Do alto de seus 76 anos, esta semana, durante o Porto Alegre em Cena, Antônio Abujamra estreou mais uma peça, dirigindo e atuando. Começar a Terminar teve como seu segundo palco, hoje, o Teatro Pedro Parenti, da Casa da Cultura. A peça é uma declaração de amor do artista à um dos maiores dramaturgos do século XX, senão o maior, Samuel Beckett. Durante mais ou menos quarenta minutos, Abujamra conversa com o público se utilizando de alguns personagens clássicos do dramaturgo irlandês. Interagindo com dois personagens, um homem e uma mulher, que parecem saídos diretamente do imaginário daquele que foi um dos fundadores do teatro do absurdo, Abujamra transborda segurança e transmite à nós, espectadores, a força de um grande artista reverenciando a obra de outro grande artista. A encenação não se curva à linearidade ou mesmo ao entendimento, servindo sim ao pensamento por meio dos signos, atingindo um plano mais sensorial. A reflexão sobre o papel da arte e sua implicação cotidiana aparece, disfarçada no tom satírico, no deboche de um texto adaptado com intenções de mostrar que, ao entendermos a arte, possivelmente entendemos o que somos, para que servimos e, quem sabe, para onde vamos.domingo, 21 de setembro de 2008
Caxias em Cena: Começar a Terminar
Do alto de seus 76 anos, esta semana, durante o Porto Alegre em Cena, Antônio Abujamra estreou mais uma peça, dirigindo e atuando. Começar a Terminar teve como seu segundo palco, hoje, o Teatro Pedro Parenti, da Casa da Cultura. A peça é uma declaração de amor do artista à um dos maiores dramaturgos do século XX, senão o maior, Samuel Beckett. Durante mais ou menos quarenta minutos, Abujamra conversa com o público se utilizando de alguns personagens clássicos do dramaturgo irlandês. Interagindo com dois personagens, um homem e uma mulher, que parecem saídos diretamente do imaginário daquele que foi um dos fundadores do teatro do absurdo, Abujamra transborda segurança e transmite à nós, espectadores, a força de um grande artista reverenciando a obra de outro grande artista. A encenação não se curva à linearidade ou mesmo ao entendimento, servindo sim ao pensamento por meio dos signos, atingindo um plano mais sensorial. A reflexão sobre o papel da arte e sua implicação cotidiana aparece, disfarçada no tom satírico, no deboche de um texto adaptado com intenções de mostrar que, ao entendermos a arte, possivelmente entendemos o que somos, para que servimos e, quem sabe, para onde vamos.O Caderno de Rafael
José Saramago. Há um tempo diria ser um nome não estranho à minha memória, porém de cunho íntimo inexistente. Talvez até diria mesmo ser escritor, contudo a certeza não me acompanha em tal afirmação. Ano passado (2007), a disciplina “Laboratório de Criatividade” contava com a tarefa de resenhar um livro do autor português, O Homem Duplicado. Tendo em vista que minha curiosidade literária já se fazia presente e a busca pelo livro nas prateleiras da biblioteca universitária seria digna de gladiadores, resolvi comprar o livro, edição brasileira da Companhia das Letras. Sobre essa experiência nada mais relatarei, pois caso tenha lhe instigado por informações mais delineadas a respeito desse, segue link de minha autoria.Fã ardoroso. O que sou em relação a Saramago. Um exemplo de alguém que começou sua carreira literária tardiamente e de êxito singular, bem como a maneira que usa para se expressar. Fabuloso jeito com as palavras. Fiquei surpreso com a notícia de que as rugas de Saramago não o impediram de lançar um blog. Não apenas um blog, lança mão de estigmas próprios de pessoas de idades avançadas, que vêem na internet um estranho, avesso às suas ideologias. José Saramago usa desse para lidar com sua famigerada inquietação intelectual.
No post de abertura nos deparamos com texto de sua mulher, Pilar. Informa do término de um novo livro, para deleite dos fãs, A viagem do elefante, cujo trecho pode ser apreciado no endereço eletrônico do autor.
No link “O Caderno de Saramago” pode-se ler alguns textos do mestre português. O prazer das páginas de seus livros disponível agora, em escala menor e com objetivo diverso, na grande teia. Que Saramago continue tecendo seus pertinentes textos por muito tempo, seja na rede e, principalmente, nas páginas inebriantes de seus livros.
Crítica: Ben X - A Fase Final

Roteiro: Nic Balthazar
Elenco: Greg Timmermans, Laura Verliden, Marijke Pinoy, Pol Goossen.
“Para os seres atentos, o mundo é um só”.
Heráclito
Nunca se viu tempo onde essa frase fizesse maior sentido do que o presente, onde as tecnologias virtuais gradativamente proporcionam (ou causam?) mudanças de aspecto extraordinário em nossa sociedade.
Ben apenas é uma das muitas pessoas que, infelizes com a própria realidade, se apegam a esse mundo virtual deixando em segundo plano suas legítimas vivências. “Ben X” fala sobre Ben e seu grau de envolvimento com o jogo Archlord e os desdobramentos implicados pelo mesmo em seu cotidiano, somados com o que o torna ainda mais desigual perante aos outros: a síndrome de Asperger, uma espécie mais leve de autismo.
A premissa por si só, que já é genial, quando inserida no roteiro e direção visionários de Nic Balthazar é levada a proporções fantásticas. O roteiro de Balthazar é complexo, porém guiado de forma branda e muito bem resolvida. As questões levantadas por sua narrativa vão desde o amplamente discutido conceito da virtualidade contra a realidade até a abnegação do ser ao seu “eu - próprio”, quando sugere o descarnamento de Ben perante a ficcionalidade de seu jogo.
Greg Timmermans, o intérprete de Ben, desenvolve seu personagem de forma brilhante e coesa, e deixa em evidência juntamente com o trabalho de Balthazar as dificuldades enfrentadas por seu personagem, dada sua condição. Ben já seria um pária por viver fantasiando seu dia-a-dia, e isso somado à síndrome que o afeta gera incompreensão por parte de seus colegas de escola, o que provoca conseqüências extremamente lamentáveis.
Se for difícil para o espectador compreender as ações de Ben, basta analisar a febre que causa jogos como “Second Life” ou mesmo os semelhantes ao Archlord (que realmente existe), como “World of Warcraft” e “Ragnarok”. O jogador vive uma outra realidade e passa a se relacionar com outros jogadores, a fazer amigos e compartilhar experiências, porém muitas vezes sem nunca ver ou falar diretamente com a outra pessoa. Essa possibilidade muitas vezes causa o afastamento da pessoa de sua realidade, e com Ben isso é potencializado também por sua condição psicológica.
Em sua direção Balthazar se arrisca e inova, ao utilizar uma técnica chamada Machimina (híbrido de machine cinema, ou cinema maquínico), que consiste na utilização de atores criando interpretações para personagens virtuais do jogo Archlord. Toda a seqüência inicial de “Ben X” e diversas outras de grande importância para a trama são geradas através dessa técnica, o que em nenhum momento torna o filme enfadonho ou causa estranheza. Da forma com que são inseridos e dispostos na história, são de fundamental importância, como na cena onde Ben divaga sobre a facilidade com que um personagem pode ganhar os atributos físicos que seu criador desejar, enquanto se olha no espelho e analisa sua própria fisionomia, com certo desgosto. Uma outra opção do diretor que é acertada, a de trabalhar com depoimentos dos personagens secundários que vez ou outra interrompem sua narrativa, gera expectativa ao público que espera saber qual a utilidade de tais cenas para o filme. Se por vezes os comentários são repetitivos e o recurso não seja inovador, o todo e principalmente o desfecho da trama compensam essas pequenas seqüências.
O que assusta, e pode causar certas crises de consciência ao espectador de “Ben X” diz respeito à forma com que nós vivemos nossas realidades. Estou escrevendo esse texto fazendo o uso de uma tecnologia virtual, não palpável. E você leitor, faz parte da mesma realidade, lendo os mesmos escritos através desse meio cibernético. O filme aqui analisado, por mais que supostamente seja baseado em fatos, é irreal, fictício, assim como o cinema (salvando a produção documental, porém não em sua totalidade). Estaríamos por tanto vivendo um simulacro, onde o real fica em segundo plano pelo tempo necessário para que se viva a realidade de outrem.
Como se pode então criticar Ben ou outras pessoas por recusar o real e se apegar tanto no virtual sendo que nós próprios, aficionados a um meio em comum, o cinema, deixamos de lado nossa realidade para cultuar algo não concreto? Existem muitas teses que responderiam essa questão através de diversas perspectivas, porém não se faz necessário expressar minha opinião própria a respeito, já que cabe a cada um, quando o interesse existir, refletir sobre as razões que o faz despregar-se de seu “eu próprio” para viver o fascinante ficcional do cinema.
Texto publicado originalmente em: www.cineplayers.com
sábado, 20 de setembro de 2008
Caxias em Cena: Chalaça - A Peça

Chalaça – A Peça é uma adaptação feita pela Cia. Les Commediens Tropicales, de São Paulo, para o livro Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça, de José Roberto Torero. A peça tem por mote a família real brasileira, e/ou portuguesa, ou seja, aquela da nossa pátria mãe. Filha da mãe! Somos portanto, e invariavelmente, uma pátria filha-da-mãe, fato. A encenação fala, mais precisamente de Francisco Gomes da Silva, conhecido como Chalaça, figura interessantíssima de nossa história, chamado de A Sombra do Imperador, famoso também por ter apresentado Domitila, a futura amante de D. Pedro e Marquesa de Santos, ao nobre. Como isto não é uma aula de história (eu nem teria conhecimento para tanto), vamos à peça. A encenação começa com um pandemônio, os personagens correndo de um lado para o outro com suas cadeiras e figurinos ora discretos, ora extravagantes. A correria acaba, somente quando um dos personagens senta no centro do palco, com um microfone em sua frente e começa a falar, tal qual estivesse a dar um depoimento, melhor ainda, como se estivesse sendo interrogado sobre a sordidez que existia nas relações familiares reais e o envolvimento de Chalaça em todas estas. O tom começa mais sério, um pouco didático (natural em se tratando de história), mas, aos poucos, a comédia começa a tomar forma, uma forma inapelável, irresistível. Personagem vai, personagem vem, e numa dança das cadeiras muito bem pensada, acompanhada de palavreado erudito misturado com linguagem popular, vemos um pouquinho do nosso passado como colônia e, depois, como império se mostrando por meio das ações de Chalaça, que não aparece como personagem físico na peça, mas, torna-se tão palpável e rico como nenhum outro encenado. Não tenho aqui a pretensão de fazer um texto crítico (tal qual ocorre no caso da história, não tenho bagagem para isso, não sou um conhecedor profundo de teatro), mas devo dizer que Chalaça – A Peça marcou um dos momentos mais divertidos que já tive no teatro. A comicidade, o ótimo texto e a ousadia da companhia contribuem para que se tenha quase uma hora e meia da melhor e mais divertida aula (no melhor sentido da palavra) de história. Destaque para os momentos que são utilizados como transição, para dar uma revigorada na narrativa. Num destes momentos o joguete que se faz é tão engraçado que, nem a genitália masculina exposta, soa como ofensa, soa sim como limite a que o brasileiro chega para sacanear o próximo. Isso mostra um pouco do povo que fomos naquela época e no qual nos tornamos, ou seja, não mudou muita coisa.domingo, 14 de setembro de 2008
Trailers
Esta semana vi dois trailers que fizeram minha cabeça.
The Soloist
Começo por The Soloist (ainda sem título em português), dirigido pelo talentosíssimo Joe Wright (responsável pelo ótimo Desejo e Reparação). O filme conta a história real de Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), um homem que vive sob um viaduto de estrada em Los Angeles e que é um virtuoso no trompete, violoncelo e piano. Ayers sofre de esquizofrenia e se afastou da sociedade por conta da doença - até que o jornalista Steve Lopez, interpretado por Robert Downey Jr., o encontra. Parece-me digno de, pelo menos, muita atenção um filme como este, dirigido por um dos mais virtuosos e plásticos diretores que surgiram nos últimos anos (mesmo que alguns o tenham como pernóstico), interpretado por dois grandes atores como Jamie Foxx e Robert Downey Jr., este último vendo sua carreira ressurgir das cinzas num ano inesquecível.
007 - Quantum of Solace
Dragon Ball?
Olá, pessoal.30 minutos. Tempo que destinava à televisão, grudado ao sofá, durante mais de um ano, 5 dias por semana. Ansiava por aquela metade de hora que, em dado momento, para meu júbilo na época, chegou a quase uma hora integral. Revistas abarrotadas com o mesmo assunto. Boatos mil. Goku e companhia Ltda. Não renego o passado, que me serve agora de combustível.
Não pretendo expressar qualquer tipo de opinião leviana e vazia a cerca da adaptação cinematográfica de Dragon Ball. Contudo, as informações e imagens divulgadas até então são decepcionantes. Difícil dizer “decepcionantes” quando não há perspectivas positivas quanto ao produto final. Como argumentar perante roteiro que, segundo fontes ligadas à produção do longa, ignora características marcantes de seu protagonista, tomando por exemplo sua galopante burrice e ingenuidade?
Espero que as esferas ainda sejam do dragão.
Abraçossss
domingo, 7 de setembro de 2008
Estamira
Que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!Trecho fortíssimo do ótimo documentário Estamira, dirigido por Marcos Prado. Um filme sobre as dificuldades de alguém, ciente de sua condição psicótica, que precisa catar lixo para sobreviver e, mesmo assim, mantém o pensamento ordenado e uma clareza de idéias invejável. Um documentário sobre a perda da fé, sobre a visão de que Deus é somente um alívio paliativo para as dores dos que sofrem. Nada mais. E se as pessoas preferirem viver à sombra da verdade, encarando, sem apegos intangíveis, seus problemas? A realidade é dura, mas, para alguns, ainda é melhor do que jogar esterco ao céu esperando que dele caia, ao invés de merda, adubo.
