sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sobre o Festival de Cinema de Paulínia

Carta aberta da Abraccine ao Sr. Prefeito de Paulínia, José Pavan Jr.
A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) recebe com muito pesar o comunicado de que o Festival de Cinema de Paulínia não será realizado este ano.
A nota do prefeito José Pavan Jr. afirma que a alocação de recursos destinados ao festival em outras prioridades (saúde, educação, moradias populares) tornou a decisão inevitável. 
Como cidadãos, entendemos a construção de moradias populares, e o investimento em educação, saúde e meio ambiente deveriam mesmo ser prioridades constantes de qualquer municipalidade, e não apenas em anos eleitorais. 
Já como profissionais de cinema, lamentamos a descontinuidade de um projeto muito bem formatado e de grande repercussão nacional. 
Em poucos anos, Paulínia criou um Polo Cinematográfico, uma Escola de Cinema e um festival que se tornaram exemplares. O festival, ora em compasso de espera, era justamente a vitrine de toda essa atividade. Reunia em Paulínia produtores, cineastas, atores e atrizes, jornalistas e críticos de todo o País. Formava público para os filmes brasileiros. Criava empregos na cidade e beneficiava a autoestima dos seus habitantes. 
Muitos novos projetos surgiram desses encontros anuais entre profissionais de diversos estados da federação. Foi dessas reuniões, por exemplo, que nasceu a nossa própria instituição, a primeira associação nacional de críticos de cinema, o que faz com que tenhamos carinho especial com Paulínia. 
Todo esse patrimônio simbólico corre o risco de se perder, ao sabor de conveniências políticas de momento. Esperemos que a fresta de esperança aberta no comunicado do prefeito resulte na realização do festival em 2013. Mas ressaltamos, desde já, que é perda irreparável o cancelamento da edição de 2012. Eventos importantes firmam sua tradição pela continuidade.
Assinado. Luiz Zanin Oricchio (presidente da Abraccine)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Porto e a união em prol do humano


Para os já iniciados na obra do finlandês Aki Kaurismäki, não é surpresa alguma que O Porto seja tão abertamente voltado à fatia menos abastada de uma sociedade inserida no que se convencionou chamar “primeiro mundo”. Seu cinema bastante idiossincrático e, por isto mesmo, facilmente reconhecível, aponta com muita frequência à luta diária de gente simples, cidadãos comuns ocupados, sobretudo, com a manutenção ou resgate da dignidade. Pena que os longas de Kaurismäki sejam escassos no circuito comercial brasileiro, restando a internet como meio quase único a quem se propuser descortinar seu itinerário estilístico e constantes temáticas.

O Porto transcorre na região portuária Le Havre, na Normandia, onde não raro chegam contêineres carregados de imigrantes ilegais. Nesta cercania, vive o engraxate Marx, de condição financeira delicada e esposa prostrada numa cama hospitalar. Contra as probabilidades, o estado de espírito deste senhor é formado basicamente de otimismo e tenacidade, atributos imprescindíveis tanto para suportar a rotina dura e os seguidos golpes, quanto para ajudar o menino refugiado que encontra à própria sorte. A esperança se fortalece pela adesão dos vizinhos, na liga formada para salvaguardar o sonho londrino do garoto que busca a mãe. Os personagens lutam para preservar intimamente a decência esfacelada através de políticas públicas que deveriam por eles zelar.

Em O Porto, Aki Kaurismäki não utiliza o subtexto político/social apenas para reforçar as construções dramáticas (revertendo o que costuma fazer) e sim como linha guia na qual as figuras se equilibram contra a queda.  O finlandês conserva estilo marcado, o movimento essencial pela montagem e a luz como efetivo meio de expressão, principalmente nos interiores que denunciam a parte degradada de um país que vende riqueza aos demais. Acusada pela dureza com que trata a questão da imigração, a França surge como cenário propício para esta história cujo viés humanista se contrapõe ao protecionismo exasperado das grandes nações. Neste panorama, em que a repressiva policial contra imigrantes afronta a negligência da vigilância diária - evidência do ridículo,- Aki Kaurismäki aposta assertivamente no protagonista merecedor de milagres por sua incorrigível obstinação, e na mobilização das pessoas que pouco podem lutando sozinhas, mas que se agigantam quando unidas.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Qual é a nota?


No embaralhamento entre crítica e guia de consumo, surgem as famigeradas cotações por estrelinhas, números, ovos, entre outros. Entende-se perfeitamente este como um dos termos de adequação ao leitor desinteressado que, muitas vezes, nem chega a ler a opinião do crítico, mas cujo interesse na nota (guia do consumidor?) gera os tão importantes pageviews e assinaturas.

Então, tendo em vista a facilidade proporcionada pela nota que sublinha algumas opiniões, não seria ela mesma uma das culpadas por rarearem aqueles que se propõe a leitura aprofundada do trabalho crítico? Ou esta simplificação é benéfica justamente por ser uma das grandes responsáveis por críticos ainda chegarem ao grande público?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Noite Americana e a lente mágica


François Truffaut, pensador e cineasta que ajudou a promover verdadeira revolução no cinema francês, sobretudo entre os anos 1950 e 1970, primeiro como crítico e articulista na mítica Cahiers du Cinéma e depois como um dos pilares da nouvelle vague, realizou com A Noite Americana o típico sonho do diretor cinéfilo. É numa das mais rasgadas e elucidativas homenagens que o cinema já prestou a si próprio, pois escancara como nenhum outro de seus semelhantes os bastidores de filmagem, perscrutando dificuldades e prazeres da rotina em estúdio.

Além de dirigir, Truffaut interpreta o cineasta criativamente responsável por A Chegada de Pamela, melodrama falado em francês.  Em meio a veteranos excêntricos e jovens instáveis, ele carrega nos ombros a dura tarefa de responder a todo tipo de pergunta, da arma que deve ser utilizada na cena da morte, ao filtro de luz adequado para determinado efeito dramático. Tem de lidar com o ator infantil, a atriz sensível, a veterana alcoólatra, a pressão dos financiadores, as surpresas e os affairs que brotam no meio desta gente ligeiramente mais espontânea. Aliás, Truffaut resguarda o diretor de todo e qualquer envolvimento amoroso, justo ele que manteve inúmeros relacionamentos com quem trabalhou. Poderia com isto querer maquiar seu passado mulherengo, ou simplesmente destituir a figura diretiva de qualquer mácula que tornasse o cargo menos nobre?

Especulações à parte, em A Noite Americana Truffaut presta homenagens bastante pessoais, além de utilizar sua fábula como hospedeira de subtextos que comentam os rumos da própria arte cinematográfica. Destaca-se entre os tributos, a sequência em que um pacote com diversos livros sobre grandes diretores de cinema - não por acaso, ídolos de Truffaut -, se desnuda ante o cineasta carente de iluminação. Na seara dos comentários, põe-se em relevo o lamento, a certa altura, pela mudança de paradigmas que legou o trabalho em estúdio quase ao ostracismo. Sobre este último, pensa-se primeiro em contradição, pois tal movimento ganhou contornos definitivos exatamente com a eclosão da nouvelle vague. Percebe-se, porém, que a observação é, na verdade, a amarga constatação do implacável eclipse provocado pelas novidades, até mesmo nos bons termos do que elas substituem.

Afora observações ferinas e homenagens abertas, A Noite Americana se alimenta do amor de Truffaut pela sétima das artes, num fluxo narrativo apaixonado, apaixonante, e enriquecedor. Estes carateres se evidenciam sobremaneira nas tomadas que desconstroem gravações, nas pequenas revelações da faceta ordinária do cinema. A vulgaridade cai por terra quando estes mesmos registros são filtrados pela ótica da câmera, que os devolve ao olimpo diegetico onde o milagre se configura. Magia em estado puro.  


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 29 de março de 2012

The Tramps Entrevista: Robledo Milani


O maior pecado que um crítico de cinema pode cometer é colocar-se acima dos filmes, como imediato superior ao objeto de sua observação. O verdadeiro crítico tampouco se regozija em escrever linhas repletas de apontamentos pejorativos, como muitos tendem acreditar. Para além da cotação graficamente representada por estrelas, números ou qualquer outra maneira reducionista de análise, a ele cabe essencialmente tentar traduzir a obra ao espectador, tendo sua erudição e sensibilidade como filtros. Escrever sobre cinema é também uma forma de fazer cinema.

Certos da contribuição deste profissional para o desenvolvimento da arte fílmica - já que nada cresce sem discussão e embate de ideias -, damos continuidade a esta série muito especial de entrevistas com críticos de cinema. Desta vez, conversamos com Robledo Milani, um dos grandes responsáveis pela ascendente representatividade do Papo de Cinema, já nascido o maior portal online de cinema do Rio Grande do Sul.

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Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Diretor da Phosphoros Novas Ideias, Robledo Milani é também membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e associado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

Acessem:  www.papodecinema.com.br

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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
A paixão pelo cinema surgiu desde pequeno, quando minha avó materna costumava me levar para passar as tardes conferindo grandes filmes. Nesta época, dos meus 8, 10, 12 anos de idade, lembro de ter assistido obras como O Último Imperador, Sociedade dos Poetas Mortos, As Bruxas de Eastwick, The Doors... Foi ali que tudo começou.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Creio que o crítico, além de ser mais uma opinião dentre tantas, ele deve se posicionar como aquela opinião que faz a diferença. Hoje, principalmente com o advento da internet, todo mundo opina. Todo mundo "curte", "marca" e "compartilha" algo. Mas poucos realmente criam algo novo. O Crítico deve se posicionar de modo a ajudar o espectador a fazer daquela sessão de cinema algo único, inédito. Todo crítico possui uma opinião, é claro, mas essa deve ser embasada em muitos outros argumentos, e nunca se esquecer de qual é o propósito final de cada filme e o que aquele público irá pensar.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Como disse, hoje é muito fácil se dizer Crítico de Cinema. Só que a grande maioria dos que estão espalhados pela internet mal conhecem a língua portuguesa direito. Portanto é muito importante saber diferenciar o que conta, o que possui conteúdo e argumentos de verdade daqueles que são apenas mais um dentre tantos, sem nada de real a acrescentar.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Acredito que as duas linhas de pesquisa sejam importantes. É fundamental nunca esquecer que o crítico é também um espectador, e como tal possui uma opinião pessoal. A análise subjetiva vai muito por esse caminho, pelo que simplesmente gostamos ou não. Mas há mais, detalhes que são revelados apenas através do estudo, da pesquisa, da análise. O conjunto destas duas forças formam um bom crítico.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Um dos melhores críticos de cinema, que ainda está em atividade, é o americano Roger Ebert, que inclusive ganhou o Prêmio Pulitzer por seu trabalho. Ele é genial, pois sabe olhar cada filme tanto com distanciamento como também com a paixão necessária de um cinéfilo de verdade. No Brasil, aprecio muito o texto da Isabela Boscov (Revista Veja), apesar de muitas vezes discordar do que ela pensa.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Isso nunca me aconteceu. Mas é sempre bom revisitar grandes realizadores. No ano passado, em função de um workshop que ministrei, me debrucei sobre a obra de Steven Spielberg, e descobri um artista que ia muito além daquela ideia pré-concebida que eu tinha a seu respeito. Quando olha o conjunto dos trabalhos de um mesmo cineasta podemos ter uma visão mais apurada do que lhe estimula e do que realmente é válido para ele.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
O jornalismo impresso, como um todo, está em crise. As redações estão cada vez menores, e os jornalistas especializados em um único assunto são uma raça em extinção. O que acontece com os críticos de cinema é só mais um reflexo deste quadro geral, e não um ponto isolado. Tudo está mais ágil, dinâmico, fugaz e vazio. E quem mais sofre é o conteúdo. Não se tem mais tempo para tudo que nos é oferecido constantemente.

• Discutir “comércio versus arte” ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Cinema é arte, mas também é indústria. Uma realidade é indissociável da outra. O cinema brasileiro sofre com isso porque não aceita essa realidade. Realiza obras faraônicas, extremamente caras, mas que chegam às telas já pagas, pois foram feitas a partir de leis de incentivo. Ou seja, são verbas de impostos que se transformaram em cinema. Mas não por nossa opção, e sim por escolha dos empresários e por anuência do governo. Assim, não importa quem veja ou não tal filme - ele já foi pago. E quando não há preocupação com o espectador final, o realizador faz o filme apenas para si mesmo. Uma massagem de ego muito cara.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Muito dessa pergunta está na resposta acima. O cinema brasileiro está em crise. Ninguém gosta dos filmes feitos aqui. A cada ano são feitos cerca de 100 novos filmes em todo o Brasil, e é difícil encontrar 5 deles realmente ótimos, acima de qualquer "porém". E isso é sintomático do cenário atual. Os cineastas brasileiros são movidos a egos inflados, preocupando-se apenas com o que eles gostam, sem se apoiar em um estudo mais apurado que reflita os desejos da platéia. Mas também não se deve apenas agradar. Deve-se, também, ensinar. Nunca subestimar a inteligência do espectador. Dessa forma, todos crescem juntos.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

domingo, 25 de março de 2012

Quando A Guerra Está Declarada


Declarar guerra é evidenciar a iminência do embate ao inimigo, escancarar tensões que não se aquietam mais em seus nascedouros. É o que fazem Roméo e Juliette em A Guerra Está Declarada, quando, ainda em meio à curtição inicial do casamento, descobrem o tumor cerebral que ameaça ceifar a vida de seu filho Adam. Eles declaram guerra à doença, assumindo postos avançados como sustentáculos do pequeno e da família que padece junta. Aqui vale destacar que os autores do roteiro, Valérie Donzelli (também a diretora) e Jérémie Elkaïm - não por acaso também os intérpretes de Juliette e Romeo - passaram realmente pela situação que retratam na tela.

A Guerra Está Declarada é sensível por mesclar a agonia dos pais com os meios incomuns por eles utilizados nesta luta em que ganhar ou perder representa a sobrevida filial. Há momentos terrivelmente dolorosos, um deles quando Juliette expõe por telefone o diagnóstico fatídico, mas, como contraponto, há outros de grande suavidade e ternura, que tornam momentaneamente tudo menos opressor, tal o desabafo risonho dos protagonistas acerca das possíveis sequelas que a doença pode legar ao menino. Aliás, abundam estes pequenos instantes em que a lividez acolhe os penalizados na dolorosa conjuntura. Paradoxalmente, o humor acaba amplificando a dor e vice-versa. 

A música desempenha papel importante em A Guerra Está Declarada, assim como as pequenas referências a clássicos da nouvelle vague. Ou alguém despreza que amar um joelho é coisa de Eric Rohmer e correr em direção ao mar é algo típico de François Truffaut para sublinhar raros momentos de libertação? Pela sacada do casal homônimo ao célebre duo romântico de Shakespeare, já se sabe de antemão que Roméo e Juliette estão fadados a algo trágico, e inclusive isto é profetizado por ele durante o primeiro encontro. O que não se imagina é que tal drama seja encarado pelos dois com a insólita capacidade de ressaltar os aspectos positivos das pequenas vitórias, na medida em que tomam distância dos efeitos progressivos da moléstia que acomete seu filho. Em meio a terrível situação, entendem que não há como vencer qualquer prélio nos papeis de soldados excessivamente fatigados ou derrotistas. Belíssimo filme.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

terça-feira, 20 de março de 2012

Em busca de Uma Vida Melhor


Responsável pela indicação do até então desconhecido Demián Bichir ao Oscar de Melhor Ator, ombro a ombro com nomes reconhecidos da indústria cinematográfica, Uma Vida Melhor se desdobra sobre o velho problema da imigração ilegal nos Estados Unidos. Considerado um oásis, o solo estadunidense atrai anualmente milhares de imigrantes, e vários deles entram ilicitamente pela fronteira com o México, atravessados pelos “coiotes” e largados à própria sorte na “terra das oportunidades”. Na carona desta movimentação migratória (e de outras) surge, se esgueirando, a xenofobia que ameaça a integridade da globalização propagandeada por aí. 

O jardineiro Carlos é acossado pelo fantasma da extradição enquanto cuida do filho adolescente que flerta com a criminalidade. Gangues recrutam garotos para suas fileiras, e encontram facilidade ao lançarem iscas de força e poder justamente nos grupos vulneráveis compostos por jovens em formação que não querem o mesmo destino pobre de seus progenitores. Claramente reverente a Ladrões de Bicicletas, clássico neo-realista de Vitório De Sica, do qual pega emprestados diversos elementos e até situações (como o desespero do pai que tem roubado seu meio de subsistência), Uma Vida Melhor se ressente de mão diretiva menos hesitante e da fuga mais competente de alguns estereótipos e clichês, estes que volta e meia surgem enfraquecendo o campo dramático. Por outro lado, não opor ricos e pobres, evitando ainda a aderência à moda reducionista da vilanização americana, é um dos evidentes acertos do filme. 

O diretor Chris Weitz, conhecido do grande público por American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível, e mais recentemente A Saga Crepúsculo – Lua Nova, imprime olhar maduro à história de Carlos. Porém, sua reticência em abraçar com mais energia certos desdobramentos, prejudica sensivelmente o que poderia alcançar maior ressonância. Demián Bichir, por sua vez, abraça vigorosamente a tarefa de sustentar a narrativa e as figuras que gravitam em torno de seu personagem, num trabalho cujo brilho é totalmente merecedor das láureas que vem recebendo. A despeito de suas inconstâncias, Uma Vida Melhor habita longe das obras ocas e voltadas apenas ao entretenimento, pois resvala também na complexa questão da herança cultural, esta entidade desfigurada e nebulosa principalmente aos jovens que nasceram longe de suas raízes. Em suma, um bom filme, pertinente, só não grandioso por que se apequena frente às temáticas que explora.


Publicado originalmente no Papo de Cinema