segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Première Latina: La Playa D.C.


La Playa D.C., de Juan Andrés Arango, filme da Première Latina, apresentado na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2012, veio com tudo e entusiasmou os poucos espectadores que se prestaram a comprar ingressos para esse longa colombiano cheio de vigor e vitalidade. E muito embora trate de um tema depreciativo, triste e realista (infelizmente), o diretor foca na força que ainda resta naqueles que sofrem preconceito racial. 

Muito bonito e bem intencionado La Playa D.C. apresenta a história de Tomas, um menino negro, colombiano, que precisa lidar com sua própria exclusão e de seu irmão, um adicto que desaparece e deixa Tomas em desespero para encontrá-lo. O filme mostra essa busca incessante do rapaz comprometido com o destino de sua família e com seu próprio rumo, frente às perdas, os ganhos e o preço que se paga apenas por viver com dignidade. 

Um panorama cultural e social da Colômbia nos tempos de hoje com uma bela fotografia e ótimas atuações. Super valeu a pena ter escolhido o pouco aplaudido La Playa D.C.!!

Première Brasil: Meu Pé de Laranja Lima e O Primeiro Dia de um Ano Qualquer

MEU PÉ DE LARANJA LIMA


Baseado no clássico romance juvenil de mesmo título, esta nova adaptação da obra de José Mauro de Vasconcellos apresenta de forma visualmente pouco inventiva a história de Zezé, garoto de família pobre e numerosa que se refugia à sombra de sua árvore para se esquecer dos abusos que sofre do pai, enquanto se perde em seu universo lúdico. 

Dirigido por Marcos Bernstein (um dos responsáveis pelo roteiro de Central do Brasil e diretor de O Outro Lado da Rua), Meu Pé de Laranja Lima se apoia no texto emocional de Vasconcellos, já adaptado ao cinema por Aurélio Teixeira em 1970, porém não o desenvolve de maneira satisfatória para o cinema – entregando um filme monocórdico e até mesmo cansativo. Destaque para a estreia do pequeno João Guilherme Ávila, que encanta como Zezé, e pela performance de José de Abreu como o carismático Portuga. 


O PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER


Ainda apontado por muitos como o Woody Allen brasileiro, Domingos de Oliveira possui pelo menos duas características do cineasta nova-iorquino: filma com uma frequência impressionante e nem sempre entrega obras de muita relevância. Em O Primeiro Dia de um Ano Qualquer, mais uma vez Domingos se cerca de amigos para contar tramas e traumas contemporâneos com o tom cômico e sarcástico que lhe é característico. 

Protagonizado por Maitê Proença, que emprestou sua charmosa casa de campo para servir de locação ao filme, O Primeiro Dia de um Ano Qualquer apresenta um discurso machista e burguês como há muito não se via no cinema nacional. Ainda que certamente faça uma crítica aos mesmos temas, Domingos de Oliveira não se mostra muito preocupado em desenvolver as questões e as entrega em pequenos núcleos que beiram a banalidade. Com uma fotografia errática, o filme não se posiciona muito bem entre o muitas vezes brilhante texto do cineasta e uma novela das seis da Rede Globo.

sábado, 29 de setembro de 2012

Première Brasil: "Entre Vales"


Logo em seus primeiros minutos, Entre Vales torna evidente o domínio que Philippe Barcinski tem da mise-en-scène e o cuidado  com que o diretor preenche cada quadro de seu filme. Todas as informações captadas parecem vitais para o mesmo e previamente estudadas – mérito que o cineasta divide com o magistral diretor de fotografia Walter Carvalho. Ainda que demonstre relevância com suas belas imagens, Entre Vales não tem a mesma felicidade com seu argumento, que funcionaria melhor em um curta-metragem.

Cinco anos após sua estreia em longas, no impactante Não Por Acaso, Barcinski retorna aos dramas humanos para apresentar a história de Vicente, homem de meia idade que é retratado em dois difíceis períodos de sua vida. Aos poucos, o roteiro de Barcinski e de Fabiana Werneck Barcinski vai se revelando para o espectador e confirma o que é possível captar anteriormente sem muita dificuldade. Ângelo Antônio, em mais uma atuação de completa entrega ao personagem, vive um de seus momentos mais bonitos no cinema.

Apoiado em um texto pouco profundo e repetitivo, Entre Vales dedica muito tempo de sua curta duração (80 minutos) para esmiuçar uma história que não diz muito e que já foi contada inúmeras vezes. Ainda que seja justificado pelas belíssimas sequências de Barcinski nos lixões, o filme se torna excessivo por apoiar-se repetidamente no drama de personagens pouco complexos e desinteressantes. Depois de seus curta-metragens excepcionais e de uma estreia tão promissora com bitolas maiores, é triste constatar que Philippe Barcinski não atinge o mesmo mérito com sua mais nova obra. Resta esperar para que seu próximo trabalho seja mais contundente - e que o mesmo não leve cinco novos anos para ganhar as telas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Festival do Rio 2012: "Gonzaga - De Pai Para Filho"


Em clima de festa e discursos longos, o Festival do Rio de 2012 teve sua noite de abertura na última quinta-feira no belíssimo Odeon, cineteatro que resiste aos anos e aos multiplexes e que deixa ainda mais belo o Centro do Rio de Janeiro. Para o filme de estreia desta edição do festival, um dos 5 maiores do mundo, Breno Silveira apresentou Gonzaga – De Pai Para Filho, cinebiografia de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha que deve ganhar as telas do país (e quiçá alguns milhões de espectadores) no fim de outubro. 

Com ritmo lento e poucos atores convincentes, Gonzaga – De Pai Para Filho se constitui com a já muito recorrente narrativa de cinebiografias musicais, recorrendo aos mesmos clichês que transformam histórias simples em dramas folhetinescos – já utilizados por Breno Silveira com melhor resultado em 2 Filhos de Francisco. A música, já naturalmente presente na trajetória de vida do “Rei do Baião” e de seu filho, é dos recursos mais tendenciosos do filme e conduz sequências constrangedoras. 

Com tons inegavelmente nacionalistas e popularescos, Breno Silveira pinta as cores do nordeste de forma impressionante e apresenta um início promissor para sua obra. No entanto, o roteiro elíptico e muito abrangente, apoiado na atuação maneirista de Chambinho do Acordeão – que interpreta Gonzagão dos 27 aos 50 anos – impede o todo de se tornar um registro à altura da importância dos músicos para a cultura popular brasileira. Julio Andrade, numa caracterização impressionante de Gonzaguinha, se destaca como o grande trunfo do filme. Uma pena que sua participação é eclipsada por tantos equívocos.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

É pra não perder


  • A coleção Folha Charles Chaplin. São 20 livros-DVD (média de 64 páginas, capa dura) com a obra completa do genial artista inglês. Os DVDs foram inteiramente realizados e licenciados pela Versátil, sob autorização dos produtores originais e da própria Associação Chaplin. Trazem versões restauradas de todos os longas e curtas-metragens de Chaplin, inclusive alguns inéditos no Brasil. Mais informações aqui.
  • A cobertura da 45ª edição do tradicional Festival de Cinema de Brasília, realizada pelo Papo de Cinema. Críticas, entrevistas e balanços para cinéfilo nenhum botar defeito. Acompanhe aqui
  • A partir de hoje, a farta mostra de cinema português no Canal Brasil, parte das comemorações do ano de Portugal no Brasil e do ano do Brasil em Portugal. Serão exibidos oito curtas e quinze longas de nossos patrícios, apresentados pelo ator lusitano Ricardo Pereira. Mais informações aqui.
  • Em breve, a cobertura do Festival do Rio, aqui mesmo no The Tramps. Conrado Heoli e Ana Carolina Grether (nossa correspondente contumaz) contam tudo sobre esse que é um dos eventos cinematográficos mais importantes do calendário nacional. 

sábado, 22 de setembro de 2012

Super Nada


A sensação no início de Super Nada é que algo muito bom sairá da observação do cotidiano daquele ator longe dos holofotes e do tapete vermelho que o senso comum teima em associar ao ofício da representação. Vimos recentemente o cinema nacional debruçar-se sobre o mesmo tema, em Riscado, de Gustavo Pizzi, onde Karine Teles reinava soberana na tela com sua atriz amargurada entre apresentações em aniversários e a defesa diária de mensagem ao vivo. No filme de Rubens Rewald, a dinâmica proposta em torno do personagem de Marat Descartes é semelhante, pois o acompanhamos durante a rotina fatigante dos inúmeros testes, as aulas de teatro, as dificuldades financeiras, enfim, no périplo de um trabalhador brasileiro em busca da sobrevivência pelo que ama. 

Guto, essa figura central, tem uma espécie de ídolo da TV, o Super Nada, interpretado por ninguém mais ninguém menos que Jair Rodrigues, baluarte da música popular brasileira. Um herói malandro, safo, digno do “super” pela capacidade na lida com a rotina, mexendo-se e sobrevivendo entre tantas adversidades. Pronto, o paralelo entre fã e ídolo está construído, até de maneira bem simplória e, por que não, óbvia. Mas, sabedor dos recursos dramatúrgicos de seu ator principal, pelo qual a câmera parece magnetizar-se, o diretor acerta nesse movimento inicial, no qual faz tudo gravitar em torno de Marat, esse praticamente desconhecido das massas (afinal não fez novela), mas de grande consideração tanto no teatro quanto no cinema. Pena serem poucos e breves esses momentos de inspiração. 

No desenrolar, Super Nada entorta, direcionando-se para o abismo. Não que a guinada seja brusca, ela é construída com requintes de crueldade e, por isso mesmo, lentamente. À medida que transcorre, ele abandona qualquer profundidade pretendida no início, e cai num registro até difícil de definir. A expressão “pastelão” não me parece exagero. E o que deflagra essa derrocada é a sequência de Guto interagindo com seu ídolo, quando de um teste para sua participação especial no programa de televisão. Todo o desdobramento leva a lugar nenhum, provoca risos involuntários, dando o empurrão necessário para que o filme caia de vez em terreno infértil e inabitável. O diretor parece não perceber, por exemplo, nessa malograda passagem, que ele priva o espectador de todo e qualquer envolvimento emocional com alguém de início trágico e logo quase patético. 

Super Nada cai numa banalidade só não total, repito, pelo talento de Marat Descartes, o que de melhor o filme tem a oferecer. Seu drama cômico poderia ser clownesco, isso caso restassem ao filme atributos para além da pouca inspiração surgida em meio a tanto caos e descontrole. Falta a Rubens Rewald um olhar mais apurado sobre o ritmo interno e as implicações cinematográficas de algumas escolhas contestáveis do roteiro. Também inexiste sensibilidade para lidar com um ator cujo desempenho está bem acima da obra que protagoniza. No fim, a mensagem verbalizada de Super Nada, de que não devemos nos preocupar em demasia com nada, pois, no frigir dos ovos, é tudo uma porcaria sem importância mesmo, o sublinha ironicamente. É, realmente não tá fácil pra ninguém. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

The Tramps Entrevista: Marcelo Oliveira da Silva



Marcelo Oliveira da Silva é jornalista formado na UFRGS, mestre em Ciência da Mídia pela Technische Universitaet Berlin, e doutorando em cinema pela Freie Universitaet Berlin. Lecionou comunicação na TU-Berlim, UFRGS e PUC-RS. Foi repórter de cultura e vice-editor de política internacional no jornal Zero Hora e colaborador internacional por vários anos do Grupo RBS, Canal Multishow (TV Globo) e Deutsche Welle TV, com os quais ainda colabora desde a capital gaúcha. Mantém coluna mensal de cinema no jornal cultural Usina do Porto. É coordenador de comunicação da Secretaria da Cultura de Porto Alegre. 

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• Como nasceu em você a paixão pelo cinema?
Eu morava no centro de Porto Alegre, onde se concentravam os cinemas, e devia ter uns 9 anos quando ganhei 'permissão' pra ver filmes sozinho. Um tio que era gerente de uma grande rede de distribuição da cidade encheu o saco de me ver todo dia pedindo ingressos na sala dele e me deu uma "permanente", como chamavam aquelas credenciais. A partir daí, comecei a ir quase todo dia. Como conhecia todos os porteiros, também me deixavam entrar em filmes adultos  - em geral de terror ou suspense, que nos de sexo não tinha jeito. Pra isso eu ficava pela loja de balas até que todo mundo entrasse e sentasse. E precisava ser o primeiro a sair também, pra não ser visto e comprometer os porteiros. Depois acabaram as permanentes para quem não era crítico, mas daí já era vício e eu às vezes assistia dois filmes por dia. Comecei a escrever sobre cinema nos jornais de colégio.

• Qual é o sentido de ser crítico nos dias de hoje?
Acho que é sobretudo recomendar boas obras, agindo de duas maneiras: em primeiro lugar ajudando na divulgação não comercial e em segundo lugar ajudando o leitor a compreender obras que exigem um olhar mais treinado na linguagem fílmica, uma observação mais experiente desse negócio fabuloso e eventualmente complexo que é contar histórias. Se adivinho uma segunda intenção nessa sua pergunta, adianto que concordo: a crítica está morrendo. Dos anos 90 pra cá (mais ou menos a mesma época em que o cinema passou a ser a maior indústria dos Estados Unidos) a quase totalidade dos críticos em todo os países relativamente industrializados se tornou uma parte do sistema de divulgação das superprodutoras de cinema. Falei no início em recomendar boas obras porque há tempo não há mais espaço nem tempo para se tratar de filmes que por um bom motivo merecem uma crítica negativa. Quem trabalha num grande jornal, rádio ou tevê, arrisca o emprego se falar mal de um filme que tenha investido bastante em publicidade naquele veículo.

• Qual sua posição frente a nova crítica de cinema, que germinou na era dos blogs e das revistas virtuais?
Elas são a salvação! O que sobra de crítica livre está na internet ou nas poucas publicações alternativas. Na grande imprensa é difícil até para o críticos experientes evitar de falar de um determinado filme que considerem ruim ou demasiado comercial. E como já vamos pra mais de duas décadas sob esse sistema (que resumi na pergunta anterior), noto que grande parte dos críticos inteligentes ativos na grande imprensa está se tornando complacente demais. Há muita bobagem (e não falo daqueles filmes que ocupam dez ou mais cinemas simultaneamente - com esses eu jamais perco meu tempo) de grande estúdio com três e quatro estrelas por aí e também há muito filme independente subvalorizado ou nem sequer visto e avaliado. Imagina entre quem começou a criticar ontem na grande imprensa e não conheceu outro esquema. Não culpo esses profissionais. Acho essa coisa toda inevitável no grande circuito. Quanto ao conteúdo dos blogs e revistas virtuais: do mesmo jeito que é necessário escolher um bom jornal ou programa e um bom crítico em quem confiar, também é preciso desenvolver essa relação de confiança com os bons blogs e boas revistas virtuais. Quanto mais estrada tiver o esquema virtual, melhor vai ficar esse conteúdo.

• Como vê o academicismo de certas linhas de pensamento na crítica cultural? Acredita que a dissecação de um filme, tornando a análise o mais objetiva possível, tende a enfraquecer a importância da análise subjetiva?
Depende de como se compreende "academicismo" aqui. Se com academicismo você quer dizer o uso de jargões, o refúgio de sujeitos que deram um duro enorme pra serem doutores e depois pararam de pensar pra ficar no conforto das citações doutas e estéreis, feito concurseiros que viram maus funcionários públicos e só cumprem horário na repartição até a chegada do contracheque, então eu concordo com o que você quiser. Porém, se o doutor usa aquela experiência de ler ao menos duas centenas de livros teóricos (doutorar-se devia requerer isso) pra tornar seu próprio pensamento mais claro e certamente menos ingênuo, mais cultivado, então pode ser uma delícia. Já com essa aparente divisão entre análise objetiva e subjetiva, eu discordo que isso esteja relacionado à experiência acadêmica. Isso vem do caráter e da maturidade de quem analisa. Tem doutor subjetivo demais (e a quem interessa a subjetividade de alguém?) e tem autodidata que poderia dar aula de como se ver um filme.

• Quais são seus críticos de cinema favoritos? Os de outrora, que influenciaram ou ainda influenciam seu trabalho, e os de agora, que acredita sustentarem com talento a causa da crítica de cinema.
De outrora: Vsevolod Pudovkin, Sergei Eisenstein, Bela Balazs (sobretudo), André Basin, James Monaco e Eno Patalas. Ainda hoje: Wolfram Schütte, Jean Claude Bernadet e José Carlos Avellar. Gosto do estilo de Pauline Kael, mas acho os críticos norte-americanos ótimos em casa, mas em geral fracos na hora de decifrar contextos estrangeiros. Acho que isso está melhorando.

• É célebre a história de Antonio Moniz Vianna parou de escrever quando da morte de seu maior ídolo, John Ford, pois acreditava que nada tinha mais a acrescentar como pensador diante da crise criativa contemporânea. Qual diretor cuja morte já lhe provocou semelhante desalento?
Acho que as pessoas param de escrever sobretudo por motivos internos e hesito em falar de crise criativa contemporânea, porque todas as épocas já se disseram em crise criativa. Se tivesse sido verdade, olhando pra trás enxergaríamos apenas crises... Não foi assim. Sobre desalento com mortes de meus prediletos: Charlie Chaplin, mas eu era demasiado menino ainda. E Stanley Kubrick que acho o mestre mais completo em seus passeios por diferentes gêneros; mas a vida sempre continua e também o cinema.

• A perda de espaço de textos críticos nos veículos impressos é sintoma da falta de interesse público, ou a busca ávida dos veículos pela adequação a tempos de pouca reflexão?
Acho que já respondi acima. Acho que o espaço pode ter se mantido, mas mudou o uso desse espaço por uma questão comercial, ligada à necessidade mais forte de vender anúncios pra se sobreviver num modelo de negócios como temos hoje, em que a venda em si representa ainda menos que anteriormente. Também vejo mais competição com espaços que não existiam antes, e isso certamente acrescentou possibilidades que não conhecíamos. Não sei se os tempos são de menos reflexão. O tempo e a maneira de refletir mudou certamente. Mais gente que não refletia passou a ler. Note que os mendigos em nossa cidade hoje são alfabetizados e reagem de outra maneira, menos passivos, mais articulados. O pai de família de hoje talvez tenha menos tempo pra ler o jornal e pensar na vida do que o meu teve - a siesta definitivamente acabou... Por outro lado, tanto o pai de família atual como o mendigo estão melhor informados. E informação é algo vital pra reflexão. Em resumo, acho que há um deslocamento daquele suporte impresso pra outro suporte, digital.

• Discutir "comércio versus arte" ainda é válido quando percebemos qualquer cinematografia?
Tanto o sucesso comercial quanto o artístico influenciam sociedades. Aliás, a forma como se dá essa influência define essas sociedades. Há quem tenha tirado o melhor proveito de uma e de outra e se mantido em crescimento, ou pelo menos num certo nível, e há quem tenha perdido a mão e entrado em decadência. É preciso saber usar as duas variáveis.

 • Como vê o cinema brasileiro atual?
Muito melhor em relação aos anos 70 até o início dos anos 90, quando faltou primeiro liberdade e depois também dinheiro. Não se vê a explosão de talentos, que criaram pelo menos dois ou até três gêneros cinematográficos nos anos 50 e 60, mas o cinema enquanto negócio está se estruturando como jamais antes aconteceu, alguns prêmios de qualidade artística têm aparecido e as bilheterias voltaram a crescer. Na média, está bem. Talvez falte acreditar mais na capacidade de inovar, arriscar um pouco mais na linguagem, apostar um pouco mais na capacidade de o público compreender coisas novas. Nesse sentido, nosso cinema de ficção devia aprender um pouco com nossos documentaristas, que são ótimos. E por favor: chega de cena de sexo que em nada contribui pro andamento da história e de tanta ênfase na emoção à moda das novelas. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema