bem por isto suas técnicas são cada vez mais copiadas pelo cinema ocidental (ou você acredita que as grandes batalhas épicas, com milhares de figurantes, são invenções de Peter Jackson na Trilogia do Anel?).

Depois de um longo tempo afastado do cinema oriental, o diretor John Woo, que criou fama e dinheiro em Hollywood, voltou a sua terra para a produção justamente de um filme de guerra e artes marciais no que diz respeito ao mais tradicional no cinema chinês. A Batalha dos 3 Reinos é esta produção pela qual Woo buscou um resgate próprio, creio que por conta de seus últimos filmes que em nada lembraram o emergente cineasta que outrora veio do oriente referendado por fama e sucessos enormes. É um filme grandioso, cheio de figurantes, com ambientação nos primeiros séculos depois de Cristo e fala sobre a tirania de um primeiro-ministro que para consolidar seu poder, não bastando a dominação que faz do imperador uma marionete em suas mãos, pretende abrir guerra contra dois reinos chineses que ainda não se curvaram ante sua autoridade. Poderia ser mais um filme destes que exaltam heroísmos e bons sentimentos acima de tudo. Poderia, pois tendo um John Woo de volta a velha forma, não haveria como A Batalha dos 3 Reinos ser apenas rico visualmente, ou mesmo um multiplicador dos cânones do gênero.

Mesmo com filmagens portentosas, milhares de figurantes, e outros elementos que o balizam dentro do gênero no qual é proposto, A Batalha dos 3 Reinos é mais do que um simples filme de batalha. Há, e não haveria como fugir disto, uma valorização do heroísmo, da defesa da propriedade e dos que são caros, terreno fértil para bidimensionalizar qualquer relato. Johh Woo, porém, faz um trabalho tão intenso de valorização dos personagens, que não há como ficar alheio nem mesmo a demonstrações que em outros filmes seriam meras declarações ufanistas e inverossímeis de valentia e bravura. Há uma alma em A Batalha dos 3 Reinos que falta em outros filmes do gênero. John Woo sabe muito bem por vezes estreitar o foco, mesmo com sua vocação de esteta, de diretor preocupado com o elemento visual que, aliás, é riquíssimo no filme, em prol da construção de uma história que empolga quando tem de empolgar e emociona quando tem de emocionar. Impossível ficar passivo aos dramas das pessoas, às muito bem escritas e filmadas sequências que mostram as maquinações de generais que lutam mentalmente uma batalha que quando vai aos campos, às vias de fato, já está praticamente decidida. É um filme de guerra de amplo sentido.

Como apreciador de filmes de ação, não posso deixar de sublinhar a beleza coreográfica da guerra filmada por John Woo em A Batalha dos 3 Reinos. Movimentos de câmera corroboram com os corpos em combate, numa organicidade que eleva a ação a níveis empolgantes. Fora o elenco que está soberbo e que conta com grandes atores orientais, entre eles os grandes Tony Leung e Takeshi Kaneshiro, para citar dois, o que salta aos olhos é a vibração da direção de Woo, que parece milimetricamente responsável pelo filme. Nem mesmo algumas inconstâncias, como a maneira meio descuidada com a qual os personagens se intercalam à frente da história,  diminuem a força do relato. Prova deste grande momento de Woo é uma conversa entre líderes que se dá por meio da música, uma sequência de rara beleza e que evidencia o cuidado na construção de um filme que se apresenta grandioso, como os de seu gênero, mas dotado de uma força interna que não é muito comum a seus irmãos.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Inferno e o fantasma de Krzysztof Kieslowski


Substituir Krzysztof Kieslowski não é fácil, pelo menos eu imagino que não seja. Quando morreu em 1996, o polonês trabalhava no que seria sua mais nova trilogia, inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri. Após a Trilogia das Cores, composta de três filmes sublimes, Kieslowski iria levar às telas Paraíso, Inferno e Purgatório. Morreu antes de iniciar qualquer um dos três e levou consigo a possibilidade de mais uma trinca de obras-primas com a sua assinatura. Seu co-roteirista habitual Krzysztof Piesewicz escreveu os três roteiros e os ofereceu a jovens cineastas europeus. Inferno foi dirigido pelo emergente diretor bósnio Danis Tanovic, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Terra de Ninguém, um belíssimo relato de guerra. Felizmente o debut de Tanovic não foi sorte de principiante, ele é um realizador de méritos, mas não é Kieslowski e isso fica claro.

Há os que dizem que um estilo estabelecido se copia facilmente, afinal os códigos estão visíveis e ao alcance de qualquer um. Não é bem assim, pois se fosse, Almodóvar, Lynch e Allen, só para citar três grandes diretores de estilo marcado, teriam cópias de seus filmes aos borbotões. Cópias são cópias e nunca saem como o original, pelo menos não com o mesmo alcance. Tanovic se esforça para entregar algo digno da herança de Kieslowski. É nesta reverência demasiada que reside a armadilha onde Tanovic cai principalmente no primeiro terço do filme. A preocupação de entregar algo sensível, condizente com o histórico do projeto e com a densa narrativa proposta, das três irmãs de almas fragmentadas que sofrem por conta da herança que lhes impuseram, visivelmente faz com que o bósnio se exceda de início nas metáforas visuais, nos momentos de suspensão. Ele quase passa do ponto ao sublinhar demais musicalmente algumas cenas que seriam beneficiadas por momentos de silêncio. Sente-se a pressão que o nome Krzysztof Kieslowski exerce sobre o diretor, então com 36 anos, em seu segundo longa-metragem. Aos poucos, felizmente, ele vai se soltando, segurando as rédeas da trama conforme suas convicções, e aí o desenrolar fica mais interessante e o filme cresce consideravelmente.

As irmãs protagonistas sofrem por serem herdeiras de um drama pesado de desfecho trágico. O passado influencia fortemente seus tempos presentes e, consequentemente, sua trajetória vindoura. Lembrei-me de Bergman ao assistir Inferno, de início pela forma como Tanovic estreita o foco nestas mulheres, seus olhares furtivos, suas atitudes passionais e extremamente humanas, condicionadas, repito, a acontecimentos do passado. Bergman, suas mulheres e a maneira como as retratou através de personas cinematográficas, são também referências quase que tangíveis. As paredes vermelhas de uma das residências também me lembraram o sueco e o rubro leito de morte de Agnes em Gritos e Sussurros. Há ainda uma piscadela para quem assistiu a Trilogia das Cores, esta sim uma homenagem aberta, interessante e bem bonita. Não há nada de errado em homenagear, reverenciar, desde que isto não salte aos olhos do espectador como prato principal da narrativa. Em Inferno isso quase acontece, felizmente quase.

No final de tudo, entre prós e contras, Inferno se configura em um drama interessante e profundo. Tanovic sai-se bem num drama urbano, buscando outros ares para sua narrativa, fora dos campos de batalha. Não fosse a necessidade de emular Krzysztof Kieslowski, expediente que imagino impossível, além de cansativo, Danis Tanovic poderia ter feito um filme mais regular. Seu talento, porém, é suficiente para que esqueçamos a grandiloquência dos acordes iniciais, os excessos que soam como perfumaria, e embarquemos sem cinto de segurança nos traumas destas três mulheres, procurando as respostas que elas precisam, e nos envolvendo com um belo e humano filme, irregular, mas nem por isso menos bonito e interessante.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Eclipse e as vuvuzelas das salas de cinema


Na próxima sexta-feira estreia Eclipse, a terceira parte da série Crepúsculo, aquela que encanta jovens e acaba por os levar às livrarias, em busca da obra original, e ao cinema à procura do Robert Pattinson e do Taylor Lautner sem camisa. Só pelo fato de eles, os jovens, cada vez mais arredios e desinteressados, frequentarem estes dois locais, a febre originada pela escritora Stephenie Meyer já valeu à pena. Não assisti a nenhum dos filmes, e dos livros só conheço aquelas capas estranhas que apinham as livrarias e que por puro oportunismo são copiadas por outras editoras que só querem uma lasca do público cativado por Crepúsculo. Já ouvi que os livros são uma bomba, que os filmes são mela-calcinha de menina sonhadora (desculpem os termos, mas é assim que as pessoas falam). Sei lá, pode ser que esteja me deixando levar por opiniões alheias. Pode ser que minha curiosidade não tenha surgido por encarar toda esta febre somente como um caça-níquel poderoso, que conseguiu trazer para si a fatia do mercado que mais interessa hoje aos exibidores de cinema, para falar só da sétima arte, que é dos 12 aos 18 anos.

Não é despeito, por meus filmes queridos não virarem febre e não encherem os cinemas, mas uma espécie de irritação com a banalização do cinema frente a celebridade e o furor adolescente sem critério. Não queria generalizar, mas está difícil. O que me enche o saco é que, salvo uma que outra alma mais atenta, a maioria dos que já garantiram uma bilheteria monstro para Eclipse é composta por pessoas que pouca bola dão para o cinema. Aliás, tente falar mal da saga para uma crepusculete (sim, elas ganharam até uma alcunha que as designa como grupo), tentando argumentar as fragilidades da história, o paralelismo fraco e inevitável com Romeu e Julieta, os múltiplos motivos para não se levar tãããoooo a sério assim esta onda toda, e verá que ela pode virar uma arma mortal, de uma hora para outra. É uma reação passional, compreensível, afinal protegemos, ou queremos proteger, aquilo que amamos. Com esta posição de desagravo pretendo proteger, pelo menos para minha própria integridade, meus conceitos de cinema.

Pode até ser preconceito, concordo que não tenho como conceitualizar algo com o qual nunca tive contato, mas é que estas ondas, estes fenômenos adolescentes que não evoluem com o tempo são mais velhos que andar para frente, e o que incomoda é esta previsibilidade. Porque assistir algo que já se sabe, nem que seja mais ou menos, por quais caminhos vai trilhar? Por isso parei de ver novelas, que eram tão interessantes no passado, e que agora são tão óbvias e insossas. Nem para conto de fadas servem. Ah, quase ia esquecendo, tem outro motivo que não me faz ir ao cinema conferir esta onda: odeio barulho e conversas paralelas durante a audiência de um filme. Pelas opiniões coletadas e relatos de amigos que tiveram a coragem de ir numa sessão com centenas de crepusculetes, imagino que assistir aos filmes com elas seja como estar num estádio barulhento, só que sem o futebol. É isso aí, as crepusculetes são uma espécie de vuvuzela das salas de cinema. No futebol até que são legais aquelas cornetas todas, mas não venha me dizer que no cinema se consegue atenção com alguém gritando “lindooooooo”, “que amoorrrrrr”,”que fofooooo”, do seu lado, porque daí não cola.

Ps.: Refiro-me às crepusculetes sempre no gênero feminino, na onda da maioria, mas tenho consciência que os vampiros que viram purpurina ao sol e a mocinha que não sabe se transa com um lobo ou um morcego também fazem a cabeça de alguns meninos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

De tanto bater, o coração de Saramago parou


José Saramago morreu. Triste sim, mas não surpresa se levarmos em conta a saúde debilitada que lhe era peculiar nos últimos tempos (e que o luso teimava em não demonstrar), e sua idade avançada, 87 anos. Dizem por aí, e com sua morte os elogios se intensificarão, que Saramago era o maior escritor vivo da língua portuguesa. Não posso afirmar com tanta certeza, afinal em termos de literatura sou um iniciante, alguém que ainda tateia à meia-luz em busca de referências, de experiência no mundo das letras. O que do “alto” de minha ciência, que se não é lá estas coisas para os outros, para sim serve de algo, posso dizer é que Saramago era polarizador, difícil era ficar no meio termo diante de sua prosa ou mesmo de suas opiniões, que iam de polêmica em polêmica, geralmente em ataques à religião (era ateu) e ao neoliberalismo (era comunista), angariando, em semelhante número, detratores e admiradores. Não entro no mérito religioso e político, detenho-me em suas palavras, ofício que lhe trouxe tardiamente sucesso, reconhecimento e um Prêmio Nobel de Literatura, o único a um escritor de língua portuguesa. Não é pouco. 

Saramago escrevia de maneira muito peculiar, com raros pontos finais e longas frases cadenciadas por vírgulas. Ele evitava parágrafos, o que torna suas páginas monoblocos de texto, afugentadores daquele leitor que busca constante respiro nas alíneas. Sua narração não raro é interrompida por uma divagação que parece alheia ao principal, uma digressão que, conforme vai se tomando contato com sua obra, constata-se recorrente, parte de seu estilo. Não é literatura fácil, muitos o acusam de ininteligibilidade, mas certamente tem recompensa certa os que apreciam seu estilo. A perda de Saramago não somente será sentida pela impossibilidade de novas obras, pelo encerramento do ciclo de um artífice da palavra, mas também porque, independente de concordarmos ou não com suas posturas sociais radicais, perdemos um pensador, algo que rareia cada vez mais.