O sempre espirituoso
André Barcisnki tem uma seção em seu blog, na qual “faz churrasco de vacas sagradas”, ou seja, fala (mal) de filmes que são praticamente unanimidade no imaginário cinéfilo. Bem, este é o meu churrasco. Na verdade não é bem assim, o filme que motivou este post não é ruim, não o odeio com todas as forças, mas é um típico caso de superestima cinéfila. Falo de
Blade Runner - O Caçador de Andróides. Sim, os que amam incondicionalmente o
scifi de Ridley Scott já podem apedrejar. Para começar, deixo claro que já vi o filme duas vezes, e da primeira não tinha gostado quase nada. Recentemente visto, então pela segunda vez, e a mesma versão, aquela do diretor montada em 1991, o filme me pareceu mais inteligente do que eu lembrava, mas ainda ressentido de um bando de coisas, que não me permitem o envolvimento que as grandes obras suscitam.
Blade Runner - O Caçador de Andróides tem como protagonista Deckard, um caçador de replicantes, que são similares humanos criados com a mais alta tecnologia, tanto da robótica quanto da engenharia genética. O grande problema é que por mecanismo de defesa, e já prevendo problemas futuros, os criadores limitaram em quatro anos o período de vida de suas criaturas. A missão de Deckard é erradicar os replicantes, que voltaram para a Terra após uma rebelião violentíssima numa colônia instaurada em outro planeta. A partir deste incidente, todos os replicantes estão condenados à morte na atmosfera terrestre. Deckard então parte, como um legítimo detetive de filmes noir, na caça dos rebeldes, e no meio do caminho se apaixona por uma replicante que não tem, a priori, consciência de que o é, pois já representa um modelo dotado de lembranças implantadas e sem noção de sua finitude precoce, quase como um humano.
O filme é visualmente arrebatador, ainda para os padrões de hoje, possui belos e funcionais efeitos especiais e inspirada direção de arte que, trabalhando em consonância, conferem ao filme um visual retrô/futurista, que muito me agrada. As ruas apinhadas de gente do começo, e as mesmas vazias do meio para o fim, dão a exata da noção do entorno social de um planeta habitado apenas pela “escória”, já que os abastados viram colonizadores que largaram a decrepitude de uma Terra agonizante em sua própria auto-mutilação. Existe todo um viés filosófico que permeia Blade Runner - O Caçador de Andróides, muito por conta desta angústia dos replicantes, que somente buscam sobrevivência, não sendo essencialmente maus ou algo que o valha, e deste tom profético da decadência do planeta. É impressionante a profundidade alcançada nestes momentos de questionamento, que rapidamente remetem a expressões como “ser ou não ser, eis a questão” e a máximas filosóficas tais como “penso, logo existo” (esta inclusive citada no filme).
Fosse por esta embalagem, Blade Runner - O Caçador de Andróides poderia facilmente ser classificado como incontestável obra-prima, mas há no desenvolvimento de um roteiro trôpego, diversas inconsistências, principalmente de ritmo, que não me permitem embarcar totalmente na do filme. Não há alternância sadia entre a investigação de Deckard e o percurso dos replicantes. Eles caminham impreterivelmente para uma colisão, mas não há propriamente um clima de tensão nesta busca, as cenas são mais importantes encerradas em si mesmas do que vistas como frações de um conjunto. Chega um ponto em que Ridley Scott cansa de nos mostrar seus cenários e efeitos revolucionários, e praticamente se atém a esta caçada deveras apressada, sem a ampliação dramática necessária para uma maior empatia. Por exemplo, até entendo o amor de Deckard pela replicante acontecer de maneira tão instintiva, romântica, mas são engulo as cenas em que ele acaba com seus alvos de uma forma tão rápida, que a perseguição pregressa perde a força dramática, e passados cinco segundos esquecemos da relevância daquele ser meio orgânico/meio inorgânico que acabou de morrer. Isto poderia ser uma “alusão a como descartamos vidas humanas, esquecendo seu valor”? Claro que poderia, num cenário mais bem desenvolvido. Em Blade Runner - O Caçador de Andróides, estas sequências soam como buracos mesmo.
No final das contas, Blade Runner - O Caçador de Andróides vale por todos estes elementos que citei num dos parágrafos acima, por mostrar estas crises existenciais, num paralelo bem rico com o próprio senso de finitude humana, e pela ótima caracterização de um futuro que, acredito, não oferece cenário muito diferente do que temos pela frente. Profético, Blade Runner - O Caçador de Andróides ainda tem uma trilha sonora das mais icônicas e funcionais. Parece-me, porém, mais forte nos elementos inerentes ao livro em que se baseou, e carente de um desenvolvimento narrativo cinematográfico tão criativo e arrebatador quanto seus cenários, efeitos e intenções. Um bom filme de ação, turbinado com signos bem mais bem exitosos que as tímidas curvas que eles ajudam a compor, isto que é, para mim, Blade Runner - O Caçador de Andróides. Um filme superestimado, “vítima” do culto que o levou a um panteão que ele não merece pertencer.