terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Atoladinha plurisemiótica

Dia destes, navegando sem rumo pela internet, encontrei este vídeo maravilhoso protagonizado por Tom Zé, um dos mais criativos e “estrombólicos” músicos de nosso país. Confesso que não conheço sua sonoridade a ponto de tecer qualquer comentário mais profundo, mas, do que sei, chama a atenção esta busca por tangentes, por lugares e formas negligenciadas na criação ou mesmo no pensamento acerca da música. No vídeo em questão, durante entrevista concedida ao Programa do Jô, ele filosofa sobre o funk Atoladinha, e explica por que ele tem meta-refrão, microtonal e plurisemiótico. Não entendeu? Assista, é uma lição de pensamento satírico bem-humorado em sintonia com a reflexão intelectual.



Atualização: Nossa seguidora no Twitter, Noemia Menezes (@ziguezaguiando) acaba de enviar um link que complementa esta postagem matinal: Funk - Interpretando. Hermenêutica pura. Obrigado Noemia.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Bem-vindos a Twin Peaks


Somos uma geração devidamente acostumada às boas (até mesmo excelentes) séries de televisão, muito pela transformação do meio em terreno fértil para projetos cada vez mais interessantes. Mas, nem sempre foi assim. Twin Peaks, seriado capitaneado pelo cineasta David Lynch, foi uma espécie de divisor de águas neste sentido, quando lançado lá nos idos anos 90. O público certamente não estava acostumado àquele tipo de experiência, possuidora de complexidades inabituais em projetos para a telinha. Mas, para a surpresa de muitos, “Quem Matou Laura Palmer?” virou pergunta recorrente, propriedade do imaginário coletivo, assim como os personagens e situações que movimentaram a pequena cidade do interior dos EUA por duas temporadas. 

A morte da linda Laura Palmer, cujo corpo é encontrado envolto em plástico, boiando no rio da cidade, desencadeia uma série de eventos que mostram a localidade como depositária de segredos, intrigas e mistérios, insociáveis num primeiro momento às suas belas paisagens, repletas de bosques e charme rústico. O agente do FBI Dale Cooper desembarca neste cenário idílico e machucado para investigar a morte da jovem, e acaba se afeiçoando demais às pessoas, ao clima campestre e aos donuts que adoçam os interlúdios do processo investigativos. Cooper, aliás, é um personagem fascinante, visto com o mesmo estranhamento e simpatia fraternal com que encaramos, por exemplo, a senhora que anda para lá e para cá embalando e trocando ideias com um tronco. 

Conduzidos pela magistral trilha de Angelo Badalamenti, repleta de sons estranhos e soturnos, somos levados a desvelar esta coletividade que, a despeito de estar inserida numa pequena comunidade, possui as mesmas pragas cotidianas que tornam enfermas as metrópoles. A mão de David Lynch é evidente, sua verve esquisita (algo entre o surreal e o abstrato) é facilmente percebida, pois impregnada na ambientação atmosférica, nos tipos estranhos, e na maneira cotidiana de lidar com anões que dançam, gigantes mensageiros e entidades maldosas vindas de dimensões desconhecidas. O bizarro é apenas mais um dos convivas de Twin Peaks

É certo que nem tudo são flores. Após a solução principal, ou seja, quando finalmente sabemos quem matou Laura Palmer, a qualidade do programa cai sensivelmente, não propriamente pela falta do mistério, mas por que se insiste no desenvolvimento de tramas paralelas que beiram o banal. Neste momento, Twin Peaks só não fica de todo desinteressante por conta da riqueza de seus personagens, e empatia por eles estabelecida com o público. Porém, com a chegada de Window Earle, o psicopata ex-parceiro de Cooper, e sua vocação assassina, o seriado volta a ganhar fôlego, inclusive no desenvolvimento bastante engenhoso dos elementos que dão conta das dimensões paralelas e polares que explicam, de alguma maneira, fenômenos bizarros que acometem a cidade. Se bem que, ao tentar elucidar este embate metafísico entre bem a mal, tira-se um pouco do instigante mistério da primeira parte, em que tudo estava devidamente envolto na bruma do incompreensível. 

Feitos os devidos reparos, não há como negar o caráter vanguardista de Twin Peaks, série que, por seu sucesso junto ao público, foi uma das ignições do movimento que hoje nos permite constante renovação nas produções televisivas americanas. Não é pouca coisa. Assim como não são poucos os méritos artísticos desta cria autêntica de David Lynch, artista sui generis, que antes de dedicar-se de corpo e alma às causas da meditação transcendental, nos ofertou diversas obras fascinantes. Twin Peaks está na galeria dos grandes trabalhos de Lynch, seja pela primazia de figuras dramáticas tão interessantes e cheias de camadas, pelas inspiradas construções, fabular e narrativa, ou ainda pela disposição em mostrar, cravado num cenário pouco explorado, o potencial de uma trama que, com raras exceções, recusa veementemente confortar o telespectador.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 3 de dezembro de 2011

Estrangeiro em Meu País


O mote de Meu País, longa-metragem de estreia do diretor André Ristum, não é propriamente novo ou merecedor de relevo pela originalidade: homem volta à terra de origem para sepultar um ente querido, neste caso o pai, retomando então o contato com suas raízes, aproximando-se do que era para então descobrir-se. É bom que não se entenda a originalidade da trama como pressuposto de filme bom ou ruim. Então, aos que clamam por algo novo a cada experiência, recomendo olhar retrospectivo mais atento às semelhanças fabulares que tornam parentes até mesmo incontestes obras-primas. 

Pois bem, Rodrigo Santoro interpreta Marcos, o homem que volta ao seu país para enterrar o pai, e desenterrar (perdoem-me a troça lingüística) uma série de elementos que remetem à sua infância, principalmente o dito pai, aparentemente ausente, a quem chama pelo nome próprio, e o irmão inconseqüente que promete levar a empresa da família à bancarrota pelo vício em jogos de azar. Marcos é estrangeiro no próprio país, um alheio na casa que guarda suas coisas de menino. Sua esposa, uma bela italiana, fica fascinada ao contemplar as imagens familiares do marido, a quem parece conhecer de todo naquele momento. Bela cena, aliás, como também aquela em que os irmãos descobrem o testamento afetivo do pai, impresso num vídeo feito com máquina fotográfica. Difícil conter o marejar dos olhos, semelhante às lágrimas que teimam em brotar no racional Marcos, num dos raros momentos em que ele se entrega à emoção. 

Não há, porém, qualquer intenção de Meu País ser um filme tipo “acerto de contas”, como tantos por aí. Não se trata, também, de manifestar a construção do homem por base naquilo que vivencia enquanto criança. Não obstante, esta ótima estreia de Ristum é feita muito mais de silêncios e sugestões, do que propriamente de palavras e quaisquer rompantes emocionais, mesmo quando insere a irmã bastarda com deficiência intelectual na relação tempestuosa dos dois irmãos. Há os que objetam o isolamento dos personagens, órfãos de uma contextualização social. Não creio ser isto um problema, ainda mais quando se entende Meu País como uma obra voltada aos seres, na qual os entornos apenas os refletem, e bem, é bom que se frise. 

André Ristum demonstra as inconstâncias diretivas naturais de um primeiro trabalho em longa-metragem, mas nada que mine substancialmente o desenrolar de seu drama familiar, aliás, muito bem conduzido. O  não-pertencimento sentido pelo personagem de Santoro o choca contra um país que teima em mantê-lo, seja para que resolva os problemas do irmão (em outra atuação interessante de Cauã Reymond), ou mesmo pela súbita necessidade de cuidar da frágil irmã (construída sobriamente por Débora Falabela). Ao diretor cabe sugerir mais que dizer, confiar plenamente no elenco ao colar a câmera nas expressões, e jogar na tela seu imaginário, que se em pouco reflete socialmente o Brasil (e por que deveria?), certamente espelha o que de mais angustiante habita em seus personagens.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A espera que leva a Matar ou Morrer


No dia do seu casamento, o xerife Wil Kane, prócere de uma pequena cidade no Velho Oeste americano, recebe a notícia de que o bandido Frank Miller teve seus crimes perdoados, e que chegará em poucas horas para levar à cabo a vingança contra quem o expurgou da localidade. O principal alvo de Frank, e dos três comparsas que aguardam sua chegada no trem do meio-dia, é justamente Kane, que se recusa a fugir mesmo sob protestos da mulher e aconselhamentos dos moradores. Começa então uma verdadeira corrida contra o tempo, em que Kane tentará buscar a ajuda dos corajosos locais, a fim de que não padeça.

Em Matar ou Morrer, este célebre western de Fred Zinnemann, a jornada física e psicologicamente desgastante do xerife Kane, bem como a apatia do povo que não parece disposto a se arriscar por quem no passado restaurou a paz local, dão a tônica narrativa, que impressiona ainda pela precisão e poder de síntese. Em menos de 90 minutos, Zinemann cria uma obra marcada pela tensão crescente, assim como pela impossibilidade da inércia ante uma situação que conduz inevitavelmente à tragédia. Para Kane é matar ou morrer, não existem saídas diplomáticas no oeste de homens bravios que defendem suas honras pela lei do olho por olho, dente por dente.

Desencorajado por todos, acuado e dividido entre os sensos de justiça e sobrevivência, o xerife Kane, interpretado brilhantemente por Gary Cooper, experimenta a solidão que só se agrava pela proximidade da morte, também provando o gosto amargo da hipocrisia e covardia dos próximos, verdadeiras antíteses do tipificado cowboy americano. O próprio Kane fraqueja, transpira medo mesmo quando tenta, em vão, convencer homens de fé inabalável a largarem suas posturas individuais na defesa de suas terras e de quem já muito os ajudou. A memória do povo é curta, e a ingratidão está aí para provar isto.

A música desempenha papel fundamental em Matar ou Morrer, pois auxilia sobremaneira no desenho do turbilhão de sentimentos vividos pelo protagonista, pesaroso da ausência da mulher que ama, ao mesmo tempo em que precisa criar uma tática de sobrevivência. O clímax pode parecer apressado, até mesmo simplista se enxergarmos as etapas anteriores do desenvolvimento narrativo apenas como preparação para o derradeiro. Mas justamente pelo contrário - o clímax na verdade serve de amplificação dos temas abordados nas fases passadas, é que Matar ou Morrer se mostra poderoso em suas intenções incomuns. Um filme belissimamente fotografado em preto e branco, que desconstrói o homem do oeste que nada teme, mostrando que mesmo os mais intrépidos daquela época, tremiam internamente ante a possibilidade de terem ceifadas suas vidas. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

The Walking Dead e os comerciais da raposa

Crédito da Imagem: Blog do Jotacê

Gosto da série The Walking Dead, mas não sou fanático. Para ser sincero, me aborrece um pouco a segregação que nela ocorre entre os bons e os maus, entre a virtude e a canalhice, num belo exemplo de maniqueísmo. Fora isso, tudo é um pouco enrolado, cozido em banho-maria, mas mesmo assim assisto, pois se está longe de ser algo digno das expectativas e da euforia de alguns, ao menos é um bom entretenimento com certa dose de tensão.

Todo episódio inédito é lançado nos domingos em terras americanas, e a Fox, emissora de TV fechada que transmite por aqui, presta um verdadeiro serviço ao exibi-la logo na terça-feira seguinte, ou seja, apenas 48 horas após a apresentação estadunidense. Mesmo sendo adepto do download (uma vez era reticente, hoje sou partidário), resolvi, juntamente com meu irmão e parceiro de The Walking Dead, Rafa Müller, prestigiar esta ótima iniciativa do canal de encurtar a janela de exibição entre EUA e Brasil, pois temos TV por satélite em casa, numa operadora que permite assistir ao programa no idioma original e legendado (certamente nem teria cogitado assistir tudo dublado). Tentei, juro, mas não dá. Voltarei ao download.

Irritei-me extremamente com a exibição entrecortada por dois blocos de 10 minutos (sim, eu disse 10) de propaganda. Cada episódio possuiu 40 minutos, e a Fox faz o seguinte: exibe os primeiros 20, vai para o primeiro grupo de propagandas bregas sobre perfumes importados, volta com mais 10 de série, pula para outros 10 intermináveis dos mesmos comerciais, e retorna lépida e fagueira para a exibição dos últimos 10 minutos de The Walking Dead. Pode isso Arnaldo?

Ah, façam-me o favor. É inadmissível que ocorram duas interrupções tão implacáveis e prolongadas que, inevitavelmente, quebram o ritmo da audiência. E depois reclamam dos downloads, de quem baixa e confere de maneira “clandestina”. Tenham um pouco mais de consideração por quem assiste, ganhem dinheiro (afinal isto não é pecado algum), mas não sejam estúpidos, ao menos não o suficiente para acreditarem que com pausas tão ridículas e estendidas, teremos ainda a boa vontade de “fazer o certo”. Afinal de contas, quando ligava (atenção ao tempo verbal) às 22h, terça-feira, na Fox, era para assistir The Walking Dead, não repetidos reclames dum perfume Jean Paul Gaultier.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Asghar Farhadi - Cinema humano de resistência


Estava sentindo falta dos meus pequenos devaneios. Muito por conta da nova função como articulista e crítico do site Papo de Cinema, tenho me dedicado com mais afinco de fato às críticas, negligenciando assim estas pequenas reflexões cotidianas acerca da arte, mais provavelmente do cinema. Pois bem, na última semana tomei contato com os dois mais recentes (e badalados) filmes do iraniano Asghar Farhadi: Procurando Elly e A Separação, portadores de diversas láureas em festivais ao redor do mundo. Ambos, dramas aparentemente detonados por quase banalidades: o desaparecimento de uma semi-desconhecida, e a separação de um casal qualquer. 

Numa produção ordinária, seria natural que estes motivos fossem apenas deflagradores de uma série de rompantes emocionais. Ainda que repletos de arroubos passionais, afinal tratam de gente, estes filmes emergem da mesmice ao catalisar ações e reações essencialmente como maneira (brilhante) de refletir sobre a sociedade donde brotaram. Embate de classes, o arraigado fundamentalismo religioso, a lei que se curva aos preceitos morais e éticos do Corão, a opressão da mulher ainda coberta pelo chador, e por aí vai. O diretor e sua equipe se valem de linguagem naturalista, câmera na mão, e inspirada mise-en-scène que reforça o sentido de cotidiano. Nada fronteiriço entre o fabular ficcional e a emulação engessada do real, é bom que se diga, mas portador de certo frescor, digamos, verdadeiro, que permeia sobremaneira o que se propõe e dispõe como legítima ficção. 

Sem ao menos resvalar no didático, e negando qualquer aproximação com alguns “filmes para gringo ver”, que se excedem ao valorizar aspectos exóticos aos de fora, Procurando Elly e A Separação são, além de testemunhas filiais do talento legítimo de Asghar Farhadi, sinceras lições a respeito do Irã e de sua sociedade convulsionada. Aprende-se mais sobre aquele entorno na audiência de ambos, do que nos noticiários tendenciosos, que só fazem aumentar estereótipos. Cinema pungente, político e social, voltado às pessoas que tanto são afligidas por elementos que deveriam lhes confortar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Confiar e as vítimas do sexo institucionalizado


David Schwimmer, o eterno Ross da série televisiva Friends, passeia por campo minado em sua nova incursão atrás das câmeras de cinema. Falar de sexo, relações virtuais e frustrações, é um tatear a cada nova cena por emoções e situações que, não raro, contribuem para desenvolvimentos planos e sentimentaloides. Em Confiar, Annie é uma menina como tantas outras, repleta de dúvidas e baixa autoestima, que se apaixona pela internet e estabelece relacionamento virtual paralelo ao que mantém com sua família e amigos. Ela não hesita muito em ir ao motel com o homem de quase 40 anos que na web se dizia um adolescente tão cheio de incertezas quanto ela.

Há a descoberta do caso pelos pais, a interferência do FBI e toda uma busca pelo pedófilo. Will, o pai, interpretado por Clive Owen (num registro que lembra noventa por cento das interpretações deste bom ator meio monocórdico) fica obcecado por encontrar o homem que molestou sua garotinha. O paradoxo se apresenta em sua profissão, utilitária da erotização adolescente para aumentar as vendas de seus clientes. Contradição rasa, pouco desenvolvida, que soa mais como reprimenda e chamamento moralista à reflexão do espectador sobre a sociedade em que vive. Intenção boa, por certo, mas delas o inferno está cheio. A desabalada carreira de Will em busca do bandido esbarra ainda na dificuldade da investigação, agravada pela própria filha, enamorada de seu suposto agressor. Estupro, sexo consentido, ou algo que uma adolescente de quatorze anos ainda não tem maturidade para avaliar?

Confiar é um tanto perdido em seu próprio escopo, indeciso entre o drama familiar e a expansão de sua causa como exemplo de algo maior e cotidianamente preocupante. Will parece mais atormentado por sua impotência do que propriamente pelo delito cometido, e Annie reluta enquanto amada, aceitando-se vítima do crime somente após tomar conhecimento de que não foi especial para o meliante. Confiar discute com pouca profundidade o nocivo protagonismo do sexo na sociedade, mas talvez seu maior pecado seja o de não assumir posicionamentos que fujam do senso comum. David Schwimmer resvala em diversos pontos de controvérsia, mas sua narrativa acaba sendo vítima de signos palatáveis. Tivesse o arrojo de abordar com menos pudor o embate entre as frustrações do pai e a natural inconsistência da personalidade adolescente ainda em formação da filha, e o diretor poderia ter realizado algo maior, preso de menos na obrigação de passar mensagens de alerta, e mais aberto às pessoas. Schwimmer é exatamente como Will: obcecado pelo tema, pelo que ocorre, e descuidado em demasia com os personagens que por ele são duramente afetados.


Publicado originalmente no Papo de Cinema.