sábado, 27 de outubro de 2012

Jorge Mautner – O Filho do Holocausto


O músico, compositor e escritor brasileiro Jorge Mautner (nome artístico de Henrique George Mautner) é um homem de alma livre que, paradoxalmente, como ele mesmo diz, faz psicanálise por pressão pública. Não iremos longe no estudo da música popular brasileira se omitirmos sua obra, repleta de letras bem humoradas e melodias contagiantes. A veia de escritor é menos alardeada, mas basta lembrar o prêmio Jabuti de literatura recebido por Deus da Chuva e da Morte para se ter a real dimensão do artista completo que Mautner de fato é. O filho do holocausto assim nominou-se num livro de memórias, basilar do roteiro fílmico, por ser fruto de pai judaico e mãe vienense, herdeiro do êxodo empreendido por muitos quando do nazismo. Enfim, é mais que bem-vindo algo como Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, exatamente por lançar luz sobre este brasileiro essencial.

Dirigido por Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, o filme é todo captado em estúdio, seja na atmosfera em que Mautner lê trechos da própria biografia, depois local de encontros reveladores, ou mesmo no palco onde celebra seus principais sucessos, não abdicando das performances que o caracterizam. O início é bastante esquemático, Mautner se lê e logo após vem uma de suas canções. Apenas o fato de ouvir boa música no cinema já é alentador, mas o filme quase cai no marasmo nessa primeira e engessada parte. Felizmente logo se infiltram no tecido narrativo alguns momentos cuja diversidade ajuda a sublinhar com mais riqueza esse tipo, feito de muitos.

Figuras carimbadas de nossa arte desfilam na tela, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nelson Jacobina (falecido recentemente). Eles contam as peripécias de Mautner e reeditam parcerias. Das filmagens de O Demiurgo, dirigido por Mautner na casa do amigo Arthur de Mello Guimarães, em Londres, com participação de Gil, Caetano, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção, entre outros, às passagens nebulosas, tudo passa pelo palco em música. Pode-se objetar o bom gosto estético dos cenários montados, e principalmente seu caráter restritivo. Aos diretores parece importante criar um universo paralelo e inadvertidamente falso para acolher um tipo tão sui generis como Mautner.

Sem dúvida o ponto alto de Jorge Mautner – O Filho do Holocausto é o encontro afetivo entre o artista e sua filha, Amora Mautner. A mulher reclama de seu nome (feminino de amor), causador de muitos infortúnios, sobretudo na época da escola, e lembra passagens constrangedoras como a nudez constante dos pais e a vestimenta inusitada com a qual a buscavam na escola, porém sem esconder o orgulho de ser filha de quem é. Jorge Mautner apenas ri, concorda e, eventualmente, complementa, sempre com o olhar terno rebatido na mesma medida por Amora. Então, mesmo estanque e formalmente desfavorável à personalidade libertária de seu biografado, Jorge Mautner – O Filho do Holocausto oferece um recorte ilustrador desse artista crente na profundidade eterna da alegria. Alguém que diz "ou o mundo se brasilifica ou vira nazista”, é ou não um tipo para lá de interessante?


Publicado originalmente no Papo de Cinema

domingo, 21 de outubro de 2012

O Som ao Redor


Experiente enquanto crítico de cinema, Kléber Mendonça Filho também é tarimbado na realização de filmes, pois construiu ao longo dos anos uma sólida carreira como curta-metragista. São dele alguns títulos como Recife Frio, no qual faz a insólita dedução de como seria a capital pernambucana caso o calor fosse subitamente trocado pelo frio mais comum aos brasileiros do Sul. Aliar sua erudição cinéfila à vontade e ao talento para produção iria, hora ou outra, desembocar na seara do longa-metragem ficcional (ele já havia dirigido o longa documental Crítico). Dessa maneira, O Som ao Redor é o debut de Kléber no formato. Vem angariando prêmios e aplausos em diversos festivais pelo mundo. Será que “perdemos” um crítico arguto e “ganhamos” um cineasta não menos interessante? 

Em O Som ao Redor, há a observação do cotidiano de uma vizinhança recifense, com todas as diferenças existentes entre seus moradores. Na verdade, o foco se estreita sobre uma rua que passa a ser monitorada por determinado serviço particular de vigilância, conseqüência da necessidade de proteger-se contra a violência urbana desenfreada das cercanias e do próprio vandalismo de alguns moradores. Mesmo calcado num choque social evidenciado pelas relações de trabalho e também por alguns (e reveladores) planos aéreos que delineiam na tela os limites entre a classe média amedrontada e a vida pobre crescente no entorno dessas propriedades duramente supervisionadas, O Som ao Redor passa ao largo do mero choque, até por que não se restringe formalmente ao contraponto social. Então não espere algo como “ricos versus pobres”, pois a observação dos desníveis dessa natureza apenas sublinha a construção. 

Estamos novamente diante das diversas histórias amalgamadas, tão caras ao cinema contemporâneo. A estrutura multiplot funciona em O Som ao Redor, pois Kléber não busca criar ou investigar rigorosamente seus personagens (mesmo que de alguma forma o faça), mas registrar à sua maneira um “estado das coisas”. É percorrendo essa corda bamba, sem perder o equilíbrio, que o filme instaura-se na deliciosa zona de risco habitada enquanto lhe convém, para logo a transpor quase com habilidade de veterano. Assim sendo, não devemos atentar em demasia aos núcleos encerrados em si, mas sim entendê-los como frações indivisíveis de um todo. O rapaz que cuida dos imóveis do avô, um anacrônico senhor do engenho enclausurado em suas propriedades, é tão importante ao filme quanto a mulher de cotidiano perturbado por um cachorro que late intermitentemente, afeita a cigarros de maconha e simples afazeres domésticos. 

Chama a atenção o desenho sonoro de O Som ao Redor, aliás, título mais que pertinente a um filme construído muito fora do quadro, justamente por meio dos sons e ruídos de um bairro orgânico mesmo que inserido num contexto puramente cinematográfico. O uso expressivo da sonoridade mostra a pulsão da vida na rua e confere um tom acima do real ao encenado. O filme, então, fica circunscrito num espaço físico determinado, mas o transcende pelos barulhos externos infiltrados nos planos. Numa cinematografia como a nossa, pelo menos me valendo de olhar retrospectivo recente, não lembro algo empenhado dessa maneira em utilizar as sonoridades, sobretudo os ruídos, com caráter tão significativo. 

O Som ao Redor é uma obra madura, impressionante tecnicamente, assim como exemplar no rigor proposto por seu diretor que, mesmo ainda tateando a identidade criadora, mescla experiências com sensibilidade. O filme é bastante pensado, mas não soa distante como muitos por aí, e isso se deve, em grande parte, à maneira como os personagens são dinamizados na trama. As referências a alguns filmes que volta e meia passeiam na tela, não apoiam o criador como se fossem muletas ou elementos de afago aos espectadores, surgindo mais como piscadelas discretas àqueles que compartilham paixão pelo cinema. O final evoca de maneira engenhosa a tradição nordestina do coronelismo e dos jagunços vingativos que tanto povoam nosso imaginário relacionado àquela região do país. Kleber Mendonça Filho quase chega a ser brilhante em O Som ao Redor, certamente um belo cartão de vistas (como se precisasse) de alguém que ajuda a construir cinema enquanto escreve e desempenha a crítica quando filma. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 20 de outubro de 2012

CineAnglo #02 - 18/10/2012


Ambientada pelos acordes da trilha memorável que John Williams compôs para um dos filmes mais importantes de Steven Spielberg, aconteceu na última quinta-feira, dia 18, a segunda edição do CineAnglo, projeto de cinema sediado na Faculdade Anglo-Americano/IDEAU de Caxias do Sul. Tubarão foi conferido por uma atenta plateia que testemunhou a permanência da capacidade de entretenimento e impacto dessa obra que mostra os constantes ataques de um tubarão-branco descomunal na pacata Amity.

Na conversa conduzida por Ale Martins, Marcelo Müller e Rafael Müller, foram discutidas curiosidades de produção, os respingos do longa na indústria do cinema e no imaginário popular acerca do animal, a engenhosa construção narrativa de Spielberg e os motivos pelos quais um filme como Tubarão seria amenizado em sua violência (visual e psicológica) caso produzido nos dias de hoje.

Apoiado pela ACCIRS (Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul), o CineAnglo retorna em novembro. Filme, data e convidado ainda serão definidos.

Acompanhe as novidades em www.facebook.com/CineAnglo
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Faculdade Anglo-Americano/IDEAU
Rua Feijó Junior, 1049 - São Pelegrino - Caxias do Sul – RS
Fone: (54) 3536.4404

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Adeus (e obrigado), Sylvia Kristel


Lembro bem de meu período adolescente, dos hormônios fervilhantes que resultavam, entre outras situações constrangedoras, em ereções involuntárias, comuns a todo garoto imberbe.  Meninas deixaram de ser “grupo rival”, passando a “objetos de desejo”. Sessões da tarde, poucos compromissos, amores “incontroláveis” (ou seja, nuvens passageiras), amigos de escola, televisão, e tudo aquilo que arrefece quando chega a vida adulta.

Também como a maioria dos guris da minha idade, eu era vidrado no Cine Band Privê, sessão dedicada ao chamado soft pornô nas madrugadas da Rede Bandeirantes. Um peito revelado parecia o máximo da transgressão. Na era pré-internet (popularizada) era assim: burilar nossa imaginação sexual ainda soava como ato deliciosamente infrator. Hoje está tudo no google.

Na época, dava um jeito de meu irmão mais novo, o Rafa, adormecer cedo (geralmente aconselhando-o descansar para a plena recuperação de suas forças infantis), me posicionava confortavelmente na cama e esperava iniciar o Privê. As práticas onanistas nem precisariam ser mencionadas, pois implícitas.

Meus filmes prediletos naquelas antemanhãs da Band eram os da longeva série Emanuelle. E a mais icônica das Emanuelles, Sylvia Kristel, morreu na noite de ontem, aos 60 anos, vítima de um câncer na garganta. Então, a rememoração afetiva transcorrida até aqui, é uma homenagem a essa mulher que me ajudou a descortinar a beleza do olhar, do corpo, enfim, da sensualidade feminina. Obrigado, Sra Kristel.

domingo, 14 de outubro de 2012

Um Tira Acima da Lei


Um Tira Acima da Lei é daqueles bons filmes que chegam ao Brasil diretamente em DVD, ou seja, na tese mercantil, abaixo de inúmeras porcarias que “contaminam” nosso circuito exibidor. Fruto da recente (e boa) safra de diretores americanos menos preocupados em gestar apenas sucessos de público, Oren Moverman, cuja credencial mais expressiva enquanto realizador era, até então, O Mensageiro (confesso, ainda não vi, mas li maravilhas a respeito) dá claros sinais de talento nesse longa-metragem que foge do amplamente comercializável por ser violento, seco e complexo à sua medida.

Nele, o tira do título (quem no Brasil chama policiais de “tiras”?) é um sociopata que dimensiona bem a truculência da lei no condado de Rampart. Veterano do Vietnã, David Brow, ou simplesmente “Estuprador” – como seus colegas o chamam, possui uma ficha repleta de inconstâncias e acusações, legítimas defesas não tão autênticas assim. No plano pessoal, tem filhas de casamentos falidos com duas irmãs, uma após a outra, como bem frisa frente à dúvida da herdeira mais nova sobre o imbróglio familiar. Acusado de racismo depois de espancar um cidadão negro, se mostra bastante articulado e meticuloso para alguém supostamente desorientado por lembranças da guerra.

Moverman não parece lá muito disposto a investir em psicologismos e tentativas de justificar as atitudes do protagonista pela via do trauma. David se assemelha mais ao tipo “alistado pela vontade de matar com licença no front” do que próximo ao “regresso sequelado”. Através da abordagem, calcada no roteiro escrito em conjunto com o grande literato James Ellroy, o cineasta reforça esse caráter irascível de David, valendo-se do acúmulo de situações para fazer emergir alguém só não totalmente abominável, pois construído de camadas reveladoras.

É um crime (desculpem o trocadilho) Woody Harrelson, em desempenho irrepreensível, não ter colhido maior reconhecimento na temporada de prêmios por seu trabalho em Um Tira Acima da Lei. O onipresente David parece sempre no fio da navalha, entre o céu não almejado e o inferno ao qual se resigna, e Harrelson é o maior responsável por essa sensação limite que guia a trama. A narrativa volta e meia ameaça descarrilar, ser tragada pelo turbilhão da figura central e perder-se em questionáveis enquadramentos e outras opções fotográficas. Felizmente há tato suficiente para manter o filme na esteira das produções americanas que não trilham o rastro de mediocridade deixado por alguns de seus conterrâneos. Melhor assistir algo como Um Tira Acima da Lei em casa do que ir ao cinema ultimamente.


Publicado originalmente no Papo de Cinema 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Panorama do Cinema Mundial: "Pietà"


Com a crescente tendência de que filmes tenham os títulos alterados por suas distribuidoras quando lançados no mercado nacional, minha sugestão para a Califórnia Filmes é que Pietà, 18º filme de Kim Ki-Duk, seja rebatizado como Piegas. Não soa muito distante do original e seria mais honesto com seus espectadores. 

Cineasta que coleciona prêmios, Ki-Duk tem entre suas obras mais incensadas filmes como Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera, O Arco e A Ilha. Após um pequeno hiato afastado dos grandes festivais, ganhou os holofotes novamente – sabe-se lá porque – com uma obra manipuladora, tendenciosa e repleta de seus maneirismos cinematográficos. Interessado em discorrer sobre as consequências do capitalismo extremo, segundo suas próprias palavras, Pietà fica longe disso e demonstra apenas a destreza do diretor em retratar dramas existenciais com extrema superficialidade.

Pietà se inicia com uma sucessão de pequenas sequências que apresentam o “implacável” Gang-Do, que trabalha cobrando devedores de um agiota e os amputando, quando os mesmos não possuem recursos para pagar suas dívidas. Cada pequena história é introduzida com uma apresentação prévia do devedor para que o espectador crie uma empatia com o mesmo – o que serve para que a tortura posterior infligida pelo protagonista seja mais revoltante. Quando uma misteriosa mulher bate em sua porta, no entanto, toda sua rotina se desestabiliza e a violência deixa de servir como escapismo para sua realidade.

Kim Ki-Duk abandona seus recorrentes questionamentos filosóficos e referências orientais para apostar em sensações rasas e desinteressantes. Pouco inspirado na direção, as maiores surpresas, no entanto, ocorrem a partir de seu roteiro, que enfatiza frases risíveis como “Eu não me importaria de morrer por suas mãos” e “Não culpe ele, ele cresceu sem amor”. As resoluções morais do filme, de que vivemos em um mundo impiedoso, vingativo e que não deixa espaço para redenção, são óbvias e colaboram para que o drama central de Pietà se torne tedioso e repleto de inconsistências. Como se não bastasse, o protagonista perde toda sua força quando tem sua personalidade transformada de forma brusca e nada crível a partir da chegada da supracitada mulher.

A partir do segundo ato, Pietà é desenvolvido ao redor de um mistério de resolução que pode ser antecipada facilmente. Ki-Duk insere alguns indicativos que podem levar seu espectador a prever a solução de sua história – o que, uma vez ocorrido, faz com que o filme perca ainda mais sua força narrativa. Sem a surpresa - talvez um dos trunfos reservados por Kim Ki-Duk para sua obra - o grande vencedor do Festival de Veneza deste ano surpreende apenas pelo sentimentalismo excessivo e banalidade com que o cineasta retrata seus temas.