quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CINEMA A DOIS | OS DAVIDS - Coração Selvagem e Mistérios e Paixões


Os que têm o coração selvagem lutam por seus sonhos e, sobretudo, não fogem do amor. Ensinamentos da “Bruxa Boa”, entidade alcançada por Sailor só no ocaso, após ele superar obstáculos (não poucos) para poder, finalmente, declarar sua afeição incondicional por Lula. Coração Selvagem é o filme desbragadamente romântico de David Lynch, aquele no qual ele trafega com mais sinuosidade entre o bom e o mau gosto para, justamente, e de maneira genial, fazer emergir o caráter até um tanto ingênuo e pueril inerente aos amores idealizados e residentes em nosso imaginário. Não à toa, Sailor e Lula parecem saídos diretamente da década de 50, época romanesca dos casais que descobrem primeiro a sincronia afetiva para depois alinhar-se sexualmente, por exemplo.

Mas estamos em terreno lynchiano, ou seja, mesmo os mais arraigados nas características alusivas aos valores de outrora se comportarão conforme os códigos do nosso contemporâneo mundo doente. Sailor mata um homem com as próprias mãos, como que para defender a si e a sua amada das garras da “Bruxa Má”, melhor dizendo, da sogra maculada por ligações ilícitas do passado e do presente. Lula espera seu homem sair da cadeia e, com ele, empreende viagem de automóvel na qual não se preocupará com mais nada além de amá-lo, afetiva e sexualmente falando.

Coração Selvagem, então, assume-se road movie, cai na estrada com a dupla perseguida por assassinos e outros vilões. Se comparados ao entorno, repleto de gente estranha como Bobby Peru, Sailor e Lula são o mais próximo da pureza que ainda sobrevive em meio à podridão. Lynch utiliza alusões ao Mágico de Oz, o fogo enquanto catalisador, entre outros símbolos, para ressaltar o trajeto turbulento que o casal precisará percorrer para, enfim, chegar ao caminho dos tijolos amarelos e fazer triunfar seu amor.              

Mistérios e Paixões se ancora da década de 1950 para mostrar Bill Lee, aspirante a escritor que, diante da impossibilidade de concretizar seu sonho artístico, extermina insetos para pagar as contas. Ele passa por dificuldades: o estoque de inseticida acaba rápido, pois sua esposa o consome em busca de “baratos”. Levado, então, pela parceira, ele experimenta o pó e entra em viagens tão alucinógenas quanto existencialistas, nas quais, por exemplo, as máquinas de escrever, ou seja, objetos inorgânicos, adquirem vida e passam ao estado orgânico.  

Naked Lunch, de William Burroughs, é obra quase impossível de ser vertida ao cinema, isso levando em consideração qualquer fidelidade ao espírito matricial beatnik. Será a autoria delirante de David Cronenberg suficiente para dar conta do recado? O cineasta realmente transpôs a essência do livro através de seu próprio estilo narrativo, desenvolvendo a trama próximo do neo-noir policial, com direito a insetos-criaturas (alusivos a A Mosca), entre outras bizarrices. A calamitosa tradução brasileira, responsável por transformar Naked Lunch (Almoço Nu) em Mistérios e Paixões, não nos permite vislumbrar nada relacionado ao enredo, pois inexistem “mistérios” e “paixões” avalizando tal destaque.

Tanto em Coração Selvagem quanto em Mistérios e Paixões, vícios e obsessões estão presentes como imprescindíveis no desenho dos personagens e, por conseguinte, nos traços narrativos. No filme de Lynch, Lula nutre paixão por O Mágico de Oz e Sailor, por sua vez, espelha-se em Elvis Presley. Além disso, ambos têm algo de ninfomania, principalmente ela.  Já no filme de Cronenberg, o casal principal vira dependente do inseticida, substância que fornece paranoias delirantes. Além disso, Bill é obcecado por literatura e pela escrita, ao ponto de podemos classificar tais “paixões” como patológicas, dado seus traços compulsivos. 

Provável que Coração Selvagem seja um dos filmes mais acessíveis de David Lynch, não por instaurar-se no terreno do banal, longe disso, mas por abrir-se às interpretações, já que desprovido de signos indecifráveis ou deveras ambíguos, exceção talvez feita à figura de Bobby Peru. Já Mistérios e Paixões, quem sabe por advir da literatura e carregar consigo a inerente dificuldade da adaptação de uma linguagem à outra, é confuso na sua ressignificação, justo porque Cronenberg narra a história de Burroughs utilizando a via do suspense policial.  Ao passo em que conserva a importância metafórica do inconsciente (evidenciada no ato de escrever), guia-se ora por meio do inseto imaginário, ora pelo homem aturdido, gerando, assim, estranhamento para além da conta.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

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CORAÇÃO SELVAGEM – Por Lívia Lima 
Coração Selvagem seria tão somente uma história de amor e erotismo se não fosse um filme de David Lynch. Apesar de ser um dos filmes mais "acessíveis" do diretor, um olhar mais atento, nos mostra que sua costumeira e genial bizarrice e sensibilidade estão ali presentes.  
Sailor e Lula formam um casal que parte numa viagem de carro fugindo da mãe desequilibrada dela que havia ordenado o assassinato dele. Ele, um sujeito que transita entre o heroísmo e a marginalidade, ela, uma mulher tão sexy e latente quanto infantil. No caminho, encontram os mais variados tipos estranhos, como o assaltante Bobby Peru (que tem a melhor cena do filme, na minha opinião, quando ele aterroriza e, ao mesmo tempo, seduz Lula) e as gêmeas loiras.

O filme é cheio de referências pop: Sailor parece uma versão pós-moderna de Elvis Presley. Lula é uma espécie de Marilyn Monroe misturada a Dorothy de O Mágico de Oz. O clássico é citado diversas vezes, seja nos sapatos vermelhos de Marietta, a mãe de Lula, ou por a mesma vê-la como uma espécie de “Bruxa Má do Oeste” ou mesmo a estrada que serve de caminho para chegar além do arco-íris que a protagonista deseja.

Coração Selvagem é a exaltação de Lynch ao amor sentido na pele e vivido intensamente. Assim como o fogo, que permeia todo o filme, somos consumidos por Sailor e Lula e terminamos o filme amando-os com ternura.
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MISTÉRIOS E PAIXÕES – Por Leonardo Ribeiro 
Difícil imaginar nome melhor para adaptar Almoço Nu, de William S. Burroughs, do que o de David Cronenberg. Com sua obsessão pelas transformações carnais e psicológicas do ser humano, Cronenberg costura trechos do livro com fatos da vida do autor, em uma trama de mistério, mas o que realmente interessa ao diretor é a paixão do personagem Bill Lee por escrever. Mais do que uma paixão, um vício. E Cronenberg mergulha de cabeça nesse vício, misturado ao consumo do “pó inseticida”. A substância alucinógena possibilita a criação das imagens bizarras características do diretor, mas é a relação íntima de Lee com seu ofício que se torna o ponto central. Não à toa, a máquina de escrever, que em seus delírios se transforma em um inseto gigante, sente prazer com o toque do escritor em suas teclas. É a conexão entre o prazer físico e intelectual que Cronenberg tanto preza, e que reflete o seu próprio prazer pela arte cinematográfica.

Assim, mesmo sendo uma adaptação, o filme resulta em algo totalmente pessoal. Diferente de outras adaptações literárias do diretor, como Crash, Mistérios e Paixões não é tão bem calculado. Sua trama é confusa e as partes funcionam melhor isoladamente do que em conjunto. Mas é exatamente por seu desejo de arriscar, de se apoderar de uma obra para criar algo particular, sem medo de errar pelo caminho, que Mistérios e Paixões se torna um capítulo fundamental na filmografia de Cronenberg.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Doses Homeopáticas #06


Até a Pixar, antes exceção, hoje se curva às continuações como maneira de capitalizar sobre um público que prefere ir ao cinema para ver personagens familiares em situações não tão diferentes assim. UNIVERSIDADE MONSTROS volta ao passado para mostrar Wazowki e Sullivan na época estudantil, em meio às suas dificuldades para se tornarem Assustadores, profissão mais “importante” do mundo dos monstros. É tudo muito bonitinho e engraçado, por isso mesmo, difícil o filme desagradar completamente, a não ser àqueles que teimarem em compará-lo com seu antecessor bem mais criativo em concepção e execução. UNIVERSIDADE MONSTROS carece de algo que transcenda a mensagem, velha e empoeirada, contida na junção de duas figuras só triunfantes exatamente quando juntas. Fica a pergunta: a Pixar irremediavelmente caiu no lugar-comum?       


TABU é um filme de roupagem saudosista, que renova o circuito a partir dos limites de sua janela 4:3 e do preto e branco, atributos hoje estranhos às salas de cinema. Tal aspecto visual é utilizado para registrar a parábola inicial, a Lisboa contemporânea, e também a pretérita colônia portuguesa na África misteriosa. A estética remonta os filmes mudos dos primórdios, alusão evidenciada, sobretudo, na segunda parte, onde os diálogos são abolidos em prol da narração e dos sons cotidianos. Mesmo assim, cabe à palavra (impostada) ressaltar a beleza das imagens, o que confere a TABU atmosfera poética. Homenageando Murnau, Miguel Gomes fala sobre amores impossíveis, colonização e a relação dos dominados coadjuvantes com os conquistadores protagonistas, desde os primórdios até hoje.


A diretora Isabel Coixet não apenas adaptou O Animal Agonizante, de Philip Roth, ao cinema, mas apropriou-se dessa matriz literária para fazer um filme doloroso sobre o tempo que transcorre entre os vãos de nosso pretenso controle, sobre amores que vem e vão, vítimas que são desse mesmo tempo teimoso em passar. O sessentão, professor de literatura, vê-se, após vida de superficialidades, enredado por uma bela aluna cubana, 30 anos mais jovem. A prosa de Roth ganha equivalente fílmico de respeito, pois Coixet se esforça para dar dimensão cinematográfica até mesmo às angústias mais internalizadas do protagonista. A linguagem aparentemente discreta de FATAL disfarça, assim, e habilmente, complexa teia de artifícios dos quais a diretora lança mão para fazer cinema à altura do excelente livro de Philip Roth.


TURBO é típico produto para as férias escolares. Muito embora tenha lá suas qualidades, acaba numa banalidade bastante comum de uns tempos para cá na seara da animação. Ele repete o velho esquema sobre alguém que sonha com algo quase impossível, dada sua natureza, mas cuja perseverança será recompensada. Nada contra, claro, a mensagem é positiva e válida, mas já tão surrada que não sustenta por si o interesse, quando muito o infantil. Em suma: TURBO se ressente de algo que o faça transcender o clichê. No mais, caso não exijamos demais, é filme divertido, com muita velocidade, excelência visual e personagens cativantes (ainda que excessivamente formulaicos). Mas desvanece logo finda a sessão, aliás, como boa parte das animações atuais.


A figura de Camille Claudel é novamente trazida à tona, agora pelo cineasta francês Bruno Dumont. Artista prodigiosa, ela se vê confinada em asilo psiquiátrico. Juliette Binoche corporifica a dor dessa mulher privada do convívio social e da arte que alimenta sua alma. A atriz francesa parece atirar-se num abismo complexo, de onde faz emergir “demônios” em grande profusão. Bruno Dumont registra tudo com muito rigor: torna o campo/contracampo rarefeito e constrói, lenta e gradativamente, o ambiente externo cinzento que reflete o interior de alguém despedaçado, cuja danação parece irremediável. CAMILE CLAUDEL, 1915 é filme duro, atmosférico, que ainda guarda para seu final o embate entre a “loucura” da arte e a retórica dos “tocados” por um Deus colérico.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Complexo de Portnoy


Faz pouco, Philip Roth, considerado um dos maiores escritores norte-americanos vivos, anunciou aposentadoria. Na ocasião, o literato destacou enquanto justificativas a dor e o sofrimento oriundos do ato de escrever. Até então, eu tinha apenas uma obra de Roth em minha coleção, todavia, apesar da curiosidade, nunca havia lido coisa alguma dele. Então, há mais ou menos dois meses, chegou aqui em casa presente direto do Rio de Janeiro. Para minha surpresa, a querida Ana Carolina Grether, vulga Carol, era a remetente. A entrega? O Complexo de Portnoy.

Em pouco mais de duzentas e sessenta páginas, Roth traça a vida do judeu Alexander Portnoy, jovem advogado nova-iorquino bem-sucedido, o qual possui distúrbios psicológicos, especialmente observados na vida amorosa e sexual. Deitado sobre o divã da psicanálise, o protagonista narra detalhadamente sua vida, desde o tempo de infância, onde ganham luz a relação conflituosa com a mãe e a inércia do pai. Alex não segue linha cronológica rígida em sua narrativa, volta e meia regata acontecimentos do passado distante; outras vezes, porém, traz à tona outros mais recentes.

Um dos grandes méritos de Philip Roth está na facilidade de nos identificarmos com os anseios e as angústias do protagonista-narrador. Lá pelas tantas, me senti refletido, se não no presente, quando adolescente, quando criança. O mais fantástico da história toda reside justamente aí: não há nada de extraordinário. Na verdade, o extraordinário surge do ordinário. Nos damos conta de que o espetáculo maior está perto de nós, somos nós mesmos e nossas vidas, bem como seus rumos, experiências, cores e sabores. Experimentamos todos os dias o maravilhoso, só não sabemos disso. Arrisco-me a classificar O Complexo de Portnoy como história simples (não confundir com simplista, por favor). A diferença entre ela e a vida que levamos? Muitas vezes levamos a vida sem percebê-la de fato, sem aproveitar sua totalidade ou encarar de peito aberto suas nuances encantadoras. Certamente, obra-prima que fica e cresce

segunda-feira, 22 de julho de 2013

CINEMA A DOIS | OS DAVIDS - Veludo Azul e Gêmeos - Mórbida Semelhança


Veludo Azul é, provavelmente, o filme mais autoral e incisivo de David Lynch. A pegada neo-noir, estilo admirado e substanciado pelo cineasta, sublinha em cada personagem um caráter de feitura bastante pessoal, como se os mesmos fossem talhados para servir demandas amorosas, pessoais e profissionais de seu criador.

A história, envolvente do início ao fim, é revestida de sexualidade perturbadora e atmosfera suspeita, sendo entremeada de cruéis aspectos capturados pela lente perversamente doce de um Lynch ainda com os pés afixados na tênue linha entre o real e o onírico. Cada detalhe, desde as almofadas de Dorothy Vallens até o número do apartamento (710) e rua (7), faz semblante para o estilo de David Lynch, e condiz, por assim dizer, com seus postulados. Alguns elementos bizarros, como a orelha num gramado qualquer, perturbam o cotidiano da pacata Lumberton, antevendo figuras perigosas, perversas e sádicas, tal o personagem vivido por Dennis Hopper que, aliás, atua brilhantemente.

Ainda sobre as atuações, Veludo Azul (Blue Velvet, no original, título inspirado na canção de Bobby Vintton, presente no filme), é prodigioso de interpretações surpreendentes. Só mesmo alguém do calibre de Lynch para extrair de Kyle MacLachlan um rapaz ingênuo, porém curioso e apaixonado, intimidado, contudo disposto a romper sua fragilidade e imaturidade para, então, adentrar no mundo dos adultos. Da mesma forma, Isabella Rossellini é presenteada não apenas com personagem complexa, mas também com o tratamento imagético que confere a ela dimensão próxima do etéreo. Méritos, sobretudo, da fotografia, quem sabe a mais elaborada da carreira de David Lynch.

A cena final, quando Sandy (Laura Dern, a musa muitíssimo bem aproveitada), em seu inabalável ideal de amor eterno, avista um pintarroxo na janela diz: "Esse mundo é estranho", é a quintessência da visão lynchiana.  A jovem o faz com sorriso nos lábios, compartilhando a excitação e a paixão descoberta por uma vastidão até então impensada, ao mesmo tempo atraente e repugnante. A tríade, perfeita por excelência, é estabelecida: Jeffrey, Sandy e a linda, louca e fugaz Dorothy.

Com Gêmeos – Mórbida Semelhança, Cronenberg se insere num território mais sofisticado, contudo não menos afinado às obsessões estilísticas que marcaram sua criação pregressa. Nele, os gêmeos Mantle (Jeremy Irons, genial), próceres ginecologistas dedicados a curar infertilidade feminina, aparecem, em princípio, enquanto representação dual, ou seja, o irmão bom (Beverly) e o irmão mau (Elliot). Bev, o introspectivo, se dedica à pesquisa, a alavancar a fama dos procedimentos vanguardistas imputados aos dois, enquanto Elly, o expansivo, recebe láureas, reconhecimento acadêmico e se incumbe dos discursos.

Eles compartilham mulheres, valendo-se da irrefutável semelhança física. Num desses joguetes sexuais corriqueiros, Bev se apaixona por aquela que involuntariamente iniciará o doloroso processo de desunião dos “siameses”, libertando um do outro à fórceps, ainda que eles próprios não queiram ou não possam de fato assim coexistir, pois aleijados sem a ligação doentia cujo efeito é fazê-los complementares. O processo de degeneração mental dos irmãos logo mostrará que Gêmeos – Mórbida Semelhança apenas se valeu da polarização inicial entre os protagonistas para que a fusão traumática de ambos - fadados a sofrer na pele os vícios e as virtudes alheios - tivesse o efeito devastador visto antes da derradeira e trágica separação.

Um dado interessante sobre Gêmeos – Mórbida Semelhança diz respeito à utilização expressiva da cor, principalmente o vermelho, para estabelecer conexões entre o horror do sangue derramado em nome da ciência e o mesmo líquido vital que, de outra forma, escorre de crimes e demais brutalidades. Exemplo, a equipe cirúrgica dos irmãos Mantle veste jalecos encarnados, ao contrário do branco característico da medicina. O vermelho não deixa notar o sangue. Ótima e inesquecível sacada visual de Cronenberg. Da mesma maneira, Lynch se apropria do azul, aqui como referência cromática do subterrâneo que emerge violentamente na vida dos estadunidenses interioranos de Lumberton. Tida como sinônimo de tristeza, a cor em Veludo Azul alude, também, ao estado psíquico abalado de Dorothy, figura emoldurada pelo azul da decoração e iluminada pelas luzes da ribalta decadente.

A sexualidade desempenha papel fundamental tanto em Veludo Azul, quanto em Gêmeos – Mórbida Semelhança, muito embora Lynch e Cronenberg não se apropriem de cenas explícitas, deixando as observações acerca do sexo, e a função por ele desempenhada de elemento deflagrador, na esfera do subjetivo, como conduto de ações e reações.  Há, em ambos os filmes, forte apelo à questão inconsciente, isso visto, sobretudo, nas sequências de sonhos: em Veludo Azul, o sonho de Jeffrey (sua amada pede para ser espancada e ele a satisfaz) revela a carga de sadismo por trás da satisfação de prazeres primitivos e proibidos; já em Gêmeos – Mórbida Semelhança, o sonho de Beverly (sua amada literalmente separa-o do irmão, a dentadas), prenuncia a turbulenta tentativa de desligamento parental.

Outo fator de aproximação entre os longas é a relação simbiótica, paradoxalmente complementar. Embora esta seja mais evidente em Gêmeos – Mórbida Semelhança, em Veludo Azul Jeffrey e Frank são partes quase indissociáveis de um indivíduo “completo”, faces da mesma moeda. A ingenuidade Jeffrey se funde à maldade de Frank nas fantasias de Dorothy, ou seja, “sozinhos” não satisfazem o desejo avassalador dela, porém juntos a levam ao êxtase.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

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VELUDO AZUL – Por Isadora Ramos 
Veludo Azul foi o segundo filme de Lynch que vi, há uns dez anos. E, naturalmente fazendo uma comparação com o primeiro, Cidade dos Sonhos, lembro-me de ficar surpresa, pois o roteiro era muito mais compreensível, porém, não menos intenso e estranho. À época foi chocante ver a cidade aparentemente perfeita como cenário de todo o tipo de crime e violência, igual a qualquer outro local onde os gramados não são tão verdes e bem cortados. Tem "doença" ali, como em qualquer outro lugar. E, apesar da linearidade na história e do "final feliz", fatores que não esperava encontrar, fiquei por dias lembrando da perversidade de Frank e pensando na tristeza de Dorothy, com uma sensação de inquietude. Dennis Hopper e Isabella Rossellini estão brilhantes e chegam a dar arrepios, por motivos diferentes, mas vale ressaltar que todos os atores estão bem em seus papéis.

Tentei não usar a palavra "estranho", seus derivados e sinônimos neste texto e falhei miseravelmente. Não é muito original classificar um filme de Lynch assim, eu sei, mas que outra palavra melhor? Me sinto estranha ao ver seus filmes. Durante e depois. Estranha, inquieta, intrigada. Com Veludo Azul não foi diferente. Mas acho que aqui, mais que em qualquer outra de suas obras, o adjetivo cabe, afinal os próprios personagens concluem que "é um mundo estranho". Pra mim, é um dos filmes mais fáceis de compreender deste diretor, mas não por isso fácil de esquecer.
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GÊMEOS – MÓRBIDA SEMELHANÇAPor Leandro Reboredo 
Este não é o único filme no qual David Cronenberg declara todo o seu fascínio pelas entranhas do ser humano, literalmente falando. Porém, em Gêmeos - Mórbida Semelhança, ele vai além das vísceras para narrar a história de dois irmãos gêmeos que, diferente do que a versão abrasileirada do título sugere, tem mais diferenças do que sua semelhança física nos permite ver.

O que une os ginecologistas Bev e Elly (interpretados por um impecável Jeremy Irons) são justamente as sua diferenças. Os irmãos são como características complementares e distintas que residem dentro de cada um de nós, nos tornando indivíduos únicos e complexos. E, assim sendo, os dois vivem como apenas um, compartilhando sucesso, experiências e, principalmente, mulheres. Mas, é justamente a relação com uma paciente que desestabiliza a harmonia entre os gêmeos: Bev se apaixona pela atriz Claire Niveau, de quem Elly queria apenas algumas noites de prazer.

O rompimento é explicitamente representado num pesadelo de Bev, onde os médicos são siameses e Claire destrói com os próprios dentes a carne que os une pelo abdômen. É um sinal que o sangue já não consegue mantê-los do mesmo lado. Aliás, o uso pontual de elementos vermelhos durante todo o filme, que tem uma fotografia predominantemente fria, parece predizer que algo não terminará bem. Em suma, tanto nos filmes como na vida, algumas coisas são opostas mesmo tendo muito de si uma na outra: assim são Bev e Elly, assim são amor e ódio.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Obsessão


A trama de Obsessão começa com a narradora exumando um crime. Ela foi testemunha privilegiada da matéria que buscou desvendar o caso, pois empregada dos Jansen, verdadeiros protagonistas do relato. Na época, Ward (Matthew McConaughey), filho mais velho da família, regressou para casa acompanhado do amigo negro Yardley (David Oyelowo) a fim de escrever para grande periódico. Reencontrou Jack (Zac Efron), seu irmão mais novo, entregando jornais e o nomeou motorista da empreitada. Breve, eles conheceram o acusado de assassinato, Hillary Van Wetter (John Cusack), e Charlotte (Nicole Kidman), então interessada em provar a inocência do pretendente, também alvo involuntário do primeiro amor de Jack. Estamos nos anos 1960, por sinal, muito bem evocados pela fotografia de Roberto Schaefer.  
      
Obsessão é o mais recente filme de Lee Daniels, mesmo diretor que “cometeu” Preciosa. Começa confuso, mas logo entra nos eixos e passamos a entender quem é irmão de quem, quem gosta ou não gosta de quem. O que parte como investigação jornalística, desvirtua-se para o drama de “amar sem ser amado”, resvala no preconceito racial, flerta com a dificuldade de crescer traumatizado sem a mãe, encosta de leve na questão homossexual e acaba em violência. Temperos fortes, certo, mas urdidos como se travassem batalha por atenção. Um dos grandes problemas é justo esse: querer abraçar o mundo, obter o melhor de cada núcleo sem a habilidade para fazê-los servidores do todo e não rivais de antecessores e sucessores.

Evidência maior que Daniels dirige como se não pudesse frear caminhão desgovernado é o trabalho com os atores. Estão todos muito bem, mas gritam as dificuldades diretivas em balancear personagens e intérpretes excelentes. Exemplo disso, Nicole Kidman faz seu melhor papel em anos, riquíssimo e repleto de nuances, mas é “podada” sempre que ameaça tomar o filme para si. Apenas John Cusack (outro em trabalho notável) recebe chancela para dele se apropriar vez o outra, mais para o final. Aliás, algumas das passagens mais interessantes do ponto de vista dramático são interações sexuais entre Kidman e Cusack. Esqueça a polêmica em torno da discutida cena dela urinando sobre Efron, quase cômica de tão mal filmada.

Confesso ter lastimado ao fim de Obsessão, não apenas por me compadecer dos tipos, tragédias e dramas, mas por entender que havia tanto a ser desenvolvido nesse enredo baseado no livro de Pete Dexter, múltiplos vieses interessantes, não fossem os maneirismos de um diretor que parece sabotar sua obra, sequência após sequência. Não me entendam mal, o longa passa longe dos exemplares alienados ou ávidos por gordas fatias de mercado. É intimista, repleto de observações pertinentes, inclusive sobre as dificuldades sociais do período retratado, boas interpretações, etc. Mas não decola, pois solapado por seu próprio comandante.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

segunda-feira, 15 de julho de 2013

CINEMA A DOIS | OS DAVIDS - Duna e A Mosca


É notório o repúdio de David Lynch a Duna, filme do qual não teve controle criativo. Fica evidente, desde o início, a falta de um toque puramente lynchiano, boa parte por estarmos no terreno complicado das grandes produções (com efeitos especiais e cenários grandiloquentes), ou seja, de antemão, contra o restante da obra de Lynch, no mais, pessoal e repleta de signos. É claro que a arbitrária montagem - feita à revelia do cineasta - ou as recriações cênicas tão suntuosas quanto datadas (desde o lançamento), são problemas alheios à vontade de Lynch, então preso por contrato. Mas não sejamos condescendentes com o diretor e lhe imputemos parcela de contribuição ao fracasso. Lynch sempre tão afeito a construções imagéticas e sonoras de expressividade ímpar, parece resignado em sua castração patronal, porque filma Duna preguiçosamente, sem ressaltar, em qualquer momento, justo esses aspectos, os mais marcantes de seu cinema.
            
Em A Mosca, Cronenberg preza pelo concreto e as modificações fisiológicas, explorando a tão discutida hipótese da metamorfose genética, aqui advinda de experiências científicas. Já antes de virar “criatura”, o protagonista é tido como inadequado ao meio, situação em muito aumentada quando passa a definhar, pois acidentalmente misturado a um inseto. Então, ainda mais solitário - mesmo na companhia da jornalista por ele afeiçoada -, se vê diante do contexto social avesso aos seus transtornos. Tal sofrimento alude à intolerância ao estranho, àquilo fora de nossa compreensão.  Curioso, em A Mosca, Cronenberg recorre ao onirismo, na passagem em que Veronica é acometida pelo pesadelo de dar à luz a uma criatura bizarra, amorfa, doente, tal e qual o genitor em gradativa transformação.

Difícil, então, estabelecer links entre Duna e A Mosca, quiçá pela natureza do primeiro, produto altamente controlado por produtores, em choque com a do segundo, por sua vez, passo importante rumo ao amadurecimento de estilo sui generis. Quando muito, dá para aproximar as transformações dos protagonistas (Paul Atreides ao cumprir destino messiânico e Seth Brundle ao tentar novo paradigma científico).  Dessa forma, mais simples correlacionar o filme do canadense a outros do americano, ainda que, mesmo assim, obras de propostas e ordens diferentes.

A Mosca lembra, de alguma maneira, a verve trash de Eraserhead. Aliás, provavelmente são esses os filmes mais pessimistas dos Davids, em especial por conta dos encerramentos fatalistas: num, o humano transformado irremediavelmente em inseto, e noutro, o equivalente incomodado profundamente por desordens psíquicas.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

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DUNAPor Mana Melo 
Em 1984 Dino de Laurentis produziu e David Lynch dirigiu e roteirizou a adaptação do livro de Frank Herbert, Duna de 1965, um filme de ficção cientifica que vinha no rastro de grandes sucessos do gênero. Uma mega produção que não obteve retorno comercial. 
Duna é o outro nome do Planeta Arraquis, único lugar que produz a “especiaria”. Na luta pelo controle de sua extração, ocorrem golpes dentro da estrutura de castas e com isso a insurgência do personagem do herói predestinado, que lidera os rebeldes, aliado a natureza hostil do planeta. 
A versão original do diretor possuía mais de três horas e meia, que foi cortada e editada contra sua vontade e Lynch se recusou a ter o nome nos créditos, substituindo por pseudônimos que expressavam a sua revolta. A tentativa de mudar o perfil do filme, tornando-o mais digerido e atrativo comercialmente, foi o que certamente comprometeu seu resultado nas bilheterias.

É uma obra altamente criticada, mas a meu ver que tem profunda relevância para o cenário da ficção cientifica e dos efeitos tecnológicos em evolução. Duna tem no elenco nomes como Kyle MacLachlan, Sean Young, Sting, Patrick Stewart, Max von Sydow, Virginia Madsen e foi certamente, o responsável pelo afastamento de Lynch das mega produções e o aproximou definitiva e intrinsecamente do cinema independente.
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A MOSCAPor Rafael Lorenzi
Um dos mais conhecidos de Cronenberg, A Mosca conta a história de um cientista - Jeff Goldblum - que criou um teletransporte. Em um coquetel acaba conhecendo a jornalista – Genna Davis – com quem começa um relacionamento. Entre a ideia de documentar o projeto e alguma crise de ciúmes, o filme mostra, de uma forma bem dinâmica, a transformação de Seth (devido a um teletransporte mal sucedido). 
A transformação física, a mistura de seres tão diferentes e toda maquiagem (a qual ganhou o Oscar) para fazer o homem em mosca, impressiona, e talvez por isso eu tenha me interessado pelo filme ainda na minha adolescência.

Transformação que Cronenberg tanto gosta, da tecnologia mudando a vida do homem que a usufrui, talvez esteja no ápice nesse magnífico filme, com uma mosca toda articulada com 2 metros de altura tentando de todas as formas reverter o processo que parece sem volta. 
E ai está o maior ponto da história: evitar o inevitável, a angústia do nosso homem-mosca, mais mosca que homem, tentando reaver a mulher amada ao mesmo tempo em que pede para ela se afastar. Angústia que chega ao ponto de tentar fundi-la a si mesmo.

A angústia da nossa mosca-homem lembra a barata de Kafka.

E sim, eu disse TRANSFORMAR o homem em mosca. A mosca se apoderou.
Porque no final, o que restou do homem? 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Doses Homeopáticas #05


Levado por indicações calorosas, conferi AS SESSÕES. O que chama a atenção, num primeiro momento, é a inusitada abordagem acerca da sexualidade de deficientes físicos. Contudo, ótimo que as qualidades do longa estejam também para além dessa coragem temática, emergindo, sobretudo, das interpretações assertivas de John Hawkes (na trama, um poeta paralisado pela doença) e de Helen Hunt (na pele da terapeuta sexual que faz enfermos descobrirem o prazer advindo do próprio corpo). Menção honrosa, igualmente, para William H. Macy, excelente coadjuvante enquanto padre. Bem humorado, AS SESSÕES apresenta, com leveza, os desejos do homem limitado pela poliomielite, e, ainda, os desdobramentos sentimentais da pequena jornada para a própria terapeuta, a certa altura muito mais afetada pela experiência que seu próprio paciente.


ANTES DA MEIA-NOITE era um dos filmes mais esperados da temporada. Jesse e Celine estão em férias com as filhas gêmeas pela Grécia. Ele em crise por não se fazer presente na vida do filho adolescente (fruto de outro casamento) e ela num dilema profissional agravado por essa instabilidade do marido. Celine motiva celeumas com mais frequência, ao passo que Jesse se mostra flexível (fato curioso de levar em consideração e que pode desagradar seriamente alguns). Entretanto, ANTES DA MEIA-NOITE me pareceu um bom filme, que evita lançar imperativos comportamentais, tratando, assim, num registro particular as dificuldades de UM relacionamento, não aspirando abarcar TODOS eles.


Sem dúvida há algo de muito forte em A BELA QUE DORME, filme do italiano Marco Bellocchio que pega emprestado o caso verídico de Eluana Englaro, em estado vegetativo por 17 anos, para construir um painel de personagens e situações que confrontam, sob óticas políticas, religiosas e morais, a questão da eutanásia. A BELA QUE DORME funda-se na liberdade, sobretudo de amar ou morrer quando bem entendermos. Cada pequena trama amplia, à sua maneira, a polêmica causada pela possibilidade da morte assistida de Eluana, assim lançando luz sobre outras complexidades. O problema, a meu ver, está em certo laconismo inicial e nas transições solavancadas entre um núcleo e outro. Não fosse isso, A BELA QUE DORME poderia ser outra obra-prima desse italiano que, sem dúvida, faz cinema de gente grande.


Ir de Buenos Aires, na Argentina, a Villa Laura, no Uruguai, é um prazer maior se na companhia dos irmãos Susana e Marcos, ela uma trambiqueira de marca maior e ele um senhor que perde o rumo quando a mãe morre.  DOIS IRMÃOS desvenda, aos poucos e sutilmente, a arqueologia sentimental dos personagens interpretados magistralmente por Graciela Borges e Antonio Gasalla, enquanto avança no relacionamento deles.  O filme mostra algumas agruras e benesses de ter irmãos, criaturas paradoxais, pois desconhecidos familiares, como ressaltou o próprio diretor Daniel Burman em entrevistas. DOIS IRMÃOS possui encenação consistente e roteiro afiado, características inerentes ao cinema Hermano, a bem da verdade. Para ver e rever sem desgaste e com cada vez mais deleite.



Antes de ser cooptado e pasteurizado por Hollywood, o cineasta Gabriele Muccino se destacou no cenário cinematográfico italiano. Seu filme O ÚLTIMO BEIJO, devidamente reaproveitando para remake ianque, é mais um dos inúmeros a tratar de relacionamentos e suas complexidades. O faz com a autoridade de quem acrescenta algo a temas já tão abordados. Ao redor de Carlo e suas desventuras amorosas extraconjugais - bem na iminência de casar e ser pai – gravitam personagens igualmente envoltos em decepções, turbulências, alegrias, perspectivas e projeções afetivas. A linguagem é sóbria, direta, assim como o discurso equilibrado entre constatações fatalistas e esperançosas. Fácil falar de amor e convivência, difícil é fazê-lo com propriedade e maturidade suficiente para não cair no lodo do lugar-comum, como bem faz O ÚLTIMO BEIJO.