quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Faroeste Caboclo


Quem não conhece a história de João de Santo Cristo? Os quase 10 minutos da canção Faroeste Caboclo, um dos emblemas da Legião Urbana de Renato Russo, gravaram em nosso imaginário a trajetória desse personagem marginalizado que sai do Nordeste e vai para Brasília encontrar amor e danação. Era apenas questão de tempo até que alguém enfrentasse a tarefa de levar às telas essa melodia nascida com vocação cinematográfica. Portanto, repleto de expectativa, chega ao circuito o primeiro longa do diretor René Sampaio, prometendo não a ilustração da música, mas a expansão de sua trama com a adição de novos personagens e fatos.

João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) parte de sua cidade natal, encontra Pablo (César Troncoso), Maria Lúcia (Ísis Valverde), Jeremias (Felipe Abib) e mais uma série de tipos que tornam limítrofe sua experiência no cerrado. Desde o início fica clara a escolha do amor como conduto do enredo: por ele João lutará, ganhará dinheiro, deixará o crime e, depois, pegará em armas novamente. Isso não afasta outros elementos, como o êxodo, a luta social, discriminação, diferença de classes, etc. Aliás, interessante notar, o roteiro consegue contrapor muito bem as realidades de Brasília. A periferia empobrecida (feita muito de trabalhadores braçais que construíram a cidade) invade o ambiente urbano de adolescentes burgueses embalados pelo díptico drogas/rock.

As inconstâncias e excessos inerentes ao primeiro trabalho diretivo aparecem vez ou outra, num maneirismo aqui, outro acolá. A própria referência ao spaghetti western surge tal fetiche de fã e passa do ponto algumas vezes, sobretudo na sequência final (logo volto a ela). Por outro lado, René se esmera na construção de um clima violento, onde também o sexo não é visto com puritanismo. Faroeste Caboclo passa longe de ser videoclipe, é realmente filme com ritmo e pegada de cinema. Há tradução de certas alegorias e liberdades poéticas da música para linguagem próxima do real, dentre outras adaptações necessárias (e felizes) que dotam o longa de identidade própria, longe de eventual e perigosa reverência exacerbada à matriz.

No campo das concessões (quase intrínsecas a projetos dessa envergadura e apelo popular), há pelo menos duas que enfraquecem ideologicamente Faroeste Caboclo, porque buscam justificar moralmente atos dúbios dos protagonistas. João mata um policial a sangue frio, e o ato é seguido pela exposição da motivação “nobre”. Da mesma maneira, lá para o fim, Maria Lúcia (como todos sabem) casa com Jeremias, não sem antes ficarmos cientes da dignidade contida na “entrega”.  Faroeste Caboclo tem um pé no risco e outro na facilidade, morde e assopra, pois visual e dramaturgicamente forte, enquanto ligeiramente paternalista com suas figuras.

O final, duelo na Ceilândia em frente ao Lote 14, é homenagem aberta a Três Homens em Conflito, de Sérgio Leone, tanto no que diz respeito aos enquadramentos quanto à sua dinâmica triangular. Pena o interesse residir apenas na alusão, já que como sequência em si é bem menos impactante do que se poderia esperar (rápida e ligeiramente anticlimática). René Sampaio simplifica tudo em prol da realidade (excelente opção), excluindo plateia, televisão e bandeirinhas, mas, a meu ver, peca por quase banalizar o embate. Falta pathos no encerramento desse filme que 9,5 entre 10 fãs da Legião Urbana quiseram realizado. Faroeste Caboclo está lá, finalmente na tela, passa e diverte, faz pensar, às vezes, mas pode soar um tanto decepcionante caso se espere o mesmo impacto causado pela composição de Renato Russo. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sábado, 14 de dezembro de 2013

Doses Homeopáticas #11


CINE HOLLIÚDY é um filme joiado, como diriam os cearenses. O diretor Halder Gomes mostra algo verdadeiramente popular, não popularesco tal as globochanchadas. Recheia sua trama de personagens carismáticos e arquetípicos, comenta a própria luta do cinema para sobreviver ante as novas tecnologias (e em 1970, época na qual se passa, a TV era sua grande ameaça), e se apoia no idealismo de Francisgleydisson, exibidor de filmes, apaixonado tanto por artes marciais, quanto por contar histórias. Falado em “cearencês”, com expressões bastante locais (por isso as legendas), CINE HOLLIÚDY faz rir sem apelar tanto e parece repleto da memória afetiva de seu criador. Além disso, Edmilson Filho, intérprete do protagonista, é uma descoberta das boas. CINE HOLLIÚDY aproxima o cinema e o povo nordestino, já que ambos são, antes de tudo, uns fortes.


PAIXÃO E ACASO é precário, para dizer o mínimo. Na trama adaptada de uma peça do e pelo próprio Domingos Oliveira, certa psicanalista recebe visitas de um ente querido morto (vestido como Humphrey Bogart) e, seguindo conselhos do além, acaba se apaixonando por pai e filho ao mesmo tempo. Uma confusão amorosa sem graça, com piadas e situações forçadas, atuações discutíveis e um desleixo estético típico de alguns longas de Domingos, mas aqui sem, pelo menos, o apoio de um bom texto. Fica difícil achar qualquer passagem interessante. Os pacientes da protagonista, e suas respectivas sessões, a intrusão de um narrador inútil e de “fantasmas” idem, tudo soa amontoado e liquefeito em meio a diálogos repletos de auto importância injustificada pelo conteúdo raso. Enfim, esquecível.


Já PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER, do mesmo Domingos Oliveira, merece alguns bons elogios. Pode não estar no nível de SEPARAÇÕES, ou de TODAS AS MULHERES DO MUNDO, (neste caso, se quisermos tornar a comparação quase covarde), mas tem boas passagens sobre aquilo que o cineasta parece mais apreciar: pessoas e os infortúnios de certos relacionamentos. Na história, várias pessoas passam o primeiro dia do ano numa propriedade fluminense afastada do centro. Todos ricos e bem sucedidos, ou quase todos, eles, contudo, não são imunes a desilusões amorosas, decepções, infidelidades, rancores e outros pesares. Por mais que haja exposição de uma boa parcela de problemas, PRIMEIRO DIA DE UM ANO QUALQUER é um filme otimista, que transborda a paixão de seu criador pela complexidade humana, paixão esta tão bem verbalizada em dado momento pelo personagem interpretado por ele próprio.


Lá do início da carreira do argentino Gaspar Noé, vem CARNE, média-metragem com muitos dos elementos recorrentes nos posteriores filmes do cineasta. Abre com a morte e o esquartejamento de um cavalo, evento seguido de parto registrado quase em close da genitália feminina. Morte e vida irmanadas na carne que sangra. O protagonista é um açougueiro irascível e obcecado pela filha. Em dado momento, ele agride violentamente um inocente por suspeitar dele como abusador da menina. A crueza da imagem combina muito bem com a aridez emocional desse personagem principal. A montagem é dinâmica, algumas transições provocam desconforto (proposital) e auxiliam na criação de uma atmosfera muito particular, onde explode a barbárie constatada muito mais nos atos e pensamentos do açougueiro, do que propriamente na sua rotina de abater animais e fazer deles alimento.



Os 179 minutos de AZUL É A COR MAIS QUENTE passam que a gente nem sente. Abdellatif Kechiche mostra, mais uma vez, sua capacidade quase irrepreensível de naturalizar o que o cinema tende a transformar em espetáculo quase por vocação. O amor entre as duas garotas, a jovem Adèle e a calejada Emma, surge à primeira vista e avança como qualquer outro. As cenas de sexo são fortes e bastante excitantes, mas fiquei com a impressão de que a reiteração delas não acrescenta muito ao todo. AZUL É A COR MAIS QUENTE é sobre a educação sentimental de Adèle, seu crescimento pessoal mediado por um grande amor. Antes que eu esqueça, assim como em O SEGREDO DO GRÃO, Kechiche utiliza exemplarmente a comida como alusão à herança familiar. Há muito mais o que falar do filme, inclusive certas relativizações, mas o espaço é curto. Independente dos superlativos utilizados para defini-lo (a meu ver, alguns muito justificados, outros nem tanto), AZUL É A COR MAIS QUENTE é obrigatório dentre os filmes em cartaz. Já dá até vontade de rever.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Avante, Manoel


"O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura" 

Manoel de Oliveira


Manoel de Oliveira completa hoje 105 anos. Não costumo registrar aqui no blog os aniversários, contudo é incontornável a longevidade e, mais que isso, a lucidez criativa desse cineasta cuja carreira começou em 1931, com o curta-metragem Douro, Faina Fluvial.

De seus filmes, vi apenas quatro. Não gosto de Um Filme Falado, essencialmente uma aula de geografia/história cansativa, e de Sempre Bela, sequência um tanto solene demais de A Bela da Tarde, de Buñuel. Gosto muito de O Estranho Caso de Angélica e de Singularidades de Uma Rapariga Loura. Aliás, duas obras-primas.

De qualquer maneira, há de se celebrar, tanto a expressiva idade de Manoel, quanto a incessante vitalidade de seu ímpeto criador.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Contrastes Humanos


Em busca de contrastes, o diretor John Sullivam parte numa jornada de conhecimento, despindo-se de vestes caras para enrolar-se em panos velhos que denotam pobreza. O filme de Preston Sturges, Contrastes Humanos, tem, então, como figura central esse diretor de cinema, homem à procura da realidade moradora longe dos palacetes aos quais está habituado. Ele quer fazer um filme engajado que mostre todas as mazelas do povo americano atingido pela grande depressão. Claro, consegue aval do estúdio empregador apenas com a condição de revestir tal jornada com a lona do circo midiático.

Não demora e notamos a “dificuldade” de levar tal intento a cabo, justo porque ele é seguido de perto pela caravana que documenta a viagem lhe oferecendo conforto quando bem entender. Numa lanchonete, com apenas 10 centavos no bolso, Sullivam recebe ajuda de uma desgostosa aspirante a atriz, que, tão logo ciente do segredo daquele falso mendigo, passa a o acompanhar, igualmente maltrapilha. Por mais que o casal tente continuar seu périplo quase franciscano pelo interior estadunidense, sempre acabam no trailer ou mesmo na mansão dele. Há algo os tragando para fora de toda encenação empreendida, o que acaba trazendo inevitável artificialismo à experiência. Os pobres de verdade não têm escape, já os ricos passando-se por eles podem parar quando cansarem da brincadeira.

Chegamos quase à seara do filme-tese em Contrastes Humanos, pois ele é conduzido por um viés crítico específico, julgamento não tão velado assim de artistas pseudo-engajados sem vivências que fundamentem e legitimem eventuais investigações das classes menos favorecidas. Essa “hipocrisia” emerge nas voltas de Sullivam ao aconchego e na “verdade” que alcançará tão e somente depois de viver situação limite, daquelas definidoras de uma vida. Ali ocorre a edificação do novo homem e, por que não, de um entendedor dos inúmeros caminhos percorridos por sua arte para alcançar relevância. O final solar não é apenas convenção, mas, sobretudo, recompensa ao protagonista por transpassar a fase essencial de aprendizado.

Relativamente bem-humorado (algumas gags soam desajeitadas), Contrastes Humanos propõe-se ilustrar uma visão ofertada pelo posicionamento nada indulgente de Sturges frente a seu próprio ofício e colegas de profissão. Como todo bom cinema, apresenta ideias, ainda que peque pela falta de sutileza ao induzir o desfecho feliz. Fica a cargo do espectador mais ligado estabelecer ou não concordância com as opiniões defendidas no filme. Mesmo assim, Contrastes Humanos traz relevante contribuição para o diálogo entre artistas e formas de construção cinematográfica, bem como às possibilidades de ressonância do cinema no público, tudo isso embalado numa narrativa clássica, ritmada bem à moda das boas tramas do cinemão americano de antigamente.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

domingo, 1 de dezembro de 2013

De Olhos Bem Fechados


De Olhos Bem Fechados (1999) é o testamento cinematográfico de Stanley Kubrick, ele que foi um dos mais importantes diretores da história. Recebido na época com desconfiança, sinal de declínio para muitos, todavia o longa é bastante afinado com as obsessões recursivas de seu criador, homem crente, por exemplo, na exaustão como caminho para algo próximo do perfeito. O protagonista, incialmente do conto Traumnovelle, de Arthur Schnitzler, no qual o filme foi baseado, é Bill (Tom Cruise), bem-sucedido médico nova-iorquino. Após festa onde tanto ele quanto a esposa, Alice (Nicole Kidman), flertam entre a inocência e o perigo com pretendentes aleatórios, fato a princípio sem maiores danos, Bill se vê confrontado pela quebra da confiança na mulher, onde alicerçava a segurança de sua vida.

Alice não traiu seu marido, não dormiu com alguém, apenas admitiu, sob o efeito da erva, ter idealizado relação com desconhecido marinheiro numa das viagens do casal. Ora, sabemos, a fantasia passa muitas vezes ao largo da vontade/necessidade de concretização, mas para Bill tal “confissão” surge como indicativo da força sexual da esposa, com a qual não parece lidar muito bem. Passa, então, a ser atormentado frente a ideia de Alice ser possuída por outro no terreno entre a lascívia e a imoralidade. Assim, abalado, ele sai para atender chamado profissional na madrugada (véspera de Natal) em que será cortejado pela filha do paciente recém-falecido, quase consumará sexo com prostituta e acabará, antes de voltar para casa, num ritual misterioso. Para Bill, só é permitido entrar nas vertentes de seu próprio desejo a partir do instante em que constata a suposta independência sexual de Alice. Se ela pode, ele não? Vendeta pura.

Como num pesadelo repleto de estágios, mais real e ordinário que nós mesmos podemos conceber num primeiro momento, Bill adentra na tal cerimônia orgiástica em meio a pessoas fantasiadas e mulheres submissas ao prazer alheio. A atmosfera onírica proposta por Kubrick é calcada na construção imagética e no expressivo aporte dramático da trilha sonora, elementos que nos transportam - assim como ao protagonista - quase à realidade paralela onde o desejo não vê barreiras e manifesta-se de maneira primitiva. Bill presencia cenas de sexo desobedientes dos códigos sociais vigorantes, homens e mulheres ocultos deliciando-se ao ver ou “consumir” vestais igualmente mascaradas. Algo mais libertador que dar vazão aos anseios recônditos sem qualquer culpa, pois na ignorância?

De Olhos Bem Fechados é digno do gênio responsável por outras obras inesquecíveis como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Laranja Mecânica, Nascido para Matar, Glória feita de Sangue, etc. Investindo fundo na psicologia de seus personagens, Kubrick subverte, também, o papel da celebridade ao escalar para seu derradeiro filme o casal queridinho da época, trazendo suas figuras (diegéticas ou não) para o espectro comum. Assim sendo, não são nada aleatórias as cenas iniciais (Kidman inclusive urina banalmente de porta aberta) atentas à “humanidade” longe da idealização sobre abastados da Big Apple e astros de cinema. Especulações acerca da inspiração maçônica para o ritual visto no filme ficam em segundo plano quando se percebe a real intenção de Kubrick: explorar as complexas vias pelas quais o desejo escoa do nascedouro até a superfície. No final, a culpa evidenciada por meio do choque entre o objeto do “pecado” e o da paixão serve como desculpa para o homem confessar suas falhas em busca de absolvição. Bill e Alice seguem em frente, não sem sequelas, mas saltando pactualmente sobre neuroses e obsessões, uma vez conscientes de sua primal fragilidade. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

TOP5 - Episódios de Chaves

O TOP5 desta semana foi feito por Leonardo Ribeiro, assim como eu, um fã inveterado de Chaves, Chapolin e Cia. Nele, cinco episódios clássicos de Chaves, série que atravessa gerações entretendo crianças, jovens e adultos.
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1 – Chaves em Acapulco (Vamos Todos a Acapulco – Parte 1 / Os Farofeiros – Partes 1 e 2
Episódio marcante por ser um dos raros (e melhores) momentos em que a turma deixa a Vila. Uma história que começa com Chiquinha e Seu Madruga ganhando uma viagem para Acapulco e termina com toda a turma no Guarujá! O final, ao som Boa Noite Vizinhança, é clássico. 



2 – Seu Madruga Professor (O Primeiro Dia de Aula – Partes 1 e 2
Os episódios passados na escola sempre estiveram entre os preferidos do público. Em meio a tantos, um dos melhores é o episódio em que Seu Madruga assume o comando da aula, explicando o significado do símbolo da caveira: PRE-RI-GO! Uma atuação antológica de Ramón Valdés! 



3- O filme do Pelé! (Vamos ao Cinema?
Outro episódio em que os personagens saem da Vila, dessa vez para irem ao cinema, gerando a revolta de Chaves e sua frase clássica: “Era melhor ter ido ver o filme do Pelé”! Episódio também de importância história, pois é o primeiro sem Carlos Villagrán, o Quico. Curiosidade: o filme que Chaves realmente queria ver era “El Chanfle”, longa escrito e dirigido por Roberto Gómez Bolaños. 


4- O Gato ou o Quico? (O Julgamento do Chaves – Partes 1 e 2
Chaves é acusado de atropelar o gato do Quico. Para resolver o problema, Seu Madruga sugere um julgamento, como nos filmes do “Pede Mais Um” (Perry Mason). A sequência do “tribunal”, com Prof. Girafales de juiz e Seu Madruga de advogado de defesa é hilária, gerando outra frase icônica da série (O Gato ou o Quico?) e com direito até a reviravolta final! 


5- O senhor não vai morrer, vão matar o senhor! (A Morte do Seu Madruga) 
Chiquinha resolve fazer uma festa surpresa para seu pai com a ajuda de todos da Vila, menos do Chaves, que acaba confundindo as coisas e achando que todos preparam um plano para matar o Seu Madruga. Novamente, Ramón Valdés rouba a cena, como na sequência inesquecível em que se olha no espelho e vê uma caveira!



domingo, 24 de novembro de 2013

CINEMA A DOIS | OS DAVIDS - Império dos Sonhos e Senhores do Crime


Em 2006, quando Império dos Sonhos foi lançado, muita gente se sentiu enganada, incluindo aí alguns fãs fervorosos de David Lynch. A controvérsia gerada não é gratuita, afinal de contas dá para dizer: esse é um dos filmes mais delirantes feitos nos últimos anos. Inclassificável, indecifrável, fraude, engodo, o que seria Império dos Sonhos? Para começar, ele radicaliza os processos narrativos de Cidade dos Sonhos, seu antecessor. Se na trama iniciada nas sinuosas curvas da Mulhohand Drive o onírico carrega o drama em dois tempos bastante distintos, cuja comunicação já se dá mais por meio dos vários vieses interpretativos, do que por qualquer concretude, aqui a sensação de confusão é bastante amplificada, pois, para começar, não são apenas duas “realidades”, mas múltiplas camadas imbricadas, estas ora contradizendo, ora afirmando umas as outras.

Algumas coisas soam gratuitas em Império dos Sonhos, dando insumos aos detratores de Lynch para reforçar a ideia de engodo. Mas se mergulharmos nem que seja um pouco no delírio do diretor, talvez consigamos pistas. A mulher que acompanha os acontecimentos pela televisão pode ser nosso elo com a “realidade”. A TV, quiçá veículo das projeções de seu inconsciente, é moldura por onde vemos a personagem que supostamente “criou” para lhe representar num mundo ideal, onde ela seria famosa, bem sucedida, disputada por dois homens (inclusive o marido, zeloso ao extremo, diferente do seu “real”, estagnado), e ainda as referências a um possível passado de prostituição na Polônia. Hipóteses, apenas hipóteses.

Por sua vez, a famigerada sitcom de coelhos parece figurar apenas como pontuação do ridículo, pois alude ao cotidiano de uma família americana classe média, com jargões e seu respectivo “público” pronto para gargalhar de qualquer coisa. Império dos Sonhos é um filme difícil de ver, longo e pesado. Em meio a tanta incerteza e falta de chão, fica o enigma por solucionar ou curtir sem ambicionar a resolução. Claro, há também os que torcem quadro após quadro para o filme (e o martírio) acabar.

Antes mesmo de Senhores do Crime, o duo Viggo Mortensen/David Cronenberg já havia provado, em 2005, que daria muito certo, com Marcas da Violência, filme igualmente voltado à brutalidade dos homens, à capacidade do ser humano de desvirtuar-se visando poder. Tão violentos quanto inteligentes, tão crus quanto profundos, ambos os longas revelam a porção realista e convencional às quais Cronenberg parece ter se rendido, é claro, sem deixar de lado o estilo metafórico e biológico-humano.

Entre mistérios e paixões (sem trocadilhos), Senhores do Crime conta a história de Anna, parteira que presencia a morte de uma jovem, justo durante trabalho de parto. Ao revelar a noticia para a família, a moça acaba descobrindo o que acontecia por trás de tudo aquilo, os meandros escusos sob o véu da aparente normalidade. Ali, onde as leis do submundo emergem para dominar a superfície, ela conhece Nikolai, homem misterioso e soturno que, aos poucos, se revela um típico personagem cronenberguiano. Aliás, incrível atuação de Viggo Mortensen!

Se com Império dos Sonhos David Lynch polarizou opiniões, mesmo entre seus “seguidores” mais xiitas, estes divididos entre as qualidades do longa e a presença excessiva de elementos cifrados, Cronenberg com Senhores do Crime não apenas apresentou um dos filmes mais incisivos e violentos de sua carreira, mas também reafirmou a curva criativa iniciada com Marcas da Violência, assim angariando novos públicos, além dos seus fãs afeitos a metamorfoses e às transformações (físicas e psicológicas) antes apresentadas de maneira mais explícita. 

A respeito dos filmes e da relação dos mesmos com a obra de seus criadores, podemos dizer que enquanto Cronenberg rumou ao amadurecimento, Lynch deu passos à radicalização perigosa e restritiva de seu cinema.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

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IMPÉRIO DOS SONHOS – Por Lai King Wu 
Associe os coelhos que aparecem em Império dos Sonhos à ilusão, pois eles são animais utilizados em mágicas, aparecendo dentro das cartolas. Portanto, para mim, foi o filme mais difícil de ser decifrado e o único que me deu medo. Laura Dern está maravilhosa, o tempo todo é como se estivesse possuída por algum espirito. Obra-prima incompreensível, incoerente, um pesadelo onde os personagens se comunicam através de códigos, um labirinto caótico e cheio de espelhos. Eu digo espelhos, pois sinto que, no fundo, possuímos um filme do Lynch dentro de nós, havendo um reflexo nosso nas histórias distorcidas que são contadas.

Império dos Sonhos foi o único filme que me fez ver também conferir os extras. Eu nunca vejo. E lembro que, em algum momento, comecei a confundir o filme com Cidade dos Sonhos. Ainda acho Império dos Sonhos bem mais complexo.

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SENHORES DO CRIMEPor Bianca Siqueira 
David Cronenberg me fez lembrar os heróis de outrora, onde máscaras e disfarces davam conta da segurança da localidade. Eles se misturavam com a rotina das pessoas e ali podiam ver as mazelas sociais e afastá-las. Aqui, em Senhores do Crime, este personagem veste o disfarce e se mistura a máfia para desvendar seus domínios. 
O roteiro de Cronenberg destaca uma adolescente em trabalho de parto e o nascimento da sua filha. A partir deste fato nos deparamos com a exploração sexual de menores e homicídios praticados por esta organização que detém poder econômico, e aparente harmonia familiar. Estes símbolos de projeção social desenham as bases do poder paralelo para um cotidiano perverso. As interações promovidas pela máfia se projetam e contaminam valores fundamentais da cultura local. O nascimento e a morte, por exemplo, são apenas estatísticas, pois o verdadeiro significado destes bens é ditado pelas necessidades desta organização. 
Símbolos importantes para a igreja, como a cruz, a águia de duas cabeças, são apropriados pelos integrantes do grupo para que entre eles se faça a comunicação desejada.  Outros símbolos bem mais sutis e bem, mais difíceis de serem retratados, também são cooptados e transmitidos de forma singular. É nesta dinâmica que Cronenberg nos permite um interlocutor infiltrado esclarecendo as articulações mantenedoras desse poder.