domingo, 17 de novembro de 2013

CINEMA A DOIS | OS DAVIDS - Cidade dos Sonhos e Spider - Desafie Sua Mente


Mesmo sem uma banda, ouve-se a banda, pois tudo está gravado: clarinetes, trompetes, trombones e a voz da intérprete que persiste mesmo após desmaio. No Clube Silêncio, Rebekah Del Rio canta o amor sem volta, cuja herança é a lamúria de quem ficou a sofrer.

A história inicia nas curvas da Mullhohand Drive, de onde se pode ver as luzes de Los Angeles, Hollywood. Acidente automobilístico. Uma bela e desmemoriada morena acaba escondida junto à Betty (Naomi Watts), esta recém-chegada à Meca do cinema, rumo ao sonho de ser atriz. Betty fica extasiada com o mistério e se envolve gradativamente com a curvilínea estranha. Paralelo à relação crescente e logo carnal das duas, um cineasta é coagido por gângsteres, financiadores de seu próximo trabalho, a aceitar Camila Rhodes como protagonista, dentre tantas atrizes melhores. Hollywood ferve num lodo podre de escusa origem, onde a arte está sob o véu dos interesses. Habituado a investigar as profundezas de pequenas localidades, expondo o lado negro de logradouros onde reina a paz aparente, David Lynch transfere seu olhar à cosmopolita Los Angeles, para, quem sabe, fazer uma das obras mais brilhantes acerca do encanto doentio exercido pela terra do cinema.

Em meio a cowboys e mendigos bizarros, um suspense de contornos tipicamente lynchinianos. Há pouca sustentação. Temos a sensação de vivenciar quase epidermicamente o abstrato fascínio pelo cinema, aquele bom cinema que nos transporta do real a outro lugar. Depois do Clube Silêncio, a escuridão transformadora contida na caixa azul. Como se regurgitados do filme fôssemos, acabamos noutra realidade (ou seria a mesma?), marcada por embaralhamento de papeis. Betty agora é Diane, Rita é Camila, mortos reaparecem, figuras fantasmáticas estabelecem novas conexões, e ficamos nós, não propriamente à deriva, mas tateando ligações instauradas muito mais no plano conceitual do que no das evidências tangíveis.

Cidade dos Sonhos foi originalmente concebido como piloto de série televisiva que, infelizmente, não vingou.  Sua estrutura repleta de significações, entre as óbvias e as cifradas, estabelece ligações com o restante da filmografia de Lynch. Fala a respeito da sétima das artes como nenhum outro exemplar do diretor, investigando o nefasto residente nas entranhas da fama. A artificialidade inerente às gravações, seja a música do clube misterioso ou o próprio cinema, dá vida eterna, na maioria das vezes estanque, a mitos e respectivos contornos. Cidade dos Sonhos, por sua vez, se mostra diferente a cada audiência. Mesmo gravado, ali, eternizado em película ou em digital, é arte que não para de desdobrar-se. Ainda em silêncio, é um filme de inquieta e ruidosa genialidade.

Ralph Fiennes é o centro da excelente trama cronenberguiana vista em Spider – Desafie Sua Mente. Uma das obras mais “formais” do cineasta, ela surge do emaranhado de questões edípicas, oníricas e minimalistas. Prioriza o detalhe, a escuridão das lembranças de Denis, a tristeza e a confusão mental do menino, parceiras incômodas também do adulto repleto de traumas e fissuras. As imagens do passado são requintadas e nos dão a perfeita sensação de ver o menino introspectivo, problemático e possuidor da estranha mania de tecer fios pelo quarto, como que exteriorizando o complexo entrelace de ideias que à sua (somente à sua) mente faz todo sentido.

Os diálogos têm sua importância diminuída se comparados ao impacto das imagens e dos sons, elementos estes imprescindíveis à formulação das lembranças do menino apelidado “Spider”, base do adulto perturbado. A tríade formada pelos atores Ralph Fiennes, Miranda Richardson (que interpreta tanto a mãe quanto a amante) e Gabriel Byrne (o pai) é um dos muitos acertos do diretor.

O drama apresentado é bastante realístico se pensarmos na esquizofrenia, por exemplo, suas possíveis origens, sintomas e desdobramentos. Parece que Cronenberg atirou no que viu e acertou no que não viu. Ele aposta na trama dramática, na teia complexa que Spider constrói, em suas lembranças mórbidas e na "poesia" que emana da narrativa muito bem amarrada, seca e, por vezes, objetiva. Acerta em cheio quando caracteriza Ralph Fiennes desde a infância até a idade adulta tal e qual um sujeito amargurado, atormentado pela doença mental. Nenhum outro filme tratou esse assunto tão bem, com tamanha propriedade, quanto Spider - Desafie Sua Mente.

Tanto em Cidade dos Sonhos quanto em Spider – Desafie sua Mente há personagens cujo retorno às respectivas cidades pode simbolizar, em última instância, a própria sobrevivência. No filme de Lynch, a bela e desmemoriada Rita, escapa de um acidente de carro antes de voltar (?) a Los Angeles. Já na trama urdida por Cronenberg, Dennis regressa a sua Londres natal, após confinamento no hospital psiquiátrico, escapando assim de um ambiente hostil e enlouquecedor no qual viveu.

Em Spider – Desafie Sua Mente todas as informações, mesmo as lembranças, são passadas de forma coesa e, digamos, “real”, sem iludir demasiado o espectador. Cidade dos Sonhos, por sua vez, em algum sentido, promove embaralhamento por meio de fluxos estranhos, imagens surreais/fantasiosas, ou seja, opera em outro nível da percepção do espectador, aumentando assim a subjetividade da experiência.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

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CIDADE DOS SONHOS – Por Irene Grether 
O filme Cidade dos Sonhos é surpreendente, não só pela trama, mas também pela estrutura narrativa que não segue uma linearidade esperada. Para evitar o risco de revelar demais o enredo, poderíamos dizer apenas que o filme segue o mesmo princípio da formação dos sonhos. Passado e presente não são apresentados consecutivos um ao outro. David Lynch parece, ainda, se valer dos ditames teóricos da psicanálise, uma vez que os personagens se condensam e se deslocam obedecendo aos princípios de metáfora e metonímia identificados por Freud no estudo dos sonhos, base para postular a existência do inconsciente. 
As condições à figurabilidade são inerentes à linguagem tanto dos sonhos, quanto do cinema. Cidade dos Sonhos coloca de forma exemplar os sonhos enquanto realização de desejos inconscientes. Podemos citar como evidência disso a figura ideal que a protagonista cria em boa parte do filme. A mistura de sonho e delírio nos lança muitas dúvidas sobre o que se passa na linearidade aparente. O autor nos leva além: mostra que sonhar, delirar, viver, tudo isso joga com nossa percepção e memória. Pena que a tradução em português tenha sido tão explícita ao apontar uma das chaves do enigma. 
Afora a linguagem simbólica dos sonhos e do inconsciente, alguns signos são utilizados pelo autor (a chave e a caixa azul) como entrada nas diversas portas do tempo ou nas linhas de escape. É também bastante reveladora de seu olhar teórico a utilização dos jogos de culpa e reparação presentes em toda narrativa. O casal mais velho de turistas, inicialmente "pais bons e acolhedores", é o mesmo que em outro momento ri da protagonista, martirizando-a como uma instância superegoica. Este é um dos fatores deflagradores do sonho, pois fragmento aparentemente sem importância, mas que por sua carga emocional tem a possibilidade de explicitá-lo. 
Assim como Freud identifica o umbigo do sonho, David Lynch nos deixa alguns significantes soltos, como que apontando para esse umbigo, sinal de alteridade, incompletude, impossibilidade de uma interpretação totalizante. Aliás, para Foucault, Nietzsche e Freud, a interpretação é uma tarefa infinita, não se atingem pontos ideais, uma vez que ela volta a si mesma. Algo parecido com a experiência da loucura ou do silencio das palavras.

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SPIDER – DESAFIE SUA MENTE – Por Rafael Müller 
Muitos alegam não ter medo. Medo de nada, nem mesmo da ausência de tudo. Outros, por sua vez, se não temem tudo, temem algo. De roedores a fantasmas, de concretude a ectoplasma. 
Já havia assistido a Spider, contudo o tempo levou consigo minhas lembranças, cá deixando apenas uma difusa sensação de prazer e satisfação. Indubitavelmente, um filme pesado, cheio de nuances, evidenciado, sobretudo, pela fotografia, onde sombras imperam e sugerem os recônditos da mente. Nele, somos convidados a mergulhar no perturbado Sr. Dennis “Spider” Cleg, magistralmente interpretado por Ralph Fiennes. Muito daquilo em tela vem do processo neural do protagonista. Sendo assim, não podemos defini-la enquanto realidade comum a todos. 
Hoje, estamos permanentemente conectados em rede, em teia; as barreiras foram quebradas e não existem mais fronteiras. Paradoxalmente, Spider isola-se na teia, emaranha-se nela, assume os papéis de predador e presa. A teia? Sua mente, que mente para a gente e para si. Mentiras sinceras, realidades paralelas e independentes. Por isso, sensato é o homem que teme. Aquele que teme sua mente carrega a sabedoria própria da sensatez.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Reality - A Grande Ilusão


O Big Brother, pai dos chamados reality shows, é fenômeno contemporâneo.  Homens e mulheres confinados durantes meses em busca de dinheiro e fama efêmera. Os números maiúsculos de audiência ao redor do mundo respaldam novas temporadas desse entretenimento feito de observar a vida alheia no que ela tem de mais ordinário. Reality – A Grande Ilusão, dirigido pelo italiano Matteo Garrone (responsável também por Gomorra), é, até onde lembro, o filme mais assertivo (também o mais direto) sobre tal show. O cineasta utiliza sua câmera para desferir observações ferinas numa trama agridoce, sem aquele traço professoral próprio de artistas menos hábeis quando ávidos a transmitir mensagens.

Na história, o peixeiro Luciano vive rodeado de sua família num típico cortiço napolitano, alternando lida diária e alguns trambiques para equilibrar as contas. Estamos antes de outra edição do Big Brother e, instado pelas filhas, ele faz o teste. A surpresa do convite à segunda bateria de conversas em Roma é suficiente para esse interiorano desenvolver obsessão patológica. Luciano engendra toda comunidade em sua certeza movediça, e quanto mais entra na paranoia de ser monitorado por funcionários da televisão, assim embaralhando ficção e realidade, mais convida a ler nas entrelinhas da expressão “dar uma espiadinha” algo cruel sobre nossa configuração enquanto sociedade.

A inocuidade das “celebridades instantâneas” se deixa perceber na figura de Enzo, participante anterior do programa, espécie de herói local. Basta sua presença em festas ou nas casas noturnas mais bizarras (situações que deflagram o patético) para causar histeria/euforia. É bom frisar, não apenas a chamada “Classe C” reverencia esse tipo de “notável”. Reality – A Grande Ilusão parte de um suntuoso enlace com direito a carruagem e cenários faraônicos, onde a “Classe A” também se curva ante o ídolo sem importância real. Ricos e pobres, indiscriminadamente contaminados por cultura de massa/massificadora.

Reality – A Grande Ilusão é comédia de tons melancólicos. Rimos com e de personagens alusivos à tradição do cinema italiano. Muitas vezes tais sorrisos fáceis são interrompidos por pontiagudas e sutis observações, sejam elas orais, surgidas na justaposição dos planos ou num movimento de câmera. Como síntese pontual, cito a cena em que Garrone desloca nossa visão dos postulantes ao Big Brother para a fachada da Cinecittá, mítico estúdio de cinema, hoje arrendado em grande parte a produções televisivas. É um pesar expresso de maneira visual que pode aproximar-se ideologicamente da sequência final, na qual não sabemos estar diante de façanha irresponsável ou alucinação. E importa? Se passar na TV é verdade, pelo menos é assim aos olhos da maioria.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

TOP5 - Trilhas Sonoras

Nova coluna do blog.

A TOP5 será sempre escrita por um convidado que apontará cinco favoritos em determinada área ligada ao cinema ou à outra esfera dos ambientes artístico e cultural. E quem inaugura a coluna é Ana Carolina Grether, colaboradora assídua do The Tramps, com suas trilhas sonoras de cinema prediletas. Confira.

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1- Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999)
Um dos melhores dramas/comédias britânicos, com uma trilha bastante especial. Algumas canções nos remetem até hoje aos personagens também bastante carismáticos que funcionaram muito bem juntos no cinema. Quem não se lembra de Anna e Will, Julia Roberts e Hugh Grant?



2- A Primeira Noite De Um Homem ( The Graduate, 1967)
Dustin Hoffman teve sua carreira marcada por essa maravilha de filme que passou a ser base para muitas outras produções que surgiram depois com a mesma temática. The Sound Of Silence e Mrs. Robinson se tornaram sucesso nas vozes de Simon & Garfunkel, que tiveram seus hits lançados em The Graduate.


3- Hair (Hair, 1979)
Um grupo de hippies nativos da Era de Aquário luta contra o alistamento militar para o Vietnã em Hair. Dirigido por Milos Forman, rico em elementos visuais e musicais, repleto de signos políticos, ideológicos e sociais, o filme tem uma das melhores trilhas sonoras do cinema. Suas músicas viraram hits e algumas estiveram na Billboard por muito tempo.


4- Os Embalos de Sábado À Noite Continuam (Staying Alive, 1983)
Pra mim, a melhor trilha de todas, melhor ainda do que a primeira dessa sequência de filmes. Recheada de boas músicas, algumas mais óbvias por terem sido mais tocadas, no entanto escolho Moody Girl do Frank Stallone, que interpretou outras do mesmo gênero.



5- Pulp Fiction, Tempos De Violência (Pulp Fiction, 1994)
Conhecido pela excelência da trilha sonora, estilizado, caracterizado por sua violência gráfica, típica dos filmes de Tarantino. Com uma narrativa nada linear, diálogos loucos, engraçados e cruéis. Possuidor de marcantes personagens que nunca mais fizeram algo parecido, Pulp Fiction deixou sua marca indelével tanto com relação ao roteiro, quanto no que diz respeito à trilha impecável.

SON OF A PREACHER MAN - Dusty Springfield

domingo, 3 de novembro de 2013

Yippee-ki-yay, motherfucker


Jogue a primeira pedra quem nunca se divertiu com as peripécias de John McClane. A franquia protagonizada por Bruce Willis nasceu no final dos anos 1980, mais precisamente em 1988 com DURO DE MATAR, cujo mote é o ataque delinquente ao prédio comercial Nakatomi, frustrado a duras penas por um policial no lugar errado e na hora errada (ou seria lugar e hora certos?). McClane não é o Super-Homem, consegue extirpar a bandidagem, sim, mas aos trancos e barrancos, e está aí um dos grandes méritos desse filme inicial: mostrar herói crível que sangra e sofre para atingir seu objetivo e não sobre-humano de todo inatingível. 

DURO DE MATAR 2 veio logo depois e utiliza quase à risca os expedientes de seu antecessor, seguindo-o sem muitos desvios: ataque terrorista, local fechado (aeroporto), exploração da relação McClane/esposa, reviravolta expositiva da real intenção criminosa, etc. O plano a ser combatido diz respeito à libertação de um importante ditador, o que atinge toda malha aérea num raio de quilômetros. Aviões à deriva sem muito combustível e a iminência da tragédia asseguram tensão permanente nesse ótimo programa-pipoca. 

DURO DE MATAR – A VINGANÇA, terceira parte da série, mesmo também reservando para si o direito de investir em certas seguranças, possibilita a entrada mais efetiva de um co-protagonista (Samuel L Jackson) e abre a ação para as ruas de Nova Iorque. O confronto da vez se dá contra grupo usuário da fama de McClane, e do jogo macabro de adivinhas com ele, para enganar a polícia mobilizada no desarme bombas plantadas no perímetro urbano, isso enquanto ocorre rombo nos cofres (cheios de ouro) da metrópole. Outro ótimo filme. 

DURO DE MATAR 4.0 é mais complexo, pois no mínimo ciente do mundo em que vivemos. McClane precisa salvar um hacker ameaçado de morte por bando igualmente usuário de meios cibernético terroristas. Talvez este seja o filme recente que mais nos alertou para a dependência da máquina (e do espaço intangível da web), claro, guardadas as devidas ressalvas por estarmos frente a produto genuinamente hollywoodiano. Felizmente meandros e observações pertinentes não passaram despercebidos pela equipe criativa, “livre”, então, até mesmo para excessos típicos de John McClane (helicópteros e caças abatidos quase artesanalmente, por exemplo). 

DURO DE MATAR – UM BOM DIA PARA MORRER, lançado este ano, funda-se na relação pai/filho, num acerto de contas familiar que ocorre em meio a celeumas político-econômicas envolvendo Rússia e a usina de Chernobyl. McClane sai dos EUA para resgatar o filho tido como encrenqueiro, na verdade agente secreto da CIA. Entre tiros e perseguições, o detetive se aproxima de Jack, assim como tornou mais chegada sua relação com a filha Lucy na aventura anterior. A trama é até interessante, residindo o maior problema na maneira desleixada com a qual é guiada. Mesmo assim, é exemplar digno da linhagem McClane, ou seja, divertido e repleto de boas sequências. 

Sem muitos sinais efetivos de esgotamento, a franquia DURO DE MATAR provavelmente renderá mais, afinal, é difícil acabar com McClane, seja na diegese ou na memória afetiva dos fãs. Yippee-ki-yay, motherfucker. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Oblivion


Já dá para desconfiar da verdade em Oblivion quando sabemos que o protagonista, Jack Harper, teve suas memórias apagadas antes mesmo de iniciar missão numa Terra assolada. Por que seria necessário tornar inacessíveis esses dados pretéritos? Apenas para fazer do protagonista alguém mais competente ou no intuito de ocultar a verdade servidora apenas de um senhor? Por si, tal dado confere previsibilidade à trama, mas, calma, virão outros de função semelhante. Apesar disso, é bom enxergar a realização de Joseph Kosinski sustentada não na surpresa ou no impacto das revelações, e sim na junção minuciosa de tecnologia (efeitos visuais, principalmente) e artesania criativa. Esta, inclusive, dará conta de aglutinar ideias já utilizadas por outros sci-fis, sem que as mesmas soem (ao menos não em demasia) meramente requentadas.    

Após o planeta ser devastado em guerra nuclear contra alienígenas alcunhados “saqueadores”, Jack (Tom Cruise) vive seus dias correntes em 2077 entre a observação e eventuais reparos dos robôs que patrulham as máquinas responsáveis por fornecer energia à humanidade habitante numa das luas de Saturno. Ele tem a companhia da oficial de comunicação Victoria (Andrea Riseborough), com quem mantém caso amoroso. A luta diária contra o inimigo é assombrada por fragmentos de memória, mais especificamente o rosto de uma mulher (Olga Kurylenko) e o Empire State Building. Não precisamos de muita bagagem cinematográfica para ligar as lembranças misteriosas da figura central com algo que pode mudar a trajetória do enredo.

Difícil seguir esmiuçando a trama sem ao menos arranhar a experiência de quem ainda não viu, por isso paro aqui, atendo-me aos já citados elementos que Oblivion reaproveita a seu bel prazer. Examinando rapidamente, no longa se vê pitadas de O Vingador do Futuro, Matrix, Lunar e até de 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Há privilégio do caráter escapista e pouco acréscimo ao filão, verdade seja dita. Feitas as ressalvas, porém, é bom lembrar que ao cinema também compete entreter, e nesse tocante o filme é bastante feliz, pois repleto de boas cenas de ação, uma história de amor bem ao gosto hollywoodiano (sacrifícios, perdas, inevitabilidades), belo desenho de produção e inspirada construção sonora.

Com boa vontade, Oblivion pode ser categorizado “entretenimento acima da média”. Decepcionará, no entanto, caso sobre ele recaiam expectativas mais exigentes. Fãs sensíveis às convenções do gênero poderão aferrar-se em demasia à deficiência de ideias vanguardistas, perdendo, assim, a possibilidade de aproveitar o filme por outros vieses. Como ainda inexiste pecado em emocionar-se e curtir uma obra da qual não necessariamente se saia arrebatado (graças, afinal somos humanos), credito a Oblivion o mérito de oferecer prazer enquanto dura. Contudo, é bom dizer, esperar ele sobreviver para além da sessão pode ser caminho sem volta rumo à frustração. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

domingo, 27 de outubro de 2013

Doses Homeopáticas #09


A OUTRA se insere na vertente dramática de Woody Allen, cineasta mais conhecido do grande público por meio das obras cômicas, entretanto com igual talento para investigar os infortúnios humanos. Gena Rowlands interpreta uma cinquentona profissionalmente bem resolvida que entra em sua maior crise existencial após ouvir, por acaso, sessão de análise no apartamento ao lado do escritório onde tenta escrever. Allen utiliza esse meio intelectualizado, de pessoas racionalmente estáveis (na superfície), para mostrar as rachaduras emocionais surgidas mesmo ali, onde, a priori, tudo estaria sob controle. Em enxutos 77 minutos, o nova-iorquino constrói um drama pesado, repleto de observações contundentes acerca das certezas inabaláveis e seus, também a priori, insuspeitos pontos de fraqueza.


Quem mais, a não ser Woody Allen, pensaria num plano de roubo induzido por hipnose como mote de filme cômico? O ESCORPIÃO DE JADE se passa nos anos 1940, aliás, época que Allen gosta de revisitar. Ele mesmo interpreta o detetive que vive às turras com a colega recém-contratada para modernizar a seguradora. Os dois são hipnotizados, passando, então, a atuar sob as ordens do Escorpião de Jade, astuto bandido que menciona no telefone as palavras “Constantinopla” e “Madagascar” para ter os dois como ladrões à sua disposição. O ESCORPIÃO DE JADE é comumente tido como exemplar menor na filmografia de Woody Allen, mas defendo seus méritos, pois comédia de costumes bastante inteligente e que toma por pretexto os roubos a fim de estimular o amor com aparência de ódio existente entre C.W. Briggs e Betty Ann (Helen Hunt).

Em ALMAS DESESPERADAS, Marilyn Monroe despe-se da aura de símbolo sexual vulnerável que tanto lhe rendeu fama, para assumir o papel de uma mulher emocionalmente perturbada por trauma amoroso do passado. Contratada babá no mesmo hotel onde o tio trabalha de ascensorista, ela flerta com um homem desiludido pelo eminente fim do namoro com a cantora do local, e não tardará a recebê-lo no apartamento onde deveria apenas cuidar da menina Bunny. O que se desenrolará é uma sequência de acontecimentos fortuitos, em grande parte ocasionados pela loucura da personagem de Marilyn, num filme de crescente pungência à medida que a protagonista passa do torpor ao desatino.


A primeira cena de OS SUSPEITOS mostra um “sacrifício” com a suposta anuência de Deus. Aliás, religiosidade e crença (favor, não confundi-la com fé) são elementos fundamentais à estreia em Hollywood do canadense Dennis Villeneuve, longa pesado e tenso onde o sequestro das crianças não passa de pretexto para trazer à tona geralmente o pior da natureza dos personagens. Em meio ao elenco muito bem conduzido, Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal se destacam, um enquanto pai que transita entre o desespero e a selvageria, e o outro na pele do policial incumbido da investigação. Ligeiramente prejudicado pela prolixidade e o excesso de reviravoltas, OS SUSPEITOS ainda assim é admirável, um thriller que permite poucas vezes nossa desatenção.



KICK-ASS 2 é tão violento e divertido quanto seu antecessor. Pessoas criam alteregos para lutar contra o crime cotidiano, inspirados pela figura de Kick-Ass, jovem estudante disfarçado para dar algum sentido à vida. Do outro lado, o mal também aspira à estilização dos quadrinhos, e então surge Mother Focker, o supervilão. A linguagem de KICK-ASS 2 é interessante, pois fruto de um hibridismo entre o meio original (HQ) e o cinema. A ação continua repleta de sangue, há apontamentos sobre responsabilidade e crescimento, bem como questões referentes à própria proliferação da violência via signos da chamada cultura pop. Na vida real o heroísmo pode assumir muitos disfarces, não necessariamente fantasias multicoloridas. Claro, as deixas para o terceiro são inevitáveis, mas por que não, se os dois primeiros são tão legais de ver? 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Bate-papo :: OS SUSPEITOS


Ontem, navegando pelo Facebook, me deparei com um debate interessante sobre OS SUSPEITOS, de Denis Villeneuve, destaque em cartaz. Ana Carolina Grether e Douglas Tadei conversavam, comentário após comentário, a respeito de qualidades e fragilidades do filme que tem dado o que falar. Com a autorização dos dois, reproduzo aqui este ótimo bate-papo com questões bastante pertinentes a quem assistiu OS SUSPEITOS. Obrigado, Carol e Doug, por cederem a conversa.

A CONVERSA ABAIXO CONTÉM SPOILERS
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Douglas Tadei - OS SUSPEITOS (Prisioners) tinha tudo pra ser um filme pra longos debates psicológicos. Mas, onde poderia aprofundar o debate eterno entre a justiça e o sangue no “zóio”, preferiu seguir a linha de todos os thrillers que a gente tá cansado de ver. Decepção com o twist final longo, pé no cu de chato, com atuações acima da média. Meu destaque vai pra Paul Dano, que praticamente não fala, mas representa melhor que o elenco inteiro. 
Ana Carolina Grether - O final longo depõe meio contra sim, também acho. Mas gostei muito do filme, fiquei vidrada durante todo tempo. 
Douglas Tadei - E o Paul Dano, Carol? Ele arrebentou! 
Ana Carolina Grether - Gostei mais do Donnie Darko (Jake Gyllenhaal), os tiques, o shape, tudo. 
Douglas Tadei - Jake vai ser sempre Donnie, mas ele se esforça. Mr. Villeneuve perdeu a chance de criar um épico. 
Ana Carolina Grether - Se esforçou e conseguiu pô, o cara tá ótimo. Concordo, o diretor podia ter se superado. 
Douglas Tadei - Se tivesse meia hora menos e focasse na dubiedade da coisa, seria meu campeão. Eu nem queria ver as meninas back, a dúvida me consumiria. 
Ana Carolina Grether - Concordo! 
Douglas Tadei - Um filme que promete uma coisa e entrega outra, mas merece umas indicações ao Oscar. 
Ana Carolina Grether - Ah merece! Se todos os filmes medianos fossem metade deste, já estaria ótimo. OS SUSPEITOS é bom e, de tão bom, parece que a crítica que fazemos é justamente por estarmos com o olhar nivelado num patamar elevado. Desde o início, como você falou, o filme se mostra em altíssimo nível, embarcamos nessa. Quando chega o final, há um declínio que, embora não prejudique de todo, dá uma baixada de bola. Pena. 
Douglas Tadei - Pra encerrar, tinha que dizer isso: Don´t fuck with wolverine´s daughter! É que você não tá vacinada em thrillers, histórias assim tem de montes! Mas eu juro que achei que o diretor ia explorar MAIS o conflito, que é onde a coisa pega. 
Ana Carolina Grether – Verdade, não tô e talvez tenha me encantado mais por isso. 
Douglas Tadei - A dubiedade entre ser ou não o vingador, e não revelar, era a melhor parte! E ele cagou nisso! O sofrimento, a incredulidade e a vontade de se vingar do casal negro dava uma tese, e o diretor jogou isso na privada. 
Ana Carolina Grether - O que achei incrível, e até curioso, foi a energia do Hugh Jackman em fazer o que fez e sustentar aquela agressão toda até o fim, sem dó nem piedade. Nessa hora se identificando(?) com seus fantasmas, com sua história de vida e família, além de ter se mostrado altamente afetado pela provocação de sua mulher (Maria Bello) que, sem sentir ou não, o desafia quando diz que esperava dele: proteção, segurança. Achei uma bela jogada, o Hugh Jackman aparecer ora aliado à fúria, ora à culpa. 
Douglas Tadei - A toda hora eu pensava: “E se eu tivesse uma filha? faria igual?”. FARIA. É esse lance de justiça pelas próprias mãos que me interessa no debate, pena que ele não se aprofundou. Qualquer pessoa em sã consciência diria “não”, até mexerem com a tua filha, até onde a polícia pode ir, qual o seu papel enquanto pai da vítima? É foda processar isso. Acho que acabamos discutindo o que o filme tinha de promessa! Me saí bem como debatedor? 
Ana Carolina Grether - De qualquer modo, o contraste de comportamento entre ele e o outro casal é gritante, pra mim fica o seguinte: para além de fazer justiça com as próprias mãos, ele (Hugh Jackman) estava ali lavando a alma de outras histórias que não só a da filha. É sutil, mas me parece que o excesso dele em cima do Paul Dano, mesmo depois que entende o envolvimento deste com o assassino, é contextualizado a partir de sua própria identidade, de seu comportamento furioso, incontido, nervoso, másculo, determinado, obsessivo. SIM!! por mais debates com Douglas Tadei  Eu apoio!! Só esquecemos de avisar que esse post seria puro spoiler
Douglas Tadei - YEY! Não leiam. Me pegou o despreparo dele ao saber que o Alex não era. O que fazer? 
Ana Carolina Grether Pois é. Em resumo: o filme pega a gente de jeito.