quarta-feira, 15 de maio de 2013

A arte da síntese

Bom, pessoal, este é um post relâmpago, mas quero compartilhar algo que venho pensando há algum tempo: as tirinhas, afluentes da arte quadrinista, são belas aulas de síntese, coesão, coerência e retórica ágil. Pois bem, aonde quero chegar? Aparentemente tímidas, elas nos ensinam muito sobre criar micro-histórias eficientes, lições bastante úteis para qualquer arte, seja pictórica, musical, literária ou cinematográfica. Afinal, arte é o dom de cortar (palavras, formas e sons). O que fica é o que conta, o que eu quero e o que você tem pra contar.


domingo, 12 de maio de 2013

Killer Joe – Matador de Aluguel


O conceito “família disfuncional” adquire contornos de crueldade em Killer Joe – Matador de Aluguel, o mais recente filme de William Friedkin, diretor de, entre outros, O Exorcista. Nele topamos com Chris, rapaz que resolve lançar mão de um expediente quase inumano na busca do dinheiro necessário para quitar sua dívida com traficantes: matar a mãe e apossar-se da apólice cuja beneficiária é Dottie, a irmã mais nova. Para isso, precisa das cumplicidades da bela jovem, do pai e da madrasta. Todos aceitam, sem muitos sinais de remorso ou quaisquer embates internos que inviabilizem o ato iminente. Contratam, então, Joe, policial e matador de aluguel, para dar cabo do serviço.

O plano e o possível assassinato são apenas catalisadores da dinâmica familiar doentia, o verdadeiro substrato de Killer Joe – Matador de Aluguel. O rapaz, que esquematiza a morte da própria mãe para livrar sua pele, conta com a anuência do pai ao passo que é acometido pelo desejo de possuir a quase infantilizada irmã (e o sonho dela se insinuando nua mostra isso). Sem dinheiro nem escrúpulos, Chris irá penhorar também Dottie como salvaguarda dos direitos do homicida, caso algo dê errado e o pagamento em dinheiro não ocorra. Aqui os tipos são cria de um mundo lapidado pelo conceito da sobrevivência a qualquer custo. Esqueça rompantes de heroísmo e nobreza, cada um atuará para satisfazer suas próprias necessidades.

Intenso, Killer Joe – Matador de Aluguel é um filme bastante diverso dos vistos comumente no nosso circuito, justo pelas qualidades apresentadas. É ancorado na narrativa dura que amplifica os eventos da trama, não pressupondo espectadores infantilizados, e no desempenho vibrante do elenco, aliás, duas das marcas registradas de Friedkin, diretor que ajudou a salvar Hollywood noutros tempos. Falando em atuações, Emile Hirsch, Juno Temple e Thomas Haden Church estão ótimos em seus respectivos papeis, mas se alguém rouba a cena é Matthew McConaughey. Sua construção de um Joe ao mesmo tempo frio e explosivo é completamente inexcedível e digna de prêmios.

Convém não analisar as reviravoltas da história - esmiuçá-las traria prejuízo aos que ainda não assistiram, porém pode-se dizer: elas temperam sobremaneira as relações entre os personagens. O criminoso Joe é agente dessa ciranda sórdida, espécie de “anjo exterminador” surgido para expurgar a família de seus pecados, sendo ele próprio pecador confesso. No ato derradeiro, William Friedkin cria sequência digna de antologia com a reunião dos protagonistas numa conversa repleta de representações, sarcasmo, tensão e violência, esta física (bem gráfica) e psicológica. No fim, o fade – out traz angústia porque nos priva do porvir. E agora? As trevas da ignorância são ideais para encerrar um longa fortíssimo como Killer Joe – Matador de Aluguel.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cinema a Dois | Hal Hartley


Parceria com a querida Ana Carolina Grether, a série Cinema a Dois se propõe investigar os filmes de determinado cineasta, geralmente alguém cujo trabalho não chega com facilidade às massas. Escrevemos no calor do momento, logo quando findas as sessões.

O primeiro criador escolhido foi Hal Hartley, de quem, confesso, nada conhecida. Indicação da Carol, atenta ao artista à margem da indústria, um independente nato.

Após a audiência dos longas (não todos da filmografia, mas a maioria), o Cinema a Dois - Hal Hartley chegou ao seu último capítulo. Devo expressar minha alegria por fazer parte de algo assim, tão divertido como enriquecedor. Os textos estão publicados no bluevelvet blog. Fica o convite para a leitura.


Em breve o Cinema a Dois estará de volta, focando outro cineasta que acreditamos merecer atenção. Até lá.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Por que investir em cultura?



Fala-se muito sobre investimentos em cultura, geralmente pífios e quase que insignificantes. Boa parte dos críticos às políticas públicas voltadas ao setor defende somas mais volumosas e significantes do Estado. Pois bem, mas por que “gastar” dinheiro em cultura e não em educação, outro segmento alvo de negligência daqueles cuja missão é nos representar?

Toda essa questão veio à tona após assistir à ótima entrevista de Muniz Sodré concedida ano passado ao programa Roda Viva da TV Cultura. Sodré figura entre os mais respeitados intelectuais brasileiros da contemporaneidade, sobretudo quando o assunto é sociologia e/ou comunicação social. Em sua fala, coesa e bastante lúcida, permeiam anos de experiência em sala de aula e, como tema principal, a educação.

Não podemos negar a condição sôfrega de nossa educação, tanto escolar quanto familiar. Limites disciplinares inexistem ou, ao menos, estão presentes como oásis: ora miragens, ora efetivamente reais (momentos cada vez mais raros). Sem uma base sólida, rígida, tudo fica maleável, inclusive caráter e cidadania. Isso vem trazendo há anos gastos exorbitantes em segurança pública e uma verdadeira enxurrada de programas sociais objetivando recuperar e não prevenir a ruptura da ordem necessária ao bom convívio em grupo.

Nesse quadro, incentivos em produção artística e cultural são importantíssimos, na medida em que auxiliam na formação de uma identidade nacional clara, além de propiciar a reinvenção de si mesmo (produtor) e do outro (consumidor/espectador). A expressão cultural desperta, abre brechas, amplia visões, preenche lacunas, coloca em xeque o que cerca o indivíduo e fomenta a reflexão. Povo com poder de reflexão é povo livre, povo que partilha e fortalece a democracia real.

Apesar da arte não escolher condição financeira, raça e grau de instrução, ela é prejudicada quando a população tem porcentagem preocupante de analfabetos funcionais. Educação e cultura, portanto, não devem ser entendidas como excludentes, e sim como complementares. Devem andar juntas, de mãos dadas, feito melhores amigas. Enquanto isso, o Governo adota uma política secular, e que tem lhe rendido milhões de votos Brasil afora: pão e circo. Assim fica difícil, bem difícil.

domingo, 5 de maio de 2013

Doses Homeopáticas #01



Alain Resnais é uma lenda viva. Sua contribuição para o avanço da linguagem cinematográfica já está lá, impressa nas páginas da história. Não contente, vem ele aos 91 anos com um diálogo aberto entre cinema e teatro, em VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA. Confesso ter achado o início genial, mas depois, quando desfraldado o caminho a ser percorrido, tudo meio enfadonho na proposta de imbricar atores e seus respectivos personagens da peça Orpheu e Eurídice. Cenários artificiais, figuras de interpretação duplicada, às vezes triplicada, e o que ficou para mim foi a beleza da própria peça, acima da forma utilizada por Resnais para contá-la.


Baseado na canção Olhos nos Olhos¸ de Chico Buarque, O ABISMO PRATEADO é circunscrito na tradição das obras mais voltadas à criação de sensações que propriamente ao desenvolvimento direto e reto de uma trama. Violeta é abandonada pelo marido, e a partir daí vemos a imediata absorção da dor e seus desdobramentos. Muito barulhento e urbano, o filme falha, a meu ver, não por apostar na reiteração e nos tempos mortos para transbordar de Violeta ao público o lado menos tangível da perda, e sim por fazê-lo exasperando esse caráter lacunar.   


CABRA MARCADO PARA MORRER em tela grande e cópia nova é experiência e tanto. O longa mais famoso do cineasta Eduardo Coutinho, mesmo atento a uma época, envelhece pouco se retermos dele sua atemporalidade: a luta de classes, os desmandos dos latifundiários (empresários) e a força do povo.  Pessoas humildes de pouca escolaridade se apresentam como força motriz da revolução camponesa nordestina, a inteligência da sociedade orgulhosa de sua cultura acadêmica, porém cega diante dos problemas mais elementares. A recordação, o filme dentro do filme, é só um afluente, pretexto para a criação de algo que realmente discute o Brasil.


SOMOS TÃO JOVENS não é um grande filme. A preocupação do roteiro em dar conta de TUDO acerca de determinado período (grande) da vida de Renato Russo exclui, por pressa, dos momentos em si um tanto de sua real importância. Há também olhar pudico, sobretudo com relação ao sexo. Contudo, há beleza no registro daquela geração emblemática do rock brasileiro. Renato às vezes soa quase como moleque mimado e irritante na tela, mas quem disse que ele não era assim mesmo? As revoltas e chiliques desse “punk de apartamento” no seio da burguesia (assim ele é pintado), em nada diminuem seu talento poético.


Ainda que seja refém de algumas soluções fáceis (nós desatados quase como num passe de mágica), DUETS - VEM CANTAR COMIGO tem personagens interessantes, trilha sonora inspirada e alguns momentos de graça genuína. O inusitado encontro de tipos tão diferentes em busca de sucesso num circuito de karaokê é base para algo que, ainda de soslaio, discute a pátria-mãe América e seus órfãos desgarrados. Fora isso, os números musicais são ótimos e até Gwyneth Paltrow, tão insossa, sai-se muito bem. Um filme que se deixa ver entre a emoção e o deleite sonoro.

sábado, 4 de maio de 2013

O Segredo do Grão


Protagonista de O Segredo do Grão, o sessentão Slimane é daquelas pessoas a quem o mundo parece ter vencido. Seu emprego no estaleiro logo vai por água abaixo e a vida entre a grande família da qual se divorciou, a nova companheira e sua enteada, esmaga-o como se já não bastasse o fardo de ser árabe no entorno socialmente desfavorável a estrangeiros. Sim, porque sob a superfície a sociedade francesa é das mais fechadas do mundo, arredia aos chegados de fora em busca de sobrevivência. Esse senhor de semblante cansado sonha em abrir restaurante num barco então caindo aos pedaços, provavelmente para dar algum sentido aos anos porvir.

O diretor Abdel Kechiche opta corajosamente por registro ultra-realista, inclusive com sequências acontecendo em “tempo real”. Os mais afoitos podem se chatear nas longas passagens, sobretudo à mesa onde de pouco em pouco aparecem intrigas, dissimulações e mágoas, entre outras fibras do tecido familiar.  O Segredo do Grão é também dos filmes em que o protagonista surge onipresente, mesmo quando afastado do primeiro plano. Slimane é o centro da trama, tudo se desfaz e se refaz ao seu redor, quem sabe pela consciência diretiva da função patriarcal cara à cultura árabe.

Os filhos são reflexos dos pais? Em O Segredo do Grão algo da problemática filial parece mesmo conectada ao comportamento (bom e ruim) dos progenitores. Por exemplo, Slimane nem ao menos esboça vitalidade para influenciar o destino de qualquer descendente. Sentir-se-ia ele incapaz moralmente de tomar partido das situações? O homem parece ligado à família erigida no passado ao ponto de sentir dificuldades no relacionamento atual, como se algo de culpa (ou senso de dever) nunca o tivesse o abandonado. Interessante a dinâmica entre ele e a enteada, outra personagem central por conta do comportamento motivador assumido.

Em mais de duas horas e meia, O Segredo do Grão traça painel multifacetado de gente inserida num contexto difícil, social e afetivamente falando. Alguns podem fatigar-se pela crueza das imagens e situações totalmente desprovidas de enfeites, duras no sentido mais humano da expressão. Já os devidamente inseridos na proposta terão a sensação complexa de amar os personagens por suas falhas. Todas as famílias felizes se parecem, já diria Tólstoi, e quem não há de encontrar algum paralelo entre a de Slimane e sua própria?

A festa de apresentação do restaurante, onde se busca a validação da sociedade local, é latente exemplo de como culturas externas ainda penam na França contemporânea. O final dispensa respostas e felicidades calculadas. Às vezes nem todo esforço do mundo basta para mudar comportamentos e realidades tão arraigados.  


Publicado originalmente no Papo de Cinema

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Afinal, onde está a literatura?


Depois de longo tempo longe das páginas eletrônicas aqui do blog, aqui estou. Na verdade, nunca mantive distância do espaço, já que acompanhava fielmente as postagens de meus companheiros, Conrado e Marcelo. Todavia, está mais do que na hora de tomar partido e utilizar este espaço para expressar minhas opiniões, debater, exercitar a escrita, compartilhar impressões, etc. Findo nesta linha meu desabafo [risos].

Vamos ao que interessa. Quando li as primeiras notícias sobre os leitores digitais, os e-readers, torci o nariz. Indignado, não conseguia entender o sacrilégio cometido. Tirar o livro do papel é equiparável a privar um animal de seu habitat natural! Pois bem, nunca diga nunca. Há pouco menos de dois meses, adquiri meu Kindle, o famigerado e-reader da Amazon. Comprei a versão mais simples, aquela que sai por 300 mangos. Mesmo vendo muita crítica negativa a respeito da sua leitura de arquivos na extensão PDF, corri atrás dessa alternativa para frear a necessidade semanal de impressões acadêmicas.

Não me arrependo. Nem um pouco. Realmente, depende da formatação do arquivo em PDF, a leitura fica bem prejudicada, embora a maioria das experiências até agora sejam positivas. Quanto aos arquivos próprios ao Kindle, nada a reclamar. O dicionário em português mostra-se de cara como uma das principais atrações, agilizando sensivelmente o acesso ao significado de palavras até então desconhecidas.

Devo confessar que logo surgiu uma dúvida existencial no Rafael Leitor: livros tradicionais VERSUS livros digitais, quem leva a melhor? Respirei fundo, organizei as ideias, controlei os batimentos que atestavam apreensão e obtive resposta. Prefiro – e acredito na permanência de tal sentença, a versão tradicional, de tinta sobre o papel. Nada se compara a pegar a “entidade-livro” na mão, sentir sua textura, o trabalho caprichado da edição. Certo, mas voltando ao embate. Quem ganha? O leitor. Temos de parar com essa grande bobagem, porque um não exclui o outro. Em comparação, ambos têm pontos vantajosos em relação ao outro. Então, proponho convívio pacífico. No final das contas, importa mesmo o conteúdo, não a forma.