segunda-feira, 16 de maio de 2011

O que aprendi com Gotcha - Uma Arma do Barulho


Assistia muito Gotcha - Uma Arma do Barulho na Sessão da Tarde, e com ele aprendi algumas coisas valiosas, que me foram lembradas agora na revisão:

  • Armas de paintball são legais, e seriam ainda mais se estivessem disponíveis para jogos, como o apresentado no filme, nas universidades brasileiras. Imagine você, indo para aquela aula noturna, cheio de preocupações com a prova que terá de fazer, cujo estudo provavelmente não foi objeto de sua atenção no fim de semana, e ainda ser perseguido até levar uma bolada de tinta que manche inapelavelmente o blusão que você acabou de comprar. Genial e inspirador.
  • Em hipótese alguma tenha como companhia de viagem um amigo que se passa por Carlos, o Chacal para levar para a cama umas menininhas que adoram perigo, mas contabilize esta amizade quando precisar da gangue dele para lhe ajudar numas coisinhas.
  • Nunca acredite, principalmente quando se é virgem, que uma linda mulher, com cara, jeito e sotaque de espiã, possa se interessar por você, apenas por não gostar de homens peludos.
  • Evite Berlin Oriental, companhias russas suspeitas, e, se for estrangeiro, deixar o visto expirar.
  • Procure não se hospedar num hotel que não vá se responsabilizar por eventuais arrombamentos no seu quarto, quando da sua ausência.
  • Não deixe seus pais ricos, e sem muita coisa para fazer, acharem que você é um drogado. Aliás, de forma alguma deixe que seus pais achem que você é um drogado. Melhor ainda, não use drogas.
  • É muito útil saber onde fica o armário com os soníferos injetáveis, numa faculdade de veterinária.
  • Se uma menina te esnobar, não hesite em tranqüilizar a nádega dela com uma substância que faria um tigre de bengala dormir por horas.

Revendo Gotcha - Uma Arma do Barulho ontem, me diverti tal qual nos idos tempos de estudante. Como  nos anos oitenta os americanos faziam bons filmes de entretenimento que realmente entretinham, independente do absurdo em que eram galgados. Afinal de contas, um filhinho-de-papai que brinca de James Bond no campus da universidade e que, durante viagem para o exterior, louco para fazer sexo e ver museus, nada mais, se vê envolvido com uma bela mulher numa trama de espionagem internacional, é algo bem insano, não é mesmo?

O filme é uma obra de arte? Não, claro que não, tem momentos até bem deslocados, como quando Jonathan, em meio ao caos, resolve comer uma bela refeição americana (mistura de merchan e patriotada bem vagabunda). Mas é divertido, leve, nem de longe aborrece e ainda tem algumas coisas bem interessantes, principalmente quando pensamos nele como um exemplar para adolescentes e jovens adultos. Estou em casa, de molho por causa de uma gripe, mas confesso que não tenho a mínima intenção de me refestelar no sofá para ver a Sessão da Tarde, que hoje exibe o “grande” Um Príncipe em Minha Vida 2: O Casamento Real. Não, obrigado. Bons tempos em que Gotcha - Uma Arma do Barulho era só um entre tantas outras “pérolas” que faziam nossa alegria juvenil nas sessões da tarde.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mostra #05 - Hiroshima Meu Amor


A última noite da Mostra 1959 - O Ano Mágico do Cinema Francês começou meio desajeitada, já que o responsável pela projeção deu início a ela sem que habilitasse as legendas em português. Saí então da sala, fui comunicar o engano, e neste ínterim algumas pessoas chegaram, beneficiando-se (pelo menos algo de bom) do imbróglio que atrasou em mais ou menos dez minutos o começo do filme. O exemplar da noite foi Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais, outro diretor que não fazia exatamente parte da patota de Godard e companhia, mas que nem por isso deixou ao longo dos tempos de gozar do prestígio que acertadamente lhe atribuem: o de um dos mais talentosos e importantes cineastas franceses.

Hiroshima Meu Amor inicia com uma sequência genialmente construída, uma fusão de imagens da cidade que teve sua população vitimada pela queda da bomba atômica, com a conversa de alcova de um casal, um arquiteto japonês e uma atriz francesa de passagem pela terra do sol para a gravação de um filme sobre a paz. Poucas vezes vi algo tão expressivo e tão dolorosamente poético no cinema. A partir daí, temos uma impecável construção fílmica que, além de brilhante e inventiva como narrativa do romance, é poderoso libelo contra os conflitos bélicos que afetam as pessoas em escala global. No cinema comumente memorialista de Resnais, somos intimados a não esquecer, a valorizar lembranças e a entender como elas auxiliam na modelagem dos seres e da história. Hiroshima Meu Amor é um filme complexo, onde todos os planos, olhares e gestos, são orquestrados rigorosamente sob a égide do artista formidável que é Resnais. Uma segunda visita à obra se faz necessária, seja pelo simples prazer de rever algo tão pungente e belo, ou mesmo a fim de perceber elementos que certamente escorregaram pelos vãos da percepção na primeira vez.

O colóquio posterior foi, mais uma vez, bem interessante e produtivo. Quem dera pudéssemos ter todas as semanas construtivas como esta foi. Aproveitamos para agradecer ao SESC Caxias do Sul, que nos possibilitou este contato com filmes tão importantes, e as posteriores trocas de conhecimento, das quais por vezes fomos condutores, e a todos que compareceram a estas sessões do imprescindível cinema francês.

Mostra #04 - Pickpocket


Diferente dos diretores vistos anteriormente na Mostra, Robert Bresson não estava debutando no cinema ou mesmo ainda tateando por seus primeiros filmes em 1959, já tinha 25 anos de carreira quando do lançamento de Pickpocket. Há quem diga que ele é uma espécie de pai da nouvelle vague, um guru que precocemente carregaria alguns dos substratos da nova onda, antes mesmo que ela servisse de estandarte para os jovens turcos da Cahiers du Cinéma. Bresson sempre foi um formalista rígido, e sua convicção no trabalho com não atores e linguagem minimalista agradava André Bazin e a maioria de seus pupilos.

Pickpocket surge então em meio a eclosão do movimento, ao turbilhão revolucionário causado pela nouvelle vague. Seguindo a economia que esteticamente já pautava suas obras, Bresson cria em Pickpocket um conto sobre a moralidade, os crimes e os castigos vistos através dos olhos de Michel, habilidoso batedor de carteiras. Como de costume, Bresson trabalha com não atores. Há uma espécie de desconforto dos que não atuam por profissão, que é canalizado de maneira orgânica e hábil pelo realizador como estado de espírito e atributo definidor dos personagens. Bresson não se importa muito com a geografia dos espaços, dando especial atenção às suas desiludidas criaturas, sem qualquer traço de paternalismo ou algo do gênero. Roubar carteiras é um meio de subsistência para Michel, mas ele não o faz pela recompensa financeira, e sim para se sentir vivo, para conferir alguma textura a sua existência. Percebemos então que todas as figuras de Pickpocket são assim, como que levadas por uma enxurrada, em busca de algo em que se agarrar para sobreviver.

A conversa que sucedeu a exibição foi ótima, a melhor até agora, justamente por que contou com uma boa interação da plateia. Conversamos bastante sobre o filme, sobre Bresson, e quando nos demos conta já discutíamos Resnais, Cidadão Kane, neo-realismo italiano, cinema americano e outros assuntos que espontaneamente se infiltraram, assim como acontece nas boas conversas, em que um contexto emenda outro. Hoje é o último dia da Mostra, com a exibição de Hiroshima Meu Amor, de Alain Resnais. Espero por vocês lá às 19h.

Mostra #03 - Quem Matou Leda?


Ontem, por volta das 18h, caiu uma chuva torrencial em Caxias do Sul. Como nosso deslocamento até o SESC é feito a pé, obviamente encaramos (eu e o Conrado) a sessão de Quem Matou Leda? encharcados, assim como os outros cinco presentes, creio. O terceiro filme de Chaude Chabrol, seu primeiro colorido, deixa clara uma queda acentuada para o suspense que marcou sua carreira, para as histórias de aparências. Exemplo é a mulher (linda) do início, flertando descompromissadamente com alguns homens, forma, aliás, interessante de apresentar a composição da casa. Logo somos levados a pensar: “é a Leda do título”, mas com o decorrer da trama, percebemos que além de não ser (seu nome é Julie), ela é a empregada desta residência abastada do interior da França, sem muita importância vital para o restante do filme, utilizada apenas para desviar momentaneamente nosso olhar. A dita moradia abriga um turbilhão emocional, com a infidelidade paterna, a apatia do filho, a passividade da filha, que mantém relacionamento com o “abusado” Lazslo, e o sofrimento quase masoquista da mãe que presencia seu marido a traindo com a vizinha artista, a tal Leda do título.

Confesso que Quem Matou Leda? não me agradou muito. O desenrolar da trajetória familiar pareceu reiterativo demais, e o posterior “quem matou” fica relegado ao segundo plano, diante ainda de uma exposição inconstante de personagens. Saber no final das contas quem matou Leda não soa lá muito relevante. Utilizar o assassinato apenas como meio de potencializar as relações familiares pedia justamente uma construção menos trepidante de personagens e da atmosfera que os circunda.  Por certo o filme tem momentos de iluminação, como a maneira engenhosa com que Chabrol insere os flashbacks, que geralmente acabam na troca de ponto de vista de algo já conferido anteriormente. Quem Matou Leda? tem a característica dos primeiros filmes dos grandes diretores, com momentos bastante fortes, mas ainda carentes da maturidade que seus criadores adquiririam com o tempo e a vivência no cinema.

A conversa após a sessão foi bem interessante, e ainda mais informal, já que se interessaram por ela apenas três pessoas, sendo duas delas funcionárias do SESC. Hoje tem Pickpocket, de Robert Bresson, à partir das 19h. Espero vê-los lá.

Obs.: Post originalmente publicado no dia 12/05/2011. A repostagem foi necessária devido a um problema em grande escala no blogger,  que acabou acarretando no apagamento dos comentários e postagens do dia 12.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Mostra #02 - Os Incompreendidos


Revistar Os Incompreendidos, a obra que marcou o início da carreira cinematográfica de François Truffaut, é sempre um prazer, um deleite para nossos olhos constantemente bombardeados pela parca qualidade da maioria dos filmes contemporâneos. Antoine Doinel, alterego do diretor, é outro marginal, característica, aliás, dos protagonistas de alguns dos melhores filmes da nouvelle vague, por não se encaixar nos moldes ditados pelos poderes institucionalizados e reguladores da sociedade. Antoine não se adéqua à escola, não vê nela um espaço para si, assim como se percebe deslocado no seio familiar, este degradado por traições, dissimulações e falta de afeto. Doinel só encontra alforria na rua, local de descobertas e da livre exploração de um mundo que tratará de lecionar a ele algumas coisas valiosas.

Antoine Doinel lá pelas tantas se vê preso, encarcerado por não ser como a maioria, um modelo inadequado. Abandono dos pais, opressão do sistema, tudo conspira para que ele não chegue a lugar algum e, no fundo, baseado em suas próprias vivências, Truffaut com este filme nos diz que as engrenagens que movem a máquina, por vezes só tratam de massificar e apequenar algumas ambições pessoais. Fugir pode ser a solução, correr para a contemplação das torrentes do amplo mar que se desnuda frente a nossas expectativas pode ser o caminho para esta liberdade que tanto almejamos. 

A conversa ontem no SESC foi boa, eu e o Conrado não parávamos de tagarelar, externando nossa paixão tanto pelo filme quanto pelo movimento em si. Das dez pessoas que viram Os Incompreendidos, seis (incluindo aí duas do SESC) ficaram para a conversa, e tivemos intervenções interessantes que amplificaram a experiência. Continuo pesaroso apenas pela pouca frequência do público, e não me venham com a desculpa de frio e chuva, pois eles, por exemplo, não são empecilhos para que os bares e casas noturnas encham por aqui. É como eu disse ontem, falta àlgumas pessoas se permitirem novas experiências, que as tirem de seus cotidianos viciados.

Todos convidados hoje para a sessão de Quem Matou Leda?, de Claude Chabrol, à partir das 19h no SESC Caxias do Sul. Se tiver tempo (no momento estou atolado num trabalho de faculdade), escrevo amanhã também sobre esta sessão.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mostra #01 - Acossado


Jean Paul Belmondo caminha meio sem lenço e sem documento pelas ruas parisienses em Acossado, uma das obras-primas de Jean-Luc Godard. Ele é um marginal, não só por matar um policial rodoviário ou pelo furto recorrente de automóveis, mas também por representar os que vivem à margem de uma sociedade centrada no sucesso financeiro, na fidelidade às marcas e ao estilo mais burguês possível. Michel Poiccard, o personagem que Belmondo defende de maneira icônica, ecoa anos depois em O Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla, este também protagonizado por uma charmosa e instigante figura do submundo amoral. A verdade é que Acossado ressoa em um monte de outros filmes, em outras formas de arte, faz escola, e por isso é tão importante.

Nele, Godard, meio que para reduzir a duração dos cortes iniciais do filme, meio que para atender aos instintos geniais de sua criação, brinca com a montagem e a nossa percepção de espectador, acelera e esfrega em nossa cara o espetáculo que o cinema proporciona, e a inabalável empatia gerada quando este é bom e instigante. Obviamente não foi só Sganzerla que Acossado influenciou, e meu irmão Rafa, após a sessão, fez um paralelo interessante entre o final do filme e uma cena específica de Cidade de Deus (aqui não conto, pois um dos meus mandamentos é “não proferirá spoilers de maneira alguma"), mas se debruçar sobre este aspecto seria expandir em demasia o texto que, a bem da verdade não se propõe a isto. Dica para um próximo post, quem sabe.

O debatedor da noite disse que não se afeiçoava tanto ao filme por entender que nele a forma por vezes sufocava o conteúdo, que a história era rasa e que o roteiro se apresentava frouxo. Não externei (deveria) minha discordância, que só fui mencionar ao Rafa, quando nos direcionávamos à parada de ônibus. Pensar que Acossado tem somente na forma seu sustentáculo é cair na armadilha das aparências, se deixando levar pelo epidérmico. O conteúdo e suas ressonâncias, camuflados em meio a um fio condutor simples, até banal, são realmente sublinhados bastante pela forma godardiana, mas, por exemplo, não dá para fechar os olhos para a vanguarda em que está inserido também no que tange às questões comportamentais que o substancial abarca. O fio que conduz pode ser simples, mas o conteúdo vai além desta linha, e se o roteiro de Acossado é frouxo, eu não sei mais como é um roteiro bem amarrado. Se “frouxo” fosse no sentido de “livre”, aí eu concordaria e assinaria onde precisar, mas não foi o caso do comentário. Então, discordo do palestrante apenas nisto, de resto foi uma ótima conversa, principalmente aos não iniciados na nouvelle vague

Este texto meio fragmentado, originalmente não era sobre Acossado, e sim estritamente sobre a sessão do mesmo, ocorrida ontem durante a Mostra 1959 – o Ano Mágico do Cinema Francês, mas é o que dá querer tergiversar sobre um filme tão importante, ele acaba se impondo. Sobre a exibição, a pouca adesão de público foi o único senão, e as doze pessoas (estimo) que foram, que saíram de casa e encararam o frio da Serra Gaúcha para encontrar Godard e sua obra seminal, não se arrependeram (pelo menos acredito que não). De minha parte, foi excelente poder rever um filme que da primeira vez não tinha me impactado tanto, mas que agora, à luz da evolução que o tempo e o constante apuro do olhar e da percepção trazem, se mostrou pleno e arrebatador, justificando a fama que o precede. 

Vamos assistir hoje, à partir das 19h, Os Incompreendidos, de Truffaut? Aguardo-os no Sesc Caxias do Sul.

domingo, 8 de maio de 2011

Fabricação em série, não de série.



Olá, caro amigo-leitor!

2001. Ano de uma Odisséia no espaço aéreo norte-americano. Detentor dos direitos sobre a obra: Osama Bin Laden, terrorista e líder da temida Al-Qaeda. Perplexidade. O mundo inteiro mergulha em inércia, embasbacado perante o tombamento de um dos mais latentes símbolos capitalistas e, representante por excelência da hegemonia econômica ianque. Correria, fumaça, sirenes, vítimas, vistas anuviadas.

2011. Ano de Gotcha!. Tiros, não em Columbine. No Paquistão. Soldado. Anônimo. O líder religioso e político tem sua linha vital interrompida, após anos de perseguição. Todos em seu encalço e, talvez o detentor do dedo que apertou o gatilho, me foge a quantidade de vezes, pouco soubesse o porquê exatamente fazia aquilo, daquela forma. Apenas cumpria ordens. É um herói, ainda que sem nome e endereço. Apenas nacionalidade. Orgulho americano. A maior realização da vida. Sem divulgação, não lhe serve de nada. A mídia não tem forma de o formar.

Soube da notícia que toma espaço grandioso na imprensa do planeta há dias, no final de uma noite, pouco antes do pronunciamento oficial de Obama, quando fontes não oficiais já forneciam a notícia aos meios de comunicação. O arauto dela, meu irmão Marcelo, disse: “Rafa, pelo que li na internet, o Osama Bin Laden morreu. Quanto tempo será necessário para a realização de filmes, tendo como núcleo o “inimigo número um das Américas”?

O homem responsável pela injusta generalização e desconfiança inescrupulosa na população árabe, os tomando como bandidos, homens explosivos, terroristas, antes de qualquer tipo de embasamento, será alvo certamente da indústria cultural. Difícil uma terminologia que seja tão paradoxal. Mas essa o é. Comércio e cultura, lado a lado, em recíproca ação parasita. Camisetas, chaveiros, jogos, filmes, livros, e por aí sem destino limítrofe. Será que Osama sofria bullying na infância? Provável, afirmariam sem gaguejos ou inibição os sensacionalistas de sentidos apurados.

Pronto. Perfeito. Encontramos a fonte de todos os problemas do mundo: o bullying. Até que as pessoas sofressem agressão e represália alguma se efetivasse, tudo certo, em seu devido lugar. A notícia e a repulsa forçam passagem perante o surgimento de um Davi contemporâneo. Satanás, o anjo excomungado do convívio com seu criador, teria sofria mal semelhante? Boa, eis um belo mote para que a indústria fabrique em série signos de uma “cultura” cada vez mais banalizada e enfraquecida.


Abraçossss