sábado, 9 de abril de 2011

Adeus Lumet

"O objetivo de todos os filmes é entreter, mas o tipo de filme em que eu acredito vai um passo adiante, compele o espectador a examinar uma faceta ou outra de sua própria consciência"

Sidney Lumet
25/06/1924 – 09/04/2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

The Tramps Entrevista: André Barcinski


Dando sequência às entrevistas com críticos de cinema, exclusivamente concedidas ao The Tramps, conversamos com André Barcinski, dono de uma irreverência textual inconfundível, e a quem aproveitamos para agradecer pela colaboração.

André Barcinski é crítico da Folha de S. Paulo. Trabalhou no Notícias Populares, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde. Foi correspondente em Nova York e Los Angeles. Autor de “Barulho”, vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem de 1992, e co-autor de “Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão”. Diretor de “Maldito” (2001), documentário vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Sundance.



Acompanhem o blog do André Barcinski em: http://andrebarcinski.folha.blog.uol.com.br/

__________________________________________________

• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Meus pais sempre gostaram de bons filmes. Quando eu era adolescente, comecei a freqüentar cineclubes no Rio (Macunaíma, MAM, as sessões de filmes franceses na Maison de France). Depois, fui cineclubista, fundei o cineclube da minha escola.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Acho que o mesmo de sempre: tentar separar o joio do trigo; destacar quem merece e atentar para novos nomes.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Eu acredito que qualquer discussão sobre cinema – e arte em geral – é válida, não importa o veículo. Hoje, as pessoas parecem ter menos disposição para ler textos longos, os blogs e sites sobre cinema são bem populares. 

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Eu acho que a crítica, por mais informação que possa transmitir, funciona melhor quando é subjetiva. É a análise que aquela pessoa faz da experiência de ter visto aquele filme. Claro que é importante contextualizar a obra e descrevê-la, até para o leitor ter uma idéia melhor do que vai assistir. Mas eu, como leitor, quero saber como aquele filme afetou a pessoa que está escrevendo. É óbvio que cada pessoa reage diferentemente a um filme. Isso depende de uma série de fatores e gostos pessoais. Mas a crítica que mais me toca é aquela em que a pessoa fala abertamente sobre a obra. Prefiro um texto pessoal e com lacunas de informação a uma crítica fria e “eficiente”.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Sempre volto a Pauline Kael, não tem jeito. Tenho todos os livros dela, é fantástico assistir a um filme e depois conferir o que ela escreveu. Ela escrevia de forma livre, como se estivesse conversando com o leitor, e era muito corajosa. Defendeu diretores execrados por muitos e destruiu alguns filmes “intocáveis”. Mesmo se você não concordasse com ela, era impossível não ver ali uma opinião forte e pessoal. Entre os brasileiros, gostava muito do Salvyano Cavalcanti de Paiva. Dos contemporâneos, gosto do David Denby, da New Yorker. E adorava o Elvis Mitchell, no NY Times, pena que durou tão pouco.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Nenhum, porque os diretores de que mais gosto – Pasolini, Buñuel, Satyajit Ray, Fuller, Mojica, Kurosawa – já tinham feito seus melhores trabalhos antes de eu começar a acompanhar suas obras. Fiquei muito triste com a morte de Kieslowzki, porque gosto muito dos filmes dele e acho que ainda tinha muito a oferecer.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Sinal dos tempos. Tudo é mais rápido e mais curto. Às vezes, me pego relendo textos que fiz para jornais e revistas há 15 anos, e me assusta como tínhamos espaço para escrever. Hoje, o espaço reduzido nos jornais força os críticos à concisão. Fica difícil fazer grandes reflexões ou analogias quando se tem poucas linhas. Além do mais, sempre procuro lembrar que estou escrevendo em um jornal de grande circulação e para um público que, muitas vezes, só quer saber se aquele filme vale duas horas de seu tempo. É muito diferente escrever um livro sobre um cineasta ou um texto para uma revista de cinema.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Claro. Especialmente hoje, quando as fronteiras entre os dois estão tão indefinidas.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Com preocupação. Nossos filmes são muito caros, e a forma de produção é lenta e privilegia o cinemão comercial. Um cineasta leva cinco anos para conseguir dinheiro para um filme. É muito tempo. Acho que a geração mais nova deveria buscar maneiras mais rápidas, baratas e eficientes de filmar. Acho inadmissível que as tecnologias melhorem tanto, com câmeras melhores e mais baratas, e os custos dos filmes continuem subindo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Tinto Brass e o magnetismo sexual


O cinema de Tinto Brass é kistch até os ossos. Erótico e lascivo são também adjetivos que se pode atribuir às narrativas e mise-en-scènes que brotam da cabeça deste italiano sem pudor. Nem sempre é fácil identificar as camadas que compõe seus desnudos personagens, ou “penetrar” no psicológico e nas motivações de mulheres que exibem sua genitália sob uma calcinha provocante de renda, ou por meio do reflexo no espelho. Tinto brinca com a capacidade de concentração do espectador e regularmente trata de desviar seu olhar, dissociando muitas vezes suas percepções de imagem e som, como nas sequências em que mulheres conversam sobre angústias, dúvidas e temores, enquanto a câmera fica estática em suas (geralmente lindas) bundas. Tinto Brass se vale de personagens que guiam seu comportamento pelas pulsões sexuais, brinca com as taras e impulsos do espectador. 

Ao contrário do que muitos pensam, Tinto não faz filmes para homens, ou só para eles, já que sua intenção não é puramente exibir a mulher, mas sim mostrá-la como meio pelo qual o desejo universal se manifesta. A câmera de Tinto é magnetizada pelo corpo feminino, pela voluptuosidade das curvas, gestos e trejeitos da fêmea, cuja nudez, convenhamos, independente de gostos cores e amores, esteticamente é muito mais atraente que a do homem, este bicho rústico, quase um bípede pré-histórico. Assim como habilidosos cineastas utilizam o terror para fazer comentários políticos, por exemplo, Tinto faz do comportamento quase surrealmente sexual de suas personagens, veículo para discussões que influenciam o particular e, por conseguinte, o entorno social. Nem sempre suas narrativas conseguem transcender esta proposta estética embebida de signos ligados ao sexo. Por vezes a forma sufoca, e ele perde a mão no conteúdo. Erram, porém, os que reduzem o erotismo de Tinto Brass ao soft pornô, ou ao estigma de “filme para tarados”. Pensar assim é amortizar o talento de um autor que, no mínimo, trabalha com habilidade no limite entre o bom e o mau gosto.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

The Tramps Entrevista: Sérgio Alpendre


Continuamos a série de entrevistas com críticos de cinema, exclusivamente concedidas ao The Tramps. Nossa segunda conversa é com Sérgio Alpendre, um profissional que tem nossa admiração e respeito, e a quem aproveitamos para agradecer pela colaboração.

Sérgio Alpendre é crítico de cinema, jornalista e professor. Fundou e editou a Revista Paisà, foi redator da Contracampo durante dez anos e atualmente colabora para o UOL, a Folha SP (guia de livros, discos, filmes) e a FOCO.

Sigam o blog do Sérgio Alpendre: http://chiphazard.zip.net
Confiram também o trabalho da Revista FOCO, uma das mais interessantes publicações sobre cinema da internet: http://focorevistadecinema.com.br/


_________________________________________


• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Nasceu aos seis anos, quando meus pais me levaram ao extinto Rio Branco para ver uma animação de Walt Disney, Robin Hood. Depois, passei a atormentá-los todos os dias, porque queria repetir a experiência. Mais tarde, me tornei cinéfilo de locadora (VHS) e de filmes clássicos na TV aberta, já no fim dos anos 80.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Não deixar o espírito crítico, questionador, morrer debaixo da mediocridade reinante. Ou isso ou não faz mesmo sentido. Ainda não sei. Só sei que quero continuar sendo crítico, por algum tipo de masoquismo.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Acho que essa crítica de internet gerou um novo academicismo que acaba fazendo com que esses críticos escrevam para outros críticos, ou para estudantes de cinema. A Contracampo, por exemplo, foi uma revista que fez avançar o pensamento cinematográfico, mas não soube se renovar. Não soube fazer o avanço para uma verdadeira crítica cinematográfica, livre de conceitos acadêmicos e vaidades intelectuais, pronta para amar o cinema e transmitir esse amor aos leitores. As revistas que surgiram depois da Contracampo (Cinética, Moviola, Filmes Polvo, mesmo a Paisà que eu fundei e editei, e muitas outras) também não souberam sair dessa prisão sub-acadêmica

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Na crítica geralmente enfraquece, mas há exceções. Gosto de análise, gosto de muitos trabalhos acadêmicos, mas não gosto de sub-análises e sub-academicismo. Acho nocivo à crítica. Não creio que se possa esconder o gosto ao escrever uma crítica, por exemplo. Vira outra coisa, nunca uma crítica. Também não acredito no "mais objetivo possível".

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Dos de outrora destaco Sganzerla, Jário Ferreira, Jean Douchet, Noel Simsolo, Jacques Lourcelles, Jean-Claude Guiguet, João Bénard da Costa, Truffaut, Rivette, Luc Moullet, Michel Mourlet, Jean Domarchi, Rohmer, Bazin, e diversos outros que leio menos, mas sempre com o maior prazer. Em atividade posso citar o Inácio Araujo, o Luiz Carlos Oliveira Jr. e o Bruno Andrade no Brasil. Juliano Tosi é outro que admiro, mas não escreve há um bom tempo. Chris Fujiwara nos EUA. Sèrge Bozon tem um trabalho interessante na França, tem o Chauvin também. Mas crítica é também momento. Em 2008 outros nomes pintariam. É bem possível que daqui a dois anos outros nomes apareçam, ou os que pintariam em 2008 voltem. Existem fases, respostas às vidas particulares de cada um. São muitas coisas que influenciam.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Recentemente o Rohmer, sem dúvida. Seus últimos filmes foram geniais. Mas tem morrido muita gente boa de cinema. Está assustadora a maré.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Acho sobretudo um erro estratégico. Querem imitar a internet, mas estão entrando em um jogo que não podem vencer. O jornal devia trazer a reflexão do furo, a notícia aprofundada e a opinião. A crítica é mais uma vítima dessa orientação equivocada, a meu ver.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Não acho muito válido, não. Essa dicotomia nunca foi muito evidente para se estabelecer valores, nunca será. Filmes comerciais podem ser bons, assim como tem uma penca de filmes "de arte" que são horríveis, rasos esteticamente, com humanismo de almanaque.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Vejo com interesse, sempre. Eu sou teimoso, insisto. Há anos me parece que o cinema comercial (para fazer o link com a resposta anterior) é mais feliz que o autoral, ao menos no Brasil. Walter Salles, por exemplo, faz cinema autoral, e raramente acerta. Aquele Budapeste, do Walter Carvalho, é um horror. Insolação, idem. Já os últimos de Daniel Filho, Tempos de Paz e Chico Xavier, são belos exemplos de bom cinema de artesão, com pensamento no grande público. Tropa de Elite (os dois) é outro bom exemplo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Cinema de modelar


Estes produtores e suas maravilhosas invenções. Sério, rio sozinho cada vez que sai a informação de que o “produtor Fulano de Tal” acabou de comprar os direitos de um jogo de tabuleiro para vertê-lo ao cinema. Hã? Confesso que também tenho vontade de ir a Los Angeles quebrar uma cadeira na cabeça do “produtor Beltrano” que “está tentando reunir time de notáveis profissionais para tirar do papel um filme emocionante sobre o brinquedo que fez muito sucesso na década de 80”. Sério? Mente para mim, e diz que isso não é só para que as empresas de brinquedos, jogos e outros divertimentos, vendam mais e mais, mesmo que o filme derivado seja uma bomba completa?

Não é de hoje que a crise afeta Hollywood, na verdade ela é cíclica, só muda a intensidade com o tempo. Está ainda mais difícil competir com o entretenimento caseiro, proporcionado por equipamentos cada vez mais acessíveis e de qualidade, ou mesmo pela facilidade em realizar downloads. A comodidade de não precisar sair de casa para conferir aquele filme que você tanto espera, sem entrar em filas ou passar por aborrecimentos numa “sessão comentada” por gente que não cala a boca, está fazendo as pessoas deixarem de lado o hábito de ir ao cinema. O encanto da tela grande parece atingir somente os que realmente gostam de cinema, e não apenas de filmes. Apesar de que até mesmo os cinéfilos mais xiitas tem se regozijado com audiências particulares, por conta da já citada balbúrdia que viraram algumas sessões públicas de cinema. 

Então, desesperados, os executivos de Hollywood estão buscando de tudo. Remakes já não satisfazem mais, agora a onda são as franquias e as adaptações de coisas que nunca imaginaríamos base de um filme, como os tais jogos e brinquedos. Alguém pensa em filmes realmente bons, que valham alguma coisa, adaptados de Batalha Naval, Candy Land, Monsterpocalypse, War, Detetive, e LEGO? E olha que esqueci alguns, até já em produção. É claro, o correto seria não criticar estas iniciativas de antemão, pois vai que por algum milagre do santo padroeiro dos produtores e executivos à beira de um ataque de nervos, destas propostas estapafúrdias resulte algum filme bom? Porém, sejamos sinceros. Confiar plenamente em tais intenções seria esperar um milagre, que pretende trazer consigo outro, o da multiplicação dos expectadores. É, o cinema industrial caminha a passos largos para um completo vazio.

terça-feira, 29 de março de 2011

Teste, a tentação e o grande filme


Quando compro DVD’s, testo logo que posso. Não quero correr o risco de ter adquirido um produto com defeito, então simplesmente eu testo. Coloco o disco no player, deixo rodar, vejo algumas cenas, confiro se a legenda está legal e, só depois de todo este périplo, devolvo o querido DVD para sua embalagem, posteriormente achando um lugarzinho para ele junto a seus “irmãos” que já moram no meu estande. É quase um ritual, alguns podem chamar “neurose compulsiva”, mas, de qualquer maneira, prefiro assim, mesmo sabendo que estes testes supérfluos não excluem de todo o risco de algum eventual defeito.

Ontem chegou meu DVD de Bastardos Inglórios e eu fiz o quê? Fui testar, é claro. Coloquei o disco, verifiquei idiomas, áudio, e solicitei, via controle remoto, o início do filme. Quando dei conta, já tinham se passado mais de 20 minutos, e chegava ao fim o primeiro capítulo (quem viu a mais recente obra-prima de Tarantino, sabe que ela é ordenada desta forma capitular). O mais duro foi me deixar contaminar pela realidade de que não teria tempo hábil para assistí-lo por inteiro, parar bem no ponto em que iniciaria o segundo capítulo, guardar o DVD e partir para a revisão de um maldito trabalho universitário. Moral da história: nunca teste o disco de um grande filme quando não puder sucumbir à tentação de vê-lo de cabo a rabo.

domingo, 27 de março de 2011

The Tramps Entrevista: José Geraldo Couto

Iniciamos com este bate-papo, uma série muito especial de entrevistas com críticos de cinema, exclusivamente concedidas ao The Tramps. Foram propostas algumas questões a profissionais que são referências na busca por uma melhor compreensão da arte cinematográfica. As perguntas são as mesmas para todos, e elas pretendem oportunizar uma reflexão sobre o ofício de crítico, a qualidade do pensamento acerca do cinema (e das artes como um todo), e permitir uma troca de informações sobre as articulações que buscam a iluminação dos diversos aspectos desta arte "divina e maravilhosa", como diria Gláuber Rocha.

É com imensa honra que apresentamos nosso primeiro entrevistado: José Geraldo Couto. Paulista de Jaú, Zé como carinhosamente é chamado, formou-se em história e jornalismo pela USP. No Grupo Folha, foi redator e editor-assistente de Cotidiano, redator da Primeira Página, redator e repórter do Mais! e da Ilustrada. Cobriu ainda vários eventos esportivos, além de diversos festivais de cinema e feiras literárias. É autor de "André Breton - A Transparência do Sonho” (Brasiliense), "Brasil: Anos 60" (Ática) e organizador de "Quatro Autores em Busca do Brasil" (Rocco). José Geraldo também é tradutor.

Sigam o Zé Geraldo em seu blog: http://blogdozegeraldo.wordpress.com/

______________________________

• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
É difícil dizer. Nasceu na infância, acho, no encantamento da sala escura, das imagens arrebatadoras de faroestes e filmes de aventuras. Mas a ideia de que o cinema pode ser pensado e discutido surgiu só na época de colégio (o equivalente ao atual segundo grau). Foi quando escrevi minhas primeiras tentativas de crítica, para o jornalzinho da escola.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Acho que o sentido, ou um dos sentidos possíveis, de ser crítico nos dias de hoje é ir um pouco contra a corrente da publicidade e do senso comum, chamando a atenção das pessoas para outras maneiras de ver e fruir as obras de arte (no caso, os filmes). Iluminar aspectos da produção artística que tendem a ser obscurecidos pela cultura das celebridades, do entretenimento rasteiro. Trazer para a discussão aspectos relevantes dos filmes, dos mais "comerciais" aos mais aparentemente áridos.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Penso que é preciso separar o trigo do joio. Assim como ocorre nas publicações impressas, a internet abriga o pensamento mais sofisticado e a crítica mais rasteira, apressada e irresponsável. Por um lado, surgiram na internet críticos-cinéfilos muito informados e competentes, como o pessoal das revistas contracampo, cinética, cinequanon etc. Uma geração de críticos e pensadores de cinema que não tinham espaço nos grandes órgãos de imprensa. Mas, dada a facilidade de criação de blogs, surgiu também uma grande legião de palpiteiros sem muita formação e informação. A questão é saber triar, saber escolher aquilo que vale a pena ler.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Acho que a crítica não deve partir da pretensão de ser totalmente objetiva. Deve, ao contrário, reconhecer desde o início que será sempre uma visão parcial, um recorte, uma abordagem a partir de um determinado ponto de vista. Isso não significa abrir mão da busca de uma certa objetividade, ou do recurso ao mais amplo instrumental possível de análise. Sou contra o "opinionismo", a crítica sentenciosa, que coloca o julgamento acima da observação, da análise, da exegese. Não é tão importante saber se o crítico x ou y "gostou" ou não de um filme, mas sim o que ele viu ali que pode ajudar a fruir melhor aquela obra. Penso que o crítico deve ajudar o espectador a aguçar o olhar e ampliar a sensibilidade, em vez de impor a ele a sua opinião, o seu juízo.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Dos críticos de outros tempos, os que mais me influenciaram, e que admiro ainda hoje, são os franceses André Bazin e François Truffaut e o brasileiro Paulo Emilio Salles Gomes. Os textos deles iluminam de tal maneira o objeto abordado - e o cinema de um modo geral - que sua leitura é um grande prazer e um grande aprendizado. Dos críticos que estão aí na ativa, admiro muito o Ismail Xavier e o Jean-Claude Bernardet, no âmbito da crítica erudita-universitária, digamos, e na imprensa sou fã de carteirinha do Inácio Araujo e de alguns críticos que estão meio afastados dos jornais, como o José Carlos Avellar e o Carlos Alberto Mattos. Entre o pessoal que surgiu na internet, gosto em especial do Eduardo Valente, da Cinética, e do Daniel Caetano. Claro que estou deixando de lado muitos críticos excelentes, mas não quero fazer uma lista exaustiva e enfadonha.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna, que parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Toda morte de um grande diretor causa consternação em quem ama o cinema, mas sinceramente acho um pouco tolo e melodramático atribuir à morte deste ou daquele cineasta o "fim do grande cinema" ou, pior, o fim da civilização. Acho mais estimulante procurar e "descobrir" novos cineastas, novas cinematografias, novos olhares. É como no futebol. Há saudosistas que dizem que o futebol nunca mais foi o mesmo depois de Pelé. Mas, puxa vida, depois dele tivemos Romário, Maradona, Zidane, e hoje temos Messi. É preciso, sem esquecer o passado e a tradição, manter os olhos abertos para o que está vivo à nossa volta.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Acho que as duas coisas. Tem a ver com uma submissão mais ampla do jornalismo aos ditames do mercado. A parte de cultura dos jornais e revistas semanais virou pouco mais do que um guia de consumo de bens culturais. Há pouca reflexão, pouco espaço para desafiar o mercado. Um blockbuster hollywoodiano, ao chegar ao circuito, já tem garantidas as capas e fartas páginas dos cadernos de variedades. Ao mesmo tempo, para discutir um filme brasileiro ou argentino ou coreano da maior relevância estética e cultural, muitas vezes não há espaço. Acho que os editores e diretores de grandes jornais se acomodam muito rapidamente à ideia de que "é isso o que o leitor quer", sem perceber que o próprio jornal é um formador de opinião, e que o público não é uma massa uniforme, nivelada por baixo, mas abarca pessoas e grupos com os mais diversos interesses e expectativas.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Válido é, mas desde que evitemos a armadilha de criar uma contraposição mecânica entre essas duas coisas. Há filmes extremamente comerciais que são relevantes artisticamente, e há filmes que fracassam na bilheteria não por serem "artísticos", mas por serem desinteressantes ou simplesmente ruins mesmo. Sempre cito o caso de Hitchcock, cujo principal objetivo era sempre atingir e comover o maior público possível, e que no entanto criou filmes extraordinários do ponto de vista da linguagem e da estética do cinema.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Vejo uma situação rica e um tanto confusa. Há os grandes sucessos de bilheteria, como Tropa de Elite, Chico Xavier e Se Eu Fosse Você, e há, na outra ponta, uma série de filmes autorais, com uma busca interessante de linguagem, que encontram muita dificuldade em encontrar um lugar no mercado exibidor. E entre um extremo e outro existe uma grande massa de filmes que almejam o mercado, que fazem todo tipo de concessão (estética, dramatúrgica, de elenco, de tema) para atingir esse mercado e que no entanto fracassam, porque ficam no meio do caminho, sem a eficácia narrativa dos blockbusters e sem a alma dos filmes autorais. Essa, a meu ver, é a maior praga, é o entulho que funciona como um peso morto e atrapalha o desenvolvimento do cinema feito no Brasil e sua relação com o público. Claro que a grande questão, já que bem ou mal se consegue produzir bastante, segue sendo o gargalo da exibição, a ocupação de 90% das salas por três ou quatro filmes de grande público. O fato de, eventualmente, um desses três ou quatro ser brasileiro, a meu ver, não refresca muito. Acho que quanto maior a diversidade à disposição dos espectadores, melhor.