sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Enquanto isso na "Terra do Chocolate"...



Olá, caro amigo-leitor!

Venho por meio deste breve escrito convidar aos amantes da sétima das artes a ler a coluna diária do Celo na revista eletrônica Gramado Magazine. Ele partiu na última sexta-feira, quando também seus trabalhos críticos iniciaram, de maneira semelhante ao ocorrido ano passado. O foco: Festival de Cinema de Gramado.

O contribuinte mais assíduo deste blog retornará no domingo próximo, claro que cheio de percepções, as quais serão sumariamente divididas neste espaço através de suas sempre bem colocadas palavras.


Fica o registro e a dica,
Abraçossssss

domingo, 7 de agosto de 2011

Reflexos de uma Noite Vazia


O olhar perdido de Gabriele Tinti diz muito sobre Noite Vazia, grande filme dirigido por Walter Hugo Khouri. Seu personagem, Nelson, não encontra felicidade em nada nem ninguém, muito menos nas noitadas de fugazes relacionamentos e festas chatas em que embarca com o amigo Luisinho, o bom vivant que esconde sua não menos latente melancolia por trás da confiança que o dinheiro falsamente proporciona. Eles vagam a esmo por uma São Paulo petrificada, de jovens sedentas por amor e algo mais, enquanto mulheres de meia idade se resignam com a busca desenfreada de seus maridos por sexo extraconjugal.

Lá pelas tantas, numa das muitas cenas que deflagram o processo de deterioração estrutural das figuras dramáticas que eles encontram, Lusinho e Nelson conhecem duas prostitutas, e com elas embarcam numa madrugada de sórdidos solilóquios e procuras esvaziadas. Transar não é o bastante, os homens querem experiências que os tirem do marasmo, ao passo que às moças cabe o papel de atração, fardo que ganha peso à medida que detectamos nelas suas próprias expectativas. A beleza exuberante e a altivez de Odete Lara servem perfeitamente de veículo para a pose de Regina, mulher da vida, que é feita rígida por esta bandida. Por sua vez, a introspectiva Mara ganha contornos de infinita tristeza nos olhos grandes e profundos de Norma Benguell.

Noite Vazia sugestiona constantemente um parentesco com o cinema de Ingmar Bergman, provavelmente o cineasta que mais se irmanou à dor de seus personagens. Tal qual o sueco, Khouri utiliza closes ou primeiríssimos planos para mostrar-se próximo das criaturas, além de sustentar o rosto e os olhos como refletores das mazelas mais recônditas. O estado de suspensão e tédio a que é submetido o quarteto durante o vácuo da noite paulistana, representa bem os dilemas do humano sempre à procura de razões e motivos suficientemente fortes para seguir adiante. Como máscaras inanimadas, continuam os quatro ao amanhecer, sem muito a dizer e acrescentar. Não negam a próxima tentativa, provavelmente noutra noite transitória, em que elas continuarão a ganhar a vida, e eles a exacerbá-la. Nada aparentemente muda, a não ser a consciência crescente da inocuidade das jornadas sem fim.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Dança comigo?



Olá, caro amigo-leitor!

Há algum tempo tive a oportunidade aberta pelo Marcelo, irmão e sócio deste espaço, de ouvir o som idealizado por um jovem, Thiago Pethit.

As melodias são bem elaboradas, as letras de conteúdo significativo e bem articulado avançam pelo inglês e francês com naturalidade idêntica às composições em sua língua mãe, o português. Sua voz é leve, suave, prima pelo acariciar da audição, esta imbuída instantaneamente, desde a primeira obra, em ambiente reconfortante, agradável e artístico.

Bom, o costume e as regras de redação nos forçam à introdução, neste caso, mais o bom senso. Venho por meio do que aqui apresento de forma exclusiva, não que isso lhe garanta qualidade, mas ao menos efeito, propor uma comparação, a qual tomará entendimento de procedente para alguns e pura imaginação, sem nexo em relação aos fatos, para tantos outros.

Pois bem, dito o acima, abaixo poucas palavras, os que seguem como notórios são os vídeos, a reflexão e a subjetividade dos que até aqui seguiram por linha de raciocínio proposta por mim.


Abraçosssss

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Ban à part - Jean-Luc Godard (1964) [Ainda não assisti ao filme]





Nightwalker - Thiago Pethit (2011)


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Por Uma Vida Menos Ordinária


Pegue Stanley Kubrick, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, metódico, crítico, extremamente combativo, e tente inseri-lo na produção contemporânea. Pince ainda Luis Buñuel, possuidor daquela verve anárquica que aflorava do surrealismo, dos ataques frontais à burguesia patética, entre tantos outros expedientes, e imagine um lançamento seu no “arteplex mais próximo de você”. Não contente, tente ainda encaixar a profílica produção de Billy Wilder no panorama atual, projete ele tentando tirar do papel alguma comédia inteligente em larga escala, sem gente “peidando” na cara dos outros, ou qualquer escatologia deste naipe. É difícil, né?

Vejo muita gente por aí reclamando do cinema atual, da falta de grandes nomes que resgatem o nível cinematográfico que não existe mais. A ciranda do tempo traz mudanças, e não creio que mesmos os gênios de outrora “sobreviveriam” artisticamente com dignidade no panorama que se apresenta, e muito menos no que se avizinha. Vivemos em meio a crises, cultural e sociológica principalmente, não apenas de criatividade ou visão cinemática. Sei, ainda existem diretores fantásticos que conseguem verdadeiras proezas neste cenário de guerra, mas mesmo eles não escapam de gastar generosas doses de energia e tempo (com as quais poderiam produzir mais) na luta constante pelo reconhecimento/entendimento de seus trabalhos.

Aproximo-me dos apocalípticos ao apontar que o mundo contemporâneo (e isto não é um exercício de nostalgia) representa terra bem menos fértil para que os talentos sejam considerados e suas capacidades regadas pelo sumo que vem do público. Quem sabe estejamos mesmo na era da inércia, onde pensar em demasia é quase crime inafiançável. O público de antes, um pouco mais acostumado à grande literatura, às músicas de qualidade e às imperdíveis sessões de cinema, hoje se contenta em demasia com narrativas vampiresco-açucaradas, eguinhas-pocotós e em comer pipoca (“que filme era mesmo?”). Cada época tem sua “cara”, e o grosso da produção cultural é apenas um reflexo político, estético ou mesmo ético desta face. É certo que o aparecimento de “gênios” era menos bissexto anteriormente, mas, a meu ver, o grande problema é a atual configuração das coisas, que mata no berço, ou no primário, nossos futuros homens e mulheres extra-ordinários.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Kane por Bazin

“Toda revolução introduzida por Orson Welles parte da utilização sistemática de uma profundidade de campo inusitada. Enquanto a objetiva da câmera clássica focaliza sucessivamente diferentes lugares da cena, a de Orson Welles abrange com a mesma clareza todo o campo visual que se acha ao mesmo tempo no campo dramático. Não é mais a decupagem que escolhe para nós a coisa que deve ser vista, lhe conferindo com isso uma significação a priori, é a mente do espectador que se vê obrigada a discernir, no espaço do paralelepípedo de realidade contínua que tem a tela como seção, o espectro dramático particular da cena. É, portanto, à utilização inteligente de um progresso preciso que Cidadão Kane deve seu realismo. Graças à profundidade do campo da objetiva, Orson Welles restituiu à realidade sua continuidade sensível.”
André Bazin, um dos responsáveis pela instauração do cinema no círculo das grandes artes (por conta de sua militância na França do pós-guerra) e tido ainda como um dos maiores, senão o maior, pensadores/críticos de cinema de todos os tempos, discorrendo sobre Cidadão Kane, de Orson Welles.
Luminar, não?

sábado, 23 de julho de 2011

A volta da censura no país da hipocrisia institucional

Se existe um fantasma a atormentar toda sociedade que já foi vítima de qualquer processo ditatorial é a censura, esta extirpação do direito à livre expressão. Da ditadura que nos coube em outros tempos, sobraram, além de exemplos negativos e muita gente torturada nos porões do poder, casos abundantes de processos deflagrados de censura. Como todo fantasma, este vive a assombrar, a pôr medo.

Nesta semana, um caso polêmico fez emergirem estas memórias da censura, da época ditatorial brasileira. A diretoria da Caixa Econômica Federal ordenou a retirada do filme A Serbian Film - Terror Sem Limites da programação do RioFan, evento do qual é patrocinadora, através de seguinte texto: "Senhor Produtor, Informamos que, por decisão da Caixa Econômica Federal, o filme A Serbian Film - Terror sem Limites deverá ser retirado da programação da mostra RioFan, em cartaz na Caixa Cultural RJ e patrocinada por essa Instituição"

Em resposta pública, a recém criada ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) divulgou uma nota de repúdio ao veto, que reproduzo abaixo.

Repúdio ao veto a “A Serbian Film” no RioFan

A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema repudia o veto à projeção do longa-metragem “A Serbian Film – Terror sem Limites”, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic, presente na programação do RioFan – Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro. O filme seria exibido pelo RioFan na sala Caixa Cultural. Porém, os organizadores do festival foram obrigados a retirá-lo da programação por decisão da diretoria da Caixa Econômica Federal, conforme nota divulgada pela assessoria de imprensa do banco, sob alegação de que a instituição “entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar”.

Em resposta, a organização do RioFan se disse “contra qualquer forma de censura” e informou que todos os filmes selecionados para o festival foram avaliados por órgãos oficiais competentes e têm classificação etária de 18 anos. A Abraccine defende a liberdade de expressão cinematográfica e o direito de os espectadores interessados assistirem aos filmes que lhes convêm, acreditando não caber a instituições públicas ou privadas a definição sobre o que deve ou não ser visto. A responsabilidade sobre programação e observação à classificação etária de filmes apresentados num festival de cinema é da organização do evento, devendo a ela serem dirigidas eventuais questões controversas, sem, para isso, ser utilizado o ato de censura prévia (inexistente no país) a um determinado trabalho artístico.

Registramos ainda que “A Serbian Film” já teve pelo menos outras duas exibições anteriores ao RioFan: no I Festival Internacional Lume de Cinema (São Luís, no Maranhão) e no VII Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico (Porto Alegre, no Rio Grande do Sul). Por esta nota, deixamos ainda claro que a Abraccine não está defendendo um trabalho ou um festival em específico, mas um princípio: o de um filme poder ser assistido e avaliado pelo espectador com liberdade.
ABRACCINE
Associação Brasileira de Críticos de Cinema

Após uma série de outros movimentos de repulsa à proibição, largamente disseminados com a ajuda de redes sociais, blogs e sites dedicados ao cinema, surgiu a informação absurda da apreensão da cópia do filme, a que seria utilizada para a exibição anteriormente vetada, atendendo a liminar obtida pela 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro. O advogado responsável pela ação, cheio de si, colocou assim em seu perfil do Facebook: "Senhores, consegui uma importante liminar em prol da família e dos valores cristãos. Hoje consegui proibir - através de uma liminar - a exibição de um filme nos cinemas com cenas de Pedofilia e Estupro de um Recém-Nascido. O Juizado da Infância e da Juventude já realizou a apreensão do filme.... Estou indo dormir, coma sensação do dever cumprido.”

Aí pergunto: Qual o propósito do veto, e posterior apreensão arbitrária da cópia do filme que, por classificação, já estava previamente vedado a menores de idade? Onde fica a liberdade? Morais e bons costumes de quem? Em tempos de internet, de compartilhamento, os paladinos desta moral esvaziada acham realmente que conseguirão frear o ímpeto de quem queria, ou ainda quer, assistir ao filme? O pior é constatar que estes senhores encontram respaldo legal para censurar, para decidir o que devemos/podemos ver ou fazer. Vergonha chancelada pelo falido sistema judiciário brasileiro. Palmas à ignorância e à volta dos quem “sabem o que é melhor para o povo”.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Contra o Tempo e a velha dicotomia: arte vs comércio


Em Contra o Tempo, segundo longa metragem do diretor Duncan Jones, cuja estreia se deu com a ótima ficção espacial Lunar, há mais profundidade do que possamos imaginar num primeiro momento. Na trama, o capitão Colter Stevens se percebe parte de um procedimento vanguardista da divisão estratégica do exército americano, que transporta a consciência de homens treinados para uma espécie de realidade artificial, criada com base nos últimos oito minutos da memória de alguém que faleceu. Sua missão é encontrar o responsável pelo atentado a um trem, que explode no centro de Chicago, e evitar que, impune, desencadeie outros eventos catastróficos. Para isto, o capitão Stevens precisará reviver diversas vezes os citados oito minutos na pele de um professor, e interagir com outros passageiros a fim de montar o quebra-cabeça que pretensamente o levará ao responsável pela detonação.

Duncan Jones, além de provar que o êxito em seu debut não foi mera “sorte de principiante”, encarou desafio extra ao trabalhar pela primeira vez dentro do esquema industrial, sob a égide de um estúdio. Dá para dizer que se saiu muito bem em ambas as tarefas, pois, ao passo que criou um filme (des)complicado, com bom potencial de sucesso junto ao grande público, deu mais mostras de sua solidez como realizador. Contra o Tempo apresenta-se, de início, como um triller em que acompanhamos, com certa dose de tensão e curiosidade, as constantes viagens de Stevens (interpretado com muita segurança por Jake Gyllenhaal). Porém, o filme ganha em significância e profundidade, deixando ação e eletricidade narrativa em segundo plano, à medida que estas incursões passam a ser entremeadas pelo desejo do protagonista de saber mais sobre sua condição e atual missão.

O roteiro de Ben Ripley é sagaz na abordagem de temas espinhosos, e geralmente complicadores, como: viagens no tempo, física quântica, realidades paralelas e o continuum espaço-tempo. A Duncan Jones, que começa a desenhar itinerário estilístico e temático, pois, assim como em Lunar, trabalha com questões identitárias, de migração e reprodução da consciência, cabe criar momentos que segurem a plateia através do desenvolvimento esperto de uma trama que, em mãos menos engenhosas, estaria fadada ao mero contemplar da repetição. Jones também demonstra tato ao preencher a narrativa com discussões mais, digamos, profundas, como a beligerante postura americana e a maneira com que o indivíduo é descartado em função da máquina patriótica do Tio Sam. 

O único senão de Contra o Tempo é seu final um tanto quanto “açucarado”, que complica mais do que ajuda. Tivesse encerrado na cena em que o mundo parece estático em fragmento de aparente felicidade, e Contra o Tempo seria ainda mais forte e enigmático. Ao buscar a luz, o filme eclipsa um pouco seus subtextos, num encerramento mais afinado com as lógicas de mercado, do que propriamente com a visão artística de um diretor que já fez dois ótimos, mas que, daqui para frente, tem tudo para fazer grandes filmes.