segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As dores e amores de Domingos Oliveira

 
Já muito se falou que Domingos Oliveira é uma espécie de Woody Allen brasileiro, e por mais que estas comparações tendam a eclipsar algumas particularidades que fazem de ambos grandes artistas, há de se convir que não é de todo despropositada a tentativa de colocá-los em paralelo, já que os dois são diretores/escritores, cronistas de vidas cotidianas que criam personagens extremamente verbais e de fala privilegiada. Mas vamos esquecer isto de “Woody Allen tupiniquim”, e vamos nos concentrar mesmo em Domingos, um artista que teve de lutar contra o tempo de vacas magras para não deixar o amor pelo cinema sucumbir, e que desenvolveu seu talento ao longo dos anos por outras vias da criação.

Lembro muito bem do primeiro contato com o cinema dele, e foi há quase um ano, no período de minhas sabáticas férias, que prefiro passar de fronte a uma tela que me ofereça cinema, do que nas praias cheias de “famílias felizes”, todas elas parecidas umas com as outras, Não é misantropia, e sim uma questão de prioridades. Entre torrar ao sol ou quebrar a cabeça vendo um filme, prefiro a ginástica mental, que não deixa o cérebro e os sentidos atrofiarem. Finda minha confissão de férias ideais, volto ao dia em que assisti Todas as Mulheres do Mundo, aquela maravilha dotada de um texto iluminado e mise-en-scène tão despoluída, tão livre de amarras, que emoldurava a história de uma paixão avassaladoramente marcante. O filme não me saiu da cabeça por alguns dias, foi amor à primeira vista (se me perdoam a alusão), em parte motivada pelas cenas divididas entre um Paulo José (para mim, o maior ator do cinema brasileiro) na flor de sua juventude e Leila Diniz, símbolo feminino da época. Entendi ali por que Rita Lee canta que toda mulher é meio Leila Diniz.

Encontrei então um belíssimo box, com quatro obras de Domingos Oliveira, lançado pela Casa de Cinema de Porto Alegre. Não tinha ainda visto os outros três filmes do compêndio, mas não importava, precisava ter Todas as Mulheres do Mundo e, afinal de contas, já que o filme tanto me agradava, não havia mal algum (pelo contrário) em observar mais obras do mesmo criador. Assisti então a Edu Coração de Ouro, outra obra sessentista de Domingos, assim como Todas as Mulheres do Mundo, e que constatei compartilhar da mesma atmosfera da obra-prima do cineasta: os personagens livres, o belíssimo texto repleto de falas afiadas e a câmera emancipada dos ângulos perfeitos, mas sempre inspirada pela poética dos seus seres de espírito liberto. Outro filmaço, um tanto prejudicado pela falta de uma remasterização que poderia muito bem ter restaurado a qualidade do preto e branco da fotografia e ter tornado o som mais cristalino. Relevo, o importante é que o filme está lá, preservado.

Os outros dois filmes de Oliveira que compõe a caixa, Amores e Separações, são da fase mais recente da carreira do diretor, após hiato de mais de 20 anos sem filmar, por conta da falta de financiamento e durante o qual se ocupou, basicamente, de seu trabalho no teatro e na televisão. Ambos os filmes possuem uma estética mais “quadrada”, claramente embebida de alguns signos mais televisivos e teatrais, afirmando então seus trabalhos recentes. O primeiro deles fala sobre amores, desencontros, encontros, e a possibilidade do final feliz. O segundo versa sobre os corações claudicantes, os amores que nascem, crescem, se reproduzem, mas teimam em não morrer, ou não admitir sua falência. Por mais que sejam formalmente mais convencionais do que as obras de Domingos Oliveira em idos tempos, são filmes que conservam o que de melhor o cinema dele oferece: o olhar sincero, personagens muito humanos, e o fabuloso fluxo textual que não esmoreceu com o tempo, e que só enriqueceu pela vivência de seu edificador.

Se a estética visual “dominguiana” recente fica um pouco prejudicada na comparação como sua equivalente do passado (bem acima da média, inspiradíssima) muito por conta dos anos afastado das câmeras, não há como ficar alheio às tramas, aos pequenos dramas cotidianos dos personagens e a forma cativante com que seus destinos são guiados por este deus que é o cineasta, senhor do destino de suas criaturas. Vendo estes quatro filmes, retomo o tópico da comparação que se faz geralmente entre Oliveira e Allen, para constatar agora uma diferença pontual entre ambos, que não os diminui, só os faz complementares: salvo exceções, é claro, enquanto Woody Allen, até mesmo em seus filmes mais cômicos, se mostra um pessimista, um homem mais ligado às sombras da alma humana, Domingos Oliveira, mesmo na mais nebulosa situação, abre espaço para um raio de sol, por meio da redenção de seus personagens e pecados, ou pela simples birra de mostrar que um final feliz nem sempre é piegas ou edulcorado, é simplesmente feliz. Se todo cineasta se crê um deus, certamente Domingos Oliveira é uma divindade que compreende e ama os que foram criados à semelhança de sua imagem.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Woody Allen e a desventura dos seres


Eu definitivamente gosto de Woody Allen. São poucos os filmes deste diretor americano, célebre como o cronista mais neurótico que Nova York já teve, que me desagradam, poucos mesmo. Há muito, que parte do público, e uma boa parcela da crítica, vêm decretando o fim de Allen, seu esgotamento criativo e sua auto-referência constante. Não concordo. Se contemplarmos retrospectivamente sua obra, certamente veremos uma maior quantidade de filmes notáveis no passado, mas não sou um dos que acha que o diretor parou de ser relevante em A Rosa Púrpura do Cairo. Certamente que a profílica maneira de Allen trabalhar, afinal ele entrega religiosamente um filme por ano, quando não dois, é um dos fatores que fazem com que alguns de seus filmes sejam instáveis, e outros até fracos mesmo, mas daí a bradar que o gênio ”morreu”, ou que não faz mais nada assim tão bom, é bem exagerado. 

Bom, isto pode ser por que gosto demais do estilo de Woody Allen, de sua aparente simplicidade estética, de seus roteiros ferinos ou largamente cômicos (ou os dois) e da maneira como sempre consegue extrair do atores algo que os liga com outros personagens “allenianos”, em ótimas interpretações, por mais que ele próprio seja o primeiro a dizer que o máximo que faz com os atores é escolher somente os bons e não atrapalhá-los. Modéstia, certamente com um pouco de negativismo. O novo Woody Allen, Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é a prova de que existe certa má vontade com os mais recentes filmes dele, ou, e provavelmente é isto, que sou bastante suscetível aos trabalhos do diretor, já que dele gostei muito, na contracorrente da maioria das opiniões, que fazem questão de pormenorizar as qualidades de mais esta bela comédia agridoce da carreira do cineasta.

Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é uma ciranda de personagens muito próximos. Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) se separam após 40 anos, um tanto por que ele, de uma hora para outra resolveu se comportar como um garoto de 20, fazer exercícios e curtir uma vida baseada na negação da velhice como “pré-morte certa”. A filha deles, Sally (Naomi Watts) é uma artista formada e casada com Roy (Josh Brolin) escritor outrora promissor e hoje frustrado, que nunca foi além dos elogios angariados por seu primeiro romance. Enquanto Sally começa a se interessar por seu chef Greg (Antonio Banderas), Roy se apaixona pela bela vizinha de janela que sempre veste vermelho, Dia (Freida Pinto). Em meio a isto, Alfie casa-se com uma ex-prostituta e Helena busca apoio em uma vidente charlatã, cujas previsões lhe servem de placebo, aliviando as dores da separação.

É sempre bom, e pouco frequente, ver Anthony Hopkins na pele de um personagem pateticamente cômico, sem a aura “Hannibal”, e Naomi Watts tão à vontade, podendo desempenhar um papel sem maneirismos e, mesmo assim, dotado de muita intensidade. Isso sem falar das sutilezas de Josh Brolin,  da forte presença de Antonio Banderas, da beleza esfuziante de Freida Pinto, e da maravilha que é ver Gemma Jones em cena. Woody Allen escolheu mais uma vez um grande time de atores mas, que sua modéstia me perdoe, ele tem grandes méritos no desempenho deles. Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é um delicioso registro de encontros e desencontros afetivos, estes muito mais ligados às frustrações e anseios pessoais, do que propriamente com os relacionamentos que os sentimentos solicitam com frequência. Falem o que quiserem, que ele é blasé, que é um neurótico incorrigível, e que seus filmes são versões de uma mesma história e/ou ideário, mas eu, além de não concordar com isto, continuo achando Woody Allen um dos grandes diretores da história do cinema americano, passível de erros, como todo humano, mas ainda assim um gênio da raça.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Falar e ouvir sobre cinema


Não sei se tenho sempre razão, não creio que minhas opiniões sejam absolutas e acredito que bem por isso minha busca por experiências reveladoras filtradas pelo cinema seja algo tão importante para mim. Diferente de algum tempo atrás, quando eu “cortaria o fígado” de alguém que atacasse virulentamente um filme que eu eventualmente amasse, utilizando para isto meus tão caros argumentos, hoje posso dizer que consigo ser mais tranqüilo quando há embate entre minhas ideias e as dos outros. Não se trata de curvar-se, resignar-se perante discussões inúteis, até por que creio na total relevância das discussões civilizadas, mas de intercalar o ouvir e o falar, extraindo de ambos o conhecimento pretendido.

Quando falei que não sabia se tinha razões, é certo que isto, que ao meu ver exclui uma maléfica segurança absolutista, não faz de mim um passivo, alguém que simplesmente deixa suas impressões sucumbirem perante alguém com mais nome, mais eloqüência ou de argumentos aparentemente mais sólidos que os meus, não é isto. Continuo valorizando minhas opiniões, meus pontos de vista, continuo lutando por eles, porém não creio mais que precise impô-los aos outros, ou mesmo negar o que vai de encontro com minhas elucubrações. Pensei ser isto sabedoria, mas percebi que não, que é pura e simplesmente o entendimento de que sou um ser humano em processo de aprendizagem, que tateia em busca de uma maior abrangência na percepção das coisas do cinema, das narrativas, das inúmeras formas do fazer artístico a 24 quadros por segundo.

O filme que odiei hoje pode ser sinônimo de iluminação amanhã, bem como o contrário também é verdadeiro, quando cânones do nosso conhecimento caem por terra ao passo que adquirimos experiência, que apuramos o olhar, que evoluímos. Penso que quando nos tornamos soldados excessivamente armados, dispostos a impingir aos outros o que pensamos sobre alguma obra como, neste caso, os filmes, demonstramos toda insegurança de nosso julgamento, toda a fragilidade da construção de significados que tememos cair por terra ao mínimo sinal de um abalo que toma por forma a opinião alheia. O que poucas vezes percebemos, ou queremos perceber, é que uma opinião contrária a nossa geralmente faz crescer, e nos ajuda a ascender rumo a novos níveis de entendimento e clareza.

Há os críticos de cinema mordazes, há os excessivamente bonzinhos, há os que não têm talento algum para a análise, há os guias de consumo, ou seja, são diversos os tipos de críticos de cinema, e eu procuro um diálogo com todos, seja me abastecendo com suas análises enriquecedoras, ou acompanhando e tirando algo da fragilidade de uma construção ideária, que eu julgo frágil, mas que pode não ser, vai saber? Assim como julgo minhas opiniões não absolutas, mutáveis e passíveis de uma revisão, creio que muitos críticos fazem deste enriquecimento diário, uma constante para que evitem armadilhas como o preconceito e os julgamentos apressados. O pior crítico, ou pseudo-crítico, é aquele que não suportando opiniões contrárias às suas, faz de tudo para, num ato de guerrilha desesperada, desautorizar os argumentos alheios, em favor dos seus, numa espécie de xadrez de egos, no qual o xeque-mate sempre é pronunciado por uma voz geralmente afoita por aceitação.

Tento, cada vez mais, debater e discutir sobre filmes e linguagens, fazendo questão de me posicionar, mas não deixando de abrir espaço para outros olhares e outras vozes que possam me ajudar neste processo de constante evolução. Nem sempre é possível, por vezes o monstro irracional desabrocha e parece que tudo o que quero é fazer meu interlocutor concordar comigo, aceitar meus argumentos e, com isto, ambos sermos felizes, com esta minha falsa ideia de dialética. Se quero (e quero) no futuro ser um crítico de cinema, tenho certamente que valorizar minhas opiniões, sem perder esta pontinha de desconfiança sobre a mesma, afinal de contas somos facilmente traídos por nossas próprias armadilhas, mas preciso seguramente exercitar duas coisas: o respeito à opinião alheia; e o aprendizado refinado da extração de conhecimento destas formas diferentes de encarar as coisas, que aos outros me cabe apresentar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Exit Through the Gift Shop e a arte de rua

 
Não conhecia muita coisa de street art antes de assistir Exit Through the Gift Shop, documentário dirigido por um dos mais controversos e enigmáticos expoentes deste movimento urbano, o famigerado Banksy. Também não conhecia Banksy, é bom que se diga. Ele é considerado um gênio deste tipo de expressão artística, que tem no grafite seu maior representante, mas não o único, uma vez que artistas colam imagens em paredes, fazem esculturas e as inserem em paisagens urbanas, marcam locais com elementos icônicos, etc. Enfim, é uma forma poderosa de expressão, nascida nas grandes cidades, que visa tirar um pouco da uniformidade de paisagens cada vez mais estéreis. Por favor, não confundir street art com pixação, já que a única coisa que ambas possuem em comum é o caráter ilegal, mas de resto, são tão díspares como a Monalisa e os adesivos de família colados em carros, tão em voga.

Pois bem, Exit Through the Gift Shop me mostrou um mundo novo, sem exageros, pela possibilidade desta arte urbana que, pelo menos no material documentado, tem muito a dizer. Afinal de contas, pode ser até traduzida como ato político, por exemplo, a série de desenhos feitos por Banksy no muro que divide Israel e a região palestina da Cisjordânia. Fiquei meio desconcertado com algumas obras, com a criatividade e a paixão com as quais os artistas desafiam leis, convenções e imprimem sua marca, geralmente contestadora, no cotidiano nas pessoas. Parecem-me atos de expressão artística genuína, pelo impacto ético e estético.

Fosse por mostrar de maneira tão impactante e interessante o mundo da street art, Exit Through the Gift Shop já poderia ser classificado como ótimo, mas ele é mais. O filme é dirigido por Banksy, este homem que se tornou notório, e que quase ninguém conhece, que vive nas sombras de um nome. Mas o documentário não é sobre street art, nem sobre ele mesmo, e sim sobre Thierry Gueta, um francês que documentava tudo com sua câmera de vídeo e que, apaixonado pela adrenalina e pelo trabalho dos grafiteiros e artistas de rua, fez do acompanhamento destes, sua rotina. Ao tomar conhecimento do trabalho de Banksy, Thierry fica obcecado por conhecê-lo e mostrá-lo em ação, e quando tem a oportunidade, age como um fanático em busca de uma divindade.

Exit Through the Gift Shop, então, é dirigido por um artista, e fala sobre como alguém queria muito documentá-lo? Não, não é bem isso. Como em outros casos, muito se fala sobre a verdade do filme, sobre se ele seria um documentário mesmo ou mais uma das obras de arte controversas de Banksy, puramente ficcional. Controverso o filme é, de qualquer maneira, mas ficção? Documentário? Gueta é mesmo verdade ou um veículo para Banksy discutir a real natureza da arte? Dirão alguns: “sim, mas Gueta tem trabalhos, exposições, fez o design de capas de CD’s de divas da música pop, então ele é real”. Será mesmo? Enfim, discussões desta natureza à parte, que por si só dariam um post, o importante é que de um documentário expositivo sobre a bastante interessante street art, Exit Through the Gift Shop se torna uma discussão muito forte, importante e atual sobre os limites da arte, sobre o que pode ser considerado artístico, e o que é pura pretensão gráfica. Cineastas que filmam sem parar, sem saber o que fazer depois, artistas que copiam adoidado, que são fãs de mídia e ficam ricos à custa da “contestação” conformada com o pensamento opressor dominante, são verdadeiros artistas ou meros corruptores de algo belo que poderia realmente mudar a vida das pessoas? Perguntas pertinentes levantadas por este belíssimo filme.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Inverno da Alma e a outra paisagem americana


Faz bem para a cinematografia estadunidense quando aparece um filme como Inverno da Alma. Quando digo “aparecer” me refiro à exposição que a recém indicação ao Oscar de Melhor Filme oportunizará ao filme. Mesmo que suas chances de vitória sejam mínimas, o primeiro longa-metragem da diretora Debra Granik certamente se beneficiará do fato de estar na lista, pois ganhará mercado e mais gente interessada. Falei que Inverno da Alma é benéfico, pois apresenta um EUA diferente daquele a que estamos acostumados, seja o dos subúrbios assépticos de produções mais rasteiras, das grandes e esmagadoras metrópoles, ou mesmo da degradação atenuada de muitos filmes que se pretendem ser o que não são, ou não tem a coragem para arriscar. Esta diversificação é boa, pois desnuda outros lados da terra do Tio Sam, este império odiado pelos subjugados, mas que em matéria de cinema, tem muito a dizer.

Inverno da Alma é sobre a busca de uma menina por seu pai. A bela e arredia Ree Dolly, do alto de seus 17 anos, cria seus dois irmãos menores e ainda cuida de uma mãe catatônica, ao passo que precisa localizar o pai que empenhou a casa e a madeira da família por conta de sua fiança. Ree vive num cenário desolador no meio-oeste americano esta busca pelo pai foragido da justiça. O entorno parece mais em conformidade como um estado de putrefação natural, e as casas e paisagens desenham, junto com as figuras que as habitam, um conjunto de tristeza e esquecimento. Ree vai atrás de informações acerca do pai, mas a vizinhança não gosta de perguntas, não tolera dedos-duros e gente que se relaciona com a polícia. Além do cenário decadente, a cercania está envolvida com atividades ilícitas, principalmente o processamento e venda de drogas. Ree é atrevida e paga o preço da jornada, ajudada por seu tio, outro desajustado social.

Este Inverno da Alma é um filme miúra, sem muito marketing por trás ou algo que o valha, mas, repito, deve ser o maior beneficiado com a indicação aos prêmios da academia. Sem dúvida é um filme a ser descoberto, principalmente para que as ótimas interpretações da jovem Jennifer Lawrence e do subestimado John Hawkes, em mais uma performance de bastante destaque, sejam conferidas. A diretora Debra Ganik também tem muitos méritos pelo êxito do filme, já que consegue a construção de uma atmosfera opressora, permeada pelo desespero da menina Ree, sem nunca permitir que a linha tênue que separa o sentimentalismo barato da emoção genuína se rompa, preservando sua narrativa do primeiro. Pode não ser o grande filme do ano, mas tem cenas fortes, ritmo adequado, uma história de fato muito bem contada e interpretada, e ainda demonstra uma pulsão criativa vinda dos pequenos diretores e das equipes reduzidas que, hoje, nos EUA, fazem a diferença pelo simples fato de terem o que falar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Catfish e os peixes presos na rede


Os antropólogos, sociólogos e outros “ólogos” de plantão podem dar mais significância às questões internéticas, principalmente no que concerne a forma como as redes sociais criam interação virtual, que muito difere da real. Isto não impede que tenhamos um olhar crítico e até mesmo analítico acerca destes fenômenos que, ao passo que conectam milhões, que se apresentam como vias absolutas de comunicação, causam certa solidão e isolamento em alguns, que não se importam (ou não se dão conta) em se transformar em dicotomias ambulantes: introvertidos e não raro descontentes com a vida real, mas possuidores de avatares cibernéticos de existência exemplar, donos de um sucesso artificial que se presta a preencher lacunas da realidade dos componentes desta sociedade cada vez mais afeita à competição e a exaltação dos “melhores”, em detrimento dos “perdedores”.

Catfish, sucesso americano independente, fervilhante assunto nos fóruns da internet, é alardeado como um documentário sobre o peculiar relacionamento à distância entre um fotógrafo de Nova York e uma menina de oito anos que transforma suas fotos em pintura. Posteriormente, Nev, o fotógrafo, expande a amizade para toda família da menina: a mãe, o pai, o irmão roqueiro e a irmã, linda, que acaba começando um flerte com ele. O documentário então muda o foco, e vemos Ned em suas correspondências apaixonadas com Megan, até que um dia, numa destas trocas, devidamente registradas em filme, algo acontece e, a partir dali, o documentário passa a ser quase um thriller, um suspense que nos convida a descobrir. Muito mais não se pode falar de Catfish, opto deliberadamente por ser evasivo, pois parte da graça encontra-se na surpresa, no desenrolar de uma trama que vai lentamente pendendo para um lado seguramente inesperado. O fato de ser registrado e vendido como documentário não quer dizer que ele certamente o seja, e na própria internet existe muita controvérsia quanto a natureza real do filme. Fiquem com a dúvida até assistirem, após busquem informações, é uma dica. 

De qualquer forma, em Catfish há uma inteligente utilização de elementos da web, como mapas virtuais e a própria brincadeira inicial com o logotipo da Universal. A estética obedece aos signos de um documentário mais rústico, com pouco tratamento de áudio, partes legendadas em inglês para que entendamos o que os personagens falam longe da câmera, e aparente despreocupação com a beleza do plano, como a fotografia propriamente dita. Falta de habilidade ou cuidadosa construção? Mesmo que seja relevante, a discussão da natureza de Catfish, grosso modo, não interfere na mensagem, na maneira como ele ressoa no espectador. De fato, saber se ele é uma ficção ou um doc influencia o pensamento sobre a forma, que desemboca na exaltação de uma mise-en-scène propositalmente naturalista ou nos méritos dos diretores pela engenhosa mudança do fio documental durante o processo do filme. Porém, ter ciência não modifica radicalmente a sensação amarga que inevitavelmente fica após o final do filme e que evoca questionamentos do tipo “no que a sociedade está se transformando?”. Repito, vejam o filme e depois cacem maiores informações.

Catfish daria uma bela sessão dupla com A Rede Social, não por ambos utilizarem o facebook quase como personagem, mas pela investigação mútua, cada qual em seu registro, destas transformações sociais que vieram junto com a automação e virtualização dos relacionamentos, que já não são assunto novo, mas que somente agora começam a ganhar contornos mais profundos em obras cinematográficas. Enquanto o filme de Fincher toma o fundador do facebook como exemplo da confusão mental e moral de uma geração, em Catfish vemos a que ponto chegamos como espécie, lembrando que isto só o começo, que a catástrofe de proporções sociais que nos aflige, pelo menos a alguns, que de qualquer forma não são poucos, tende a ganhar contornos ainda mais dramáticos. Documentário ou ficção, Catfish é um belo filme sobre a construção das relações, do agora ao porvir. Sendo um documentário, é um belo doc que se construiu no processo. Sendo ficção, é dotado de invejáveis construções, de atmosfera, ritmo e de roteiro, e um desfile de impressionantes interpretações realistas. Mesmo sendo tão bom, não espere, infelizmente, um lançamento comercial no Brasil (descartando a hipótese de um milagre), pois geralmente histórias com este nível de relevância, não combinam com pipoca e refrigerante nos cinemas dos shoppings, estes cercados de praça de alimentação por todos os lados.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Estrada de McCarthy

Olá, caro amigo-leitor!

O início de contato com autor de grande renome na cultura é sempre emaranhado de responsabilidades. A aura que o cerca praticamente obriga ao espectador certa dose de complacência, negando desagrados, mesmo em nível subconsciente. No final de 2010 iniciei a jornada por A Estrada, do cultuado literato norte-americano Cormac McCarthy.

A falta de vírgulas e a usurpação gramatical em dados momentos, soam como erros, do autor ou de sua tradução tupiniquim. Vejo-me no lamaçal da ignorância sem saber ao certo o que afinal é de fato, todavia acredito que faça parte do estilo de McCarthy, ao menos neste livro, talvez para reforçar o aniquilamento de regras do mundo apocalíptico esboçado em suas 234 páginas da edição brasileira.

O enredo se edifica sob a relação afetuosa entre pai e filho, estes nunca nomeados, num cenário de sucateamento do planeta, o qual sofreu e ainda sofre uma espécie de incineração plena, sem distinção de área urbana ou rural. Os poucos sobreviventes vagam entre corpos, cinzas, neve, escassos recursos, destroços e, essencialmente, medo. O medo guia significante gama de ações e reações, desde o alerta constante, até o assassinato e o canibalismo, inerentes ao quadro isento de moral e justiça.

A dicotomia entre o bem e o mal é uma distinção difícil a ser estabelecida pelo pai, o que gera confusão na concepção do pequeno garoto. A moldagem de sua personalidade, em ambiente de valores deturpados e inexorável glaucoma crônico, serve como obstáculo acrescido aos naturais e apocalípticos, na lenta peregrinação dos heróis.

Não li, contudo conheço de forma rasteira o mangá (quadrinho japonês) setentista, Lobo Solitário, onde pai e filho com o auxílio de um carrinho de bebê rústico, vagam pelo Japão feudal, em meio a massacres e a uma realidade mísera quanto a valores morais e éticos. Em A Estrada, há também um carrinho de supermercado, utilizado pelos protagonistas para armazenarem seus poucos itens de sobrevivência.

O livro, vencedor do Pulitzer de 2007, ganha adaptação de boa repercussão na sétima arte em 2009 sendo o talentoso Viggo Mortensen sua viga mestra. Caso a adaptação fosse outra, própria de uma pinacoteca, certamente predominaria o tons cinza e traços fortes e marcantes do seu idealizador.

A Estrada é uma obra literária de enormes méritos, quando seu autor nos conecta a um mundo sem nenhum tipo de atrativo. A esperança que move os personagens centrais da trama é quase surreal e bastante tênue. O suicídio é uma forma de escaparmos covardemente de nosso destino, salvo motivado por alguma enfermidade. Porém, a fuga em, A Estrada, seguidamente surge como caminho único e inapelável.


Até breve.

PS. 01: Obrigado pelo presente, Isa.
PS. 02: Segue abaixo o trailer do filme.