sábado, 11 de dezembro de 2010

A bem-vinda incorreção de Kick-Ass


Os filmes de super-herói tomaram de assalto a indústria americana de cinema nos últimos anos. Descoberto o filão e a máquina de fazer dinheiro, toda a engrenagem que movimenta financeiramente Hollywood se ajustou para seguir a direção do gosto popular, e até editoras de quadrinhos viraram estúdios, para poderem ganhar mais dinheiro com a galinha dos ovos de ouro que tinham em mãos. Alguns dos filmes desta tipologia são muito bons, a maioria nem tanto, mas como isto não é exclusividade dos heróis, e sim uma tendência triste de falta de criatividade, não iremos utilizar este argumento para minimizar os filmes do novo gênero.

Quando surgiu, Kick-Ass - Quebrando Tudo, baseado numa HQ que virou cult onde foi publicada, foi apontado por uma parte da crítica como sendo algo de reveladora importância, como se a história, cheia de sangue e incorreção, do menino que quer virar herói mesmo que não possua poder algum, fosse um tipo de evolução, ou mesmo a prova de que tendência violenta/sombria (lembram-se do alarido em torno de Batman - O Cavaleiro das Trevas?) estaria agradando ao público mais do que os valorosos e limpinhos antigos faróis da boa conduta. A crítica, principalmente a americana, gosta de pregar umas peças, de alçar alguns cineastas ou filmes a panteões que de direito não lhes pertencem. No caso de Kick-Ass - Quebrando Tudo, a crítica exagerou, concordo, não há nada que justifique demais este alvoroço, mas que é um filme divertidíssimo, ah isto é.

Dave quer ser herói, mas não perdemos muito tempo com explicações filosóficas para a gênese desta vontade. Ele quer e pronto. Compra uma roupa na internet e sai querendo fazer a coisa certa. É claro, se arrebenta, e logo percebe que não depende só de querer, mas de poder. Em seu caminho, ele encontra pessoas que, tampouco dotadas de poderes, lutam contra o crime, só que por vingança. Entram em cena então, Big Daddy e Hit Girl, a dupla que representa um ponto que me agrada muito em Kick-Ass - Quebrando Tudo: a falta de correção. Ok, dirão os detratores, é tudo da HQ, não é original, mas pensem em mostrar na tela uma menina de 11 anos decapitado pessoas, arrancando membros, assassinando a sangue frio, e agora vislumbrem o embate destas imagens com aquelas associações carolas que vivem buscando o pomo da discórdia, e castram as criações pelo bem da “moral e dos bons costumes”. Se o filme não fosse feito com financiamento independente, e se as exibições prévias e marketing preliminar não tivessem despertado no público a vontade de vê-lo no circuito, provavelmente Kick-Ass - Quebrando Tudo nunca teria saído das páginas da história originalmente concebida por Mark Millar e John Romita Jr.

Kick-Ass - Quebrando Tudo é sangue, personagens arquetípicos, citações pop, trilha sonora inspirada (em alguns momentos, especialmente inspirada), e uma direção muito segura de Mattew Vaughn. Impagável a interpretação de Nicolas Cage (fã inveterado de quadrinhos) como Big Daddy, fazendo referência a Adam West, o ator que envergou a capa de Batman no seriado televisivo sessentista. Aliás, o elenco está ótimo, e me cobrem no futuro se Aaron Johnson não será o novo queridinho de Hollywood, enquanto a preciosidade chamada Chloë Moretz será uma das mais interessantes atrizes de sua geração.  

Kick-Ass - Quebrando Tudo é o que promete: diversão, violência, que de tão absurda e recorrente vira elemento quase cômico, e uma boa dose de profundidade, se formos analisar as histórias familiares: a do homem que busca vingança, nem que para isto precise transformar a filha numa máquina de guerra, ou a do filho que faz de tudo para ficar ao lado do pai, nem para que isso precise virar um bandido. Kick-Ass - Quebrando Tudo não vai mudar os rumos do cinema, nem mesmo do gênero no qual está inserido, mas que é um entretenimento empolgante, antenado com a época em que foi realizado (atentem para a internet, quase personagem do filme) e com alguns momentos emocionantes (sim, eu derramei algumas lágrimas), não há como negar. Entretenimento sim, assumido e confesso, e por que passar o tempo, se entreter, com algumas porcarias vistas por aí, quando podemos nos envolver com uma narrativa absurdamente divertida como a de Kick-Ass - Quebrando Tudo?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entrevista: David Fincher fala sobre "A Rede Social"


Entrevista realizada por David Jenkins (Time Out Sidney)
Tradução: Conrado Heoli

David Fincher atingiu algo com "A Rede Social" - e ele sabe disso. Seu vivaz estudo sobre a gênese do Facebook funciona como uma versão pontocom de O Grande Gatsby, com diálogos rápidos que remetem às comédias screwball dos anos 40. É um filme muito diferente daquilo que poderíamos esperar vindo do homem por trás de "Clube da Luta", "O Curioso Caso de Benjamin Button" e "Zodíaco", embora ainda seja centrado em um personagem - o milionário miserável co-fundador do Facebook, Mark Zuckenberg - que, ao contrário de seus maiores esforços, é incapaz de encontrar a felicidade através da construção de conexões humanas. O Time Out encontrou com o diretor, de 48 anos, em Paris, onde ele se apresentou com um bom humor enquanto fazia uma pausa antes das filmagens de "Os Homens que não Amavam as Mulheres", quando irá para o norte da Suécia.

Time Out Sidney: Por que fazer um filme sobre Mark Zuckerberg?
David Fincher: Ele é facinante, ele é vulnerável, ele é esperto e ele é incrivelmente intolerante. Ninguém chegou até mim e disse "Você gosta de Mark Zuckerberg?". Eles disseram "Nós temos um roteiro realmente ótimo, você gostaria de ler?". Mas este é Zuckerberg enquanto escrito por Aaron Sorkin, pois eu preciso afirmar que não o conheci, apenas o observei à distância.

TOS: Você se identifica com ele?
DF: Eu me identifico com quase todos os personagens do filme. Enquanto diretor, eu não sinto que devo me identificar com os meus personagens como um requisito para se fazer um filme.

TOS: Você acha importante que Zuckerberg não seja um personagem fácil de se gostar rapidamente?
DF: Olha, eu não sou um assistente de desenvolvimento que é serviçal do estúdio: muitas vezes as pessoas gostam de personagens que precisam ser amados ou admirados. Eu gosto desses personagens. Eu gosto de Jake LaMotta. Eu gosto de Travis Bicke. Eu até gosto de Rupert Pupkin. Eu gosto de personagens que não mudam, que não aprendem com seus erros. Charles Foster Kane era um garoto mimado de oito anos com um trenó, então ele se tornou um homem mimado de 76 anos que cresceu em seus últimos momentos na Terra. Mas ele não mudou. Se eu estou tentando separar você da sua carteira, então eu tenho que me preocupar se você irá gostar do que está vendo? Eu não faço isso. Eu gosto de pessoas que pensam "Foda-se!".

TOS: Você tentou fazer contato com Mark Zuckerberg?
DF: Quando me envolvi, o produtor Scott Rudin teve sua última discussão oficial com o Facebook e seus sócios. Eles tinham uma dúzia de requerimentos para a participação deles, e as duas primeiras eram: o filme não pode se passar em Harvard e você não pode chamar ele de Facebook. Então, Rudin, que não é um cara burro, apenas disse que aquelas discussões não precisariam ir adiante: nós faremos um filme sobre o processo, enquanto as deposições forem todas públicas e nós podemos juntar deles o drama que precisamos para fazer nosso filme.

TOS: Algum representante do Facebook foi convidado para ver o filme finalizado?
DF: Houve um contingente do Facebook Legal e do Facebook Corporate Communications que viu o filme, mas eu não sei as especificidades daquilo e eu não estive na sessão.

TOS: O que eles acharam?
DF: Novamente, eu não estive lá, mas foi relatado para mim pela pessoa responsável pela entrega do filme nessa sessão que eles estavam... apropriadamente chocados.

TOS: O filme foi lançado através de uma campanha de marketing bastante esperta.
DF: Sim, mas o problema com a campanha de divulgação foi que você não pode apenas dizer "Punk, gênio, bilionário" já que você está usando aquele flash narcisista da MTV para pegar crianças interessadas. Eu quis incluir "Judas", ou "traidor", porque você deve ter uma palavra ruim lá. "Punk, gênio, bilionário" é basicamente um boquete gigante.

TOS: Os diálogos do início do filme são extremamente rápidos.
DF: A primeira cena de um filme deve ensinar a audiência como o assistir. Eu tinha um contrato para 2 horas e 19 minutos. Eu tive um corte final de 2 horas e 19 minutos. Enquanto eu pudesse fazer o filme nesse tempo, eu poderia fazer qualquer merda que quisesse. Eu segurei esse roteiro de 166 páginas em minhas mãos, então peguei as primeiras nove páginas, entreguei para Aaron Sorkin e disse: "fale". Ele fez isso e foi engraçado, isso iria prender as pessoas, e você sabe o quê? Não irá começar com a tela preta como está escrito. Eles vão começar a falar sobre o maldito logo da Columbia Pictures! Se eu pudesse colocar as falas iniciais e diálogos sobre um trailer, eu teria feito isso. É um momento "cala-esta-maldita-boca": preste atenção, ou você perderá um monte.

TOS: Uma coisa que você disse sobre "A Rede Social" é que você temeu que as pessoas o vissem como um filme sem muito valor.
DF: É irrefletido, com certeza, mas nós estamos falando sobre um monte de grandes noções. Mas sim, quando eu vi o primeiro corte, eu pensei que era um pouco sem valor. Para mim, era uma interessante pílula amarga, e você precisaria de muitas colheres cheias de açúcar para o engolir. Mas eu não quis o açúcar para atrapalhar a grande tristeza no final do filme. Com "Benjamin Button", a maior preocupação era que ele fosse sentimental demais. Eu sinto que esta é a real versão deste filme. Mas eu gosto de me preocupar. Eu estive preocupado que "Seven" e "Clube da Luta" não fossem violentos o suficiente, então...

TOS: O filme está atraindo referências com diversos grandes filmes e livros, assim como Macbeth, O Grande Gatsby, Cidadão Kane. Você estava considerando alguma dessas referências com as quais você foi elogiado?
DF: Alguém me perguntou qual era minha intenção com este filme, e eu disse - muito alegremente - que eu queria fazer o Cidadão Kane dos filmes de John Hughes. Nós estamos falando de um filme sobre uma idade crescente que é também o reflexo dos últimos quatro anos de uma vida de 26 anos. Esta é a comicidade da era da informação. Algo que eu penso é que um dia na vida de uma baleia azul é diferente de um dia na vida de uma mosca.

TOS: Este é seu filme mais falante. Como um diretor reconhecido por seu senso visual distinto, você se divertiu esculpindo palavras e performances?
DF: Houveram duas coisas sobre as quais eu fui responsável. Uma foi estar ou não apresentando um comportamento crível, o que é totalmente subjetivo. A outra coisa que eu tive era a posição da câmera: de onde eu vou olhar para esta pessoa? Algumas pessoas pensam que dirigir é como O Grande Circo: sim, 90% de dirigir é pegar o dinheiro e escolher o equipamento adequado, as pessoas corretas e os departamentos certos para criar o sentimento adequado dentro do contexto correto. No cinema, nós esculpimos o tempo, esculpimos o comportamento e esculpimos a luz. O público apenas vê o que mostramos a ele e nesse momento eu controlo tudo o que eles vêem e ouvem. Eu estou torcendo para que esses elementos se traduzam em sentimento. Foi Louis B. Mayer que disse "O genial do ofício do cinema é que a única coisa que o freguês recebe é uma memória.". É isso o que dirigir é.


Leia a análise crítica feita por Marcelo Müller para o filme "A Rede Social" clicando aqui.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Vida dos Peixes

E se...? Talvez não exista uma interjeição mais infeliz tão utilizada quanto esta. Três letras que, quando combinadas, geram uma infinidade de sensações. Um misto de incerteza, nostalgia, aflição e indefinições nasce quando a questão é o que poderia ter sido se nossas escolhas fossem outras. As suposições intrínsecas ao “e se...?” são o tema no novo drama de Matías Bize, “A Vida dos Peixes”, onde um casal desfeito há anos se reencontra e toda a complexa teia de sentimentos que um possuía pelo outro volta a tona.

Começamos “A Vida dos Peixes” ao lado de Andrés e alguns amigos em uma festa de aniversário. As piadas e o clima de descontração são abandonados quando se revela ao espectador que Andrés está voltando para a Alemanha, e que sua rápida visita após 10 anos afastado está no fim. Andrés então é informado que Bea, uma antiga namorada, chegará logo. Decidido a evitar o possível conflito emocional do encontro, decide ir embora - quando já é tarde demais.

A partir daí acompanhamos o passado de Andrés sendo remontado em pequenas ações, diálogos pouco esclarecedores e muitas suposições por parte do espectador. Seu encontro com antigos amigos e todas as pessoas que habitaram seu universo há tanto tempo, assim como as vivências de um passado que não poderia estar mais presente, tornam a experiência com “A Vida dos Peixes” um exercício triste e nostálgico para com um mundo que não é o de quem assiste, mas que inevitavelmente passa a ser.

Não se deve revelar muito - ou o pouco que é dito - sobre Bea e Andrés. É um sôfrego prazer acompanhar como voyeur a complicada trama de relações que são ressuscitadas nesse reencontro. Eles são como os peixes que observam em um aquário, numa das mais belas cenas do filme. São expostos em uma redoma e seguem ocupando os espaços vazios do ambiente, nitidamente emanando o mistério que os mantêm absortos no local e em suas funções.

Enquanto revela cada pedaço da vida de seu protagonista, Bize e sua competente diretora de fotografia, Bárbara Álvarez (a mesma de “A Mulher sem Cabeça”), inserem em seus enquadramentos elementos sobrepostos em planos distintos – ora são luzes, objetos e até mesmo pessoas. Tal artifício passa a se justificar cada vez que ele se torna menos recorrente, quando se entende seu tom simbólico, que representa a história de Andrés ficando clara para o espectador – assim como a bela mise-en-scène do filme.

Filmes de retorno são comuns, mas poucos atingem a densidade e melancolia deste “A Vida dos Peixes”. Os recentes “Tudo Acontece em Elizabethtown” e “Hora de Voltar” rivalizam em tema com o filme de Matías Bize, mas ambos seguem através de uma perspectiva mais leve e cômica. No drama chileno, cada sequência é necessária para se construir uma imagem sobre seu protagonista, para que se entenda o motivo pelo qual sua volta é tão pesada e incômoda para si, ainda que agrade todos à sua volta.

Fica evidente a maturidade de Matías Bize como diretor e roteirista, capaz do difícil feito de substituir uma verborragia explicativa em diálogos excessivos por longos silêncios. Um realizador competente, como Bize aqui se mostra, tem a capacidade de escrever com a câmera, de mostrar que a contenção de recursos, simplicidade e naturalidade podem ser melhores que quaisquer aparatos técnicos e artifícios megalomaníacos. Bize ainda deve muito ao seu duo de protagonistas, dois maravilhosos atores que encontram na expressão e controle o tom certo para seus difíceis personagens. São eles: Blanca Lewin, que já trabalhou com o diretor no inferior “Na Cama”, e Santiago Cabrera, que é conhecido internacionalmente pelo personagem Isaac Mendez, da série “Heroes”.

E em dado momento do filme percebe-se que Andrés não consegue ir embora. São inúmeras as vezes que ele se aproxima da saída, ou que se despede de alguém dizendo que está indo, e que um magnetismo invisível o mantém preso ao lugar. Nesse ponto, “A Vida dos Peixes” lembra o magnífico “Os Famosos e os Duendes da Morte” - sensação reforçada por sua cena final. Há uma redenção, ou a libertação do personagem? Assim como em todo o filme, apenas a suposição pode nos fornecer as respostas – exatamente como acontece com Andrés e Bea.


sábado, 4 de dezembro de 2010

A Rede Social e o isolamento entre milhões


A Rede Social é um filme ágil. A analogia com os tempos internéticos em que vivemos, onde somos constantemente obrigados a assimilar o maior número possível de informações, num espaço cada vez mais reduzido de tempo, fica explícita pela forma como o diretor David Fincher conduz a narrativa, que se propõe a esmiuçar os controversos bastidores da gênese da maior rede social do mundo, e uma das empresas que mais se valoriza: o Facebook. Marc Zuckerberg era estudante de Harvard quando conheceu o brasileiro Eduardo Saverin e os gêmeos que queriam fazer um aplicativo social para unir virtualmente os estudantes da faculdade. Entre tentativas frustradas de se tornar popular, de fazer parte de final clubs, de sociedades excludentes, de irmandades hermeticamente fechadas que lhe conferissem status, Zuckerberg, um gênio, se aproveitou de algumas ideias, um que outro lance de sorte, a iluminação vinda de alguém, e juntou com sua capacidade incrível para programação, ainda contando com uma pitada de falta de escrúpulos e alienação, para acertar em cheio e se transformar no mais jovem bilionário do mundo..

Dizem alguns que A Rede Social é o Cidadão Kane da geração internet. Não é exagerado, até por que ambos os filmes versam sobre poderosas e controversas figuras que venceram (ou seria, perderam?) capitalizando para si importantes veículos, cada qual referente à sua época: no caso de Kane, a imprensa escrita, no caso de Zuckerberg, a internet. Pode-se então, dizer que, pelo menos no que tange ao entorno social, Zuckerberg é sim o nosso contemporâneo equivalente a Charles Foster Kane. Sua persona é vista com uma complexidade que enche a nós, espectadores, de dúvidas quanto a quantidade de vilania que existe neste solitário, e quanto de problemático existe na vida deste rapaz que passa por cima de leis e amizades, em busca de algo, algo que, aliás, todos buscamos: aceitação.

A forma como Fincher desvela personagens é um dos muitos acertos do filme. Tanto Zuckerberg como a maioria dos envolvidos na gestação e nascimento do Facebook, são vistos sob diversos ângulos, que nos permitem, senão simpatia total, uma reflexão a posteriori sobre suas reais contribuições para o todo. Sean Parker (interpretado com uma surpreendente segurança pelo cantor Justin Timberlake) é um dos pivôs da separação dos amigos Saverin e Zuckerberg, mas onde estaria o Facebook não fosse sua visão de negócios, meio inconsequente, meio arrojada? Saverin fez mesmo tudo que podia, se esforçou como deveria? Os gêmeos atléticos e com futuro garantido pela frente, mereciam mesmo crédito, e dinheiro, por suscitarem em Zuckerberg, vendo nele alguém que os pudesse ajudar, por conta do sucesso de seu aplicativo de comparação de mulheres, a ideia de uma rede social? Zuckerberg é um alienado, um carente, um canalha, arrogante, autista, meio maluco, ou todas as alternativas acima?

Além de habilidoso no trato de seus personagens, A Rede Social tem linguagem visual inventiva (a utilização de pouca profundidade de campo reforça o isolamento das figuras dramáticas, mesmo quando lidam com milhares de seguidores no reino virtual), ritmo acelerado (desaconselhado para pessoas que não conseguem absorver muita informação em pouco tempo), e uma opção pela alternância do tempo (que mostra as audiências de julgamento e conciliação entre as partes em litígio) que reforça o caráter multifacetado dos personagens que foram protagonistas deste imbróglio. Dizer que é um dos grandes filmes americanos do ano não seria exagero, nem mesmo que é um dos favoritos à algumas categorias em premiações importantes, como o Oscar (eu apostaria em Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator Coadjuvante para Andrew Garfield, outra gratíssima surpresa, e, por que não, Melhor Ator para Jesse Eisenberg).

David Fincher conseguiu mais uma vez, acertou em cheio, não se rendendo às tentações de uma história que, em mãos menos habilidosas, poderia render um filme apenas sobre intrigas no mundo corporativo, mas que nas dele se transformou em algo maior, com muitas linhas de abrangência e significação. Por fim, se Zuckerberg é nosso Kane, e no personagem de Welles temos o mistério de Rosebud, que se revela depois como sendo uma lembrança de infância que afetivamente o persegue, em A Rede Social o “rosebud” de Zuckerberg é mais vivo, mais independente, mas ainda assim ligado a algo que ele perdeu, ou que nunca conseguiu conquistar. Se a Kane não restam escolhas, a Zuckerberg falta, no final, coragem para testar a aceitação de quem se tornou, não só fardo emocional, mas exemplo de que nem todos nós somos suscetíveis a fama, dinheiro ou qualquer outro fator de deslumbramento. Filmaço.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Kinatay e o culto aos gênios fabricados


A crítica de cinema parece viver constantemente em busca de um novo gênio, de um olhar que seja diferente, que fuja da mesmice atual que muitos gostam de relacionar a centenária arte do cinema. Reducionismos à parte, esta busca é sintomática, pois revela uma necessidade, mais da imprensa cultural do que precisamente de quem está preocupado com o presente e o futuro do cinema, até por que cineastas alçados muito rapidamente ao panteão dos “gênios” são descartados com similar velocidade, para darem lugar ao próximo, neste círculo vicioso. Exemplo: o homem da vez é o vencedor da última Palma de Ouro, Apichatpong Weerasethakul, incensado como se fosse uma lufada solitária de originalidade, por seu cinema metafórico, lúdico e cheio de símbolos. Concordâncias ou discordâncias à parte (pauta para um novo post), não demorará muito para que o tailandês dê lugar ao próximo, feliz ou infelizmente. 

Há alguns anos, o filipino Brillante Mendoza era o homem da vez, o emergente que salvaria o cinema do “monstro do conformismo e da gula mercadológica de Hollywood”. Resolvi, é claro, movido pelos elogios e pela curiosidade que eles despertaram em mim, assistir Kinatay, um de seus filmes mais controversos pelos olhos dos críticos que cobriram os festivais onde ele foi exibido. Não há como avaliar toda carreira apenas por um filme, mas o impacto, ou a falta de, que Kinatay causou em mim, provocou esta reflexão sobre  a necessidade que alguns têm de encontrar o novo “gênio do cinema”.

Dizer que Kinatay é ruim, seria fechar os olhos para as evidentes qualidades do filme. Ele inicia com um casamento (que me remete ao expediente de alguns filmes de Claude Chabrol), e depois enfoca o noivo em seu envolvimento com o crime local, na “missão” de acompanhar o corretivo dado pelo tráfico em alguém que não cumpriu seus pagamentos. Brillante trata da perda da ingenuidade do protagonista, por meio de seu olhar, testemunha de algo hediondo, que nunca mais será o mesmo. É como se o cineasta, num ideário pautado pela crítica social, fizesse da transição do momento de luminosidade e alegria (casamento) para os sombrios e tensos momentos do crime (o esquartejamento de uma prostituta), uma espécie de elegia a sociedade filipina, vítima de sua própria condição. O filme tem clima, é tenso e, em determinados momentos, passa esta tensão ao espectador.    

Aí chegam os problemas. Os planos de Mendoza soam artificiais, e a câmera na mão, onipresente, mais atrapalha do que ajuda. Mesmo quando procura nos chocar (por mais que negue esta procura), Brillante parece pudico, “cheio de dedos” em mostrar o que está acontecendo. O filme, ou melhor, as cenas de tortura e mutilação, ficam no meio termo entre o gore e o sugerido, não se decidindo por qual linha seguir. Mendoza foi aclamado por muitos como corajoso e inventivo, mas a rigor, seu filme, longe de ser ruim ou algo que o valha, é um exemplar até certo ponto comum, maquiado por algumas cenas mais fortes e pela linguagem documental que a câmera trepidante e inquieta tenta emular.

Brillante Mendoza tem talento, isto é inegável, e Kinatay me despertou curiosidade sobre seus outros filmes, mas irei vê-los, assim como vi este,  não como quem busca presenciar a gênese de uma revolução cinematográfica, mas com o olhar ciente de que no cinema, e em qualquer outra arte, são mais corriqueiros os ídolos fabricados, do que os gênios de fato e de direito.
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Ps.: Quando relacionei um aspecto de Kinatay a Chabrol, por conta da cena inicial do casamento, fiquei pensando se o fato de os casamentos de Chabrol serem envoltos em festas, com direito a bolo, celebração e tudo mais, e o mostrado no filme filipino ser tão precário, coletivo, comemorado de maneira informal em um restaurante, seria deliberadamente uma tentativa de reforçar o caráter miserável do entorno, por meio desta paralelização do cinema filipino (terceiro mundo) com o cinema francês (primeiro mundo). Seria um exemplo da eterna “síndrome do coitadinho”, que volta e meia permeia alguns registros da arte de países subdesenvolvidos? Fruto da minha cabeça? Pode ser.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Equilíbrio das Boas Opiniões


Entreguei-me de corpo e alma (e quando viu, lá se foi o primeiro clichê) à tarefa hercúlea de ler as edições fac-similares da revista Filme Cultura, tão importante instrumento de referência cinematográfica de outrora, que foi recentemente reativada, tendo este belíssimo lançamento (da versão fac-similar) como marco de reinício. São lindos livros, cada um dos cinco, compilando doze edições da revista, num texto miudinho, o que significa que as mais de 4000 páginas render-me-ão um bom tempo junto às personalidades nacionais do pensamento cinematográfico das décadas de 60 a 80, período em que a revista sobreviveu, passando pelas turbulentas eras em que o Brasil estava inserido, tanto no campo político como no social.

Tenho certeza de que tal leitura enriquecerá, e muito, minha percepção acerca de alguns filmes, ou mesmo de fenômenos ligados ao cinema, neste caso à guisa das épocas, no frescor dos acontecimentos, sob a jurisdição de quem era farol deste tipo de análise em idos tempos. Onde mais poderíamos encontrar uma entrevista de Stanley Kubrick quando do lançamento de 2001 Uma Odisséia no Espaço? Em período cibernético, não há de se duvidar de nada, mas em papel, sentindo o peso da edição e o contato com as palavras de maneira quase física, duvido muito que se tenha semelhante oportunidade.

Imagino que muitas leituras me levarão a reflexões, que se configurarão posteriormente em posts por aqui, em parte pela minha tendência ao devaneio, em outra por conseguir pinçar, entre um artigo e outro, entre uma análise fílmica e outra, algo que julgo merecer a atenção de quem por aqui se abastece de alguma forma. Algo que me chama a atenção no momento, é uma enquete realizada, paulatinamente a cada edição, sobre a visão dos críticos a respeito do Cinema Novo, o maior movimento (escola?) cinematográfico que o Brasil já gestou. Uma coisa é ter uma opinião agora, olhando retrospectivamente, buscando um contexto e, tendo visto os filmes, analisar o Cinema Novo e achar para ele um espaço na história mundial do cinema. Outro assunto é ler como estes críticos viam os cinemanovistas e suas obras, no calor de seus lançamentos, influenciados ainda pelo ambiente social da nação naqueles claudicantes tempos.

As opiniões, como costumam ser, independente do assunto, são as mais variadas possíveis, e são, também como de costume, geralmente extremadas. Há de se entender que o Cinema Novo sempre foi taxado “de esquerda”, por mostrar as mazelas do Brasil, os menos favorecidos, ao passo que demoniza o capitalismo, o fazendeiro, ou mesmo as relações opressoras de trabalho, que fazem do pobre cada vez mais pobre e do rico cada vez mais afortunado. Na época, e falamos da década de 60, o Brasil vivia um clima político muito acirrado, e este entorno certamente influenciava as opiniões acerca do Cinema Novo, conforme a posição política do analisador. Nota-se que alguns críticos acolhem o movimento, certamente por seus méritos, mas muito pela afinidade com esta visão de esquerda, sendo também o contrário verdadeiro, e certamente mais gritante, com os detratores sendo cegados às qualidades dos filmes inseridos no Cinema Novo, pelo simples fato de eles expressarem uma visão de mundo, de política mais precisamente, que ia de encontro com a sua. É mais ou menos o que se observou recentemente nas opiniões sobre Tropa de Elite, polarizadas entre gente que o achou fascista e gente que encontrou nele, além de signos cinematográficos interessantes, uma resposta aos anseios do povo, farto da não segurança das grandes metrópoles.

Nem todas as opiniões são extremadas, e é justamente nelas que me apego com mais vigor, quando delas me aproprio para construir minha própria, pois nestes julgamentos vejo o equilíbrio necessário para qualquer construção sadia e menos afetada. É certo que uma obra, e o cinema não é diferente, tem de ser vista por diversos ângulos, não só os que lhe são intrínsecos, mas também os que lhe fornecem base e elementos, mas há de se convir que quanto menos contaminada por questões que costumam cegar o homem (como posturas radicais, sejam elas políticas e religiosas, só para citar dois exemplos), mais qualificada será a opinião manifestada, pois dela se conseguirá extrair não só a análise em si, mas também uma visão plural, ampla, sem espaço para chapas brancas e painéis monocromáticos, sem que nela sejam vistos panfletos originários de olhares cansados e/ou pouco generosos.

domingo, 14 de novembro de 2010

Guerra dos Mundos - A Invasão sonora



Olá, caro amigo-leitor!

Depois de longo hiato sem comparecer de forma efetiva no blog, postando algo, mesmo com valor pequeno, aqui estou, não em carne e osso, como geralmente são as aparições naturais, as que tem sua origem no mundo em que vivemos, mas em ideias e reflexões que envolvem um assunto, ou melhor, uma realidade tão comum na contemporaneidade: a democracia sonora, a qual explode em expressão na onda de celulares com MP3.

Não é de hoje, contudo de pouco tempo passado, que os aparelhos celular têm na comunicação falada sua atratividade menos explorada, quando jogos, interatividade, câmeras fotográficas cada vez mais potentes e, por aí vai, usam da publicidade e de outros meios de divulgação no objetivo de gerar venda e lucro aos envolvidos. Tudo bem, não serei hipócrita e nem dissimulado, um aparelho que permita mais de uma função além da que intrinsecamente proporcionaria é louvável, porém quando o foco se estabelece no periférico, motiva justa reflexão.
Bom, talvez o que mais agrida minha individualidade, acredito que a de outros tantos semelhantes à pessoa que vos fala, é o MP3 sem fone, utilizado arbitrariamente como caixa de som. Diferente da atividade sonora ambiente, que, geralmente, condiz com a concepção do lugar onde escolhemos estar. Não, é uma salada de frutas sem o mínimo de coerência, indo de pagode, funk à música pop internacional mais rápido do que uma Ferrari em uma reta nula de obstáculos faria. O que essas pessoas possuem contra o fone?

A música é extremamente banalizada, sendo que na condição de arte, teria de atender uma necessidade individual ou coletiva, não simplesmente invadir nosso aparelho auditivo, a solicitação de licença inexistente. O ônibus é, indubitavelmente, o pior local, pois não há flexibilidade de escolha, onde nosso caminho vai de “A” à “C”, o que nos resta é engolir ou tentar ao menos distração, talvez utilizando ironicamente fones de ouvido, numa espécie de protesto calado, em relação ao indivíduo que nos acompanha até “B”. Quando este ponto chega, ai que alívio. Mas, logo outro ser disposto à invasão surgirá. Aguarde e verá. Ops, aguarde e ouvirá, mesmo sem o querer, no melhor estilo Alexandre, O Grande.

Até mais.