segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Algo sobre Dias Melhores Virão



Grandes diretores nem sempre fazem trabalhos memoráveis. Certamente Dias Melhores Virão não é um dos filmes mais acertados de Cacá Diegues, cineasta capaz de enfileirar, pelo menos, três ou quatro grandes em sua obra. Sim, há alguma graça na história da mulher de meia idade, interpretada por Marília Pera, que sonha em ser uma estrela. Aliás, o elenco é genial: Paulo José, Zezé Mota, Paulo César Peréio, e até José Wilker, ator irregular, está afiado, talvez por que o papel de canastrão lhe caia bem.

A mulher quer ser atriz, mas é dubladora de uma novelinha chinfrim americana, deliciosamente protagonizada cheia de caras e bocas por Rita Lee. O estúdio de dublagem é bem mais ou menos, decadente, para não dizer caindo aos pedaços. O personagem de Paulo José, o diretor, preocupa-se constantemente com a crise financeira. O filme é de 1989 e, na época, a inflação remarcava preços com a mesma rapidez com que políticos saem de recesso hoje em dia.

Em Dias Melhores Virão está bem presente o comentário constante sobre estrangeirismo, moda no fim dos anos 1980, começo dos 1990. Pensando bem, ainda é muito usual expressar-se noutra que não nossa língua-mãe, dando relevo a essa síndrome de colonizado que, por certo, nunca sai de moda. O legal é que no filme fica bem claro o ridículo dessa fuga empreendida por quem acha o máximo viver falando em inglês.

Repleto de referências, Dias Melhores Virão se ressente de algo. É tudo engraçadinho demais, até meio falseado. O fato de o filme existir, num momento histórico brasileiro em que filmes não existiam por falta de grana, por si é um milagre. Porém, Dias Melhores Virão envelheceu mal, ficando bem aquém de outros trabalhos de Cacá. Acontece.

sábado, 4 de agosto de 2012

The Tramps Entrevista: Neusa Barbosa


Neusa Barbosa começou como repórter de Cidades na Folha de SP. Passou rapidamente pela Folha da Tarde – onde trabalhou na editoria de Cultura. Depois, pelo Estado de S. Paulo, também na editoria de Cidades. Em seguida, um ano como editora de Internacional na extinta Revista Visão. Logo foi para Veja S. Paulo, onde assumiu a coluna de Cinema por seis anos, período em que acumulou outras colunas, como a de música clássica.

Quando saiu da Veja SP, em 1996, começou a trabalhar como free lancer para vários veículos, como o jornal Correio Popular de Campinas. Em 2000, criou o site Cineweb (www.cineweb.com.br), especializado em cinema e fornecedor de conteúdo para agência Reuters e portal UOL. Atualmente, edita o site, onde escreve críticas, reportagens e tem um blog (Celuloide Digital), sendo, ainda, colaboradora das revistas Bravo e Select.
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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Começou bem cedo, quando eu era criança e meu pai me levava para assistir desenhos animados tipo Walt Disney. Eu sou a filha caçula e também ia com meus irmãos mais velhos assistir algumas coisas censura livre. Profissionalmente, eu sempre quis ser jornalista de cultura, mas no começo da carreira isso não foi possível. Eu comecei como repórter de Cidades, na Folha de SP. E acho que foi muito bom profissionalmente, ter essa experiência mais urgente, de cobrir emergências do dia a dia, greve de ônibus, de professores, eleições municipais, etc. Eu comecei mesmo a escrever sobre cinema anos depois, quando assumi a coluna de cinema da revista Veja SP, onde trabalhei seis anos. Daí em diante, não parei mais.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
É uma atividade que se transformou enormemente por conta de mudanças tecnológicas, sobretudo. Hoje em dia o público tem sua própria rede de comunicação, via twitter, facebook, trocando informações. Também houve a explosão da internet, a multiplicação de sites e blogs. E, ao mesmo tempo – mas não pelo mesmo motivo -, encolheu o espaço dedicado à cultura nos jornais. Ainda assim, a crítica não perdeu sua razão de ser, seu sentido. A reflexão sobre a arte, não só sobre o cinema, continua tão fundamental como sempre foi, até para que essa arte respire, se reolhe, se transforme. Sem a reflexão, a criação se empobrece. Claro que estou tendo em vista uma crítica informada, preparada, profissionalizada, responsável, não os “chutadores” que existem em tantos meios por aí.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Acho que na era dos blogs os espaços críticos se multiplicaram, mas nem sempre eles merecem ser considerados assim. Há muita opinião gratuita, muito “achismo” amador, isso não pode a rigor ser considerado crítica. Por outro lado, há sites e blogs que conseguiram firmar sua identidade como locais de reflexão e diálogo com os cineastas, criadores, e também com o público. É um processo de depuração normal, necessário e permanente.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
O academicismo é um vício, quando ele acarreta uma atitude fechada, esnobe, que tende a tentar criar um clubinho com poucos sócios com direito à palavra. Não gosto dessa atitude, que é comum também em meios universitários. A dissecação de um filme pode recorrer a várias ferramentas, mas entendo que a crítica fundamentada conjuga a objetividade com a subjetividade, tendendo ao equilíbrio. Mas não sou contra a paixão, ela cabe dentro da crítica. O que não cabe é subordiná-la a antipatias pessoais...

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
Paulo Emílio é sempre um farol, porque ele conjugava o rigor intelectual com o humor, com uma leveza exemplar. Dos atuais, gosto muito do José Geraldo Couto, do Luiz Zanin e do Inácio Araújo, são pessoas que leio sempre com prazer e atenção, ainda que discorde deles em vários casos. Dos estrangeiros, gosto bastante do Peter Bradshaw, do jornal inglês The Guardian, e da Mannohla Dargis e do A.O. Scott, do The New York Times. 

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Vários: Federico Fellini, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, Robert Altman, Theo Angelopoulos. Eles fazem uma falta enorme! E são insubstituíveis.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Acho que há um conjunto de razões: os veículos querem economizar papel, então a primeira vítima é o caderno de cultura, que muitas chefias e direções de redação, por uma visão enviesada – e por, em geral, estas pessoas serem provenientes mais das editorias de política ou economia -, acreditam supérfluo ou dispensável. Há também um empobrecimento cultural na escola nos últimos anos, especialmente por ser movida por uma visão mercantilista, que encara o processo educacional como mero treinamento pare entrada no mercado de trabalho. Por essa visão, matérias como literatura, teatro, filosofia, história, sociologia, etc., não valem muito. E são elas que oferecem o estofo mais reflexivo de uma educação integral, que forme um pensamento analítico, crítico. Outra razão de “tempos de pouca reflexão”, como você diz, está na televisão. Nossa TV, nas últimas décadas, se empobreceu culturalmente – ela que começou nos anos 50 com teleteatros onde se encenava Tchecov e Nelson Rodrigues hoje produz novelas de dramaturgia indigente. Sem contar programas como BBB. A TV tem moldado hábitos culturais para o pior, também com seus programas de auditório, onde nunca se veem os melhores músicos do País. A melhor cultura nacional vive nos circuitos alternativos. O cinema brasileiro, com raras exceções, também está fora da televisão – que deveria ser sua parceira (e não só no modelo Globo Filmes, deveria haver modelos mais parecidos com a Arte europeia). É de se perguntar porque a TV estatal e educativa não segue um modelo como o da Arte, produzindo projetos para exibir também no cinema, de alta qualidade.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
É, sim, em qualquer cinematografia essa dicotomia se estabelece. São raros os filmes que conseguem conjugar os dois, mas existem. Em todo caso, é preciso haver mecanismos de produção para que os filmes de arte não deixem de ser feitos. Os comerciais, aliás, não precisariam de incentivos – deveriam ser produzidos por produtores privados, que colocassem seu dinheiro e corressem os riscos do jogo capitalista. No nosso mercado, não há produtores com esse perfil.

• Como vê o cinema brasileiro atual?
De um lado, com otimismo, porque a retomada deixou de ser um fenômeno temporário. Ao que parece, desde 1994 estamos finalmente tendo uma produção regular de cinema, que autoriza pensar na formação de uma indústria – por mais que haja sinais claros da necessidade de uma revisão das leis de incentivo. Por outro lado, vivemos um momento de transição, de uma certa crise de modelos. Temos a comédia de grande público, de modelo televisivo, bem estabelecida. Do lado dos filmes mais empenhados, com maior ambição dramatúrgica, parece que há uma certa dificuldade de dialogar com todo o público que se desejaria – um caso recente é “Xingu”, que os produtores pensaram para 1 milhão de espectadores, mas parece que não chegará a 400.000 espectadores. Como toda crise, é um momento de pensar e mudar de direção, o que enriquecerá os resultados futuros.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Bat-fragmentos



Lunático atirando dentro do cinema, projeções de bilheteria, mira em recordes, toda essa periferia fica para trás (porém não no esquecimento) quando se vê Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, digno e empolgante encerramento da trilogia levada a cabo por Christopher Nolan, convenhamos, muito mais feliz na abordagem do homem-morcego que seus colegas Tim Burton e Joel Schumacher.

Nessa terceira parte, Bruce Wayne precisa voltar do autoexílio para combater a Liga das Sombras, responsável, entre outros, por sua modelagem. O líder Bane é um vilão para ficar grudado na lembrança de quem gosta deste tipo de filme. Sua voz gutural é marcante, e, mais admirável, nota-se o ator por baixo da máscara, imprescindível à sua permanência pós-sessão. E Anne Hathaway também está ótima (e linda) na pele (ou seria na roupa justa?) de Selina Kyle. 

Enquanto personagem trágico, Batman cumpre seu papel, sem com isso desagradar a grande indústria que financia o espetáculo, as explosões e toda parafernália tecnológica. Dentro das inevitáveis comparações, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é o mais catártico, grandioso e urgente da trilogia. Ainda prefiro o segundo, simplesmente por que a complexidade antagônica de Coringa, enquanto duplo do Batman, acaba enriquecendo ambos como nenhum outro. Mas acho adequado alguém como Bane, a força bruta e inteligente do submundo, para levar Gothan ao estado de iminente implosão.

São lacerantes as lágrimas do mordomo Alfred diante da suposta falha, a certa altura. Michael Cane é grande, e o diretor mostra-se inteligente o bastante para centralizá-lo, amplificando o drama do cuidador zeloso daquele prestes a jogar-se contra algo sem volta. Há uma que outra previsibilidade, mas não se deve privar Nolan de elogios pelo encerramento coeso de uma trinca que, certamente, mudou a maneira de ver heróis no cinema. O diretor é também habilidoso enquanto produtor, pois sabe não esgotar um personagem tão lucrativo, abrindo caminho à continuidade. Vai longe esse Christopher Nolan.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pílulas de Shame


Deu-se melhor minha relação com Shame na segunda vez.

Consegui, finalmente, entender Brendon um pouco mais, captar a complexidade da obsessão sexual que esconde a profunda dificuldade de sentir, dar e receber amor.

Michael Fassbender está soberbo, assim como Carey Mulligan. São dois animais feridos por um passado ao qual não somos convidados participar. Melhor assim, fica-se na névoa que acentua o mistério benéfico à trama.

Mas algo ainda me segura. Quem sabe é a maneira como o filme se divide em duas partes distintas, ou certo desajeito de Steve McQueen em domar o sexo enquanto elemento. Não me entendam mal, ele filma bem, inclusive as ótimas e fortes cenas de sexo, mas é como se toda construção inicial da obsessão de Brandon, sua postura autodestrutiva e tudo mais, começasse a ruir de maneira desajeitada, descambando quase para algo meio moralista, à medida que a irmã influencia sua rotina. Ele precisava sentir vergonha do que é? Mas pode ser só uma impressão.

Há cenas belíssimas, na verdade várias delas. A versão New York, New York é mesmo de cortar o coração, o nosso e pelo visto também o de Brandon, que derrama aquela lágrima repleta de significados. Conversas rancorosas entre os irmãos também rendem um bocado de sequências inspiradas.

McQueen filma bem, repito, mas tem obsessão por controle, não dá respiros, sobretudo ao que se propõe tão humano e acaba hermeticamente fechado em belos/sufocantes planos.

Sobram metáforas e suposições, entre elas, o que teria sido de Shame, caso menos avesso ao imprevisível?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A agonia de Fausto


Um tanto desconcertante a versão de Fausto levada às telas por Alexander Sokúrov. Sobre a história, não é preciso da base literária para sabê-la, em linhas gerais, é claro: um homem vende sua alma a Mefistófoles em busca de poder e respostas existenciais sobre corpo e alma. Este Fausto adapta a famosa obra aos tempos da Idade Média, utilizando o entorno para, quem sabe, amplificar o périplo do doutor e de seu companheiro, um ser deformado, acometido de dores intestinais, sôfrego, porém dotado da astúcia conveniente aos preceptores.

Sokúrov reza pela cartilha de Andrei Tarkovsky, mas, a bem da verdade, eventuais comparações ao grande cineasta tendem a lhe desfavorecer. Enquanto o compatriota “esculpia o tempo” autoral e sensivelmente, Sokúrov, em Fausto, fica num meio termo incômodo, entre sua necessidade estética/pictórica e alguns momentos de rara inspiração, como a sequência da autópsia. Fausto possui ritmo estranho, deliberadamente truncado, não é um filme fácil. Mesmo chancelado pela conquista do Leão de Ouro no prestigiado Festival de Veneza de 2011, polariza opiniões.

Como genuíno artista, Sokúrov arrisca-se, e preconiza isso a seus colaboradores, vide a bela fotografia do francês Bruno Delbonnel (de O Fabuloso Destino de AméliePoulain), vertiginosa e de morfologia incomum. Ousa em apostar nas percepções de um público que, supostamente, precisa atirar-se para fruir. O risco merece recompensa, e dar outra chance a Fausto pode bem sê-la, pois, de cara, a exuberância visual e o fluxo narrativo soam desencontrados. Arte ou engodo? Mesmo sem garantias, talvez apenas a repetição nos faça gozar essa viagem marítima, sem tonturas, ambientados às torrentes revoltosas pelas quais navega a nau de Sokúrov. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 21 de julho de 2012

Vinhas da Ira


Verter ao cinema Vinhas da Ira, livro emblemático de John Steinbeck, é tarefa compatível só a alguém do calibre de John Ford, provavelmente o maior inventarista em película da história norte-americana. Ele aborda a Grande Depressão (iniciada em 1929) através de uma família pastoril obrigada à itinerância quando despejada. Pessoas da terra – gente acostumada a nascer, criar-se e morrer no mesmo chão – os Joad embarcam num veículo caindo aos pedaços em busca de sobrevivência. E o primogênito, solto em condicional, ressurge para guiar os seus, enquanto lida com um sistema teimoso em achatar aspirações e tipificar. Acusado sazonalmente de patriotismo excessivo, de ser afeito a hagiografias, John Ford valeu-se em 1940 dessa exasperante passagem estadunidense para dar rosto e voz aos sobrinhos desamparados do Tio Sam.

Consecutivos dramas, dos Joan e observados por eles, formam a espinha dorsal do roteiro adaptado por Nunnally Johnson e orquestrado na tela por Ford, um dos maiores diretores do cinema (Ingmar Bergman o sustentava quão maior). Em Vinhas da Ira, ele parece capturar a essência literária, utilizando-a como motriz na articulação cinematográfica da fábula. Personagens de riqueza multifacetada, encenação clássica (no que o adjetivo tem de mais positivo) e o tom humanista, vez ou outra guia da obra fordiana, fazem do objeto desta análise um clássico atemporal. Há quem defenda interessante ponte entre Vinhas da Ira (livro e filme) e o Neo-Realismo Italiano, movimento cultural surgido na “Velha Bota” depois da Segunda Guerra Mundial. E alguém duvida, por exemplo, haverem ecos da mãe americana na progenitora de Rocco e seus Irmãos, do italiano Luchino Visconti?

Vinhas da Ira mostra os Estados Unidos da América desmantelando-se, constrói seu piso sobre desilusões não necessariamente comuns às obras financiadas por Hollywood, e acaba por dessacralizar o país, tornando-o mais factível para além das “belezas de exportação”. Emoldurados pela fotografia do grande Gregg Toland (um ano antes de seu vanguardista trabalho em Cidadão Kane), os personagens criados por Steinbeck são testemunhas e vítimas do entorno opressor, sentindo-se alentados apenas enquanto família, como partes indissolúveis da mesma alma. Somente um diretor monumental tal John Ford faria do derivado cinemático tão importante para seu gênero, quanto é o original para a literatura. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 14 de julho de 2012

Alien - A Ressurreição


Após Ridley Scott dirigir Alien – O Oitavo Passageiro, verdadeiro clássico sci-fi/suspense/terror, James Cameron empobrecer conceitos na sequência Aliens – O Resgate, David Ficher “quebrar tudo”, inclusive negando claramente algumas ideias de seu antecessor, na terceira parte, Alien 3, ao diretor francês Jean-Pierre Jeunet coube continuar a série já desgastada por esse itinerário instável. Alien – A Ressurreição pouco lembra os célebres trabalhos que fizeram Jeunet badalado, está mais para encomenda duramente supervisionada, mesmo que guarde lá seus encantos.

O roteiro de Joss Whedon centra-se na engenharia genética. A Ellen Ripley vista é um clone, revivida 200 anos depois da heroica tentativa de extinguir os alienígenas - óbvia facilidade para tornar possível o seguimento duma franquia tão lucrativa.  A ciência, servente de beligerante propósito, não percebe limites e resgata, então, a última hospedeira, ela própria constituída de DNA humano/extraterrestre.  Alien – A Ressurreição é contemporâneo da ovelha Dolly, feito na efervescência de toda polêmica inicial acerca da clonagem. Certamente não é acaso o filme abordar, à guisa da realidade, matéria tão específica. Estúdios não dormem no ponto.

Alien – A Ressurreição é hesitante entre pertinentes discussões e a “necessidade” de oferecer ação frenética. Exemplos de subaproveitamento, os mercenários tripulantes da nave Betty, surgem apenas quão presas a serem abatidas sequencialmente, sem muito efeito dramático para além da pura coadjuvância. Mas daí, em meio à correria, surge algo verdadeiramente relevante. A dolorosa contemplação das tentativas que precederam o êxito na clonagem de Ripley é, sem dúvida, justa ao talento de um diretor como Jean-Pierre Jeunet, naquele instante, suponha-se, menos acossado por cobranças e cabrestos.

Há quem sentencie Alien – A Ressurreição como o pior dos filmes da quadrilogia (até aí questão de preferência), mas seria atestado de miopia taxá-lo “fracasso total”. Ainda que um tanto superficial, praticamente ignorando a mitologia erigida por Alien – O Oitavo Passageiro, o filme de Jeunet abre portas e passa ao largo da mediocridade. Numa realização visivelmente controlada por produtores tão gananciosos quanto os cientistas retratados, dos males os menores.


Publicado originalmente no Papo de Cinema