domingo, 17 de junho de 2012

The Tramps Entrevista: Tatiana Babadobulos



Tatiana Babadobulos é formada em jornalismo desde 1998 e cursou pós-graduação em Crítica Cinematográfica. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), é apaixonada por viagens e arte, odeia filme dublado, adora uma sessão de filme francês, mas não abre mão dos longas de animação. É autora do blog Memória Cinematográfica e, juntamente com o colega Antonio Carlos Egypto, do curso de pós-graduação na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), escreve no blog Cinema com Recheio.  Sobre viagens, registra suas experiências no Memória de Viagem.

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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Na infância. Costumava ir ao cinema, principalmente nas férias, em Santos (litoral paulista), com meus irmãos e primos. Minha avó também me levava bastante ao cinema perto da casa dela, em São Paulo. E ficava maravilhada com aquela magia.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Crítico tem a função de esmiuçar o que é produzido, muitas vezes até traduzir para o público o que o diretor está mostrando na tela. Nos dias de hoje, com tantas produções, o crítico tem a oportunidade de separar o joio do trigo, ainda que isso não seja essencial para direcionar o público.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Com o encolhimento dos espaços nos jornais e nas revistas, a internet tem espaço ilimitado para a discussão, além de o leitor poder interagir com o autor e enriquecer a discussão da obra.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Não acredito que enfraqueça. É uma maneira menos arrogante de se falar de uma obra. O academicismo é válido, claro, mas a linguagem direta sempre tem a vantagem de atingir um público maior e de aproximar a crítica do leitor/espectador, de modo que o espectador se identifique com o que o crítico pensa/escreve.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Paulo Emílio Salles Gomes é o precursor, de modo que não dá pra estudar a crítica cinematográfica sem passar por seus textos. O mesmo acontece quando falamos da crítica internacional, como nomes como François Truffaut e Pauline Kael. Hoje admiro Luiz Zanin Oricchio, Neusa Barbosa, Sergio Rizzo...

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Não sei dizer, acho que por enquanto nenhum me provocou desta forma.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Acredito que há uma crise em todos os sentidos. A falta de espaço nos jornais, por exemplo, acontece devido à falta de investimento publicitário, que atualmente migrou para as mídias eletrônicas. Papel está caro para bancar sem patrocínio. Internet é um modo de baratear a disseminação de informação. Outra crise é do interesse. Ou melhor: da falta de interesse. Há pesquisas que mostram que o leitor não passa do primeiro parágrafo. Ele quer textos curtos e o máximo de informação em uma mesma página, por exemplo. Ele quer saber, mas não quer se aprofundar. E profundidade, para o exercício da crítica, é fundamental.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Independentemente de ser arte ou blockbuster, o cinema precisa sobreviver. E ele sobrevive com o comércio. A vida capitalista é assim. Não dá para separar uma coisa da outra. O que não dá é para achar que os cineastas só produzem os tais arrasa-quarteirões, já que eles dominam as salas, enquanto há muita coisa boa sendo produzida e muitas vezes esquecida pelos exibidores.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
O cinema brasileiro está mal. Desde a Retomada houve uma boa melhora, mas poucas produções levam o público às salas. O público que vai, leva em conta o star system, vindo das telenovelas. Mas o público também é culpado por preferir prestigiar o besteirol em detrimento de boas produções, principalmente na área de documentário. Dos cerca de 80 filmes nacionais produzidos, quantos vão às telas? Com exibidores internacionais, nem a cota de tela tem resolvido. Quantos são realmente prestigiados? Outra questão é quanto à produção. Como o cinema nacional sai pago quando é lançado (fruto das leis de incentivo), o que se vê são produções pouco ousadas, com narrativas tolas e atores não muito envolvidos com o tema. É triste saber que o cinema argentino, por exemplo, está muito melhor que o brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, é bom saber que é possível chegar lá, mesmo com baixo orçamento. Talento nós temos, só é preciso saber empregá-lo.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Adeus Carlão



"Cinema, como qualquer arte que se preze, é risco. Você não pode ter medo"

Carlos Reichenbach
14/06/1945 - 14/06/2012


Atualização: Nota de pesar da Abraccine 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Bye Bye Brasil


Carlos Diegues, conhecido também pela alcunha de Cacá, acaba de completar 50 anos de cinema, meio século de vasta contribuição à arte. E um de seus trabalhos mais emblemáticos é, sem dúvida, Bye Bye Brasil, drama protagonizado pela Caravana Rolidei, grupo itinerante que leva alegria (mas não somente) a parcelas menos abastadas da nação. Lorde Cigano, Salomé e Andorinha vagam pelo interior, principalmente do Norte e Nordeste, fugindo das antenas “espinha-de-peixe”, pois o público rareia onde já chegou televisão. Num dos povoados, recolhem Ciço e Dasdô, casal jovem, ele com a sanfona, ela com o herdeiro na barriga já proeminente.

De lugarejo em lugarejo, a Caravana Rolidei atravessa paisagens empobrecidas e testemunha a angústia dos que oram fervorosamente por pingos de chuva. A passagem lúdica da trupe miserável desvela outros tantos filhos largados à própria sorte pela pátria-mãe desnaturada. Índios em mendicância urbana, homens e mulheres digladiando-se por trabalho, enquanto a necessidade sobrepõe-se a elementos básicos, tais como a moral. Em dado momento, o imberbe Ciço apaixona-se por Salomé, pecado encarnado com volúpia e sensibilidade por Betty Faria, e propõe fuga, num amor próximo do desespero. Lorde Cigano (quiçá o papel da vida de José Wilker), o líder malandro capaz até de fazer nevar nos trópicos, seduz a vulnerável Dasdô apenas por seu sexo. Assim, o humilde encanta-se pelo mambembe, pois o crê altivo.

Mesmo após a dissolução do Cinema Novo, Cacá Diegues (um dos próceres do movimento) continuou dando voz e rosto aos que padecem à margem do progresso, expondo noutras chaves as mazelas de uma sociedade doente. Musicado pela virtuosa trilha sonora de Chico Buarque de Hollanda e Roberto Menescal, Bye Bye Brasil guarda significâncias densas, extraídas de suas paisagens geográfica, social e afetiva. Possui rara beleza, não apenas por expor (no bom sentido) o sofrido povo tupiniquim, mas, sobretudo por fazê-lo graciosamente, tomado da incorrigível esperança dessa gente que, a despeito de todas as evidências, crê num sol capaz de nunca mais se pôr. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

terça-feira, 5 de junho de 2012

The Tramps Entrevista: Daniel Feix



A conversa da vez é com o crítico Daniel Feix, a quem aproveito para agradecer pela estimada contribuição. 

Daniel Feix nasceu na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, chegando a Porto Alegre com 11 anos de idade. Trabalha como crítico da Zero Hora há quatro anos. Antes, foi editor da Revista Aplauso e também trabalhou na RBS TV, além de ser colaborador em publicações diversas, revistas e também alguns livros. É membro da ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).
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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
A primeira lembrança de cinéfilo que tenho é a de um período, lá pelos 10, 12 anos de idade, de paixão pelos filmes de guerra. Consumi compulsivamente todas as fitas (em VHS) da prateleira dedicada ao gênero na locadora mais próxima de casa, aí incluindo Cruz de Ferro do Peckinpah e outros títulos de classificação etária certamente impeditiva. Mas acho que a paixão despertou mesmo com a descoberta do cinema europeu dos anos 1960 e de diretores como Buñuel e Godard, quando eu já era um estudante de jornalismo e tinha uns 18, 19 anos. Foi a partir dali que consumir filmes e informações acerca do cinema passou a ser algo regular e ininterrupto até hoje.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
O mesmo desde sempre: a reflexão sobre a produção cultural é uma etapa fundamental para o fortalecimento e o próprio estabelecimento de um sistema - artístico, literário, cinematográfico etc. Uma resposta mais pessoal: reencontro o sentido de produzir crítica cada vez que constato a dificuldade de circulação de algum bom filme e a facilidade de circulação de outro péssimo. Incentivar o leitor a dar uma chance ao que tem qualidade mas está escondido, chamar a atenção para o que merece receber esta atenção mas encontra obstáculos para sua difusão pelas idiossincrasias do mercado - isso sempre deu e sempre dará sentido à crítica.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Quanto mais meios para compartilhar ideias, melhor. De certo modo, o meio determina a forma da crítica. Não escrevo no mesmo tom para o jornal e para um blog, por exemplo, assim como mudo o tipo de abordagem quando produzo algo para uma revista ou uma publicação que admite material de mais fôlego. De todo modo, quando se trata de crítica, no fundo, a forma importa menos do que as ideias em si. Hoje me parece haver críticas melhores e piores, mais ou menos inspiradas em todos os meios, em blogs e em jornais, em livros e em revistas especializadas. Dizer que um dos meios é mais ou menos interessante ou mais ou menos relevante apenas considerando apenas o próprio meio não me parece fazer sentido.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Acho que clareza e profundidade não são excludentes: pode-se ser claro sendo profundo. A produção acadêmica contém vícios, mas a produção jornalística também os têm, assim como a produção dos blogs mais despreocupados com formalidades de linguagem. O bom texto é aquele que os evita e consegue ser profundo se comunicando bem com o leitor.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Já senti profunda admiração ao tomar contato com a produção de muita gente, de André Bazin a Jairo Ferreira, mas ao escrever sobre algum filme no dia a dia das estreias do circuito as referências críticas parecem muito vagas, distantes. A bagagem de cinéfilo e o próprio consumo de cultura e informação de uma maneira mais ampla conta mais, mesmo no exercício da crítica desconectada desse dia a dia do mercado.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Nenhum, na verdade, muito embora algumas mortes sejam marcantes - não só no campo do cinema, mas de outras áreas da criação artística. As mortes de Bergman e Antonioni, juntas, causaram uma péssima sensação, assim como, mais recentemente, Rohmer. Este de maneira especial, porque acredito que ele não teve, ao menos nos últimos tempos, um reconhecimento à altura dos seus filmes. Mas aí o efeito é o contrário: sinto como se tivesse sido chamado a difundir a obra dele e de outros cineastas em situação semelhante.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
A crise dos veículos impressos é mais ampla, não diz respeito apenas à diminuição do espaço para a crítica cultural. Mas acho que o momento é de transição. Quando os números que indicam o real consumo/vendagem dos veículos impressos se estabilizarem, o perfil dos jornais e das revistas vai ficar mais claro, melhor definido. E, parece-me, pendendo à reflexão, que é aquilo que esses veículos podem oferecer de melhor.

• Discutir “comércio versus arte” ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Talvez não com o "versus". É fato que um país tão plural como o Brasil, botando no seu mercado interno cerca de cem longas-metragens por ano, vai se destacar pela pluralidade. Há espaço para a pesquisa de linguagem e há espaço para os produtos que visam ao consumo mais amplo neste mercado. Ambos têm de conviver harmonicamente, e a crítica precisa entender isso na hora de exercitar a reflexão sobre esses produtos: não dá para escrever sobre Chico Xavier tendo como parâmetro Pan-Cinema Permanente. Mas dá para ser competente fazendo as duas coisas. É por isso que o fundamental, na crítica, é entender a natureza do projeto e as intenções de seus realizadores.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Com otimismo sob certo aspecto, e com pessimismo por outro lado. Com otimismo pelo surgimento de ideias muito interessantes das novíssimas gerações, que incorporam referências contemporâneas e buscam o avanço da linguagem num sentido até então inexplorado no país. Com pessimismo porque, apesar da oxigenação que essas gerações estão trazendo, grande parte da produção nacional segue atrelada aos mesmos vícios há muitos anos: há filmes muito caros que não são vistos por ninguém, há filmes claramente "de mercado" que não são sustentados pelo mercado e sim pelo dinheiro público (que deveria ser, prioritariamente, destinado aos projetos que priorizam a pesquisa de linguagem), há filmes que pedem um set mais enxuto e equipamentos portáteis mas dependem da parafernália das grandes produções em 35mm simplesmente pelo apego de seus autores aos velhos sistemas de produção, há filmes com ideias inventivas e às vezes inovadoras que no entanto patinam e não conseguem sair do papel devido à má formação técnica de sua equipe (em todas as pontas, do roteiro à finalização) etc. Em outras palavras, há motivo para festejar, mas deveria haver mais.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Mortos-Vivos e o efêmero


Exibido no último Festival de Tiradentes, e recém selecionado para a Semana dos Realizadores do Festival de Cannes, Os Mortos-Vivos é curta-metragem que flerta com o sobrenatural, o fantástico. Começa narrando a história de um homem que perdeu sua paixão, quando junto dela tomava banho. Nada de extraordinário, apenas acidente caseiro que infelizmente pode abater qualquer um. Sucedem-se histórias de amores fugazes. Pessoas somem, outras ficam a remoer os envolvimentos efêmeros de rastros desproporcionais.

Ainda que Os Mortos-Vivos possua belos enquadramentos, seja inteligente no trato do som,  se insira corajosamente na difícil tradição da abordagem fantástica, e guarde frescor pela observação de certos aspectos característicos da mocidade contemporânea, não há porque fechar os olhos às suas capitais inconstâncias. E a principal delas diz respeito justamente à utilização meio fútil do inexplicável, elemento que adorna o plano narrativo, mas não o define.

No fim, entre mortos e feridos, sobram a inércia dos que perderam o (grande?) amor, presos numa espécie de vácuo sentimental próprio dessa geração de carentes incorrigíveis, e a sensação de que Os Mortos-Vivos foi realizado por gente talentosa, porém carente da maturidade necessária aos que brincam com fogo e não se chamuscam.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Convite: Sessão Comentada "O Artista"

Já assistiu a "O Artista"?

O filme será exibido de hoje (24) a domingo (27) na Sala de Cinema Ulysses Geremia (Rua Luiz Antunes, 312 – Panazzolo | Caxias do Sul / RS). A sessão de domingo, com início marcado para as 20h, terá entrada franca, e será comentada posteriormente pelo crítico de cinema Marcelo Müller e o publicitário Rafa Müller, ambos do “The Tramps”.

Não perca.

The Tramps Entrevista: Humberto Pereira da Silva


A conversa de hoje é com o crítico Humberto Pereira da Silva, a quem aproveito para agradecer pela valiosa contribuição. 

Humberto estudou filosofia e é professor universitário na FAAP (FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO), onde leciona filosofia, ética e crítica. Escreve sobre cinema desde 1998. Nesse período, publicou críticas e ensaios sobre cinema em revistas impressas, Revista de Cinema e Sinopse, e revistas digitais, Trópico, Filmes Polvo e Digestivo Cultural. É autor do livro "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora) e escreveu um perfil biográfico de Glauber Rocha, que aguarda publicação.

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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Durante a infância, antes de completar quatorze anos no final da década de 70, eu vi muitos filmes na TV. Eu acompanhava pelo jornal a programação diária, lia as sinopses dos filmes, me familiarizava com informações, com o nome de diretores, estúdios, ano de lançamento de um filme. Ficava até tarde da noite para ver um western. Audie Murphy era meu ator favorito. Aguardava ansiosamente, também, os filmes de Tarzan, principalmente os estrelados por Gordon Scott. Além de western e Tarzan, tinha fixação por seriados como “Roy Rogers”, “Zorro” e “Túnel do Tempo”, comédia slapstick, “O Gordo e o Magro”, Chaplin. Por volta dos quatorze anos, ainda na TV, comecei a ver filmes japoneses, Kurosawa, e italianos, Rossellini, que passavam no começo da madrugada na extinta TV Tupi. Minha paixão pelo cinema nasceu com a TV. Num tempo em que não havia vídeo cassete, eu via muita televisão, três ou quatro filmes por dia.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Veja que não só via muitos filmes como também lia sobre cinema. Causa-me incômodo ouvir as pessoas falarem de filmes, mas não terem ideia do que foi escrito sobre eles, nem qualquer preocupação com informações sobre diretores, produção etc. O crítico, em qualquer forma de expressão artística, abre espaço para discussão, para que, no caso do cinema, um filme não fique confinado ao mero entretenimento. Ontem, como hoje, o sentido do exercício crítico é se servir de mediação entre a obra e o público, oferecer perspectivas de percepção que escapam ao olhar menos atento. Num sentido mais amplo, a crítica tem o papel de iluminar detalhes despercebidos e não se confinar à expressão de subjetividades. Gosto pessoal, para mim, não tem qualquer importância, quando alguém se dispõe a fazer crítica, e sim saber como um filme é refletido. É nesse instante que a questão de gosto sai da esfera da subjetividade e abre espaço para a discussão do valor de um filme como objeto artístico e cultural.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Eu sou entusiasmado pelas possibilidades criadas pela internet. Blogs e revistas virtuais são expressões de nosso tempo. É preciso ter isso em vista em qualquer discussão sobre esses meios de comunicação. Hoje pessoas de talento não podem dizer que não têm espaço para se expressar. Ocorre que a internet abre possibilidades praticamente ilimitadas. Com isso, um risco muito grande de dispersão. Não é possível minimamente acompanhar o que acontece. Se eu ficar boa parte do dia na frente do computador, vou achar um blog ou uma revista interessante que desconhecia. Com isso, é inevitável que me escape muito do que essa nova crítica possa escrever de interessante. Agora, a esse respeito vale também fazer uma ressalva: o espaço virtual dá margem a que se escreva muita bobagem. Abrir um blog desconhecido é sempre um risco.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
A crítica de cinema em jornais e revistas é um trabalho rápido, a partir do contato imediato com o filme. Nesse trabalho conta a experiência, condicionamento para perceber imagens e formar juízos, lastro cultural para fazer matizes apropriados, certa intuição para perceber sinais. Enfim, é um trabalho de risco, pois feito no calor da hora. Por isso, acho fundamental que o crítico expresse uma visão geral sobre como entende o cinema. Assim, fica claro o que para ele é importante no cinema. Saber como um crítico pensa me leva a entender as razões que o levam a gostar ou não de um filme. As bobagens que vejo em blogs invariavelmente ocorrem quando percebo que quem escreve vê um filme como tabula rasa. Quanto à análise feita em âmbito acadêmico, o que tenho a dizer é que é outra esfera de atuação. Dissecar um filme, fazer análise estrutural, semiótica, é um trabalho árduo, de longo tempo, nenhum pouco intuitivo, com jeito de que se está diante de um experimento científico. Mas necessário, pois a crítica rápida em jornais e revistas, pela sua natureza, passa ao largo das questões de fundo que muitos filmes propiciam. Um filme como “Persona”, de Ingmar Bergman, não tem como ser esgotado num texto para amanhã.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Tenho predileção pela crítica francesa. Aprendi muito com Alain Bergala, Jean-Michel Frodon, Serge Daney entre outros; hoje, leio com prazer Jean-Philipe Tessé. Não aprecio a crítica americana. Leio Pauline Kael ou Jonathan Rosenbaum e não me afino com a visão de cinema que exibem. Ainda que tenham “sacadas” interessantes, no geral suas críticas não servem de referência para eu compreender o valor de um filme. No Brasil, dos antigos o que mais me estimula é o José Lino Grünewald; hoje os críticos mais lúcidos e inteligentes são o Luiz Zanin e o José Geraldo Couto: lê-los me faz pensar.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
John Ford morreu em 1973. Moniz Vianna fechou os olhos para grandes obras de Andrey Tarkovski, Wim Wenders, Werner Herzog, Theos Angelopoulos; ele não viu “Barry Lyndon” (1976), de Stanley Kubrick, para ficar nesses nomes dos anos 70. Quando vejo Bella Tarr, Apichatpong Weerasethakul, Nuri Bilge Ceylan sinto o quanto de bobagem se pode sustentar com o slogan “crise criativa”. Moniz Vianna tinha os olhos fechados para certo tipo de cinema. Não por acaso, não enxergou Glauber Rocha: numa lista dos dez melhores filmes brasileiros, coloca “Deus e o Diabo” em décimo; na sua frente, dois filmes de Jorge Ileli, “Amei um bicheiro” (1953) e “Mulheres&Milhões” (1961). A história do Moniz Vianna é triste para alguém que exerceu como ele a crítica de cinema. Não o tomaria por exemplo.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
A pergunta sugere que antes havia mais interesse público pela crítica de cinema, logo maior espaço nos veículos impressos. O espaço encolheu, nisso reflexo de um tempo com pouca paciência para reflexão: vivemos a época da objetividade sem objetivo. Mas, veja, a pouco falei da imensa proliferação de blogs e revistas virtuais. Seria contraditório agora dizer que há falta de interesse quando muitos que antes eram apenas leitores agora escrevem. Quer dizer, são situações bem diferentes, meios e motivações diferentes. Mas, sinceramente, não creio que o público que antes lia crítica de cinema fosse maior e mais interessado que o de hoje. O que havia, sim, era uma disposição maior para um texto longo.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Cinema, todos sabem, envolve muito dinheiro. Não é fácil colocar um filme cartaz, como se diz. O filme mais barato envolve captações, todo um jogo de convencimento sobre sua viabilidade comercial. Não é possível pensar o cinema fora dos contornos da indústria cultural, tema caro ao filósofo frankfurtiano Theodor Adorno. Esquecer que um filme se insere no mercado, uma forma mercadoria, portanto, é ingenuidade. A discussão sobre bilheteria, política de captação de recursos, quantidade de filmes produzidos e lançados anualmente no circuito têm esse viés. Agora, um filme pode não se destinar exclusivamente à satisfação no jogo com penduricalhos que circulam no mercado. Como em outras formas de expressão artística, o cinema lega obras que marcam, assinalam um momento na história cultural. “Carlota Joaquina” (1995), da Carla Camurati, nas circunstâncias, foi bem sucedido no jogo do mercado, mas hoje nós nos lembramos dele porque foi um marco na chamada Retomada do cinema nacional. O que creio ser importante separar é o viés meramente mercadológico dos sinais que indicam por que um filme pode ser lembrado no futuro. Mais, se a discussão se restringir a bilheterias, agradabilidade do público, perde-se de vista o cinema como expressão artística e veículo que transmite a cultura de uma época.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
Há uma preocupação indisfarçável de muitos produtores, diretores em inserir seus filmes no mercado, buscar bilheteria, firmar-se, enfim, conforme as exigências de produção em escala industrial. É esse o sentido que creio devem ser entendidas comédias recentes como “Agamenon”, “Reis e Ratos”, “Billi Pig”, mesmo “O Palhaço”, do Selton Mello, ou poucos anos atrás “Os Normais”. Essas comédias, interessante observar – falávamos antes de espaço –, ocupam uma atenção razoável da crítica. Além das comédias, insiro nessa lista o recente “Xingu”, do Cao Hamburger. Mas vale notar que há outro tipo de cinema que, para mim, ainda não tem merecido a devida atenção. Refiro-me ao que fazem diretores como Cao Guimarães, Thiago Mata Machado, Sergio Borges, Erik Rocha. Essa, digamos assim, uma geração com propósito ousado, sem preocupação primeira com bilheteria, que circula em festivais importantes e que exige um olhar menos imediatista. O que fizeram até aqui me entusiasma. Para mim é o que há de melhor no cinema brasileiro atual.


Publicado originalmente no Papo de Cinema