sábado, 6 de outubro de 2012

Esquecíveis: "Colegas" e "Terra Esquecida"


Marcelo Galvão tem entre seus longas os divisores de opiniões Quarta B, Rinha e Bellini e o Demônio, então nada mais curioso que seu projeto seguinte resultasse em Colegas, uma comédia sensível protagonizada por três jovens com Síndrome de Down. Stalone, Aninha e Márcio são os garotos que fogem de um instituto inspirados pelo filme Thelma & Louise e partem para uma jornada que transforma suas vidas e o próprio road movie em algo muito distante do Na Estrada de Walter Salles. 

Sensação no Festival de Gramado, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme, Colegas quase funciona como um ótimo entretenimento juvenil, não fossem os constantes desvirtuamentos de valores, ou como um bem sucedido feel-good movie – título que escapa da obra de Galvão pelos apelos óbvios, inconsistências do roteiro e convencionalismos do gênero. Ainda assim, pelo carisma do trio de atores principais e boas referências ao cinema, uma sessão despretensiosa de Colegas é mais que indicada. 




Em 1986, um acidente nuclear na usina de Chernobyl transformou a bela paisagem local em uma sofrida região-fantasma. Terra Esquecida acompanha o drama de Anya, Valery e Nikolai, que tiveram suas vidas drasticamente alteradas pela catástrofe e que, independente do ocorrido, não conseguem se distanciar de seu passado na cidade abandonada. 

Primeiro longa-metragem ficcional de Michale Boganim, mais conhecido pelo documentário Odessa... Odessa!, Terra Esquecida apresenta uma tríade de histórias paralelas bastante tristes com as cores opacas do local que retrata. Com a bela Olga Kurylenko como protagonista, o filme peca por não aprofundar adequadamente nenhum de seus núcleos, tornando as supostamente complexas experiências de seus personagens desinteressantes e pouco envolventes. Destaque para a pálida fotografia de Yorgos Arvantis e Antoine Heberlé, que conseguem extrair imagens impressionantes fazendo uso de uma cartela de cores tão limitada.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Première Latina: A Sorte em Suas Mãos


Daniel Burman e A Sorte em Suas Mãos. Sempre grata surpresa assistir a um filme desse diretor que tanto amo. Mas admito, desta vez a visceralidade passou mais longe do que de costume. Visto seu estilo anteriormente em Ninho Vazio, Dois Irmãos entre outros, esperava mais emoção nas cenas sensíveis e sutis, bem a cara do cineasta argentino. 

O enredo é muito bem bolado e se utiliza de humor inteligente, ora ácido, ora bem engraçado. A começar pelo protagonista, figura única e com talento indescritível. Jorge Drexler, ator uruguaio escalado por Burman, dá show como Uriel, pai de dois filhos, divorciado, jogador de pôquer, conquistador e galanteador barato que foge dos sentimentos. Ao arriscar a sorte nos jogos de azar, Uriel reencontra Gloria (antiga namorada) e, a partir daí, precisa lançar mãos dos recursos que conhece para decidir o que fazer. Sorte e azar no amor e no jogo são as apostas de Daniel Burman nessa história muito simpática e pitoresca. 

Infelizmente, a cópia do filme não estava das melhores, bem como a projeção, incluindo falha no som e legenda, culpa do cinema e/ou equipe do FestRio 2012, não sei. Lamentável, pelo simples fato de que se esquecemos um simples crachá, mesmo estando com o ingresso na mão, não entramos, somos barrados literalmente. Já o cinema pode deixar os espectadores aguardando indefinidamente “a pessoa responsável pela legenda da película”, tendo como argumento que estavam sendo muito sinceros, mas não sabiam quando a moça retornaria. Nessa enrolação, decidimos assistir ao filme mesmo sem legenda, e até esse momento já tinham se passado uns bons 15 minutos. Durante a exibição a legenda voltou. A sorte do cinema é que a sessão estava vazia, senão eles teriam bem mais problemas.

Mostra Expectativa: Noor


Noor foi um filme curtinho da Mostra Expectativa do FestRio deste ano, com apenas 78 minutos. Impactante pela temática, mas nem tanto por seu desenrolar um pouco arrastado, acaba menos interessante do que parecia ser. 

Noor é uma mulher que nunca se entendeu como tal, ela deseja ser homem e não se sente parte da comunidade transgênero Paquistanesa. Em certa altura ela começa a trabalhar como homem e decide encontrar uma menina que a aceite como ela é/está.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Destaques: "Cor da Pele: Mel" e "Tudo o Que Você Tem"


Uma das tarefas mais difíceis em um festival de cinema com mais de 400 filmes em sua programação consiste em acertar nas escolhas de obras do qual pouco ou nada se conhece. Cor da Pele: Mel foi um dos meus mais gratificantes acertos até o momento e já se destaca entre os melhores filmes que vi este ano.  

Baseado nas memórias do ilustrador Jung, que dirige o filme ao lado de Laurent Boileau, este suave misto de animação e documentário resgata as passagens mais marcantes da vida do artista cinebiografado, ilustradas com cores e traços deslumbrantes. Emocional e complexo nos temas que aborda, como a adoção e a sensação de não pertencimento ao lugar no qual se vive, Cor da Pele: Mel é um recorte verídico bem sucedido em todas as suas intenções – funcionando como drama, documentário, animação, cinebiografia e um excepcional filme.


O cinema canadense contemporâneo, em especial o realizado na província de Quebec, ganha cada vez mais abrangência com uma série de competentes realizadores que se destacam em festivais pelo mundo. Seja pelas mãos de Denis Villeneuve, Xavier Dolan ou pelo já consagrado Denys Arcand, deve-se atentar cada vez mais para a cinematografia exportada por este país. Depois de assistir a Tudo o Que Você Tem, somo aos cineastas supracitados o nome de Bernard Émond.

Destaque no Festival de Toronto, Tudo o Que Você Tem apresenta o solitário e deprimido Pierre Leduc, professor de literatura que abandona as salas de aula para se dedicar à tradução da obra de Edward Stachura – autor que pontua toda a narrativa do filme com seus poemas existencialistas. Em suas investidas para se afastar de todos, um encontro com o passado faz com que as prioridades de Pierre sejam repensadas. Melancólico e muito maduro, o filme analisa a alienação do mundo contemporâneo com uma delicada abordagem, onde se destaca, além do piano que conduz o sôfrego período da vida de Pierre, a atuação magistral e contida de Patrick Drolet.

Uma joia cinematográfica pouco conhecida e que dificilmente ganhará distribuição no Brasil – o filme sequer está cadastrado no IMDB – Tudo o Que Você Tem permanece com o espectador muito além de seus 90 minutos. Um filme que imprime sensações cada vez mais difíceis de serem obtidas a partir do cinema moderno.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Première Latina: La Playa D.C.


La Playa D.C., de Juan Andrés Arango, filme da Première Latina, apresentado na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2012, veio com tudo e entusiasmou os poucos espectadores que se prestaram a comprar ingressos para esse longa colombiano cheio de vigor e vitalidade. E muito embora trate de um tema depreciativo, triste e realista (infelizmente), o diretor foca na força que ainda resta naqueles que sofrem preconceito racial. 

Muito bonito e bem intencionado La Playa D.C. apresenta a história de Tomas, um menino negro, colombiano, que precisa lidar com sua própria exclusão e de seu irmão, um adicto que desaparece e deixa Tomas em desespero para encontrá-lo. O filme mostra essa busca incessante do rapaz comprometido com o destino de sua família e com seu próprio rumo, frente às perdas, os ganhos e o preço que se paga apenas por viver com dignidade. 

Um panorama cultural e social da Colômbia nos tempos de hoje com uma bela fotografia e ótimas atuações. Super valeu a pena ter escolhido o pouco aplaudido La Playa D.C.!!

Première Brasil: Meu Pé de Laranja Lima e O Primeiro Dia de um Ano Qualquer

MEU PÉ DE LARANJA LIMA


Baseado no clássico romance juvenil de mesmo título, esta nova adaptação da obra de José Mauro de Vasconcellos apresenta de forma visualmente pouco inventiva a história de Zezé, garoto de família pobre e numerosa que se refugia à sombra de sua árvore para se esquecer dos abusos que sofre do pai, enquanto se perde em seu universo lúdico. 

Dirigido por Marcos Bernstein (um dos responsáveis pelo roteiro de Central do Brasil e diretor de O Outro Lado da Rua), Meu Pé de Laranja Lima se apoia no texto emocional de Vasconcellos, já adaptado ao cinema por Aurélio Teixeira em 1970, porém não o desenvolve de maneira satisfatória para o cinema – entregando um filme monocórdico e até mesmo cansativo. Destaque para a estreia do pequeno João Guilherme Ávila, que encanta como Zezé, e pela performance de José de Abreu como o carismático Portuga. 


O PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER


Ainda apontado por muitos como o Woody Allen brasileiro, Domingos de Oliveira possui pelo menos duas características do cineasta nova-iorquino: filma com uma frequência impressionante e nem sempre entrega obras de muita relevância. Em O Primeiro Dia de um Ano Qualquer, mais uma vez Domingos se cerca de amigos para contar tramas e traumas contemporâneos com o tom cômico e sarcástico que lhe é característico. 

Protagonizado por Maitê Proença, que emprestou sua charmosa casa de campo para servir de locação ao filme, O Primeiro Dia de um Ano Qualquer apresenta um discurso machista e burguês como há muito não se via no cinema nacional. Ainda que certamente faça uma crítica aos mesmos temas, Domingos de Oliveira não se mostra muito preocupado em desenvolver as questões e as entrega em pequenos núcleos que beiram a banalidade. Com uma fotografia errática, o filme não se posiciona muito bem entre o muitas vezes brilhante texto do cineasta e uma novela das seis da Rede Globo.

sábado, 29 de setembro de 2012

Première Brasil: "Entre Vales"


Logo em seus primeiros minutos, Entre Vales torna evidente o domínio que Philippe Barcinski tem da mise-en-scène e o cuidado  com que o diretor preenche cada quadro de seu filme. Todas as informações captadas parecem vitais para o mesmo e previamente estudadas – mérito que o cineasta divide com o magistral diretor de fotografia Walter Carvalho. Ainda que demonstre relevância com suas belas imagens, Entre Vales não tem a mesma felicidade com seu argumento, que funcionaria melhor em um curta-metragem.

Cinco anos após sua estreia em longas, no impactante Não Por Acaso, Barcinski retorna aos dramas humanos para apresentar a história de Vicente, homem de meia idade que é retratado em dois difíceis períodos de sua vida. Aos poucos, o roteiro de Barcinski e de Fabiana Werneck Barcinski vai se revelando para o espectador e confirma o que é possível captar anteriormente sem muita dificuldade. Ângelo Antônio, em mais uma atuação de completa entrega ao personagem, vive um de seus momentos mais bonitos no cinema.

Apoiado em um texto pouco profundo e repetitivo, Entre Vales dedica muito tempo de sua curta duração (80 minutos) para esmiuçar uma história que não diz muito e que já foi contada inúmeras vezes. Ainda que seja justificado pelas belíssimas sequências de Barcinski nos lixões, o filme se torna excessivo por apoiar-se repetidamente no drama de personagens pouco complexos e desinteressantes. Depois de seus curta-metragens excepcionais e de uma estreia tão promissora com bitolas maiores, é triste constatar que Philippe Barcinski não atinge o mesmo mérito com sua mais nova obra. Resta esperar para que seu próximo trabalho seja mais contundente - e que o mesmo não leve cinco novos anos para ganhar as telas.