quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Origem dos Guardiões


Quem nunca colocou dentes sob o travesseiro, caçou ovos pelo gramado ou mesmo vibrou quando presenteado perto da árvore natalina? Temos a infância marcada por vários rituais e seus respectivos símbolos justamente para que cresçamos com encantamento, embalados por algo de teor mais lúdico que amorteça desde cedo os solavancos. Com o passar do tempo nos tornamos mais cínicos e céticos, legando tipos como Papai Noel, Coelho da Páscoa e a Fada do Dente aos confins da inocência de outrora. Mas e se eles existissem, zelando pelas crianças do mundo? Em A Origem dos Guardiões, novo trabalho da DreamWorks, é bem esse o contexto. Claro, há também Breu, vulgo Bicho-Papão, o vilão da jornada.

O malvado não quer mais esconder-se embaixo das camas, nem ficar de braços cruzados enquanto pais o difamam, negando o medo que dele provém. A fim de mudar o panorama, Breu literalmente “toca o terror” tumultuando sonos com pesadelos nefastos e generalizando o pavor. Para combater-lhe, unem-se os guardiões. Esqueça as versões fofinhas e estilizadas, em A Origem dos Guardiões Papai Noel é um senhor imponente e tatuado, o Coelho da Páscoa é alto, forte e destemido, a Fada do Dente é uma corajosa líder e Sandman propaga sonhos exercendo seu lado protetor. Na iminente batalha o fiel da balança será Jack Frost, entidade tratada como lenda até pelos próprios infantes, ou seja, de anseio bastante próximo ao do antagonista, uma vez que ambos buscam crédito.

Aliás, se há mensagem clara em A Origem dos Guardiões é a de que forças construídas para tornar a vivência um tanto mais “especial” só existem se nelas cremos. A observação sublinha a importância do humano, essencial no desenrolar da trama. Mesmo apoiado em algumas convenções narrativas próprias às obras comerciais para consumo de pequenos e jovens adultos, tais como a superação, o sacrifício em prol do coletivo e o poder habitante em cada um de nós, esta animação cativa não só pela inusitada releitura de tão familiares personagens, mas também por conta do paralelo estabelecido entre Frost e Breu, luz e sombra conectadas por desejos similares, contudo repelidas na essência, pois de cernes completamente distintos.

Visualmente, o filme é um deslumbre. Os muitos embates se dão em sequências de feitio esmerado, nas quais há harmonia entre tecnologia e criatividade, respectivamente prerrogativa e atributo da equipe chefiada pelo diretor Peter Ramsey. O 3D é utilizado com inteligência, soando orgânico e funcional, um verdadeiro milagre em meio a tantas experiências capengas que capitalizam sem ofertar qualquer sensação relevante em troca. A Origem dos Guardiões sai-se bem porque sabe dosar humor, ação e emoção, levantando questões pertinentes a moleques, crescidos, e até aos seres fantásticos. Boa surpresa que 2012 ainda nos reservava. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Shortbus


Sexo ainda é um tabu. Crescemos enquanto civilização, progredindo na ciência e noutros campos do conhecimento, mas esse tão coloquial e prazeroso elemento da vida humana continua encontrando uma série de barreiras morais para circular fora da clandestinidade. John Cameron Mitchell, egresso da cena independente americana, abraçou com vitalidade a ideia de criar uma comédia romântica extremamente sexualizada, sem com isso deixar de focar emoções que, na maioria das vezes, alimentam as pulsões carnais. Shortbus, sobre o escândalo produzido em alguns, procura abraçar náufragos sentimentais para depois acalentá-los.

Se para muitos soam incômodas as cenas de homens se masturbando até sorver o próprio gozo, mulheres se tocando como se nelas não recaísse o peso de uma sociedade machista, interações homossexuais e taras diversas, é por que a repressão sexual imposta desde cedo atua na contenção da libido como se disso restasse segurança. Em Shortbus temos a terapeuta de casais que nunca experimentou o orgasmo e sente vergonha de dizê-lo ao marido. Observamos os Jamies, aparente modelo conjugal, ambos perturbados: um pelo amor incondicional e o outro pela depressão profunda. Surgem, ainda, a dominatriz e o voyeur, arquétipos enriquecidos da mesma forma por suas angústias existenciais. É bom ressaltar, todos embalados pela linda trilha sonora de Michael Hill e do grupo Yo La Tengo.

Em meio a penetrações explícitas e orgasmos, Mitchell vai construindo uma delicada tapeçaria das fraturas pós-11 de setembro. Pessoas emocionalmente quebradiças tentam extravasar por meio de seus corpos o que a mente não deixa aquietar.  Elas encontram num clube democrático (homônimo do filme) o local ideal para fruir suas vidas sexuais com um pouco menos de culpa, deixando aflorar anseios de prazer. A meu ver, a chave para entender aonde quer chegar Mitchel com Shortbus, sobretudo na utilização de Nova York como pano de fundo ativo, é dada no breve e emocionante diálogo entre um jovem modelo e o já senhor ex-prefeito. O homem mais velho abre seus pecados ao desconhecido, diz que aquela terra recém devastada pelos ataques é um lugar de gente tolerante, perfeita para os golpes desferidos pelos intolerantes. Acaba como sutil e bela declaração de amor.

A cosmopolita “Big Apple” refugia aqueles que conheceram a concretude da vida pela alameda trágica da barbárie. Nesse cenário, no qual medo e cotidiano se confundem, os “desajustados” de Shortbus sentem o baque dos problemas (sejam eles de ordem pessoal ou global), mas, por outro lado, buscam constantemente sobrevivência e felicidade. Se para salvar o relacionamento for preciso incluir a terceira pessoa, um dos Jamies irá escantear seu ciúme. Se para obter o tão sonhado orgasmo for necessário acessar os recônditos do desejo, como faz a terapeuta pré-orgásmica, tudo bem. Aos chocados com genitálias e atos que nem deveriam ser mais tachados de “libertinos”, dada sua cotidianidade, recomenda-se tentar imergir sem tantas amarras na narrativa proposta. A recompensa será a veia intimista e verdadeira de Shortbus, longa sobre pessoas e suas interligações, não algo agressivo ou muito longe do que eu ou você (feliz ou infelizmente) vivemos.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ser Invisível



Charlie é um calouro do ensino médio que a princípio não vê vantagem alguma em ser invisível à maioria. Discriminado como novato, ele nem pode sentar à mesa com a irmã veterana no intervalo das aulas. Afora esse sistema escolar idiota, teimoso em tornar ainda mais sofrida a já tão complexa entrada na adolescência, o garoto precisa lidar com traumas passados. Apenas ao conhecer os meios-irmãos Patrick e Sam, Charlie passará a compreender, dentro de seu próprio itinerário de amadurecimento, que não há por que lamentar a exclusão de grupos cuja filosofia é justamente excluir.

Muito já se falou da puberdade, afinal é rito de passagem global da infância à maioridade, onde ora somos crianças amedrontadas e ora exigidos como adultos. Nesse tocante, As Vantagens de Ser Invisível se destaca no cenário das produções recentes sobre o tema, pois mesmo repleto de poética, tanto visual quanto sonora, em nenhum momento desenraizar-se da realidade, de situações e pessoas críveis para além de alusões ou metáforas. Sem dúvida, méritos do trabalho diretivo de Stephen Chbosky (ainda autor do livro original e roteirista).

As Vantagens de Ser Invisível aborda crescimento, descoberta, anseios, perda, afirmação, dúvida, deslocamento, amizades, entre tantos assuntos intrínsecos à adolescência e, por isso mesmo, caros a nós que “sobrevivemos” ao período. Óbvio, mesmo os deslocados acabam formando alianças, suprindo assim a necessidade de pertencimento, mas Charlie entende, ao abraçar o amor, a compreensão alheia e a valorização de sua individualidade, que as vantagens de ser invisível aos olhos da multidão são fugir do senso comum e, mesmo a duras penas, evoluir. Quem de nós nunca almejou sentir-se heroico, maior ou quiçá infinito?

Obs.: Láureas especiais à trilha sonora (excelente), e a Ezra Miller, destacado intérprete num todo bastante coeso de ótimas atuações.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Hedwig: Rock, Amor e Traição


Hansel nasceu na Alemanha no mesmo dia em que o Muro de Berlim dividiu o país em dois. Vivendo no lado ocidental, sua infância foi permeada por abusos dos homens que transitavam em sua casa e pelo convívio com uma mãe omissa, que comparava Jesus Cristo à Hitler. Suas únicas influências externas surgiram do rádio, quando cantores como Iggy Pop, David Bowie e Lou Reed criaram um imaginário de glamour e rock em sua limitada existência. A situação se altera com a chegada de um oficial do exército norte-americano, que o promete uma vida melhor em um longínquo lugar chamado Junction City, no Kansas. A única condição que o separa do sonho americano é uma cirurgia para mudança de sexo – que, depois de feita, infelizmente não sai como deveria.

Assim nasce Hedwig, cantora que sintetiza o que foi o movimento glam rock com seu figurino e maquiagem extravagantes e músicas incrivelmente viscerais. John Cameron Mitchell, que escreveu e protagonizou o musical off-broadway Hedwig and the Angry Inch em 1998, fez sua estreia na direção de longas com a adaptação do material para a tela grande. No papel-título novamente, Mitchell foi indicado ao Globo de Ouro, venceu o Teddy do Festival de Berlim, duas láureas no Festival de Sundance e mais de 20 outros prêmios. Além de seguir em cartaz com montagens ao redor do mundo, da Grécia à Coréia do Sul, Hedwid and the Angry Inch atingiu o status de filme cult, envolto numa mítica que o coloca no panteão de musicais transgressores, como Rocky Horror Picture Show (1975) e Priscilla, a Rainha do Deserto (1994).

Stephen Trask é o nome por trás da extasiante trilha sonora de Hedwig: Rock Amor e Traição, que pontua o clima ousado do filme na voz marcante de John Cameron Mitchell. Canções como Tear Me Down, Angry Inch e Wig in a Box podem ser ouvidas à exaustão depois da experiência ímpar propiciada pelo filme, enquanto Origin of Love e Wicked Little Town marcam momentos mais introspectivos do musical, que explicitam a faceta romântica de Hedwig e o letrista brilhante em Trask. A inserção dos números sonoros na narrativa – problema em incontáveis filmes do gênero – é feliz ao imprimir um ritmo fluído para o filme, fugindo de uma linguagem episódica. As sequências animadas de Emily Hubley, muito originais, contribuem para equilibrar o lirismo visual ao virtuoso som da obra de Mitchell. 


As questões de gênero, sexualidade e identidade são centrais em Hedwig: Rock Amor e Traição. Hedwig, após sua mutação sexual, se transforma num híbrido que funciona como caricatura de si mesmo sem deixar de ser crível. O guitarrista e backing vocal da banda Angry Inch, em outro exemplo, é uma mulher oculta numa figura masculina que dificilmente poderia ser questionada como tal. Independente da aparência externa de cada um, ambos são frágeis criaturas procurando um lugar para ocupar – dentro de si mesmas ou de um mundo que lhes é cruel. O filme explora os complexos temas com naturalismo elogiável, feito que Mitchell viria a reiterar no polêmico Shortbus (2006) – desta vez com menos música e mais sexo explícito.

O fechamento da jornada existencial de Hedwig, ainda que não muito otimista, é extremamente fiel a tudo o que o personagem representa. The Origin of Love, música inspirada no discurso de Aristófanes em O Banquete (ou Simpósio), de Platão, diz que os seres humanos estão incompletos e condenados a buscarem por suas outras metades. Após deixar de ser Hansel e encontrar sua metade perdida em Tommy, Hedwig é traída e passa a perseguir o cantor, que roubou suas composições. O encontro final entre os dois reserva a descoberta de que Hedwig, na realidade, é em si só um ser completo, parte homem e parte mulher. A beleza da sequência, enaltecida ao som de Midnight Radio, marca um encerramento emocionante que justifica o culto ao redor de Hedwig: Rock Amor e Traição, uma obra singular e incomparável. Lift up your hands!



Publicado originalmente no Papo de Cinema.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Intocáveis e a alegria de viver


Se há cena que possa de alguma maneira resumir Intocáveis é a do senegalês Driss dançando Boogie Wonderland, do Earth, Wind & Fire, defronte a seu patrão, o tetraplégico Phillipe. Nos olhos marejados do homem branco, típico francês amante das artes, a emoção de quem constata no outro a fortuna de viver para além de todas as adversidades.

Driss é negro, pobre, mas mitiga as desventuras de seu cotidiano difícil com largos sorrisos e uma sede de viver que soa até ingênua ao cínico mundo de hoje, onde se julga depressão normal e felicidade over. Driss ainda mostra ao ricaço como devemos relativizar a arte. Claro, sua ignorância desbragada provoca risos (periga uns, mais radicais, até se irritarem com esse “desprezo” pelo erudito), mas tudo ali serve para comentar criticamente a sociedade francesa estereotipada como pedante. Os cineastas parecem dizer que à França falta viver mais e tentar menos parecer culturalmente superior.

A dupla de protagonistas pode ser vista, também, como símbolo da relação entre a França e suas antigas colônias. A imagem do “legítimo” francófono sendo empurrado pelo senegalês, metaforicamente mostra a terra da Torre Eiffel, sempre tão arredia aos estrangeiros, cada vez mais dependente dos filhos que outrora subjugou e ainda hoje renega.

Amado por muitos, indiferente para outros (algo a ver com o sucesso de público, segundo alguns, sinônimo de falta de qualidade?), Intocáveis é um filme que tem lá suas fragilidades, mas é apaixonante como poucos recentes, justo por não envergonhar-se de edificar relação baseada em amizade, humanismo e respeito, atributos hoje infelizmente meio fora de moda, eu sei. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Polaróides Urbanas


Certa feita, o crítico Paulo Emílio Salles Gomes proferiu: “O pior filme brasileiro diz mais de nós mesmos do que o melhor filme estrangeiro”. É claro, prestou-se à provocação, a chacoalhar intelectuais e pensadores, chamando-lhes a atenção para algo evidente: a função “espelho” de toda cinematografia. Mas, é óbvio, não há por que sermos condescendentes com o cinema brasileiro, em rompantes de nacionalismo exacerbado. Finda a introdução, vamos então sem complacência a Polaróides Urbanas, primeiro longa de Miguel Falabella como realizador. Um sub-Almodóvar, é de onde poderíamos partir na análise desse filme-coral de diversas historietas - ora comédia rasgada, ora drama pasteurizado.

Falabella leva ao cinema seu questionável gosto estético, este paradoxalmente amparado e sufocado pelo inegável talento que seu autor possui enquanto homem das palavras. Talvez Como Encher um Biquini Selvagem, sucesso dos palcos em que Polaróides Urbanas foi baseado, saia-se melhor na observação das muitas tramas que se imbricam na narrativa, não sei. Cinematograficamente, a resultante da mão frouxa de um diretor inexperiente, mas dotado de ampla bagagem noutros meios (provável causador do relaxamento com os signos estritamente cinemáticos) é um filme de sobreposições fajutas, onde os encontros são tão ou mais artificiais que a convivência desastrada entre a face cômica e trágica do filme.

De elenco robusto, Polaróides Urbanas carece, ainda, de coerência interna, pois abandona personagens com a mesma velocidade e inépcia com que erige outros às luzes da ribalta. A dona-de-casa frustrada, ciumenta da irmã escandalosa e viajante, o stripper suicida, a terapeuta com problemas familiares, a atriz consagrada em meio à crise de pânico, entre outros, partem de premissas interessantes, mas acabam meros títeres de uma entidade maior (o diretor) que vê graça em tornar todos meio bobos e banais, de maneira acrítica, é bom dizer. Ficamos alheios às dores e amores dos tipos que vem e vão deixando poucas pegadas.

Imagino Falabella se divertindo muito ao fazer Polaróides Urbanas, e esse sentimento, possivelmente ocasionado pela companhia de amigos e fieis colaboradores no set, é a única nota dissonante (portanto positiva e transparente) numa obra errática, anódina e completamente esquecível. Nem mesmo as presenças de Marília Pêra, Arlete Salles, Natália do Vale, Berta Loran, Lúcio Mauro, Marcos Caruso ou Otávio Augusto, só para citar alguns, salvam a estreia de Miguel Falabella como cineasta. Há certos filmes que crescem após a sessão, motivo pelo qual é recomendado não nos atirarmos às primeiras impressões, mas Polaróides Urbanas precisa melhorar um bocado para ser taxado de ruim.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

domingo, 20 de janeiro de 2013

Twixt


O novo filme de Francis Ford Coppola é estranho, para dizer o mínimo. Twixt começa pela apresentação de uma cidade interiorana, onde, assim como na localidade idealizada por David Lynch no seriado Twin Peaks, repousam mistérios e bizarrices. Falemos abertamente: Swan Valley é Twin Peaks genérica. E cabe ao narrador resumir com impostação vocal alusiva a seus colegas dos terrores B, as idiossincrasias desse lugar de aparências. Pronto, de início já sabemos o necessário sobre a urbe que abrigará, em breve, a sessão de autógrafos do outrora prestigiado escritor, então um reles autor de contos sobrenaturais (especialmente bruxaria), Hall Baltimore.

Baltimore logo conhece o xerife Bob LaGrange, oficial que lhe propõe escrever livro a quatro mãos sobre um caso de assassinato múltiplo ocorrido no passado. Chacina de crianças órfãs. Tragado pelo mistério, o escritor passa a vagar entre a realidade colorida e os sonhos desbotados. Nestes, é guiado por uma linda menina, Virgínia, e até mesmo por Edgar Allan Poe, o mestre dos contos de ficção policial com pitadas macabras. Como é do feitio de Coppola – e isso se observa bem na atual fase de financiamento dos próprios projetos, em Twixt temos diversos elementos narrativos que o descolam do estritamente concreto. É claro, a inclusão do onírico permite ao diretor polarizar ainda mais essa dicotomia real/irreal.

Twixt é um filme de mistério, com algo de gótico e que, aos poucos, vai descambando para o terror. As intervenções de Allan Poe visam iluminar a trama, e elas cumprem esse papel até de maneira incômoda, pois se entende como facilidade o personagem onisciente que entrega de bandeja, tanto ao protagonista quando ao espectador, as motivações da trama. A própria caracterização da cidade, pretensa a uma aura de instabilidade e segredo, fica tão e somente evidenciada nos tipos estranhos. Voltando ao paralelo, se Lynch conseguia fazer de Twin Peaks tão notável como seus moradores, Coppola acaba dependente da já citada narração inicial, insuficiente para o clima que busca (precisa) alcançar.

Em Twixt há, ainda, dados que chocam religiosidade, fanáticos e vampiros, sejam estes metafóricos ou, como queiram, literais. O filme guarda também uma pontinha de interesse na identificação entre as histórias de Baltimore e Virgínia. Mesmo com algumas inspirações na biografia de Coppola, a principal delas dizendo respeito a perda filial num acidente de barco, Twixt nunca alcança qualquer pessoalidade autêntica, a não ser aquela contida nas chamadas “curiosidades de produção”. Acaba refém da pequenez (no sentido pejorativo mesmo) e do acanhamento, soando preguiçoso. Poderíamos rotulá-lo “filme menor”, por falta de definição menos clichê e certa condescendência com seu brilhante autor. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema