quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Indie_cação: Submarino

Egresso da televisão inglesa, Richard Ayoade não possuia muita expressão como realizador e seu nome era conhecido apenas através da britcom The IT Crowd, onde interpretava o personagem Moss. A situação se inverteu quando conseguiu a produção de Ben Stiller para seu debute na direção de um longa, Submarino, drama cômico pequeno, inteligente e repleto de boas ideias.

A história de Oliver Tate pode ser conhecida no país antes do lançamento do filme (que permanece inédito em nossas salas), uma vez que a Editora Record lançou o livro de Joe Dunthorne com o mesmo nome no início do ano. O adolescente leva uma vida curiosa em meio aos tipos excêntricos que o rondam: pais omissos, colegas caricatos e uma namorada nada convencional. Ele faz o que considera um trabalho social: investiga aqueles que estão à sua volta e procura saber mais sobre si mesmo.

Com um elenco afinado, que inclui a sempre ótima Sally Hawkins, Paddy Considine e Noah Taylor, além dos jovens Craig Roberts e Yasmin Paige, Submarino vai um pouco além dos muitos filmes que discorrem sobre a adolescência. O ritmo advindo da edição dinâmica, pouco usual para os filmes do gênero, assim como a bela fotografia e direção segura, são outros atrativos para a inspirada dramédia independente. Vale a sessão.



P.s.: primeiro post de uma série semanal, que pretende contemplar a indicação de alguma produção cultural advinda do universo que se convencionou classificar como independente. Aguardem a próxima indie_cação.

Lady Gaga? Putz, a coisa tá feia

Não gosto de Lady Gaga. Não adianta jogar pedra, pois não aprecio mesmo os figurinos excessivos e suas músicas, aliás, o que de mais genérico o pop/dance oferece. Exemplo da insipiência da “queridinha do momento” é seu clipe Judas, no qual flerta com traidor bíblico. Colagem vagabunda, reciclagem barata de elementos e signos que diversos artistas já utilizaram melhor, por exemplo, nos anos 80. Em Lady Gaga tudo é fake, inodoro, inofensivo, subversivamente fashion.

Mais triste que a falta de qualidade musical e do clipe, é este culto vazio a Lady Gaga, para muitos a “última bolacha do pacote”, mas que nem musicalmente, nem visualmente e muito menos no campo da transgressão (que faz bem a qualquer forma de arte) é relevante, a não ser como estandarte de uma geração que ouve qualquer coisa mesmo.


domingo, 14 de agosto de 2011

Festival de Gramado - Todo carnaval tem seu fim


O cinema nos ajuda a olhar o mundo de maneiras diversas, auxilia na tarefa de fazer-nos pessoas melhores. É uma espécie de espelho projetado, no qual vemos refletidos nossos medos, angústias, alegrias, satisfações e insatisfações. Pensar que apenas entretém, é reduzi-lo como se não fosse mais que um passatempo degustado com pipoca. Vimos nestes dias de intensa programação no 39º Festival de Cinema de Gramado mais que filmes dispostos a fazer o público se descolar por alguns minutos da realidade. Cinema pode ser fuga, mas tem por vocação real nos colocar ainda mais em contato com o substrato das coisas: descobertas, discussões metafísicas e filosóficas, ou mesmo banalidades fundamentais que estão no cerne de nossa existência.

Em Gramado temos uma espécie de tribuna aberta há quase quarenta anos, que busca reforçar a identidade cinematográfica brasileira, inserindo e contextualizando-a no cenário latino-americano. Aí está a importância de um festival como este, que certamente se beneficiaria de organização mais cuidadosa e estrutura mais condizente com sua história. Gramado vive em crise, lutando para conseguir os inéditos, nem sempre tendo êxito perante o maior poderio de outros certames. Mas as coisas já estiveram bem piores. A atual curadoria de Sérgio Sanz e José Carlos Avellar merece crédito pela retomada, lenta e gradual, da significância artística do Festival de Cinema de Gramado.

Em meu segundo ano de cobertura, creio que consegui aproveitar melhor toda a atmosfera, degustar o cinema com mais gana, partir com mais afinco para conversas e tudo mais. Foi uma temporada de ótimos filmes estrangeiros, nem tanto assim quando olhamos os nossos. Debates interessantes, diálogos paralelos e discussões que enriqueceram os filmes vistos, e certamente enriquecerão as sessões vindouras. Agora é a hora de voltar, inteirar-se novamente da rotina, saudoso que estou das coisas do cotidiano, mas certamente também um pouco melancólico por não poder estender por meses a experiência diária de participar de um acontecimento tão relevante como este.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Enquanto isso na "Terra do Chocolate"...



Olá, caro amigo-leitor!

Venho por meio deste breve escrito convidar aos amantes da sétima das artes a ler a coluna diária do Celo na revista eletrônica Gramado Magazine. Ele partiu na última sexta-feira, quando também seus trabalhos críticos iniciaram, de maneira semelhante ao ocorrido ano passado. O foco: Festival de Cinema de Gramado.

O contribuinte mais assíduo deste blog retornará no domingo próximo, claro que cheio de percepções, as quais serão sumariamente divididas neste espaço através de suas sempre bem colocadas palavras.


Fica o registro e a dica,
Abraçossssss

domingo, 7 de agosto de 2011

Reflexos de uma Noite Vazia


O olhar perdido de Gabriele Tinti diz muito sobre Noite Vazia, grande filme dirigido por Walter Hugo Khouri. Seu personagem, Nelson, não encontra felicidade em nada nem ninguém, muito menos nas noitadas de fugazes relacionamentos e festas chatas em que embarca com o amigo Luisinho, o bom vivant que esconde sua não menos latente melancolia por trás da confiança que o dinheiro falsamente proporciona. Eles vagam a esmo por uma São Paulo petrificada, de jovens sedentas por amor e algo mais, enquanto mulheres de meia idade se resignam com a busca desenfreada de seus maridos por sexo extraconjugal.

Lá pelas tantas, numa das muitas cenas que deflagram o processo de deterioração estrutural das figuras dramáticas que eles encontram, Lusinho e Nelson conhecem duas prostitutas, e com elas embarcam numa madrugada de sórdidos solilóquios e procuras esvaziadas. Transar não é o bastante, os homens querem experiências que os tirem do marasmo, ao passo que às moças cabe o papel de atração, fardo que ganha peso à medida que detectamos nelas suas próprias expectativas. A beleza exuberante e a altivez de Odete Lara servem perfeitamente de veículo para a pose de Regina, mulher da vida, que é feita rígida por esta bandida. Por sua vez, a introspectiva Mara ganha contornos de infinita tristeza nos olhos grandes e profundos de Norma Benguell.

Noite Vazia sugestiona constantemente um parentesco com o cinema de Ingmar Bergman, provavelmente o cineasta que mais se irmanou à dor de seus personagens. Tal qual o sueco, Khouri utiliza closes ou primeiríssimos planos para mostrar-se próximo das criaturas, além de sustentar o rosto e os olhos como refletores das mazelas mais recônditas. O estado de suspensão e tédio a que é submetido o quarteto durante o vácuo da noite paulistana, representa bem os dilemas do humano sempre à procura de razões e motivos suficientemente fortes para seguir adiante. Como máscaras inanimadas, continuam os quatro ao amanhecer, sem muito a dizer e acrescentar. Não negam a próxima tentativa, provavelmente noutra noite transitória, em que elas continuarão a ganhar a vida, e eles a exacerbá-la. Nada aparentemente muda, a não ser a consciência crescente da inocuidade das jornadas sem fim.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Dança comigo?



Olá, caro amigo-leitor!

Há algum tempo tive a oportunidade aberta pelo Marcelo, irmão e sócio deste espaço, de ouvir o som idealizado por um jovem, Thiago Pethit.

As melodias são bem elaboradas, as letras de conteúdo significativo e bem articulado avançam pelo inglês e francês com naturalidade idêntica às composições em sua língua mãe, o português. Sua voz é leve, suave, prima pelo acariciar da audição, esta imbuída instantaneamente, desde a primeira obra, em ambiente reconfortante, agradável e artístico.

Bom, o costume e as regras de redação nos forçam à introdução, neste caso, mais o bom senso. Venho por meio do que aqui apresento de forma exclusiva, não que isso lhe garanta qualidade, mas ao menos efeito, propor uma comparação, a qual tomará entendimento de procedente para alguns e pura imaginação, sem nexo em relação aos fatos, para tantos outros.

Pois bem, dito o acima, abaixo poucas palavras, os que seguem como notórios são os vídeos, a reflexão e a subjetividade dos que até aqui seguiram por linha de raciocínio proposta por mim.


Abraçosssss

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Ban à part - Jean-Luc Godard (1964) [Ainda não assisti ao filme]





Nightwalker - Thiago Pethit (2011)


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Por Uma Vida Menos Ordinária


Pegue Stanley Kubrick, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, metódico, crítico, extremamente combativo, e tente inseri-lo na produção contemporânea. Pince ainda Luis Buñuel, possuidor daquela verve anárquica que aflorava do surrealismo, dos ataques frontais à burguesia patética, entre tantos outros expedientes, e imagine um lançamento seu no “arteplex mais próximo de você”. Não contente, tente ainda encaixar a profílica produção de Billy Wilder no panorama atual, projete ele tentando tirar do papel alguma comédia inteligente em larga escala, sem gente “peidando” na cara dos outros, ou qualquer escatologia deste naipe. É difícil, né?

Vejo muita gente por aí reclamando do cinema atual, da falta de grandes nomes que resgatem o nível cinematográfico que não existe mais. A ciranda do tempo traz mudanças, e não creio que mesmos os gênios de outrora “sobreviveriam” artisticamente com dignidade no panorama que se apresenta, e muito menos no que se avizinha. Vivemos em meio a crises, cultural e sociológica principalmente, não apenas de criatividade ou visão cinemática. Sei, ainda existem diretores fantásticos que conseguem verdadeiras proezas neste cenário de guerra, mas mesmo eles não escapam de gastar generosas doses de energia e tempo (com as quais poderiam produzir mais) na luta constante pelo reconhecimento/entendimento de seus trabalhos.

Aproximo-me dos apocalípticos ao apontar que o mundo contemporâneo (e isto não é um exercício de nostalgia) representa terra bem menos fértil para que os talentos sejam considerados e suas capacidades regadas pelo sumo que vem do público. Quem sabe estejamos mesmo na era da inércia, onde pensar em demasia é quase crime inafiançável. O público de antes, um pouco mais acostumado à grande literatura, às músicas de qualidade e às imperdíveis sessões de cinema, hoje se contenta em demasia com narrativas vampiresco-açucaradas, eguinhas-pocotós e em comer pipoca (“que filme era mesmo?”). Cada época tem sua “cara”, e o grosso da produção cultural é apenas um reflexo político, estético ou mesmo ético desta face. É certo que o aparecimento de “gênios” era menos bissexto anteriormente, mas, a meu ver, o grande problema é a atual configuração das coisas, que mata no berço, ou no primário, nossos futuros homens e mulheres extra-ordinários.