segunda-feira, 13 de setembro de 2010

12º Caxias em Cena: Rubros: Vestido - Bandeira - Batom

O público presente no Teatro Pedro Parenti na noite de ontem, domingo frio que marcava no calendário o dia 12 de setembro, foi agraciado com uma dramédia mineira tocante. "Rubros: Vestido - Bandeira - Batom", da Cia. Bárbara, foi apresentado para um teatro com poucas pessoas no primeiro final de semana do 12º Caxias em Cena, que acontece até o dia 26 de setembro na cidade de Caxias do Sul.

Conduzido com graça e controle pelas ótimas Ana Régis e Patrícia Reis, "Rubros..." aposta em seu texto para fazer rir e emocionar seus espectadores. A peça constrói uma relação de anos de amizade em pouco mais de 60 minutos, quando narra a história de Helô e Tereza - amigas que dividem tantas amarguras quando bons momentos.

Escrito por Adélia Nicolete, "Rubros..." consegue agarrar seu público através de um ritmo que nunca é excessivo, seja na comédia ou no drama, e que mesmo assim comove e alegra sem soar pretensioso. A complacência e identificação com suas personagens são muito compreensíveis, assim como o interesse que surge conforme a trajetória das duas personagens vai apresentando seus contornos.

Vencedora do prêmio USIMINAS-SINPARC em 2008 nas categorias Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Texto, "Rubros: Vestido - Bandeira - Batom" marca o início de uma interessante programação para o 12º Caxias em Cena, que hoje às 20h30min apresenta o drama policial "Hamelin", protagonizado pelo global Vladimir Brichta. Acompanhe a cobertura do festival de teatro pelo The Tramps.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Lar da Intolerância


Confesso que não vi e nem quero ver Nosso Lar, por estes dias tão alardeado como o mais caro filme brasileiro. O orçamento, o lançamento, as expectativas de bilheteria, tudo é grandioso neste projeto que levou às telas a obra mais famosa psicografada pelo médium Chico Xavier. Já li muita coisa sobre o filme, muito crítico descendo a lenha no visual brega, nos diálogos declamados e em todo viés doutrinário da narrativa. Não tenho vontade de ver Nosso Lar por diversos motivos, entre eles os citados acima, mas nos quais não se encontra ligação entre o fato dele ser galgado em crenças religiosas e a inexistência em mim das mesmas. Não quero ver o filme por que acredito que não seja bom cinema, só isto.

O que é ridículo comprovar, mas infelizmente inevitável, é que as pessoas misturam as coisas. Tudo bem, que quem compartilha dos preceitos religiosos pregados pelo filme se sinta mais convidado ao cinema, eu entendo, é normal. O problema está em confundir as coisas, em achar que tudo relacionando a repercussão do filme (críticas, sejam elas positivas ou negativas, ou mesmo comentários mais superficiais) esteja ligado a crença, neste caso à doutrina espírita. Procure verificar em algum blog de qualquer crítico que teça linhas  desfavoráveis a respeito de Nosso Lar, e verá que nos comentários sempre há alguém a invocar o respeito pela fé como escudo para proteger o filme.

Não estou aqui levantando bandeira contra esta onda de filmes ligados ao espiritismo, que parece uma das pragas cinematográficas brasileiras do momento, mas que goste ou não, tem seu público, e contribui para a diversidade do cinema feito no Brasil. Custo a entender como alguém, com algum traço de racionalidade, possa ser portador de tal cegueira conspiratória que dissemina o “ódio” àqueles que não corroboram consigo - não na esfera religiosa, mas na esfera cinematográfica (embora eles embaralhem os dois) - do entusiasmo por Nosso Lar e sua visão "confortante" da vida após a morte. Parece que para estes, os críticos que falam mal de Nosso Lar deveriam todos arder no fogo do inferno. Alguém já ouviu falar em respeitar a opinião dos outros? O respeito, este tão em falta, não é um dos pilares de qualquer orientação espiritual?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hemodiálise

Bom...quem já viu o primeiro, o segundo, como deixar de lado o terceiro? Estou falando do filme Eclipse da saga vampiresca Crepúsculo. O filme é chato demais! Nem mesmo a beleza do elenco que se mostrou um dos pontos fortes em sua estreia e que agora com o passar do tempo se transformou num elemento qualquer, salva. Na verdade não sei o que é mais chato: o enredo que gira em torno de um exército de vampiros "recém-nascidos" ou o conteúdo prá lá de meloso entre os protagonistas Jacob, Bella e Edward, um ménage a trois em que não rola nada, ficando no tipo “papai e mamãe”. Outro ponto é a virgindade da mocinha, que em alguns momentos até pretende se entregar aos desejos carnais, mas sem resultado efetivo. Desculpem-me os aficcionados, mas a atriz Kristen Stewart tem sempre a mesma cara em todos os momentos, sem interpretação alguma. Bah, minha....com dois bofes daquele, ainda não ter aproveitado – te decide garota...ou o cachorro ou o morcego. Em tempo: o título do filme faz juz ao enredo, eclipse total - melhor ficar no escuro. Ai que saudades de Béla Lugosi.

Raulino Prezzi, especial para o The Tramps

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os filhos das ditaduras


Ao assistir o belo filme argentino Kamchatka, me indaguei sobre as formas com as quais o cinema latino-americano registrou, e ainda registra, os conflitos ocasionados pelas ditaduras que se proliferaram na América do Sul, principalmente nas décadas de 60 e 70. No Brasil ainda não fez um grande filme sobre a ditadura, sobre o golpe militar que vitimou tanta gente. Muita tortura, presos políticos, exilados, e nada de um filme nacional abordar dignamente o tema. Houve tentativas, confesso que não vi todas, mas, por exemplo, O Que é Isso Companheiro?, por mais que seja um filme de méritos, não dá conta da alcunha de “grande”, seja pela direção frouxa de Bruno Barreto ou outros motivos que não permitem ao filme refletir com mais consistência sobre o período tão doloroso de nossa história, não tão longínquo assim. Ainda no embalo do filme argentino, comecei a pensar, agora em âmbito latino, quais os filmes dos quais gostei, que têm como pano de fundo estes golpes militares, e cheguei a algumas conclusões que os colocam dentro de uma mesma característica: falam sobre crianças.

Tentar abarcar toda complexidade política, ideológica e social que permeia uma mudança tão radical quanto a instauração de um regime ditatorial ou totalitário, me parece um erro, já que os enredamentos de cada um destes elementos são tamanhos, que não haveria como querer abraçá-los todos sem parecer superficial. Inteligentemente, alguns cineastas reduzem seus focos para histórias pessoais, como maneira de mostrar num campo de ação diminuto, o que de fato acontecia com as pessoas de um modo geral. O foco, nestes casos de filmes mais intimistas, são as pessoas, e acredito que seja isto que os sobreponham aos exemplares que se prestam pura e simplesmente ao estudo histórico dos fatos por meio da ficção. Voltando ao tema das crianças, dos filhos da ditadura, recentemente em minha passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, uma busca filial pelo não-esquecimento do período traumático, que vitimou seus pais, além de sua própria inocência, se mostrou sintomática, pela exibição de dois documentários que estabelecem diálogo justamente por esta necessidade de não deixar a memória esmorecer. O chileno Mi Vida Con Carlos e o brasileiro Diário de um Busca, são dirigidos por crianças da época que, de alguma maneira, ou pela perda precoce do pai, ou por uma vida de andanças acompanhando os pais no exílio, e posteriormente perdendo a figura paterna, desiludida com a política e com suas ideologias, de maneira trágica, sofreram e ainda sofrem na carne os efeitos do período nefasto.

No campo da ficção, as lentes voltadas às crianças das ditaduras resultaram em filmes interessantíssimos, justamente por evitar o tom político/armamentista como fio condutor, sem com isto tornar suas narrativas mais palatáveis ou “fofas”. O brasileiro O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias me parece o mais pálido de uma boa leva recente. Mesmo com intenções louváveis, com narrativa interessante que mostra a infância dos filhos dos perseguidos políticos, que viviam sem saber os motivos das ausências intermináveis de pais exilados ou mesmo mortos, o filme se apresenta insípido, singelo demais. Machuca, filme chileno muito laureado desde sua estreia, mostra os abismos sociais entre duas crianças amigas, emolduradas pelos conflitos que marcaram a transição a fórceps do governo Salvador Allende para a traumática ditadura Augusto Pinochet. Este sim é um belíssimo filme, pois dá conta de desenvolver seus personagens de maneira íntima, colocando-os em perspectiva sobre um plano de fundo conflituoso, dando a ele enfoque paralelo que agiganta a história contada. Já Kamchatka, que formaria rico painel com os dois acima citados, fala sobre uma família que precisa largar tudo para morar num sítio afastado do centro nervoso e politicamente efervescente de Buenos Aires. Todo enfoque é direcionado aos filhos, o mais velho, que entende um pouco do que acontece e encontra alento nas histórias de Houdini, aquele que de tudo escapava, e o mais novo que parece um tanto quanto alheio a realidade, mesmo que sofra os efeitos do meio, fazendo xixi na cama todas as noites. Em Kamchatka sabemos pouco ou quase nada da política, dos conflitos ideológicos, a não ser por uma que outra notícia de alguém que foi pego e assassinado, ou pela tensão muito bem retratada através dos grandes Ricardo Darín e Cecília Roth, intérpretes dos pais da família. É um filme muito bonito, portador de um triste epílogo, que consegue materializar numa simples imagem a dor de quem cresceu naquela época, e que traz as cicatrizes de uma batalha desigual.

O período das ditaduras poderia ser explorado pelo cinema latino-americano, como bem faz o europeu e o americano em relação às grandes guerras. Claro, os orçamentos são muitas vezes entrave, mas como o período funesto da história latina é caracterizado por brigas políticas, embates sim, mas não em grandes escalas de ação, como numa guerra, soa mais do que interessante e acertado procurar saber, por meio de histórias intimistas, como estas situações afetaram as pessoas. Neste contexto, não me parece estranho que se busque o retrato infantil da época, afinal de contas, mesmo que alguns morram, sejam torturados e nunca mais voltem ao seio familiar, é nelas, nas crianças, que o conflito se configura como uma marca profundamente enraizada e indelével.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

5 X Favela – Agora Por Nós Mesmos


Nos anos 1960, o filme Cinco Vezes Favela, que contava com a regência de vários diretores de classe média (hoje referências) se tornou um das sementes do Cinema Novo pela forma como tratava os filhos destas comunidades periféricas e mais precisamente pela maneira como os retratava. Por meio de um destes diretores, Cacá Diegues, é que surgiu este 5 X Favela – Agora Por Nós Mesmos, resultado de diversas oficinas de cinema direcionadas a moradores de favelas cariocas. Então, diferente de 50 anos atrás, ele é composto de cinco filmes captados de dentro para fora, sob a ótica de quem vivencia o cotidiano de áreas como estas. Se antes os intelectuais serviram de interlocutores para um povo oprimido, que não tinha voz suficiente para dizer a que veio, 5 X Favela – Agora Por Nós Mesmos é um filme pelo qual esta gente, ainda marginalizada socialmente, se expressa diretamente.

Exibido recentemente no Festival de Cinema de Gramado fora de concurso, numa sessão especial, após passar em Cannes e ter obtido consagração no Festival de Paulínia, o filme alcança o que muitos deste tipo episódico não conseguem: unidade. Por mais que cada história siga uma linha distinta, juntas elas formam um painel de facetas que enriquecem umas as outras, na busca do retrato mais fidedigno possível das situações cotidianas da periferia carioca. Extremamente cinematográficos, bem dirigidos e interpretados, os curtas que compõe o todo são excelentes, e é difícil escolher um como destaque, até porque não consigo percebê-los essencialmente independentes (embora assim ainda sejam excelentes), e sim como frações fundamentais de um complexo que funciona, e muito. Mas se tivesse que apontar meu favorito, este seria Arroz Com Feijão, a história do menino que cansou de ver o pai levar na marmita somente a combinação do título, pela maneira delicada e engraçada como cria esta espécie de fábula naturalista.

Juntamente com Bróder de Jéferson De (sobre ele, falo mais quando o filme estrear comercialmente) 5 X Favela – Agora Por Nós Mesmos aponta para, quem sabe, uma nova tendência na cinematografia brasileira, pelo menos na parte que diz respeito a retratação dos moradores de comunidades carentes, não raro confundidos - ou mesmo generalizados - com a bandidagem que se prolifera no meio. Na favela não tem só bandido, ou só herói. É um local que conserva suas idiossincrasias, com qualquer outro. A única diferença é que, já que o meio afeta inexoravelmente o individuo, nascer e crescer bem distante dos bons colégios, da educação galgada no que de mais atual a pedagogia oferece, entre outros fatores, pode oferecer um caminho mais espinhoso, e neste percurso acidentado o que separa o “permanecer reto” e o “buscar atalhos na criminalidade”, é uma linha bem tênue. É, parece que o cinema brasileiro não mais comporta arquétipos e estereótipos cansados, como modelos de representação cinematográfica deste povo que vive ao largo do asfalto e das grades que "protegem" as classes média e alta de qualquer cidade.

sábado, 21 de agosto de 2010

O Ritmo Delicioso do Cinema dos Anos 80


Sabe aquela coisa de “deveria ter ficado na infância”? Não? Vai dizer que você nunca viu novamente aquela série que amava quando criança, ou aquele filme que te fazia cabular os temas, até a aula, e que anos depois, sob outros filtros (afinal você não é a mesma pessoa) esta coisa perdeu o encanto? Aí vem o sentimento de que pelo bem da lembrança boa de outrora, aquilo deveria ter ficado mesmo como memória, nunca sendo revisitado. Comigo aconteceram várias vezes. Como me martirizo por ter tentado assistir Thundercats novamente. Lion era bem mais heróico pelos meus olhos de quinze anos atrás.

Pois bem, este texto não é uma lamúria, até por que o intuito dele é falar exatamente sobre o inverso do que seu parágrafo inicial anuncia, ou seja, a alegria imensa de revisitar algo que era saudosa lembrança, e que se mostra bom, muito bom, mesmo após anos. Aconteceu isto comigo há pouco, quando resolvi assistir novamente, passados longínquos 14 anos, Footloose - Ritmo Louco, um filme que sempre me vinha pela excelente trilha sonora e por ter me apresentado Kevin Bacon, ator que hoje admiro. Bem, foi tão bom constatar que o filme não envelheceu, continua bom, aliás, muito melhor do que eu lembrava. Uma cidade pequena na qual não se pode dançar, onde existe uma repressão a determinados tipos de expressão, e que vira morada de um garoto da cidade grande, acostumado com a liberdade que, de cara, ele nota não poder mais gozar, pelo menos não com a mesma intensidade. A premissa é simples, parece até banal, mas há muito agregado neste filme que pode até passar por simplório entretenimento, mas não é.

Footloose - Ritmo Louco é então protagonizado por um forasteiro que, no decorrer da trama, mudará as coisas na cidade interiorana e retrógrada, cujos núcleos, a princípio, ora o repelem por preconceito, ora se encantam com a espécie de aura progressista que dele emana. Ren não se encaixa no tipo badboy que atrai as caipiras, nem muito menos no certinho que assume o papel de vítima do preconceito de uma cidade que pensa pequeno e tem medo de crescer. Neste filme o protagonista é somente um catalisador para os conflitos que expõem seu verdadeiro tema: a dificuldade de comunicação entre as gerações. Pode parecer pretensão ou mesmo tentativa vã de “cerebralizar” algo que se presta (na superfície) somente a um entretenimento que mistura muito bem música, boas atuações e história simpática, mas não. Em Footloose - Ritmo Louco a mostra de uma sociedade que tenta privar os jovens da música, dos livros e de qualquer outra influência que possa macular o comportamento que ela, a sociedade, e seus poderes, julgam ideais, aponta para a dificuldade dialética entre as gerações, e as conseqüências decorrentes desta dificuldade. Estas conturbadas relações, principalmente entre pais e filhos, são evidenciadas no filme pela forma como Ariel, interesse romântico de Ren, e seu pai, o pastor, espécie de líder da repressão moral aos jovens da pequena cidade, estabelecem suas conexões familiares.

Pode-se certamente acusar o filme de utilizar algumas elipses para dar saltos que jogam para baixo do tapete alguns conflitos, mas sabe quando o filme cativa de tal maneira que te faz um pouco indulgente? Não creio que Footloose - Ritmo Louco seja uma obra-prima, tem lá seus defeitos e suas inconstâncias, mas é deliciosamente empolgante como entretenimento (me pegava balançando os ombros durante as músicas) e nada raso se apurarmos o olhar em busca de significâncias mais sólidas e relevantes. Sobreviveu ao tempo, encantou em idos tempos o Marcelo que gostava do Lion e dos Thundercats e encantou ainda mais o agora cinéfilo Marcelo, que já nem acha a Cheetara tão bonita assim, mas que continua fã  incondicional dos passos de Kevin Bacon pela cidade que tentou sufocá-lo, mas que acabou cheia de ar e de vida.

Ps.: Destaque para a abertura do filme, genial, os pés dançando ao som do icônico hit de Kenny Loggins.
Ps².: Coloco em relevo também a cena do duelo entre Ren e Chuck, embalados por outro hit oitentista, que lembra aqueles brigas automobilísticas de vida e morte que os filmes dos tempos da brilhantina exploravam, aqui homenageados num embate de tratores, evidenciando o caráter interiorano da cidade. Muito bom.
Ps3.: Que jovem, naquele contexto, extravasaria seus sentimentos, oprimido e farto de tanto preconceito, dançando, ao invés de quebrar alumas coisas e depredar propriedades? Cena antológica.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Brasil titubeante do Festival de Cinema de Gramado


Após nove dias, eis que o Festival de Cinema de Gramado chegou ao seu final. Foi uma jornada em meio a filmes, conversas com gente de cinema e a convivência com o povo hospitaleiro de Gramado. A seleção dos nacionais deixou clara a fragilidade do cinema brasileiro, que outrora foi o carro-chefe de uma produção cinematográfica latina, mas que hoje, a julgar pelo conjunto que esteve em Gramado, titubeia e se lança desesperado em busca de identidades, de formas de retratar um país que, por seu tamanho continental, se vê ideologicamente desprendido do resto da América do Sul. Falo isto, pois a seleção de filmes estrangeiros foi muito superior a nacional, com títulos fortes, mesmo os vindo de países sem muita tradição com cinema, ou quase nenhuma, como é o caso da Nicarágua. Oriundos de cantos diversos, estes títulos estrangeiros de alguma forma dialogam entre si, o que prova a competência dos curadores do Festival, pelo menos no que tange a esta parte da seleção, na construção de um panorama.

Pelos filmes brasileiros exibidos, ficou a impressão que temos atualmente bons títulos e artistas emergentes valorosos, vide talentos como Jeferson De e seu ótimo Bróder, um filme de periferia, mas que, assim como o empolgante 5 X Favela – Agora por Nós Mesmos, foge do senso comum, para mostrar um povo que é periférico sim, mas que não precisa ser taxado de bandido. Também é animador que exemplares como Elvis e Madona ou A Última Estrada da Praia, exibidos na Mostra Panorâmica, dialoguem fortemente com o público, sendo ótimos filmes, populares sem serem populistas. Não há, porém, por egoísmo e circunstâncias mercadológicas, um “cinema brasileiro”. Existem sim “filmes brasileiros”, que trilham caminhos tortuosos e solitários em busca do público, ou da parcela dele que os interessa. Sem este senso de unidade, para aí sim a formação de um conjunto cinematográfico brasileiro, acabar com os monstros e diminuir as dificuldades custará muito mais tempo e empenho.