domingo, 5 de dezembro de 2010

A Vida dos Peixes

E se...? Talvez não exista uma interjeição mais infeliz tão utilizada quanto esta. Três letras que, quando combinadas, geram uma infinidade de sensações. Um misto de incerteza, nostalgia, aflição e indefinições nasce quando a questão é o que poderia ter sido se nossas escolhas fossem outras. As suposições intrínsecas ao “e se...?” são o tema no novo drama de Matías Bize, “A Vida dos Peixes”, onde um casal desfeito há anos se reencontra e toda a complexa teia de sentimentos que um possuía pelo outro volta a tona.

Começamos “A Vida dos Peixes” ao lado de Andrés e alguns amigos em uma festa de aniversário. As piadas e o clima de descontração são abandonados quando se revela ao espectador que Andrés está voltando para a Alemanha, e que sua rápida visita após 10 anos afastado está no fim. Andrés então é informado que Bea, uma antiga namorada, chegará logo. Decidido a evitar o possível conflito emocional do encontro, decide ir embora - quando já é tarde demais.

A partir daí acompanhamos o passado de Andrés sendo remontado em pequenas ações, diálogos pouco esclarecedores e muitas suposições por parte do espectador. Seu encontro com antigos amigos e todas as pessoas que habitaram seu universo há tanto tempo, assim como as vivências de um passado que não poderia estar mais presente, tornam a experiência com “A Vida dos Peixes” um exercício triste e nostálgico para com um mundo que não é o de quem assiste, mas que inevitavelmente passa a ser.

Não se deve revelar muito - ou o pouco que é dito - sobre Bea e Andrés. É um sôfrego prazer acompanhar como voyeur a complicada trama de relações que são ressuscitadas nesse reencontro. Eles são como os peixes que observam em um aquário, numa das mais belas cenas do filme. São expostos em uma redoma e seguem ocupando os espaços vazios do ambiente, nitidamente emanando o mistério que os mantêm absortos no local e em suas funções.

Enquanto revela cada pedaço da vida de seu protagonista, Bize e sua competente diretora de fotografia, Bárbara Álvarez (a mesma de “A Mulher sem Cabeça”), inserem em seus enquadramentos elementos sobrepostos em planos distintos – ora são luzes, objetos e até mesmo pessoas. Tal artifício passa a se justificar cada vez que ele se torna menos recorrente, quando se entende seu tom simbólico, que representa a história de Andrés ficando clara para o espectador – assim como a bela mise-en-scène do filme.

Filmes de retorno são comuns, mas poucos atingem a densidade e melancolia deste “A Vida dos Peixes”. Os recentes “Tudo Acontece em Elizabethtown” e “Hora de Voltar” rivalizam em tema com o filme de Matías Bize, mas ambos seguem através de uma perspectiva mais leve e cômica. No drama chileno, cada sequência é necessária para se construir uma imagem sobre seu protagonista, para que se entenda o motivo pelo qual sua volta é tão pesada e incômoda para si, ainda que agrade todos à sua volta.

Fica evidente a maturidade de Matías Bize como diretor e roteirista, capaz do difícil feito de substituir uma verborragia explicativa em diálogos excessivos por longos silêncios. Um realizador competente, como Bize aqui se mostra, tem a capacidade de escrever com a câmera, de mostrar que a contenção de recursos, simplicidade e naturalidade podem ser melhores que quaisquer aparatos técnicos e artifícios megalomaníacos. Bize ainda deve muito ao seu duo de protagonistas, dois maravilhosos atores que encontram na expressão e controle o tom certo para seus difíceis personagens. São eles: Blanca Lewin, que já trabalhou com o diretor no inferior “Na Cama”, e Santiago Cabrera, que é conhecido internacionalmente pelo personagem Isaac Mendez, da série “Heroes”.

E em dado momento do filme percebe-se que Andrés não consegue ir embora. São inúmeras as vezes que ele se aproxima da saída, ou que se despede de alguém dizendo que está indo, e que um magnetismo invisível o mantém preso ao lugar. Nesse ponto, “A Vida dos Peixes” lembra o magnífico “Os Famosos e os Duendes da Morte” - sensação reforçada por sua cena final. Há uma redenção, ou a libertação do personagem? Assim como em todo o filme, apenas a suposição pode nos fornecer as respostas – exatamente como acontece com Andrés e Bea.


sábado, 4 de dezembro de 2010

A Rede Social e o isolamento entre milhões


A Rede Social é um filme ágil. A analogia com os tempos internéticos em que vivemos, onde somos constantemente obrigados a assimilar o maior número possível de informações, num espaço cada vez mais reduzido de tempo, fica explícita pela forma como o diretor David Fincher conduz a narrativa, que se propõe a esmiuçar os controversos bastidores da gênese da maior rede social do mundo, e uma das empresas que mais se valoriza: o Facebook. Marc Zuckerberg era estudante de Harvard quando conheceu o brasileiro Eduardo Saverin e os gêmeos que queriam fazer um aplicativo social para unir virtualmente os estudantes da faculdade. Entre tentativas frustradas de se tornar popular, de fazer parte de final clubs, de sociedades excludentes, de irmandades hermeticamente fechadas que lhe conferissem status, Zuckerberg, um gênio, se aproveitou de algumas ideias, um que outro lance de sorte, a iluminação vinda de alguém, e juntou com sua capacidade incrível para programação, ainda contando com uma pitada de falta de escrúpulos e alienação, para acertar em cheio e se transformar no mais jovem bilionário do mundo..

Dizem alguns que A Rede Social é o Cidadão Kane da geração internet. Não é exagerado, até por que ambos os filmes versam sobre poderosas e controversas figuras que venceram (ou seria, perderam?) capitalizando para si importantes veículos, cada qual referente à sua época: no caso de Kane, a imprensa escrita, no caso de Zuckerberg, a internet. Pode-se então, dizer que, pelo menos no que tange ao entorno social, Zuckerberg é sim o nosso contemporâneo equivalente a Charles Foster Kane. Sua persona é vista com uma complexidade que enche a nós, espectadores, de dúvidas quanto a quantidade de vilania que existe neste solitário, e quanto de problemático existe na vida deste rapaz que passa por cima de leis e amizades, em busca de algo, algo que, aliás, todos buscamos: aceitação.

A forma como Fincher desvela personagens é um dos muitos acertos do filme. Tanto Zuckerberg como a maioria dos envolvidos na gestação e nascimento do Facebook, são vistos sob diversos ângulos, que nos permitem, senão simpatia total, uma reflexão a posteriori sobre suas reais contribuições para o todo. Sean Parker (interpretado com uma surpreendente segurança pelo cantor Justin Timberlake) é um dos pivôs da separação dos amigos Saverin e Zuckerberg, mas onde estaria o Facebook não fosse sua visão de negócios, meio inconsequente, meio arrojada? Saverin fez mesmo tudo que podia, se esforçou como deveria? Os gêmeos atléticos e com futuro garantido pela frente, mereciam mesmo crédito, e dinheiro, por suscitarem em Zuckerberg, vendo nele alguém que os pudesse ajudar, por conta do sucesso de seu aplicativo de comparação de mulheres, a ideia de uma rede social? Zuckerberg é um alienado, um carente, um canalha, arrogante, autista, meio maluco, ou todas as alternativas acima?

Além de habilidoso no trato de seus personagens, A Rede Social tem linguagem visual inventiva (a utilização de pouca profundidade de campo reforça o isolamento das figuras dramáticas, mesmo quando lidam com milhares de seguidores no reino virtual), ritmo acelerado (desaconselhado para pessoas que não conseguem absorver muita informação em pouco tempo), e uma opção pela alternância do tempo (que mostra as audiências de julgamento e conciliação entre as partes em litígio) que reforça o caráter multifacetado dos personagens que foram protagonistas deste imbróglio. Dizer que é um dos grandes filmes americanos do ano não seria exagero, nem mesmo que é um dos favoritos à algumas categorias em premiações importantes, como o Oscar (eu apostaria em Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator Coadjuvante para Andrew Garfield, outra gratíssima surpresa, e, por que não, Melhor Ator para Jesse Eisenberg).

David Fincher conseguiu mais uma vez, acertou em cheio, não se rendendo às tentações de uma história que, em mãos menos habilidosas, poderia render um filme apenas sobre intrigas no mundo corporativo, mas que nas dele se transformou em algo maior, com muitas linhas de abrangência e significação. Por fim, se Zuckerberg é nosso Kane, e no personagem de Welles temos o mistério de Rosebud, que se revela depois como sendo uma lembrança de infância que afetivamente o persegue, em A Rede Social o “rosebud” de Zuckerberg é mais vivo, mais independente, mas ainda assim ligado a algo que ele perdeu, ou que nunca conseguiu conquistar. Se a Kane não restam escolhas, a Zuckerberg falta, no final, coragem para testar a aceitação de quem se tornou, não só fardo emocional, mas exemplo de que nem todos nós somos suscetíveis a fama, dinheiro ou qualquer outro fator de deslumbramento. Filmaço.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Kinatay e o culto aos gênios fabricados


A crítica de cinema parece viver constantemente em busca de um novo gênio, de um olhar que seja diferente, que fuja da mesmice atual que muitos gostam de relacionar a centenária arte do cinema. Reducionismos à parte, esta busca é sintomática, pois revela uma necessidade, mais da imprensa cultural do que precisamente de quem está preocupado com o presente e o futuro do cinema, até por que cineastas alçados muito rapidamente ao panteão dos “gênios” são descartados com similar velocidade, para darem lugar ao próximo, neste círculo vicioso. Exemplo: o homem da vez é o vencedor da última Palma de Ouro, Apichatpong Weerasethakul, incensado como se fosse uma lufada solitária de originalidade, por seu cinema metafórico, lúdico e cheio de símbolos. Concordâncias ou discordâncias à parte (pauta para um novo post), não demorará muito para que o tailandês dê lugar ao próximo, feliz ou infelizmente. 

Há alguns anos, o filipino Brillante Mendoza era o homem da vez, o emergente que salvaria o cinema do “monstro do conformismo e da gula mercadológica de Hollywood”. Resolvi, é claro, movido pelos elogios e pela curiosidade que eles despertaram em mim, assistir Kinatay, um de seus filmes mais controversos pelos olhos dos críticos que cobriram os festivais onde ele foi exibido. Não há como avaliar toda carreira apenas por um filme, mas o impacto, ou a falta de, que Kinatay causou em mim, provocou esta reflexão sobre  a necessidade que alguns têm de encontrar o novo “gênio do cinema”.

Dizer que Kinatay é ruim, seria fechar os olhos para as evidentes qualidades do filme. Ele inicia com um casamento (que me remete ao expediente de alguns filmes de Claude Chabrol), e depois enfoca o noivo em seu envolvimento com o crime local, na “missão” de acompanhar o corretivo dado pelo tráfico em alguém que não cumpriu seus pagamentos. Brillante trata da perda da ingenuidade do protagonista, por meio de seu olhar, testemunha de algo hediondo, que nunca mais será o mesmo. É como se o cineasta, num ideário pautado pela crítica social, fizesse da transição do momento de luminosidade e alegria (casamento) para os sombrios e tensos momentos do crime (o esquartejamento de uma prostituta), uma espécie de elegia a sociedade filipina, vítima de sua própria condição. O filme tem clima, é tenso e, em determinados momentos, passa esta tensão ao espectador.    

Aí chegam os problemas. Os planos de Mendoza soam artificiais, e a câmera na mão, onipresente, mais atrapalha do que ajuda. Mesmo quando procura nos chocar (por mais que negue esta procura), Brillante parece pudico, “cheio de dedos” em mostrar o que está acontecendo. O filme, ou melhor, as cenas de tortura e mutilação, ficam no meio termo entre o gore e o sugerido, não se decidindo por qual linha seguir. Mendoza foi aclamado por muitos como corajoso e inventivo, mas a rigor, seu filme, longe de ser ruim ou algo que o valha, é um exemplar até certo ponto comum, maquiado por algumas cenas mais fortes e pela linguagem documental que a câmera trepidante e inquieta tenta emular.

Brillante Mendoza tem talento, isto é inegável, e Kinatay me despertou curiosidade sobre seus outros filmes, mas irei vê-los, assim como vi este,  não como quem busca presenciar a gênese de uma revolução cinematográfica, mas com o olhar ciente de que no cinema, e em qualquer outra arte, são mais corriqueiros os ídolos fabricados, do que os gênios de fato e de direito.
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Ps.: Quando relacionei um aspecto de Kinatay a Chabrol, por conta da cena inicial do casamento, fiquei pensando se o fato de os casamentos de Chabrol serem envoltos em festas, com direito a bolo, celebração e tudo mais, e o mostrado no filme filipino ser tão precário, coletivo, comemorado de maneira informal em um restaurante, seria deliberadamente uma tentativa de reforçar o caráter miserável do entorno, por meio desta paralelização do cinema filipino (terceiro mundo) com o cinema francês (primeiro mundo). Seria um exemplo da eterna “síndrome do coitadinho”, que volta e meia permeia alguns registros da arte de países subdesenvolvidos? Fruto da minha cabeça? Pode ser.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Equilíbrio das Boas Opiniões


Entreguei-me de corpo e alma (e quando viu, lá se foi o primeiro clichê) à tarefa hercúlea de ler as edições fac-similares da revista Filme Cultura, tão importante instrumento de referência cinematográfica de outrora, que foi recentemente reativada, tendo este belíssimo lançamento (da versão fac-similar) como marco de reinício. São lindos livros, cada um dos cinco, compilando doze edições da revista, num texto miudinho, o que significa que as mais de 4000 páginas render-me-ão um bom tempo junto às personalidades nacionais do pensamento cinematográfico das décadas de 60 a 80, período em que a revista sobreviveu, passando pelas turbulentas eras em que o Brasil estava inserido, tanto no campo político como no social.

Tenho certeza de que tal leitura enriquecerá, e muito, minha percepção acerca de alguns filmes, ou mesmo de fenômenos ligados ao cinema, neste caso à guisa das épocas, no frescor dos acontecimentos, sob a jurisdição de quem era farol deste tipo de análise em idos tempos. Onde mais poderíamos encontrar uma entrevista de Stanley Kubrick quando do lançamento de 2001 Uma Odisséia no Espaço? Em período cibernético, não há de se duvidar de nada, mas em papel, sentindo o peso da edição e o contato com as palavras de maneira quase física, duvido muito que se tenha semelhante oportunidade.

Imagino que muitas leituras me levarão a reflexões, que se configurarão posteriormente em posts por aqui, em parte pela minha tendência ao devaneio, em outra por conseguir pinçar, entre um artigo e outro, entre uma análise fílmica e outra, algo que julgo merecer a atenção de quem por aqui se abastece de alguma forma. Algo que me chama a atenção no momento, é uma enquete realizada, paulatinamente a cada edição, sobre a visão dos críticos a respeito do Cinema Novo, o maior movimento (escola?) cinematográfico que o Brasil já gestou. Uma coisa é ter uma opinião agora, olhando retrospectivamente, buscando um contexto e, tendo visto os filmes, analisar o Cinema Novo e achar para ele um espaço na história mundial do cinema. Outro assunto é ler como estes críticos viam os cinemanovistas e suas obras, no calor de seus lançamentos, influenciados ainda pelo ambiente social da nação naqueles claudicantes tempos.

As opiniões, como costumam ser, independente do assunto, são as mais variadas possíveis, e são, também como de costume, geralmente extremadas. Há de se entender que o Cinema Novo sempre foi taxado “de esquerda”, por mostrar as mazelas do Brasil, os menos favorecidos, ao passo que demoniza o capitalismo, o fazendeiro, ou mesmo as relações opressoras de trabalho, que fazem do pobre cada vez mais pobre e do rico cada vez mais afortunado. Na época, e falamos da década de 60, o Brasil vivia um clima político muito acirrado, e este entorno certamente influenciava as opiniões acerca do Cinema Novo, conforme a posição política do analisador. Nota-se que alguns críticos acolhem o movimento, certamente por seus méritos, mas muito pela afinidade com esta visão de esquerda, sendo também o contrário verdadeiro, e certamente mais gritante, com os detratores sendo cegados às qualidades dos filmes inseridos no Cinema Novo, pelo simples fato de eles expressarem uma visão de mundo, de política mais precisamente, que ia de encontro com a sua. É mais ou menos o que se observou recentemente nas opiniões sobre Tropa de Elite, polarizadas entre gente que o achou fascista e gente que encontrou nele, além de signos cinematográficos interessantes, uma resposta aos anseios do povo, farto da não segurança das grandes metrópoles.

Nem todas as opiniões são extremadas, e é justamente nelas que me apego com mais vigor, quando delas me aproprio para construir minha própria, pois nestes julgamentos vejo o equilíbrio necessário para qualquer construção sadia e menos afetada. É certo que uma obra, e o cinema não é diferente, tem de ser vista por diversos ângulos, não só os que lhe são intrínsecos, mas também os que lhe fornecem base e elementos, mas há de se convir que quanto menos contaminada por questões que costumam cegar o homem (como posturas radicais, sejam elas políticas e religiosas, só para citar dois exemplos), mais qualificada será a opinião manifestada, pois dela se conseguirá extrair não só a análise em si, mas também uma visão plural, ampla, sem espaço para chapas brancas e painéis monocromáticos, sem que nela sejam vistos panfletos originários de olhares cansados e/ou pouco generosos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra dos Mundos - A Invasão sonora



Olá, caro amigo-leitor!

Depois de longo hiato sem comparecer de forma efetiva no blog, postando algo, mesmo com valor pequeno, aqui estou, não em carne e osso, como geralmente são as aparições naturais, as que tem sua origem no mundo em que vivemos, mas em ideias e reflexões que envolvem um assunto, ou melhor, uma realidade tão comum na contemporaneidade: a democracia sonora, a qual explode em expressão na onda de celulares com MP3.

Não é de hoje, contudo de pouco tempo passado, que os aparelhos celular têm na comunicação falada sua atratividade menos explorada, quando jogos, interatividade, câmeras fotográficas cada vez mais potentes e, por aí vai, usam da publicidade e de outros meios de divulgação no objetivo de gerar venda e lucro aos envolvidos. Tudo bem, não serei hipócrita e nem dissimulado, um aparelho que permita mais de uma função além da que intrinsecamente proporcionaria é louvável, porém quando o foco se estabelece no periférico, motiva justa reflexão.
Bom, talvez o que mais agrida minha individualidade, acredito que a de outros tantos semelhantes à pessoa que vos fala, é o MP3 sem fone, utilizado arbitrariamente como caixa de som. Diferente da atividade sonora ambiente, que, geralmente, condiz com a concepção do lugar onde escolhemos estar. Não, é uma salada de frutas sem o mínimo de coerência, indo de pagode, funk à música pop internacional mais rápido do que uma Ferrari em uma reta nula de obstáculos faria. O que essas pessoas possuem contra o fone?

A música é extremamente banalizada, sendo que na condição de arte, teria de atender uma necessidade individual ou coletiva, não simplesmente invadir nosso aparelho auditivo, a solicitação de licença inexistente. O ônibus é, indubitavelmente, o pior local, pois não há flexibilidade de escolha, onde nosso caminho vai de “A” à “C”, o que nos resta é engolir ou tentar ao menos distração, talvez utilizando ironicamente fones de ouvido, numa espécie de protesto calado, em relação ao indivíduo que nos acompanha até “B”. Quando este ponto chega, ai que alívio. Mas, logo outro ser disposto à invasão surgirá. Aguarde e verá. Ops, aguarde e ouvirá, mesmo sem o querer, no melhor estilo Alexandre, O Grande.

Até mais.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quando reis são substituídos

O nome dela era Molly, e em algum momento de 2003 ou 2004 eu conheci sua câmara. Pareceu-me impossível não ceder e me contagiar com Molly's Chambers, primeiro single da até então desconhecida banda Kings of Leon. Assisti ao videoclipe da música, repleto de zooms e enquadramentos frenéticos, numa de minhas tardes juvenis regadas à MTV e guloseimas calóricas – e foi como descobrir o Santo Graal ou um congênere.

Pouco tempo depois os cabeludos e nada asseados “Reis de Leon” surgiram com Califórnia Waiting, quando garantiram lugar no meu panteão de deuses do rock. Olhando em retrocesso, no entanto, tal afirmação soa exagerada e precoce – porém não se deve creditar muita validade nas máximas de um jovem de 16 anos. De qualquer forma, permaneci fiel ao som dos rapazes de Tennessee, que com seu southern rock continuaram me agradando nos anos seguintes, ainda mais após o lançamento dos álbuns Aha Shake Heartbreak, meu favorito (que inclui as fantásticas Slow Night, So Long, King of the Rodeo, The Bucket e Milk), e Because of the Times.

Em 2009 minha relação com Kings of Leon foi posta a prova após Only by the Night. O quarto disco dos Followill me soou estranho, dissonante à seus trabalhos anteriores. Ainda que Sex on Fire continuasse me empolgando após algumas audições, o álbum em geral me soava correto demais, assim como os vocais de Caleb e suas guitarras somadas às de Matthew. Com o show da banda no recente SWU a constatação de que o reinado deles não deveria durar muito me pareceu inevitável. Impressão que se confirmou com o recém lançado Come Around Sundown.

Com Come Around Sundown o Kings of Leon inaugura uma nova vertente em sua sonoridade, aque pode ser classificada como “clean rock”. Ainda mais que em Only by the Night, os Followill entregam composições lineares, pouco inspiradas e, em alguns casos, até mesmo chatas. Analisando a trajetória da banda com maior atenção, ouso em dizer que houve uma clara ruptura que a descaracterizou, uma linha que hoje a divide entre dois grupos distintos – o que pode ser percebido até mesmo no visual de seus integrantes. Ouso novamente em indicar que a ruptura sonora, esta linha divisível que mencionei, se chama Use Somebody.

De qualquer forma, sigo admirando o Kings of Leon – mas me refiro àquele grupo que para mim morreu em Because of the Times. No entanto, a coroa que uma vez entreguei à esses monarcas agora pertence ao Kings of the Convenience, duo de indie folk norueguês que um estimado Duque me apresentou. Não que a sonoridade desses auto-proclamados reis seja semelhante ou que se possa traçar algum paralelo entre ambos, porém o Kings of Convenience mantém através de seus álbuns algo que o Kings of Leon perdeu já tem algum tempo. A autenticidade.

sábado, 6 de novembro de 2010

O Direito de Morrer


O título já diz, e eu realmente não conhecia Jack, pelo menos não da maneira como o filme You Don’t Know Jack me mostrou a figura do Dr. Jack Kevorkian, alcunhado de Dr. Morte. É claro, não é somente a imagem que o filme passa que ficará em mim, que pautará minha opinião sobre esta figura tão controversa e sobre o tema que ele defendia, tão ou mais controverso quanto. Ele denfendia a eutanásia, o direito à liberdade de escolha do momento de se morrer. Cinebiografias geralmente endeusam seus objetos de foco, os tornam mais planos e menos dotados de arestas, até para que se estabeleça empatia entre o mesmo e o público. Por isto não devemos apenas guiar nossas opiniões acerca de alguém, ou de algo que este alguém defendia, após assistir a um filme destes. Não há como negar, porém, que You Don’t Know Jack dá uma perspectiva interessante, instigante e eu diria até iluminadora, sobre quem era Jack Kevorkian, sobre o porquê deste homem ter desafiado o sistema, a suprema corte e a opinião pública, por conta de sua convicção de que todos têm o direito de viver e morrer da maneira como lhe convirem.

You Don’t Know Jack foi desenvolvido pela televisão, é portanto um telefilme, mas que não se venha com aquele discurso pronto de que “só na televisão poderia se abordar um tema como este, com tal complexidade”. Não há nada em You Don’t Know Jack que não pudesse ser discutido numa sala de cinema, das convencionais. Talvez tivesse mais dificuldade de encontrar um público disposto às suas mais de duas horas de contestação, mas qual é, senão este, o desafio dos filmes que vão além do senso comum? O que importa é que é um filme legítimo, independente da maneira como foi exibido a priori. É um exemplar daqueles que gravitam em torno de seu protagonista, aqui brilhantemente interpretado por Al Pacino, que após muitos trabalhos anêmicos, no automático, volta a nos brindar com a pulsão dramática que fez dele, em idos tempos, um dos mais talentosos atores do cinema americano.

You Don’t Know Jack mostra o homem contra um sistema reacionário. Ele enfrenta mundos e fundos pelo progresso, contra as crenças e as desgastadas leis que limitam o humano, que fazem dele apenas massa de manobra, numa sociedade cada vez mais uniforme. Ser contra ou a favor da eutanásia é mais do que uma questão religiosa, mais do que acreditar-se pecador ou não, e era a favor desta expansão da discussão popular que ele trabalhava e, por que não, militava. Jack Kevorkian era um homem de personalidade complexa, um artista que acreditava no humanismo de sua prática médica. Ele desafiava a igreja e seus dogmas, as leis e suas brechas, não apenas por se achar acima de qualquer Deus ou da força da sociedade, mas por crer que ninguém tem o direito de sufocar a individualidade e perpetrar o sofrimento, em nome do que quer que seja.

Não há grandes inovações cinemáticas em You Don’t Know Jack, não há quebra de linguagens ou algo que o valha. Há, porém, uma história contada de maneira clássica, por um bom diretor artesão, Barry Levinson, que não se crê maior que a trajetória ou seu personagem central. Há um intérprete em estado de graça, e a busca pela complexidade, tanto da personalidade do Dr. Kevorkian, como do tema que ele defendia. Geralmente é mais fácil elogiar um filme quando suas qualidades são mais evidentes, ou quanto ele reza pela cartilha do chamado “cinema de arte”. Mesmo que, inevitavelmente, o filme tome partido da causa de Kevorkian, não há como negar que a discussão acerca da morte assistida e a maneira fascinante como ele, Kervokian, é mostrado, fazem de You Don't Know Jack um filme, no mínimo, desafiador, que frente a um espectador disposto, dificilmente passaria despercebido numa sessão de TV ou mesmo numa sala de cinema.