sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Uma sala para enriquecer a pérola


Em tempos de massificação, salas em shoppings, programação uniforme e outras tantas constantes entre exibidores, é um alento perceber trabalhos assertivos como o realizado pelos curadores da Sala de Cinema Ulysses Geremia, localizada no Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, em Caxias do Sul. A cidade da Serra Gaúcha, apelidada carinhosamente de “pérola das colônias”, tem fama de progressista, mas, mesmo assim, ainda engatinha quando o assunto é cinema, seja na produção ou na valorização do mesmo enquanto arte.

Juntando os dois maiores complexos comerciais da cidade, são 12 salas de exibição cinematográfica com o que há de mais moderno. Boas instalações, sabores variados de pipoca, estacionamento com segurança, 3D e tudo que as atuais tendências do “ir ao cinema” englobam. Então por que esse espaço acanhado, de boas (mas não excelentes) condições técnicas, é o mais importante dos locais propostos a exibir cinema em Caxias do Sul? São diversos os fatores, mas o principal deles é mesmo a qualidade da programação, não subserviente aos desígnios de um mercado voltado à lotação desenfreada.

Com capacidade para 100 pessoas, a Sala de Cinema Ulysses Geremia abriga sessões em DVD às tardes, com o “Matine às 3”, projeto que visa fidelizar determinada parcela do público, não raro instigada a frequentar as sessões de inéditos, que ocorrem das quintas aos domingos, sempre com filmes de circuito (35mm) e média de 200 espectadores por semana. Um filme pouco conhecido, como A Fonte das Mulheres, tem cerca de 150 espectadores por semana, e títulos de maior apelo, como A Árvore da Vida ou A Separação, chegam a ter 250 espectadores semanais.

Dentre os responsáveis pelo vigor da Sala de Cinema Ulysses Geremia, destacam-se seus dois curadores, o filósofo, escritor e também coordenador da Galeria de Arte Gerd Bornheim, Gilmar Marcílio, e o publicitário Conrado Heoli. Quando abraçaram a dura tarefa de resgatar um espaço até então incipiente, escravo de DVDs já lançados, eles sabiam das dificuldades. Impulsionados pela paixão que nutrem, arregaçaram as mangas e hoje estão satisfeitos, mantendo-se sempre atentos à necessidade de reforçar e expandir essa linha que vem dando certo. A Sala teve considerável aumento de espectadores desde que alterada a proposta de seleção dos filmes e reforçada a divulgação. Os freqüentadores, antes minguados, agora abundam em sessões das mais variadas e nos debates que ocorrem logo após algumas delas.

Para cada mês, ou seja, 02 filmes, Conrado e Gilmar assistem por volta de 10 títulos em busca daqueles que melhor se encaixam nessa nova proposta curatorial. Conrado Heoli resume bem a alegria com o atual momento: “A resposta do público não poderia ser melhor, temos cada vez mais espectadores e o retorno que recebemos direta e indiretamente é muito positivo”. Cumprindo imprescindível papel à formação de público, sendo alternativa aos cinéfilos e apreciadores, principalmente os da Serra Gaúcha, a Sala de Cinema Ulysses Geremia é um bom exemplo de que basta boa vontade, perspicácia, e uma pitadinha de amor no momento de pensar sessões para que, mesmo longe dos blockbusters, se consiga algo como o alcançado por esses bravos defensores do bom cinema em Caxias do Sul. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 17 de novembro de 2012

Robocop: O Policial do Futuro


Mais que um clássico da Sessão da Tarde, Robocop: O Policial do Futuro é exemplar da veia criativa e intrépida de seu diretor, o holandês Paul Verhoeven. Quem mais assumiria um filme ultraviolento, repleto de observações críticas a políticas vigentes e ao jeito americano de viver, sendo financiado por um grande estúdio, e sairia impune, ou melhor, consagrado? Só alguém como ele, cujo trabalho mais famoso é este sobre um policial recém chegado à Detroit, reconstruído cyborg após ser massacrado pelo crime organizado local. A cena, inclusive, é brutal, bem ao gosto de Verhoeven, sempre disposto a exagerar (ou seria trazer mais para o real?) os efeitos da violência. Nada de economia no sangue, sendo decapitações e outras atrocidades visuais também parte do cardápio.

Assim que renasce – em ótima cena subjetiva, onde o olhar digital substitui a visão orgânica, o policial Alex Murphy vai às ruas, trazendo status e dinheiro a seus criadores. Mesmo resolvendo delitos, enlevando a moral dos locais, está longe de virar solução definitiva. Combatentes da delinqüência continuam sofrendo em seus expedientes, sendo expurgados moralmente das jurisdições. A maioria crê numa greve como forma de chamar atenção para as precárias condições de trabalho nas ruas infestadas de marginais. O discurso de Robocop: O Policial do Futuro é, assim, político na essência e possui clara postura anti-neoliberalismo, já que a polícia falida de Detroit é administrada por uma corporação particular de interesses além do bem estar da população. Na verdade, ela se alimenta do crime para alavancar uma obra de total remodelação urbana, é claro, vantajosa financeiramente.

Mas há também em Robocop: O Policial do Futuro, além desse fundo politizado, a marcante dualidade de Murphy. Quando descobre quem é, em meio a fraturadas reminiscências de sua condição, surge a necessidade de vingança (instinto puramente humano) contra Clarence Boddicker, o líder da gangue que quase o levou à morte. Esqueçamos dos efeitos puramente catárticos das desforras estilizadas com frequência por Holywood, nas quais, findas as missões, restam os falsos sentimentos de dever cumprido. É óbvio que Robocop busca uma “descarga” proporcionada pelo sofrimento de quem o fez padecer, mas sua condição aponta, sobretudo, à necessidade de libertar-se enquanto indivíduo, logo que se descobre um. Matar para efetuar essa reparação devolve a Robocop algo de humano, no fim das contas.

Paul Verhoeven é um grande diretor, disso não há dúvida. Sua maneira de arquitetar a natureza política do filme, não o sufocando com panfletos e imperativos, tornando-o acessível e profundo, é própria daqueles que procuram ampliar mensagens e não segmentá-las. Notem como ele utiliza sabiamente o recurso do telejornal para apresentar o mundo que circunda os personagens da trama. Prestem atenção, também, na re-humanização gradativa de Murphy, em seu trajeto doloroso atrás do homem que nunca mais voltará a ser. Atentem, ainda, para as múltiplas camadas, sobretudo aquelas que interligam ação e drama. Robocop: O Policial do Futuro é mais um filme notável de Paul Verhoeven, artista de genialidade muitas vezes confundida (talvez por miopia) com banalidade.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

E a Vida Continua...


Desde o sucesso inesperado de Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito (2008) tem-se destacado um gênero no Brasil: o filme espírita. A afirmação veio com o estrondoso sucesso de Nosso Lar e os bons desempenhos comerciais de seus co-irmãos.  Não há dúvida, o cinema espírita vem garantindo sua fatia muito mais pela identificação do público com as tramas do que necessariamente por eventuais qualidades narrativas. Antes que as primeiras pedras venham, cabe um alerta: isto é uma crítica cinematográfica, propõe-se a análise da obra dos homens, não da suposta obra de Deus, ok?

Dito isso, E a Vida Continua... pega carona na onda, sem qualquer mérito enquanto cinema. Baseado num livro psicografado pelo médium Chico Xavier, que seria, por sua vez, ditado pelo espírito André Luiz, centra-se num relacionamento forçado entre dois pacientes terminais, a jovem Evelina e o já balzaquiano Ernesto, irmanados no infortúnio de uma doença, logo parceiros nas primeiras vivências além da vida. Juntos, aprenderão os estágios pós-morte, os conceitos da reencarnação e outros meandros do espiritismo.

O maior pecado de E a Vida Continua... é, exatamente, o caráter didático que o preenche. Ao passo em que os desencarnados são instruídos no novo plano, submetemo-nos, enquanto espectadores, a pílulas “elucidativas” da crença.  A música melosa e sentimentalista emoldura situações à beira do risível, soando assim, imagino, até mesmo aos seguidores dos preceitos legados por Allan Kardec. Eveline vê-se no centro de um melodrama dos mais chinfrins, com assassinatos, adultérios, submissões, ou seja, vícios e virtudes, encenados de maneira doutrinária.

As interpretações de E a Vida Continua... merecem capítulo à parte, pois todas em tons erráticos. Exemplo disso é o trabalho equivocado de Luiz Carlos Feliz como o marido da protagonista, cujo desempenho monocórdico em nada auxilia seu personagem de construção pífia. Cai na caricatura, sinal não só de ineficiência do intérprete, mas, e a julgar pela ruindade geral (vista também em atores como Lima Duarte, Ana Rosa, e outros), da evidente falta de tato na direção de atores.

E a Vida Continua..., do ator e diretor Paulo Figueiredo, não poderia ser mais desastroso, pois, sobretudo, preocupado em capitalizar sobre a fé e seus seguidores. Toscamente decupado, montado de maneira frouxa, de dramaturgia frágil, e nulo mesmo enquanto palestra religiosa, ele desmerece até a alcunha de “amador”, dadas suas inúmeras precariedades. O limbo da cinematografia nacional está de bom tamanho a algo assim.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 10 de novembro de 2012

Toda Nudez Será Castigada


Uma das muitas adaptações de Nelson Rodrigues para o cinema, Toda Nudez Será Castigada fala sobre um homem enclausurado em seu luto até conhecer Geni, prostituta que o leva a rever a viuvez e a promessa feita ao filho de nunca mais possuir mulher alguma. Bem ao estilo rodriguiano, o texto entrelaça uma série de personagens, utilizando como argamassa o desejo, a traição, o ciúme, o corno e outros elementos que povoam os escritos do chamado “Anjo Pornográfico”. No cinema, essa construção é filtrada pelo olhar de outro artista, o não menos carioca Arnaldo Jabor, conhecido apenas como comentarista televisivo por muitos, cuja carreira no cinema merece reconhecimento, sobretudo se levarmos em conta seu trânsito pelas particularidades da classe média. 

Então, temos aí um filme em que convergem olhares, visões de mundo completamente distintas, como não demoraremos a perceber ao longo da sessão. Rodrigues é cáustico enquanto Jabor prefere ser irônico. A família do viúvo interpretado por Paulo Porto é um prato cheio às observações do cineasta sobre elementos e composições daquele estrato social, no meio termo entre a pobreza e a burguesia. A encenação prima pelo deboche ao invés da seara duramente mordaz proposta pelo universo rodrigueano. Alguns matizes se perdem na transposição, sendo o filme prejudicado pelo humor em que se apoia na buscada leveza negada deliberadamente pelo escritor carioca. 

Como Gina, a desbragada Darlene Glória capta para si as maiores atenções. Aliás, ao redor de sua personagem paira todo dilema moral do filme, é por ela que o cliente se apaixona, indiretamente através dela se dá a prisão e posterior incidente boliviano com o herdeiro de seu amado e, finalmente, é por meio de seu corpo que a complexa relação pai/filho chegará às vias da sordidez. Jabor guarda a essa intérprete os melhores momentos e seu mérito reside essencialmente em não castrá-la, deixando o furacão – de sensualidade e intensidade dramática, chegar com força em quem vê. Sua figura, bem como o filme num todo, suscitou polêmicas quando de seu lançamento. Pena Toda Nudez Será Castigada, decorridos quase 40 anos, bater um tanto datado na tela, já sem a mesma força. 

Toda Nudez Será Castigada surge como documento da época em que o cinema brasileiro debatia-se contra uma série de problemas inviabilizadores da produção cinematográfica contínua. O misto de sexualidade aflorada e culpabilidade rende uma série de embates interessantes, porém mais instigantes caso fossem construídos (sobretudo do meio em diante) compassadamente ou com um pouco mais de foco. A tão conhecida veia crítica de Jabor se esvai em meio ao humor duvidoso e diluidor de sua vitalidade irônica. Toda Nudez Será Castigada deve seus méritos muito mais a Nelson Rodrigues que a Arnaldo Jabor, mesmo o último não se curvando ao primeiro, é bom que se diga. Ao cineasta nossas homenagens pela coragem, já ao dramaturgo as láureas pelo encadeamento de personagens e circunstâncias, infelizmente sem ecos tão nuançados enquanto cinema.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O cinema mágico de Méliès em São Paulo

Exposição sobre 'pai da ficção científica' passou pelo Brasil e atraiu cinéfilos.
Matéria escrita por Gabriel Gilio, em colaboração ao The Tramps.



That's one small step for a man, but one giant leap for mankind. A famosa frase do astronauta americano Neil Armstrong ecoa no universo até hoje expressando o sentimento dos habitantes do planeta Terra ao ver um dos seus pisando na lua pela primeira vez, em 1969. Não foi pela primeira vez, porém, que essa imagem foi transmitida. Mesmo que por meio de uma produção cinematográfica, o homem já havia presenciado essa cena 67 anos antes (e, segundo os amantes das teorias da conspiração, também usando técnicas de cinema foi que se pôde presenciá-la outra vez, mas essa já é outra história).

Em 1902, o mágico do cinema Georges Méliès criava a produção que o faria conhecido: o curta-metragem Viagem à Lua (Le Voyage Dans La Lune), que inseriu um mundo de fantasias no imaginário da época. A obra, que fazia uso de técnicas de ilusionismo ligados à efeitos de edição, deu ao artista o título de "pai do cinema de ficção científica e dos efeitos especiais"."Mais do que inventar histórias de uma maneira como elas nunca haviam sido contadas até então, Méliès direcionou o olhar do público para uma arte que estava nascendo e ainda enfrentava muito ceticismo", explica o publicitário e cinéfilo Conrado Heoli. "Seus filmes até hoje impressionam pela estética apurada e artifícios deslubrantes para uma época de recursos tão limitados".

Com a invenção do "Cinematógrafo" pelos Irmãos Lumiére, em 1895, o homem passou a poder registrar a imagem em movimento. No ano seguinte, os irmãos inventores presentearam o futuro mágico do cinema com um exemplar de sua criação. Mal sabiam eles que estavam colocando nas mãos do artista a ferramenta que ele precisava para direcionar a sétima arte para os caminhos que ela trilha hoje. Até Le Voyage, todas as produções concebidas eram quase que exclusivamente documentárias, mas Méliès fez diferente, pois abriu as portas do sonho, da ficção, para que o cinema fosse definitivamente criado. A ficção científica foi só o princípio da descoberta de um mundo de histórias que passariam a ser contadas em todo o planeta, inclusive no Brasil.


O país do futebol, no entanto, não tem a mesma tradição com a câmera na mão do que tem com a bola no pé. Apesar de ter em sua história alguns curtas do início do século XX (como Duelo de Cozinheiras, de 1908, e O Fósforo Eleitoral, de 1909), o país não desenvolveu a arte audiovisual. Segundo Conrado, nosso cinema nunca teve boas incursões na ficção científica como o fez com a comédia e o terror, por exemplo. "Nossos espectadores, por outro lado, sempre tiveram bons olhos para o cinema fantástico - porém, os direcionam para as obras estrangeiras. Penso que, talvez, seja uma tendência pela falta de grandes recursos para a produção nacional, ou por uma falta de ousadia de realizadores nacionais."

Há, porém, um otimismo em relação à produção de filmes de ficção científica no Brasil, atualmente. Em uma busca rápida pela internet, pode-se facilmente encontrar produções "caseiras" que não perdem em muita coisa para os grandes estúdios. Existem, também, as páginas criadas por esses próprios cineastas que produzem, dirigem, editam, escrevem e filosofam o tema. O blog Sci Fi do Brasil, por exemplo, explica que "a produção de filmes de ficção científica deve ganhar força e reconhecimento no Brasil, com os novos produtores independentes em seus 'home studios', sendo possível graças ao avanço tecnológico dos computadores, câmeras e softwares, e a sua disponibilidade a um preço atualmente acessível à uma grande parte da população brasileira".

Incentivando a discussão acerca do tema, o Museu da Imagem e do Som (MIS) apresentou uma exposição inédita no Brasil sobre o pai da ficção científica. Concebida pela Cinémathèque Française, "Georges Méliès, o mágico do cinema" reuniu objetos, desenhos, cartazes, figurinos, documentos originais e fotografias do artista. Aberta de 4 de julho à 16 de setembro, a exposição apresentou o artista a quem não o conhecia e, aos fãs, proporcionou experiências "incríveis", como define o visitante Otávio, que foi prestigiar a obra do cineasta francês e não escondeu a emoção: "Nunca fui muito ligado à filmes de ficção científica, mas sou fã do Méliès. Ele era supercriativo".



Crédito das fotos: Gabriel Gilio, divulgação.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Luz nas Trevas, A Volta do Bandido da Luz Vermelha


De que maneira se continua um filme do porte de O Bandido da Luz Vermelha? Como ecoar no presente questões político-sociais altamente identificadas com os anos 1960, sem parecer um resmungão parado no tempo? Helena Ignez e Ícaro Martins, baseados no roteiro do já falecido Rogério Sganzerla, conseguem, a meu ver, superar esses e outros desafios em Luz nas Trevas, A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Eles capturam a essência do antecessor, reverenciando-o em cena aberta com originalidade.

O bandido está na cadeia, mitigando sua estadia com boas refeições, visitas íntimas e o alcance de uma consciência superior. Continua aquele iconoclasta inconfundível, bradando contra o sistema penitenciário com a mesma verborragia empregada no desagravo aos políticos. Surge Tudo-ou-Nada, seu herdeiro. Paramentado tal o pai, ele parte numa jornada existencial e delinquente, na qual enreda a namorada. Tudo-ou-Nada é o personagem de Paulo Villaça retrabalhando para nossa época, paradoxalmente com os mesmos signos que fizeram de O Bandido da Luz Vermelha um dos mais importantes do cinema brasileiro. Enquanto isso, o Luz original (vivido agora por Ney Matogrosso) amadurece seu plano de fuga, profetizando novos tempos.

Luz nas Trevas, A Volta do Bandido da Luz Vermelha é homenagem desbragada, consegue retomar questionamentos sem anacronismo e atualiza o mito ao promover transição entre o velho e o novo. Entretanto, segue esquadrinhando o círculo vicioso impingido ao terceiro-mundista, este dominado por diversos poderes. O fogo expurgatório e a música que lava a alma sinalizam anárquica luminosidade no fim do túnel, em contraponto ao suicídio da retórica no filme de Rogério Sganzerla. Otimismo próprio de nossa época, em tese, mais branda. Bela realização, sem dúvida. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Jorge Mautner – O Filho do Holocausto


O músico, compositor e escritor brasileiro Jorge Mautner (nome artístico de Henrique George Mautner) é um homem de alma livre que, paradoxalmente, como ele mesmo diz, faz psicanálise por pressão pública. Não iremos longe no estudo da música popular brasileira se omitirmos sua obra, repleta de letras bem humoradas e melodias contagiantes. A veia de escritor é menos alardeada, mas basta lembrar o prêmio Jabuti de literatura recebido por Deus da Chuva e da Morte para se ter a real dimensão do artista completo que Mautner de fato é. O filho do holocausto assim nominou-se num livro de memórias, basilar do roteiro fílmico, por ser fruto de pai judaico e mãe vienense, herdeiro do êxodo empreendido por muitos quando do nazismo. Enfim, é mais que bem-vindo algo como Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, exatamente por lançar luz sobre este brasileiro essencial.

Dirigido por Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, o filme é todo captado em estúdio, seja na atmosfera em que Mautner lê trechos da própria biografia, depois local de encontros reveladores, ou mesmo no palco onde celebra seus principais sucessos, não abdicando das performances que o caracterizam. O início é bastante esquemático, Mautner se lê e logo após vem uma de suas canções. Apenas o fato de ouvir boa música no cinema já é alentador, mas o filme quase cai no marasmo nessa primeira e engessada parte. Felizmente logo se infiltram no tecido narrativo alguns momentos cuja diversidade ajuda a sublinhar com mais riqueza esse tipo, feito de muitos.

Figuras carimbadas de nossa arte desfilam na tela, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nelson Jacobina (falecido recentemente). Eles contam as peripécias de Mautner e reeditam parcerias. Das filmagens de O Demiurgo, dirigido por Mautner na casa do amigo Arthur de Mello Guimarães, em Londres, com participação de Gil, Caetano, José Roberto Aguilar, Péricles Cavalcanti, Leilah Assunção, entre outros, às passagens nebulosas, tudo passa pelo palco em música. Pode-se objetar o bom gosto estético dos cenários montados, e principalmente seu caráter restritivo. Aos diretores parece importante criar um universo paralelo e inadvertidamente falso para acolher um tipo tão sui generis como Mautner.

Sem dúvida o ponto alto de Jorge Mautner – O Filho do Holocausto é o encontro afetivo entre o artista e sua filha, Amora Mautner. A mulher reclama de seu nome (feminino de amor), causador de muitos infortúnios, sobretudo na época da escola, e lembra passagens constrangedoras como a nudez constante dos pais e a vestimenta inusitada com a qual a buscavam na escola, porém sem esconder o orgulho de ser filha de quem é. Jorge Mautner apenas ri, concorda e, eventualmente, complementa, sempre com o olhar terno rebatido na mesma medida por Amora. Então, mesmo estanque e formalmente desfavorável à personalidade libertária de seu biografado, Jorge Mautner – O Filho do Holocausto oferece um recorte ilustrador desse artista crente na profundidade eterna da alegria. Alguém que diz "ou o mundo se brasilifica ou vira nazista”, é ou não um tipo para lá de interessante?


Publicado originalmente no Papo de Cinema