sábado, 12 de março de 2011

Churrasco de Blade Runner


O sempre espirituoso André Barcisnki tem uma seção em seu blog, na qual “faz churrasco de vacas sagradas”, ou seja, fala (mal) de filmes que são praticamente unanimidade no imaginário cinéfilo. Bem, este é o meu churrasco. Na verdade não é bem assim, o filme que motivou este post não é ruim, não o odeio com todas as forças, mas é um típico caso de superestima cinéfila. Falo de Blade Runner - O Caçador de Andróides. Sim, os que amam incondicionalmente o scifi de Ridley Scott já podem apedrejar. Para começar, deixo claro que já vi o filme duas vezes, e da primeira não tinha gostado quase nada. Recentemente visto, então pela segunda vez, e a mesma versão, aquela do diretor montada em 1991, o filme me pareceu mais inteligente do que eu lembrava, mas ainda ressentido de um bando de coisas, que não me permitem o envolvimento que as grandes obras suscitam.

Blade Runner - O Caçador de Andróides tem como protagonista Deckard, um caçador de replicantes, que são similares humanos criados com a mais alta tecnologia, tanto da robótica quanto da engenharia genética. O grande problema é que por mecanismo de defesa, e já prevendo problemas futuros, os criadores limitaram em quatro anos o período de vida de suas criaturas. A missão de Deckard é erradicar os replicantes, que voltaram para a Terra após uma rebelião violentíssima numa colônia instaurada em outro planeta. A partir deste incidente, todos os replicantes estão condenados à morte na atmosfera terrestre. Deckard então parte, como um legítimo detetive de filmes noir, na caça dos rebeldes, e no meio do caminho se apaixona por uma replicante que não tem, a priori, consciência de que o é, pois já representa um modelo dotado de lembranças implantadas e sem noção de sua finitude precoce, quase como um humano.

O filme é visualmente arrebatador, ainda para os padrões de hoje, possui belos e funcionais efeitos especiais e inspirada direção de arte que, trabalhando em consonância, conferem ao filme um visual retrô/futurista, que muito me agrada. As ruas apinhadas de gente do começo, e as mesmas vazias do meio para o fim, dão a exata da noção do entorno social de um planeta habitado apenas pela “escória”, já que os abastados viram colonizadores que largaram a decrepitude de uma Terra agonizante em sua própria auto-mutilação. Existe todo um viés filosófico que permeia Blade Runner - O Caçador de Andróides, muito por conta desta angústia dos replicantes, que somente buscam sobrevivência, não sendo essencialmente maus ou algo que o valha, e deste tom profético da decadência do planeta. É impressionante a profundidade alcançada nestes momentos de questionamento, que rapidamente remetem a expressões como “ser ou não ser, eis a questão” e a máximas filosóficas tais como “penso, logo existo” (esta inclusive citada no filme).

Fosse por esta embalagem, Blade Runner - O Caçador de Andróides poderia facilmente ser classificado como incontestável obra-prima, mas há no desenvolvimento de um roteiro trôpego, diversas inconsistências, principalmente de ritmo, que não me permitem embarcar totalmente na do filme. Não há alternância sadia entre a investigação de Deckard e o percurso dos replicantes. Eles caminham impreterivelmente para uma colisão, mas não há propriamente um clima de tensão nesta busca, as cenas são mais importantes encerradas em si mesmas do que vistas como frações de um conjunto. Chega um ponto em que Ridley Scott cansa de nos mostrar seus cenários e efeitos revolucionários, e praticamente se atém a esta caçada deveras apressada, sem a ampliação dramática necessária para uma maior empatia. Por exemplo, até entendo o amor de Deckard pela replicante acontecer de maneira tão instintiva, romântica, mas são engulo as cenas em que ele acaba com seus alvos de uma forma tão rápida, que a perseguição pregressa perde a força dramática, e  passados cinco segundos esquecemos da relevância daquele ser meio orgânico/meio inorgânico que acabou de morrer. Isto poderia ser uma “alusão a como descartamos vidas humanas, esquecendo seu valor”? Claro que poderia, num cenário mais bem desenvolvido. Em Blade Runner - O Caçador de Andróides, estas sequências soam como buracos mesmo.

No final das contas, Blade Runner - O Caçador de Andróides vale por todos estes elementos que citei num dos parágrafos acima, por mostrar estas crises existenciais, num paralelo bem rico com o próprio senso de finitude humana, e pela ótima caracterização de um futuro que, acredito, não oferece cenário muito diferente do que temos pela frente. Profético, Blade Runner - O Caçador de Andróides ainda tem uma trilha sonora das mais icônicas e funcionais. Parece-me, porém, mais forte nos elementos inerentes ao livro em que se baseou, e carente de um desenvolvimento narrativo cinematográfico tão criativo e arrebatador quanto seus cenários, efeitos e intenções. Um bom filme de ação, turbinado com signos bem mais bem exitosos que as tímidas curvas que eles ajudam a compor, isto que é, para mim, Blade Runner - O Caçador de Andróides. Um filme superestimado, “vítima” do culto que o levou a um panteão que ele não merece pertencer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Showgirls e a aparência que engana


Showgirls virou maldito após uma boa parcela da crítica tê-lo considerado fracasso artístico, completa “bola fora” do conceituado diretor Paul Verhoeven. A história da menina que vai a Las Vegas sonhando ascender ao estrelato foi malhada muito por conta das inúmeras cenas de nudez, pela propagada gratuidade de vários elementos, pela dita falta de talento do elenco, entre outras coisas, muitas delas que grudaram no imaginário de parte do público cinéfilo. É minha opinião, e ninguém precisa concordar com ela, mas acredito que Showgirls não apenas passa muito, mas muito, ao largo da ruindade, como é um filme de muita sensibilidade, de qualidades latentes e até bem evidentes. Um grande filme, até arriscaria dizer, que se peca em algo, é em apostar na capacidade do espectador de furar as camadas mais evidentes e prestar atenção nas entrelinhas e sutilezas.

Existem muitos pontos a se exaltar em Showgirls, e um deles é a forma quase assexuada com a qual esquadrinha o sexo, tratando ele com frieza, mostrando-o como um dos fatores de corrupção numa sociedade naturalmente disposta a corromper. Nomi, a protagonista, sufoca o passado, tentando deixar para trás sua vida pregressa, buscando edificar uma nova personalidade baseada na negação do que foi. Mudar de cidade significa para ela o mesmo que trocar de vida, assumir outras expectativas, joviais possibilidades. Não confiar em quase ninguém, é uma das lições que Nomi aprende desde cedo, a duros golpes, sentindo na pele o egoísmo humano, este que paradoxalmente vê aflorado a posteriori em suas próprias atitudes destrutivas. O dinheiro e a fama adulteram a menina que desembarca cheia de ideais na cidade da jogatina no Deserto de Nevada e, durante o processo de endurecimento ao qual se submete como ônus de suas ambições, acaba por virar uma peça quase voluntária de uma rede de jogos escusos, carentes de elementos básicos como a ética e a moralidade.

Verhoeven fez um filme que muita gente não entendeu. Não é fácil construir uma narrativa como a de Showgirls, apostando muitas vezes no kitsch, utilizando signos de difícil controle, como a nudez, a sugestão do poder sexual, sem que se escorregue vez ou outra, ora dotando de glamour excessivo a atividade “artística”, ora descambando para o típico drama em que a protagonista vira a coitadinha que merece um final feliz. Paul Verhoeven foge destas armadilhas, munindo-se de personagens que apenas aparentam arquétipos cansados, e uma mise-en-scène que utiliza o baile dos corpos desnudos como metáfora para uma sociedade oca e opaca, que premia a aparência, o estereótipo e a beleza dos corpos esculpidos, com as mais distintas láureas. Showgirls mostra um mundo vazio e apodrecido, num entorno capaz de contaminar quem quer que seja, ainda mais alguém que se dispõe à corrupção como degrau anterior ao sucesso. Num filme de tão rica construção, que exibe a maestria habitual de Verhoeven, um diretor que joga constantemente com aparências, ver repetidamente mulheres de corpos esculturais completamente nuas, até desperta desejo, não sejamos hipócritas. Porém, quando há clareza do real movimento das coisas, começa-se a prestar menos atenção nos seios e quadris, e mais nos sinais de instabilidade, em várias esferas, que acometem as pessoas, principalmente Nomi. Showgirls é um filme sobre aparências, e confiar em sua roupagem mais epidérmica, por assim dizer, seu aparente vazio, pode ser um passaporte para não compreendê-lo em sua complexidade.

terça-feira, 8 de março de 2011

Um Carnaval de Cinema

É tempo de carnaval, o período que marca a passagem do ano, de maneira até mais vincada do que o réveillon, afinal de contas paira sobre o Brasil a máxima de que “o ano só começa de verdade após o Carnaval”. Bobagens à parte, devo dizer que não gosto da festa de momo, independente de sua roupagem, seja a dos carros alegóricos da Sapucaí, dos blocos que invadem as ruas metropolitanas ou mesmo a das famigeradas micaretas nordestinas. Se “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, nem sei o que faço aqui, julgo cheio de vida, escrevendo este texto. Carnaval é bom por conta do feriado, e com isso eu concordo. Aproveitei o período para ver filmes (“ah, novidade”, diriam irônicos, os que me conhecem). Vamos a algumas palavrinhas sobre os filmes que vi durante a folga carnavalesca.

Apocalypse Now
Fazia um bom tempo que um filme não grudava tanto em mim, durante e após a sessão. Assisti a versão original de cinema, já que a Redux, vista anos atrás, não havia me agradado, soando caudalosa demais. Reforço agora o coro dos que proferem ser este um dos maiores, senão o maior, filme de guerra já realizado. É impressionante a capacidade de Coppola em criar uma atmosfera extremamente realista, que retrata com bastante verossimilhança os horrores da guerra do Vietnã, inserir elementos de expressividade e grandiloquência  (vide a maravilhosa cena dos helicópteros ao som de Wagner), e ainda revirar o leme para um transcorrer quase metafísico, quando da chegada do Capitão Willard aos domínios do Coronel Kurtz. Apocalypse Now é tudo o que muitos filmes de guerra sonharam ser, sem chegarem nem perto. Filmaço.

Três Vezes Amor
Este eu vi com a namorada, mas não por imposição dela, é bom que se frise, mas sim por que tinha curiosidade mesmo, desde que vi os primeiros trailers. A história é bem interessante: após uma aula de educação sexual, filha questiona pai sobre alguns aspectos desta temática e pede que ele conte como de fato conheceu sua mãe, de quem ele está se divorciando. O pai então contará a ela, a história de seus três namoros sérios, com o desafio de que descubra qual das três mulheres é sua mãe. Filme água-com-açúcar, mas bem engenhoso. Quando estamos certos de quem é a mãe, lá vem o diretor e nos puxa o tapete, mostrando que deveríamos ter prestado mais atenção, principalmente no perfil do pai, para saber quem de fato foi gestora de sua rebenta. Abigail Breslin está excelente e faz milagre mesmo com o pouco tempo de tela. Bom filme, daquelas comédias românticas que, se não trazem nada de muito novo, são agradáveis e não agridem nossa inteligência.

Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia
Gosto do Hector Babenco e o percebo como um diretor de pulso forte, de excelente senso dramático e estético. Sempre nutri especial curiosidade por este filme, sobre o bandido Lúcio Flávio. É difícil ver exemplares nacionais que bebam com tanta propriedade do gênero policial, que ganhou às telas principalmente em filmes americanos, influenciados pelas novelas pulps e toda uma tradição de literatura policial que sempre foi edificada nos países anglo-saxões. Babenco filma com vigor o submundo, todas as conexões existentes entre polícia e ladrões. O entorno social ele enfoca en passant. O filme me pareceu mais poderoso em algumas partes, especialmente nos diálogos que estabelecem conexões escusas entre o crime e a lei. A construção do personagem principal me pareceu prestar reverência ao magistral O Bandido da Luz Vermelha, só que sem a inventividade formal e o espírito libertário do filme de Sganzerla. Um bom filme, afinal, com boas interpretações (não todas, algumas são bem canhestras, como a de Paulo César Peréio, por exemplo) e que soa bem atual. Guarda semelhanças com Tropa de Elite 2, no que diz respeito a esta relação de prostituição da polícia em busca de dinheiro marginal. Os dois formariam uma bela sessão dupla.

O Portal do Paraíso
A obra maldita de Michael Cimino, que acabou na época por levar à falência o mítico estúdio United Artists. Do alto de seus monumentais 210 minutos, o que temos é um grandioso tour de force, a busca pelo retrato de uma parcela obscura da história americana, a rejeição do chamado “país das oportunidades” pelos imigrantes que lá se instalaram. Tudo é muito grande em O Portal do Paraíso: os cenários são majestosos, a quantidade de extras é “embasbacante”, a minúcia na reconstrução de época é digna de reverência, ou seja, é uma superprodução com todas as características que a alcunha merece. Cimino conseguiu com este filme duas das coisas mais difíceis em Hollywood: dinheiro a granel e liberdade criativa. O saldo, infelizmente, foi negativo, e após arrecadar nos cinemas somente 2% do que gastou em produção, Cimino foi jogado aos leões impiedosamente, com a mesma velocidade com que erigiram anteriormente sua aura de gênio. O filme se ressente de doses mais generosas de concisão e coesão, falta ritmo em determinadas passagens, e o ego de Cimino operando no automático parece ter feito mal a uma narrativa que muitas vezes se perde em suas próprias ambições. Fora isto, é forte pela discussão que propicia e corajoso por bater de frente com o conformismo e o patriotismo paternalista que rege os americanos. Michael Cimino pagou um preço alto, tanto por sua coragem como por seu egocentrismo.

Obs.: Michael Cimino virou mulher, seu nome agora é Elizabeth, e ela é escritora, radicada da França. Largou o cinema.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Moacyr Scliar - O Imortal

Atentem para o rosto de Kafka lá atrás, à esquerda. Scliar era grande admirador do mestre tcheco.
     
Olá, caro amigo-leitor!

     As literaturas gaúcha e brasileira perdem um indivíduo de significativa importância, devido ao trato fino com as letras e seu encaixar. Cito, desta forma nebulosa, o porto alegrense Moacyr Scliar e sua, por que não (?), precoce finitude.

     Integrante algum do The Tramps já leu Scliar, talvez um pequeno número de linhas sim, mas não uma obra feito livro. Por isso, não temos conhecimento intelectual suficiente ou ao menos razoável para escapar da hipocrisia. Então, nos resta prestar homenagem e direcionar a leitura dos interessados a um belo relato, assinado por Carlos André Moreira sobre o imortal, este infelizmente apenas na ABL.


Até breve.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Oscar 2011 - Prêmios e reinados efêmeros

Mais um Oscar se foi e a sensação de esquecimento para com os prêmios e cerimônia parece precoce. Em um ano onde dois filmes bastante distintos disputavam a atenção dos votantes em várias categorias, Anne Hathaway e James Franco foram os anfitriões de uma premiação rápida, previsível e composta por mais erros do que acertos, como de costume.

O Discurso do Rei foi agraciado com os prêmios de maior prestígio, incluindo o de Melhor Filme de 2010 e de Melhor Diretor para Tom Hooper, diretor que quando colocado ao lado de David Fincher parece um aluno recém-formado em produção audiovisual. A Rede Social, que concorria em diversas categorias e era o favorito de muitos críticos, saiu com três importantes prêmios - o de Roteiro Original, Montagem e Trilha Sonora. A Origem aparece com quatro prêmios técnicos e a confirmação de que a academia não dá muita importância ao cinema de Christopher Nolan. Os irmãos Coen com seu Bravura Indômita sairam de mãos vazias.

Dentre os (poucos) bons momentos de uma festa que felizmente não teve 127 horas como as anteriores pareciam ter, a participação animada de Kirk Douglas, os cenários criativos e a concisão no roteiro da cerimônia se destacam. Por outro lado, James Franco e Anne Hathaway fizeram pouco mais do que trocar de roupa a cada bloco, pequenos em participações que foram mais divertidas na campanha de marketing do Oscar do que na noite da premiação propriamente dita. Para terminar, uma tonelada de crianças entoaram Somewhere Over The Rainbow enquanto os vencedores da noite se amontoavam no palco.

Nós do The Tramps nos reunimos pelo quinto ano consecutivo e, munidos com listas e apostas em mãos, fomos conferir os vencedores da noite e o resultado do divertido bolão que se tornou tradição para estes blogueiros - mais em questão de entretenimento do que em relação à nossa cinefilia. Confira os vídeos abaixo e saiba mais sobre o antes e depois do Oscar, além de descobrir quem foi agraciado com o prêmio por ter mais acertos nas apostas (que até foram matéria de jornal no final de semana). Pedimos desculpas pela péssima qualidade de som e imagem dos vídeos e não prometemos melhorar a situação para o próximo ano.

Expectativas e opiniões pré-Oscar:



Resultados e opiniões pós-Oscar:



Vencedores do 83º Oscar:

Melhor direção de arte:
"Alice no País das Maravilhas"

Melhor fotografia:
"A origem"

Melhor atriz coadjuvante:
Melissa Leo – “O vencedor”

Melhor curta-metragem de animação:
"The lost thing", de Shaun Tan, Andrew Ruheman

Melhor longa-metragem de animação:
"Toy story 3"

Melhor roteiro adaptado:
“A rede social”

Melhor roteiro original:
“O discurso do rei”

Melhor filme de língua estrangeira:
"Em um mundo melhor" (Dinamarca)

Melhor ator coadjuvante:
Christian Bale – “O vencedor”

Melhor trilha sonora original:
"A rede social" - Trent Reznor e Atticus Ross

Melhor mixagem de som:
"A origem"

Melhor edição de som:
"A origem"

Melhor maquiagem:
"O lobisomem"

Melhor figurino:
"Alice no País das Maravilhas"

Melhor documentário em curta-metragem:
"Strangers no more"

Melhor curta-metragem:
"God of love"

Melhor documentário (longa-metragem):
"Trabalho interno"

Melhores efeitos visuais:
"A origem"

Melhor edição:
"A rede social"

Melhor canção original:
"We belong together", de "Toy story 3"

Melhor diretor:
Tom Hooper – “O discurso do rei”

Melhor atriz:
Natalie Portman – “Cisne negro”

Melhor ator:
Colin Firth – “O discurso do rei”

Melhor filme:
“O discurso do rei”

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entrevista: Tom Hooper fala sobre "O Discurso do Rei"

Entrevista concedida à jornalista norte-americana Katey Rich, do site Cinema Blend, e traduzida por Conrado Heoli para o The Tramps. A entrevista foi realizada em 23 de outubro de 2010, por tanto é interessante atentar ao fato de que todo o burburinho ao redor do filme e diretor, assim como sobre os vindouros prêmios, ainda não existiam.

Tom Hooper provou recentemente para o público que ele tem uma queda por contar narrativas históricas com ternura, humor e humanismo, dirigindo a minissérie para a HBO John Adams, indicada à 13 prêmios Emmy e aclamada mundialmente, mesmo por pessoas que disseram ter visto o suficiente sobre nossos pais fundadores. Agora ele está de volta dentro de sua nativa Inglaterra fazendo o mesmo como o diretor de O Discurso do Rei, um filme sobre o Rei George VI e seus problemas com o impedimento de locução que o acometia, pouco antes de seu pais entrar na II Guerra Mundial. Parece limitado, sentimental e demasiadamente sério, mas O Discurso do Rei é o oposto de tudo isso: uma dinâmica e frequentemente emocionante história sobre amizade e dever e sobre um homem que deveria ser ordinário exceto pelas extraordinárias circunstâncias que o tornaram Rei. George foi forçado a tomar o trono quando seu irmão David (interpretado por Guy Pearce no filme) abdicou para poder se casar com Wallis Simpson, norte-americana divorciada duas vezes. A filha mais velha de George, Elizabeth, viria a sucedê-lo como Rainha após a sua morte em 1952.


Cinema Blend: Como você acessa narrativas históricas como esta de uma forma com que elas não se pareçam com história?
Tom Hopper: Eu não as vejo como história. Para mim, esta narrativa é muito atual. O roteirista David Seidler nasceu em 1937, ele ainda se lembra dos discursos durante a guerra. David foi gago durante a infância e ele costumava ouvir ao Rei George VI no rádio para se assegurar de que poderia superar seu problema. Eu nunca pensei que eles não eram seres humanos. Eu não entendo que há uma forma de olhar para eles distintamente de seres humanos. Quando eu fiz John Adams estava ciente de que crianças americanas imaginavam esses pais fundadores em pedestais e achavam difícil pensar neles como carne e sangue. Como eu não sou americano eu tive a liberdade de não ser inibido por isso.

CB: Você esteve mais inibido contando a história do Rei, então?
TH: Não, porque nós ainda não conhecemos muito sobre ele. E em alguns aspectos ele ainda é um pouco negligenciado pela consciência pública. Eu certamente penso com algumas dúvidas de que ele foi gago ou não, mas certamente ninguém sabe da história do terapeuta de discursos. Eu pareço estar atraído em personagens icônicos e o que eles refletem para nossas culturas. Não é por que eu fiz o filme, mas eu certamente penso que é interessante que o inglês está em conflito sobre a monarquia. Por um lado eles são reverenciados e amados, eles são como uma novela nacional. Na outra, eles transmitem uma ideia de santificação e de diferença de classes e privilégio em uma moderna e progressiva democracia. Eu acho que o que é tão fascinante sobre o enredo [em O Discurso do Rei] é que ele ridiculariza qualquer noção simplista de privilégio. A história do George VI propriamente compreendida não é sobre privilégio; sua ascensão foi tão assustadora que ele teve a gagueira como resultado. Quando ele se tornou rei, claramente aquilo foi um pesadelo por causa da gagueira, pela chegada do rádio como uma tecnologia. Então se ele não é privilegiado, a monarquia deve mudar para obter resultados. E você compreende a Rainha atual se você compreende seu pai, aquele senso de dever e aquele senso que é o oposto de uma aproximação hedonista ao poder. É muito sobre sua ideia de dever, que eu penso que nós particularmente não temos mais em nossa cultura.

CB: Como você escolheu Colin Firth para interpreter George VI?
TH: Quando eu encontrei Colin pela primeira vez, minhas restrições eram para que ele fosse 10 anos mais velho. E Colin é um jovem forte, enquanto o verdadeiro rei era menor e tinha uma aparência mais fraca. Quanto mais eu pensava sobre o assunto e passava mais tempo com Colin, pensava que a similaridade espiritual era mais importante que o quesito físico. Colin é dedicado e extremamente gentil, ele tem uma humildade tremenda. E o verdadeiro rei, pela minha pesquisa, pareceu ser assim. Não é surpresa que Colin não é escalado para um herói de ação cheio de testosterona. Ele não ganha o papel do cara mal. Não está em seu DNA. O lado físico, de uma forma, está além disso. Graças à Tom Ford ele esteve o mais esguio como nunca parecera, e então eu trabalhei a sua linguagem corporal. Nós sentávamos em uma cadeira e ele se encolheria, encurvado para dentro de si mesmo. Quando ele ficava de pé ele se mantinha de uma forma estranha. Eu tentei tirar dele confiança física e postura. O dia mais extraordinário para mim foi o primeiro dia, o primeiro dia em que eles se conhecem, naquela longa cena de 10 minutos que também fica tão bem no teatro. Nós tivemos um ensaio de três semanas, o que é incrivelmente intenso. Ver Colin e Geoffrey habitando seus personagens para o primeiro dia de filmagem. Há sempre aquela dúvida no ar, “ele é um dos maiores ou ele apenas é muito bom?”. Naquele dia eu soube que ele era um dos maiores.

CB: E sobre Helena Bonham Carter?
TH: Eu me apaixonei por Helena em Uma Janela para o Amor quando eu era adolescente. Ela é uma grande atriz clássica, e eu achava triste que ela não tivesse feito um papel clássico por tanto tempo. Eu pensava que as pessoas estariam famintas para verem ela fazer isso novamente. Eu cresci com uma foto dela em um cartaz na minha parede em Uma Janela para o Amor, ainda que eu deva admitir que a foto da câmera platinum Panavision, que estava no mesmo pôster, era muito maior que ela. E a pesquisa dela era incrível. Cada vez em que eu estive na casa dela e de Tim [Burton] havia outro historiador real jantando com ela. O que é extraordinário é que em dois minutos você a aceita como a Rainha Mãe.

CB: E o que adicionou Geoffrey Rush ao elenco?
TH: É maravilhoso trabalhar com ele, pois ele tem este extraordinário entusiasmo. Ele tem a energia de uma criança de cinco anos. Você trabalha com alguém que é completamente incansável na sua busca por excelência. Nós tivemos um ensaio de três semanas parcialmente por que o Geoffrey me ligou e disse, “Eu não estou fazendo nada, por que nós não começamos?”. Enquanto isso o agente dele o instruía a vir apenas uma semana antes. Ele queria começar. Era interessante trabalhar com esses dois homens, porque Colin é muito engraçado mas ele é quieto e reservado, e Geoffrey tem este grande dinamismo. Tinha muita energia fluindo. Geoffrey esteve lá por quarto semanas e depois ele partiu para fazer uma peça, e Colin estava como se estivesse de luto. Foi muito doce. Helena ficou com ciúmes, “Oh, você está triste porque Geoffrey foi embora.”. Ela fazia piadas dizendo que era uma história de amor e que não era com ela.

CB: Como você trabalhou com a jovem Elizabeth, e criou aqueles pequenos lembretes de sua relação com seu pai, e sua iniciação como Rainha?
TH: Se em qualquer coisa eu demorei um pouco mais a editar, eu testei o filme e particularmente os americanos não fizeram a conexão, não se deram conta de que era a rainha. Eu penso que é uma vergonha se você não se dá conta de que é a rainha, e eu penso que é uma vergonha se você não se dá conta de que aquele é o pai dela, porque há algo de interessante em ser lembrado que aquele é o pai dela. Eu apenas me certifiquei de que a câmera deu mais status à ela e deu às pessoas tal lembrete.

CB: Nós devemos ter sentimentos negativos em relação à Wallis Simpson no final do filme?
TH: Eu quis conectar a narrativa com o ponto de vista dos irmãos mais novos. Se você é Elizabeth e Bertie, o que David fez foi extremamente egoísta. E nós sabemos dos livros de história que ele nunca se sentou para falar sobre sua decisão de abdicar em favor do progresso. Eu quis conectar com a narrativa o ponto de vista deles. Ambos os homens tiveram este relacionamento com mulheres que os dominaram. Com a Rainha Mãe eu penso que a dominação era benigna, enquanto com Wallis tinha um sabor um pouco mais sombrio. Guy Pearce e eu pensamos que havia um forte indicativo na noção do ciúme sexual. O grande mistério é o motivo pelo qual ele teve de se casar com ela. Eu sei que soa estranho, mas Edward VII, seu avô, teve um grande envolvimento com amantes. Então você meio que imagina, ninguém indicou que Wallis era mantida como amante durante toda a vida dele. A pista é que durante o processo de abdicação Wallis disse, “Vamos terminar, é loucura você fazer isto”, e isso o enraiveceu e fez com que ele ficasse mais determinado a se casar com ela. Esta é a minha própria leitura do caso, mas eu penso naquela famosa foto deles já envelhecidos, e eles parecem tão tristes.

CB: A cinematografia, a forma com que a câmera é colocada e as cores, há algo de interessante que acontece e eu quase não pude me dar conta. A forma com que os personagens são marcados independentemente do enquadramento soa menos limitada e conservadora.
TH: Bom, parcialmente é porque eu escolhi filmar os closes nas cenas da sala de atendimento e com o Bertie com lentes relativamente fechadas. Em Hollywood normalmente você filma closes em lentes grandes. Colocar a câmera em close é meio que brutal para o ator. É algo bastante forense, não há para onde ir. Você sente que é uma fotografia muito bruta. Você não deve usar lentes grandes, não é romântico, não tem o foco leve. Eu fiz por ter pensado que o rosto de Colin poderia ser emoldurado em relação ao negativo e Geoffrey poderia ser emoldurado em relação à fundos mais domésticos. Na primeira cena da sala de atendimento, Colin está de pé contra uma parece detonada, ele está do lado inferior-esquerdo e a parede é dominante. Sua face dialoga com um espaço negativo no enquadramento e isso acontece porque eu quis falar sobre abstenção e silêncio. Se você sofre de gagueira é como se você habitasse essas dolorosas abstenções e silêncios. Isso pode ser uma metáfora visual para como é ser gago. Mas quando você se vira para Geoffrey, ele tem a lareira, as cadeiras, as telas e as fotos, e tudo é aconchegante. Filmar de forma fechada também constantemente captura o ambiente para o enquadramento. Há provavelmente uma modernidade nisso que me agrada. Eu sempre estou tentando encontrar maneiras de fazer com que o filme pareça moderno para as pessoas. Em John Adams há muitas coisas, como a fotografia com câmera na mão e a dureza da fotografia. Eu quis que o resultado não soasse como muito reverencial.

CB: Mas em “O Discurso do Rei” o enquadramento é também muito formal, repleto de enquadramentos bem compostos. Isto é reflexão do elemento da realeza?
TH: Você está certa, há uma restrição neles. Existem várias intenções em minha direção. Eu mesmo enquadro as coisas e existem escolhas muito fortes à serem feitas. Eu gostei de colocar Colin em enquadramentos que pareciam decisivos pois é ele quem está nesta caixa.

CB: Quais são seus pensamentos sobre a recomendação R** da MPAA*?
TH: Eu penso que é realmente bizarra. Você meio que pensa que “um ‘foda-se’ significa PG-13***, dois ‘foda-se’ significa um R”. É um argumento em que você pode quantificar a linguagem mas não pode quantificar a violência, e eu considero isso altamente suspeito. A linguagem é altamente contextual e aqui nós temos a palavra começada com “f” sendo usada em terapia de locução. É utilizada puramente como um mecanismo para libertar alguém de uma gagueira. David Seidler, o escritor, encontrou esta técnica quando criança, nos anos 40. Você pensa, tudo bem, estava tudo bem em 1940 para uma criança, possivelmente estará ok em 2010.



* MPAA: Motion Picture Association of America, órgão censor responsável pela classificação indicativa de todos os filmes lançados comercialmente nos Estados Unidos.
** R: classificação que permite a entrada de menores de 17 anos apenas se estiverem acompanhados por seus pais ou tutores.
*** PG-13: classificação que indica que os pais devem ficar atentos, pois o filme possui material inadequadro para crianças menores de 13 anos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Origem e o meio termo


Muita gente adorou A Origem, o filme “pequeno” que Christopher Nolan quis realizar antes de encarar uma terceira parte de Batman. Não é um filme pequeno, óbvio, e para constatar isto basta olhar sua lista privilegiada de atores e prestar atenção nos cenários, no refinamento técnico, etc. A Origem é tudo, menos um filme pequeno. De repente, e por isso mesmo, foi há pouco tempo o protagonista de uma polarização de opiniões, entre os supracitados amantes do filme e os que acreditam que ele seja um engodo, um pseudo-biscoito-fino da recente cinematografia americana. A Origem é sucesso de público, de uma massa que vê algo de inteligente nele. Aí uma parte da crítica caiu matando. Parece que quando um crítico mais empedernido vê o espectador médio de cinema, não o cinéfilo, o consumidor casual de cinema mesmo, exultar um filme como sendo genial, absolutamente inovador, ele se deixa levar inversamente por esta empolgação, não raro desproporcional, para lançar um olhar até preconceituoso sobre o objeto de análise. Não é regra, nada é, na verdade, mas que acontece muito, acontece. Vejamos então o caso de A Origem, festejado por alguns como prova de vida inteligente no blockbuster, o filme que veio para tirar o entretenimento do buraco, e por aí vai. É tudo isto? Em parte, só em parte, mas isto não quer dizer que os que não o percebem desta forma, para desautorizar quem o vê assim, precise tornar superlativos seus “problemas” em detrimento de suas inúmeras qualidades.

A Origem não fala sobre as diversas camadas dos sonhos, sobre suas implicações psicológicas ou de alguma ressonância social que o tema possa abarcar. Se colocarmos ele em paralelo com seus concorrentes ao Oscar de Melhor Filme deste ano, veremos que alguns destes rivais são mais abrangentes, tem mais reverberação por conta de tramas carregadas de psicologismos, entornos mais elaborados e tudo mais. O que muitos não notam é que A Origem opera no espectador com muito mais força quando este se dá conta de que o substrato do filme está em seu primeiro plano narrativo, na primeira camada, que ele é um exemplar de ação, carregado da complexidade inerente quando inseridos elementos como: sonhos, projeções, culpabilidade, etc. Entendem? A Origem não é SOBRE estes assuntos espinhosos, não é um libelo acerca da culpa humana, ou sobre os diversos níveis de consciência, no máximo podendo ser enquadrado como contestador do conceito de realidade, mas bem de leve. Ele só utiliza estes ingredientes para dar um ar menos convencional à tipologia básica em que ele se encaixa de fato, que é a de "filme de assalto em equipe".

Para mim está aí o charme de A Origem. É um filme complexo? Não, de certa forma alguns tendem a taxá-lo assim pela bruma que se instala quando queremos controlar matematicamente as camadas dos sonhos que se apresentam no filme, mas em suma ele não é narrativamente complicado. Aliás, Nolan quase erra a mão no embaralhamento entre os níveis da missão subconsciente da equipe chefiada por Dom Cobb, mas o filme é tão dinâmico, seus personagens são tão assumidamente carcaças sem muita profundidade, que não é difícil se ver completamente envolvido com a narrativa, o desenrolar, os belos cenários, os efeitos competentes e a história cativante que alavanca o filme. A Origem é isto, um excelente entretenimento, um filme pipoca cabeçudo que funciona, e muito (pelo menos para mim) num nível que certamente elevaria o blockbuster, caso fosse tomado como parâmetro industrial. Christopher Nolan não fez um filme revolucionário, nada que mereça a alcunha de “obra-prima” ou “novo”, mas afinal de contas realizou algo que de tão interessante e bem executado, merece um lugarzinho de destaque nos bons filmes de ação produzidos nos últimos tempos na indústria americana. Levá-lo a sério demais poderia ser um pecado justificado pela adrenalina que sobra no final da sessão, mas menosprezá-lo poderia se configurar num excesso de preciosismo de uma crítica que geralmente não reconhece os meios termos, que só estabelece relevância quando edifica gênios ou taxa medíocres.