sábado, 8 de junho de 2013

Travessuras da Menina Má

Ricardo ama uma mulher desde a mais tenra idade. Ela recusa as investidas repletas de declarações e ternura, depois some, reaparecendo na vida do jovem quando ele já se encontra radicado na França dos seus sonhos. Serão formados assim, de idas e vindas, de fortunas e infortúnios, os encontros de Ricardo e essa menina má, ela cada vez com nome diferente (e marido diferente), zombeteira de um amor puro, verdadeiro e quase masoquista. 

Mario Vargas Llosa vale-se desse imigrante peruano (assim como ele próprio foi) e sua paixão tão desbragada como resistente, para rascunhar o panorama político-social da Europa e da América do Sul, indo dos anos 1950 até meados de 1990. O faz com muita desenvoltura, dotado daquele gosto amargo das ideologias perdidas, mas sem ter no leitor um muro de lamentações. Eu, que de literatura pouco entendo, indico as desventuras de Ricardo e sua menina má, sobretudo aos amigos interessados numa boa narrativa em que o amor é emoldurado pela consciência lúcida de épocas vividas.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma sessão com "As Sessões"

São vários os obstáculos que dificultam a busca de Mark O’Brien por um objetivo aparentemente simples: iniciar sua vida sexual. Com 36 anos, sobrevivente de poliomielite e dependente de um pulmão artificial, Mark é incapaz de mover seu corpo abaixo do pescoço. Como se tais limitações não fossem suficientemente complexas para sua busca sexual, ele também é um católico honesto que segue as práticas ditadas pela religião, que o indica a não fazer sexo fora de um casamento.

Tragicômico para a ficção, o enredo de As Sessões é baseado na história de vida de um Mark O’Brien real, que ficou conhecido após a publicação de um artigo para a revista norte-americana The Sun intitulado On Seeing a Sex Surrogate – algo como “sobre sair com uma substituta do sexo”. Com roteiro e direção de Ben Lewin, o filme aborda o complicado tema com leveza, descontração e bom humor, tornando a delicada necessidade de O’Brien numa jornada que deve fazer muitos questionarem suas próprias limitações.

John Hawkes, que vem provando sua capacidade em filmes como Inverno da Alma (2010) e Martha Marcy May Marlene (2011), é o maior trunfo de As Sessões. Sua vibrante interpretação vai muito além das complexidades físicas e emocionais de O’Brien, e insere o ator no rol dos laureáveis da atual temporada de prêmios. Sua dedicação em muito se assemelha ao desempenho de Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo (1989), que acidentalmente quebrou uma costela ao se recusar sair de seu personagem paralítico. Hawkes também teve complicações físicas reais ao utilizar uma bola de futebol para curvar sua espinha, intencionado a assemelhar sua postura a do verdadeiro O’Brien – o que fez com que alguns de seus órgãos migrassem e limitassem sua movimentação.
 
Para o papel da terapeuta que resolve na prática o problema sexual de seus pacientes, Lewin escalou Helen Hunt. Bonita e madura, Hunt apresenta uma das melhores atuações de sua monocórdica carreira graças à sua entrega ao papel e coragem, que a permitem até mesmo a protagonizar mais de uma cena com nu frontal – algo praticamente impensável para uma estrela hollywoodiana. Com William H. Macy como o padre confidente de O’Brien e Moon Bloodgood na pele de Vera, sua assistente, o filme ganha ao enriquecer seu desenvolvimento com personagens interessantes e divertidos, que equilibram a carga dramática indissociável de uma história como a proposta em As Sessões.

Por tratar o sexo de maneira realista e sem temores, Ben Lewin atinge uma dramaticidade elogiável e pouco apreciada até mesmo no cinema independente contemporâneo. Seu filme é um relato sincero sobre a sexualidade de deficientes físicos e carrega o mesmo espírito de Hasta La Vista (2011), produção belga de Geoffrey Enthoven que possui temática semelhante. Inteligente e pontualmente engraçado, As Sessões faz o gênero feel good movie e propõe questionamentos sem soar moralista ou politicamente correto, o que já são motivos suficientes para garantir o ingresso.
 
Texto originalmente publicado no Papo de Cinema.

domingo, 2 de junho de 2013

Doses Homeopáticas #03


FEBRE DO RATO é o filme mais “estético” de Cláudio Assis. Oferece um itinerário imagético bem acabado, cuja natureza contrasta com a dos próprios personagens liderados pelo poeta Zizo. A opção pelo p&b traz ao filme algo de fabular que o descola ligeiramente da realidade dura apresentada nas situações. Ainda que não seja de todo abrandado pelo visual, FEBRE DO RATO é menos iconoclasta que Baixio das Bestas ou Amarelo Manga, por exemplo, pois, além de calcado num protagonista que reitera em demasia mensagens praticamente sem resistência externa (circunscrito num meio favorável: sua vizinhança), apresenta a miséria humana revestida com a cosmética de um Nordeste sem cor, aparentemente não tão miserável assim.


Rever JACKIE BROWN foi muito bom, sobretudo para tirar o ranço que eu tinha com esse filme de Quentin Tarantino. Homenagem aberta ao blackexploitation, gênero que evidenciou o negro no cinema americano dos anos 1970, JACKIE BROWN me pareceu, nesta segunda vez, um filme divertido, engenhoso e, acima de tudo, muito bem dirigido. Pam Grier faz a personagem título que, de aeromoça coadjuvante de um traficante de armas, passa ao protagonismo do esquema no qual ludibria bandidos e policiais. O roteiro contempla várias reviravoltas, algo perigoso nas mãos, por exemplo, de um diretor deslumbrado pelo quebra-cabeça como artifício. Mas estamos falando de Tarantino, ou seja, some à trama uma estética bastante peculiar (humor corrosivo e violência) e trilha sonora inspirada.


AMOR PROFUNDO é daqueles filmes que revigoram o circuito de exibição, conclusão paradoxal, uma vez que sua estrutura alude à Hollywood do pretérito, farta de bons melodramas. Há muito que extrair do triângulo afetivo cujo vértice é Hester (Rachel Weisz, num de seus melhores papeis), mulher insatisfeita no casamento com um homem mais velho, logo apaixonada pela energia do militar interpretado por Tom Hiddleston. O principal, talvez, diga mesmo respeito às desilusões do pós-guerra na Europa e uma conturbada relação passada com o pai pastor, elementos que travam Hester em suas dinâmicas afetivas. Dramaturgicamente rico e bem interpretado, AMOR PROFUNDO é aquilo que se vê, mas, sobretudo, o que retiramos dos personagens e suas quebradiças vicissitudes afetivas.   


A DATILÓGRAFA parece um desenho animado. Personagens, músicas, situações, tudo se assemelha a expedientes de cartoon. A trama é sobre uma menina francesa dos anos 1950 que, assim como muitas, quer ser secretária, profissão então na moda. Ela ganha uma chance, mas demonstra talento apenas para datilografar, aliás, numa velocidade impressionante que a credencia como participante de concursos na área. Claro, esse plot é apenas desculpa para outra comédia romântica em que o amor tudo vence. Mesmo refém de convenções e completamente previsível, A DATILÓGRAFA é um bom programa para arejar a cabeça, claro, torcendo para que o casal, às turras no começo, acabe junto e feliz.   



O LUGAR ONDE TUDO TERMINA é uma decepção, e das grandes. Desenvolvido em três atos, o filme de Derek Cianfrance até inicia bem, com o personagem marginalizado que vai às últimas conseqüências para sustentar o filho. Começa a degringolar quando certo evento muda o protagonismo para o policial tido como herói, e piora bastante ao centralizar – num grande e mal trabalhado clichê - dois adolescentes envolvidos com entorpecentes.  A direção equivocada só potencializa as inconsistências de um roteiro ruim que aposta todas as fichas na tese da herança paterna inalienável. Ryan Gosling está perigosamente atuando como em Drive (mínimo de expressão). Corre o sério risco de ficar estigmatizado. Já Bradley Cooper faz o que pode, dentro de suas limitações. O LUGAR ONDE TUDO TERMINA é um filme para esquecer, ou para lembrar como alerta, e só.  

terça-feira, 28 de maio de 2013

Uma bela forma de começar

Tempos atrás, numa mistura de curiosidade e necessidade profissional, fui até um sebo da cidade e adquiri alguns gibis em bom estado. Tinha consciência de que aquelas publicações visavam atingir faixa etária não compatível com a minha, mas e daí? Bom, mesmo assim, comprei duas ou três revistinhas infantis.

“Turma da Mônica”, do genial Mauricio de Sousa, é destinada a crianças, todavia contém enredos interessantíssimos, onde, por meio da aparente simplicidade, há tramas e personas muito bem amarradas. Os tipos ali expostos são fortes, ricos e expressam angústias e alegrias comuns nas mais diversas idades do ser humano.

Quando pequeno, não me interessava por palavras e suas ligações. Longe de ser hábito, a leitura era sofrível, surgindo apenas perante obrigatoriedade curricular. Mas não fecho os olhos para o fato de Mauricio e sua Turma terem iniciado vários leitores Brasil afora e, claro está, pelo mundo também. Meu caso foi diferente, é diferente. Nunca é tarde para começar. Não, não do começo em si. Começar a lançar os olhos para o lado e enxergar um caminho paralelo e encantador.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Doses Homeopáticas #02



Sobre o cinema de Kathryn Bigelow, troco fácil seus dois últimos e alardeados filmes – Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura – por CAÇADORES DE EMOÇÃO, de 1991. Nele, uma gangue fantasiada de ex-presidentes americanos toca o terror nos bancos de Los Angeles até que um policial novato resolve seguir o palpite improvável de seu parceiro: todos seriam surfistas querendo curtir veraneio eterno. A relação estabelecida entre o homem da lei disfarçado (Keanu Reaves) e o assaltante (Patrick Swayze), algo entre a admiração e a necessidade mútua de anulação, é o principal tempero desse molho repleto de energia e ótimas sequências.


GOODBYE SOLO é o menos pungente dos filmes de Ramin Bahrani, o que não significa demérito algum, tendo em vista uma obra ainda pequena, porém feita de humanismo e muito talento. A metáfora está lá, para quem quiser ver, pois o único personagem profundamente americano do longa quer se suicidar e encontra amizade e carinho num sorridente imigrante senegalês.  O filme de Bahrani destaca-se pela sobriedade, é construído muito nas expressões dos personagens, como bem apontou uma das minhas companheiras de sessão. Imagem e fala são complementares na criação de múltiplas significâncias, algo raro não apenas no cinema americano de hoje em dia.


Claro que o roteiro de EM TRANSE é calcado em trapaças constantes. Há muitas guinadas desviando nossa atenção dos verdadeiros fatos, e embaralhar realidade com memórias ora verdadeiras ora falsas ajuda bastante essas curvas abruptas. Mas também é fácil notar que de tanto ir e vir o filme poderia ter caído num lamaçal de chatice não fosse a habilidade de Danny Boyle que urde tudo com dinamismo imagético e sonoridade esperta. Filme bom para ver no cinema, com tela grande e som potente.  E, cá entre nós, na contemporaneidade pudica, filmar uma genitália feminina depilada como Boyle faz em EM TRANSE é sinal não apenas de liberdade, mas de coragem.


Ricardo Darín está impagável em UM CONTO CHINÊS, outro daqueles filmes que nos mostra a força do cinema argentino, convenhamos, o melhor da América do Sul há um bom tempo. A barreira linguística não impede os protagonistas de criarem laços benéficos a ambos. O chinês ganha teto e um amigo; já o argentino, mesmo obrigado, se abre à convivência para respirar outros ares que não os viciados por suas pequenas rotinas e obsessões. Absurda é a vida, mais que a ficção.  Como seres tão díspares podem encontrar apoio um no outro? Ora, na mesma medida em que uma vaca caiu do céu ou aquele amor improvável bate à nossa porta.


DEPOIS DE MAIO. Tá aí um filme de rara inteligência sobre o pós-maio de 1968. Os jovens continuam nas ruas, pichando, fazendo protestos em prol da revolução, contudo “o sistema” tolhe deles isso aos poucos. Só se pode revolucionar na juventude, parece constatar Olivier Assayas com certo amargor, pois os anos passam e as responsabilidades da vida adulta nos tornam meio conformados. A reconstrução de época é impressionante, estamos frente a outra era, antes tão viva só em livros de história e imagens de arquivo. Como de costume, Assayas lança luz sobre a desilusão, o papel e a relevância da arte, num filme sobre garotos e garotas querendo mudar o mundo. E quem nunca quis? Por que perdemos isso?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Vale a pena ver de novo?




Sexta-feira, dia 17, foi exibido o derradeiro capítulo da novela das nove Salve Jorge, reprisado no sábado. Depois de muita polêmica, torcida fervorosa por Morena & Companhia Ltda, Glória Perez apresentou o desfecho que, como de costume, não agradou a todos.

Pois bem, mas por que afinal o The Tramps dedicaria espaço para abordar a produção da Rede Globo? Simples, bem simples: discutir algo bem complexo. Tentar compreender a influência (positiva x negativa) dessa narrativa tão tradicional em nossa telinha junto ao seu público consumidor. Claro, de maneira breve e sucinta.

O roteiro das telenovelas é previsível, chega  a ser quase cômico. Ele parte de uma matriz, de um molde e, então, constrói personagens tipificados, numa estrutura narrativa já consolidada. Há diversas facetas para explorarmos, mas pretendo apenas apontar algumas delas e promover a reflexão no leitor mais interessado no assunto.

Apesar dos pesares, podemos enxergar nas novelas, sobretudo as da Globo, ângulos bastante positivos. A grande evolução técnica da televisão, bem como a demanda por profissionais capacitados nas mais diversas áreas, contribui, ao menos em tese, à ascensão do cinema. Ganhamos força na dramaturgia, tendo em vista as oportunidades, inclusive financeiras, obtidas pelos nossos intérpretes. Essas produções tornam-se importantes produtos de exportação, quando consumidas de forma expressiva numa dezena de países. Além disso, sugerem temas pertinentes, como tráfico de pessoas, mesmo sob linhas tortas.

Agora, os pesares. Elas hipnotizam, cegam e propagam a superficialidade na leitura. O entretenimento puro e simples é a bola da vez. Depois de um dia conturbado, cheio de problemas e questões ainda pendentes, nada melhor do que relaxar, se deixar levar pela onda mais fraca e manter o cérebro em stand-by. As pessoas interagem com o aparelho, conhecem personagens e criam vínculos afetivos com eles, sabem tudo o que vai acontecer, e acham o máximo quando seus prognósticos e apostas mostram-se certeiros. Isso traz prazer, fornece sensação de competência e mostra que você é esperto, é capaz.

Todo esse quadro, timidamente esboçado acima, engendra os telespectadores em duas perigosas armadilhas complementares: o comodismo e o hábito. O lindo ímpeto da mudança, o qual nos torna seres em pleno movimento e capazes (de fato) de crescer, sofre de anemia crônica. Não sentimos mais com a mesma intensidade, nem com o mesmo prazer. Nosso mundinho fica mais mundinho ainda com o passar dos dias, tal qual um zumbi em busca de carne. Uma busca vazia e estritamente pragmática, sem vida. E hoje tem mais.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A arte da síntese

Bom, pessoal, este é um post relâmpago, mas quero compartilhar algo que venho pensando há algum tempo: as tirinhas, afluentes da arte quadrinista, são belas aulas de síntese, coesão, coerência e retórica ágil. Pois bem, aonde quero chegar? Aparentemente tímidas, elas nos ensinam muito sobre criar micro-histórias eficientes, lições bastante úteis para qualquer arte, seja pictórica, musical, literária ou cinematográfica. Afinal, arte é o dom de cortar (palavras, formas e sons). O que fica é o que conta, o que eu quero e o que você tem pra contar.