quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Simplesmente CRU

Amor, sentimento quase orgânico nutrido entre criador e criatura.

Paixão, atração, inebriação – independe a nomenclatura, “amor inorgânico”, edificado entre um ser e outro sem relação direta. As “metades da laranja”. Balela. Por vezes, e são inúmeras por sinal, nem mesmo laranja são, quanto mais metade do mesmo fruto. Todavia, me vem agora algo curioso, que em nossas vidas muito é pensado em função da árvore: a historieta de “Eva e Adão”; a “Árvore Genealógica” de uma família, clã ou qualquer que seja o tipo de organização; os “frutos de uma relação”; as “raízes da sociedade (de um pensamento, de uma teoria)”...

Hitler via os judeus como frutos estragados, podres a serem sacrificados em prol da manutenção da “árvore humanidade”. Que sentimento, não se atendo à ideologias, tomou papel de motor em suas ações? Amor pela causa? Talvez. O amor deturpado, aquele que há pouco comentei, inorgânico. O amor cego, surdo e mudo, omisso e trágico. O amor sem gênero, número e grau, tal qual o é entre criador e criatura. O amor com e sem preconceitos. O amor platônico, galgado na idealização e que refuta, embora há negação, sua concretização. O amor de ônibus. O amor de boate. O amor de cama. O amor de segundos e anos. O amor assim, difícil de definir. O amor simplesmente CRU.

sábado, 4 de outubro de 2008

Gritos e Sussurros

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro:
Ingmar Bergman
Elenco:
Henning Moritzen, Harriet Andersson, Inga Gill, Erland Josephson, Ingrid Thulin, Liv Ullmann, Kari Sylwan, Anders Ek, Malin Gjörup

Como já devo ter dito em algum texto (me repito com uma freqüência irritante) Ingmar Bergman foi o diretor que melhor capturou a dor humana, o sofrimento a que somos impelidos em alguma parte de nossas vidas, ou durante toda ela. A inquietação do cineasta sueco perante estas dores que atingem o ser humano, foi matriz para que, como artista, ele nos desse algumas das obras mais significativas, não só do cinema, mas da arte como um todo. Esta introdução, que demonstra a admiração que tenho por Bergman, é só para dizer que re-assisti hoje àquele que, em minha opinião, é o mais denso, o mais profundo e, por conseguinte, meu filme favorito de Bergman: Gritos e Sussurros.

Reza a lenda que Bergman teve a idéia trabalhando em uma imagem que não saía de sua cabeça, que lhe veio através de um sonho. Mulheres vestidas de branco contra um fundo vermelho. O que isto queria dizer? Acometido pelo desejo de tirar alguma idéia daquela imagem, o cineasta “compreendeu” que eram três irmãs, estavam juntas e tristes porque uma delas iria morrer. Gritos e Sussurros começa com imagens estáticas que, aos poucos, vão nos inserindo aonde tudo ocorrerá. A casa de campo, rodeada por uma natureza exuberante e que, internamente, tem seus cômodos e móveis abundantemente escarlates. Neste cenário somos levados à uma mulher que repousa lividamente em seu leito. Aos poucos, Agnes vai mudando sua expressão, nos transmitindo a dor que sente em virtude de uma doença terminal. Cuidando dela estão as duas irmãs, Karin, a mais velha, e Maria, a mais nova, juntamente com Anna, a empregada.

Mais do que abordar a doença de Agnes, Bergman aqui nos leva, ao longo de mais ou menos 90 minutos, à uma experiência única, uma sutil e contundente exploração da personalidade das quatro mulheres. Não ficamos presos a imagem de Agnes, mortificados por sua dor apenas. A narrativa intercala o desespero pelo fim próximo, a agonia que Agnes sente, com ao desnudamento moral e ético de Karin e Maria, personagens riquíssimos, interpretados com genialidade por Ingrid Thulin e Liv Ullmann, respectivamente. Karin vive um casamento de mentiras, não infidelidade ou algo que o valha, e sim mentiras cotidianas, que abalam a estrutura de seus sentimentos, de sua sanidade, tornando-a uma mulher fria, dura e até mesmo cruel em sua postura gélida. Maria pode ser mais facilmente comparada a uma boneca, por sua beleza exuberante e falta de conteúdo, sendo ela oca sentimentalmente. Sua frivolidade e capacidade de dissimulação, lentamente descobertas por nós espectadores, tornam ela mais do que uma boneca, mostram uma faceta tão calculista quanto a de Karin, aproximando-as quando as tínhamos quase como que antagônicas. Tentei, mas creio que, mesmo assim, não tive competência em caracterizar duas personagens tão bem construídas, cheias de variações e inconstâncias. Bergman tinha isso, aproximava, mesmo quando usava situações surreais, seus personagens do ser humano cotidiano, aquele de caracterização rasa fácil, mas de difícil definição completa e, geralmente, não definitiva.

Emolduradas pelos belos cenários, iluminadas de forma brilhante pelo mítico Sven Nykvist, tratadas com uma delicadeza espantosa pela câmera genial de Bergman, temos estas mulheres, irmãs de sangue, porém, distantes , e Anna, empregada devotada que cuida de Agnes como se ela fosse sua filha, morta precocemente em virtude de uma doença súbita. Ela, a morte, nunca foi tratada com o mesmo peso, com a mesma densidade que Bergman empregou neste filme. A finitude, o desespero, a insegurança, os traumas e o amor, seja ele apresentado sob qualquer faceta, se misturam em uma obra sem comparações, genial nos quesitos técnicos e em sua significação. Gritos e Sussurros é meu filme favorito, não somente por ser maravilhoso em todos aspectos mas, por mostrar muito mais do que intenções, por efetivamente atingir um ponto em mim que raras obras conseguiram, nenhuma com a mesma intensidade.

domingo, 28 de setembro de 2008

Crítica: Gritos na Noite

Direção: Marc Forster.
Roteiro: Marc Forster, Adam Forgash e Catherine Lloyd Burns.
Elenco: Radha Mitchell, Megan Mullally, Jacqueline Heinze, Catherine Lloyd Burns, Justin Louis, Matt Malloy, Mark Boone Junior e Courtney Watkins.


Existe uma vertente do cinema contemporâneo que tem levado diversos cineastas talentosos a enxergarem nos subúrbios americanos histórias até então não contadas, utilizando o ambiente aparentemente pacífico como pano de fundo ou mesmo como personagem em suas narrativas. O espaço foi desconstruído e a imagem da família moderna perfeita, imaculada, já fora desmistificada, não sendo mais vista como exemplo de estrutura familiar “ideal”. Todd Solondz foi um dos pioneiros com os filmes desse gênero, se já é possível o classificar como um, quando em Bem-Vindo à Casa de Bonecas e Felicidade abordou o cotidiano de personagens que viviam nos tais subúrbios. Com Solondz se destacam Sam Mendes com Beleza Americana e Todd Field e seus Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos. Em Gritos na Noite o mesmo espaço é alvo de uma análise crítica, junto a outros temas passíveis de reflexões, raramente abordados com tamanha crueza pelo cinema americano.

Gritos na Noite é o segundo filme dirigido por Marc Forster, cineasta de talento reconhecido e que hoje tem em seu currículo filmes voltados ao grande público, como Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas. Faz-se notar a incrível disparidade dos filmes subseqüentes de Forster com este trabalho menor, sendo a maior característica de Gritos na Noite a experimentação feita pelo diretor em suas escolhas estéticas. O diretor venceu o Festival de Sundance em 2000 na categoria de Melhor Direção, justamente por apresentar o uso de elementos fílmicos simplistas e pouco utilizados com tamanha competência.

O que temos aqui é um trabalho filmado em um digital cru, quase caseiro, que tem papel importante por aproximar o filme a uma realidade palpável. A escolha pelo digital tosco casa perfeitamente com o ambiente onde o filme se passa, e a maioria das cenas funciona incrivelmente bem, como em uma seqüência de um aniversário infantil, que apresenta todo o núcleo de personagens se relacionando, como se um parente próximo estivesse captando tudo aquilo através de uma câmera doméstica, para rever posteriormente com sua família.

A forma original aplicada pelo trio de roteiristas Adam Forgash, Catherine Lloyd Burns (que também atua no filme) e pelo próprio Forster à trama, muito recorrente por sinal - mãe perturbada pela precoce morte de um filho -, é um dos grandes feitos de Gritos na Noite. Não há espaço no filme para momentos gratuitos, ou cenas descartáveis, pois toda a relevância de algumas seqüências aparentemente desnecessárias acaba subentendida, como em um dos primeiros diálogos, onde a protagonista, então grávida, reflete e exterioriza seus pensamentos acerca do movimento cíclico da vida. A passagem faz referência ao próprio filme, que tem em sua derradeira seqüência o nascimento de uma nova realidade para a vida da personagem, extremamente semelhante à inicial.

O mundo perfeito que Forster analisa através de sua direção por vezes frenética vai se metamorfoseando ao decorrer do filme. As pessoas vão aos poucos apresentando outras faces, lados desconhecidos, enquanto a atormentada personagem de Radha Mitchel, Angie, é machucada por uma série de acontecimentos desencadeados com o falecimento de seu filho, como os recorrentes problemas com suas amigas, pessoas que assim não mereciam ser classificadas. Quando a banalidade em seus relacionamentos se resume a encontros e discussões vazias, as amigas de Angie visivelmente transmitem a felicidade por terem o controle de suas previsíveis vidas. Quando o inesperado ocorre com Angie, no entando, as tais mulheres sempre presentes passam a evitar a companhia daquela que julgam agora ser uma estranha, pelo simples fato de estar mudando o curso no qual tudo deveria estar acontecendo.

Não se pode esquecer a composição extraordinária de Radha Mitchel para Angie, atriz que posteriormente não foi tão bem aproveitada por outros diretores (talvez por Woody Allen, em Melinda e Melinda), que merece grandes elogios já que sem um desempenho visceral como o seu o filme ficaria em parte vazio. Espero que se inserindo em projetos como o novo James Bond Marc Forster consiga posteriormente certa independência criativa e volte a trabalhar em projetos menores, singulares como este, e de grandes resultados.

Caxias em Cena: Contas Diárias e o encerramento

De boas intenções o inferno está cheio! Assim, com este pensamento, se encerrou o Caxias em Cena, pelo menos para mim. Explico. Na verdade este foi o paralelo que fiz entre a peça vista ontem e o festival como um todo, levando em conta seus aspectos.

No espetáculo paranaense Contas Diárias, somos levados a ver três histórias que, acredito eu, pretendiam, mesmo em segmentos diferentes, apresentar uma unidade, mostrando através de fatos diferentes uma visão convergente sobre a natureza humana. Na primeira, um casal de velhinhos; na segunda, duas crianças brincando e um pai vendo televisão; e na terceira, uma menina e um menino fazendo uma prova na escola enquanto o professor lê um livro sobre arte. Utilizando máscaras (muito mais expressivas em sua inércia do que alguns atores são em movimento) a companhia nos apresentou uma obra um tanto quanto insossa e morosa, não despertando muito o interesse da platéia que aplaudiu timidamente ao final. Fiquei com a impressão de ver algo desnecessário, possuidor de uma boa idéia, dotado de trilha sonora interessante, mas que, no todo, foi falho por não conseguir nada além do visual, no máximo, nos cativando por certas encenações, porém, num nível de consciência muito raso, onde as intenções de profundidade mostraram-se somente como vontade.

Pois bem, o Caxias em Cena foi um festival ótimo este ano pelas inúmeras peças de qualidade que trouxe, pelo preço acessível que permitia maior adesão do público. Não sei, porém, se por causa da soberba do título fajuto de Capital da Cultura ou mesmo pela aproximação das eleições, o que poderia ter sido amplamente divulgado, festejado como uma mostra de arte para o povo caxiense, terminou sendo um aglomerado de peças, ótimas repito, mas que não tiveram a divulgação necessária, não foram tratadas com a devida atenção que mereciam. Prova disso o baixo comparecimento de público, na maioria das apresentações. Até quando vamos ficar reféns de intenções, que não são levadas a sério nem mesmo por quem as têm? Afinal, de boas intenções o inferno está cheio.

Drummond e as Gatinhas

Olá, pessoal!

Tenho a necessidade de compartilhar com vocês uma experiência, no mínimo, curiosa. No último dia 25, minha aula na UCS terminaria às 16 horas ou meados dessa. Pois bem, tecnicamente acabou antes. Às 15 horas. O problema: o ingresso para uma peça do Caxias em Cena, às 20 horas. O que fazer? Devo confessar que a vontade de retornar para casa existia, porém a vontade de “matar tempo” na biblioteca também. Na procura de material: “Crime e Castigo”. Encontrei a mesma edição que estou lendo e, desbravei o capítulo próximo, após alguns poucos minutos nas prateleiras o localizando. Terminada a leitura, sobrava tempo, menos de uma hora, mas não dispensável tempo. A poesia nunca foi alvo de minha atenção, contudo queria ler algo curto e pus em minha cabeça um autor: Mário Quintana. Só eu e, a entidade superior que nos controla e governa, segundo a Bíblia, sabe o quanto vasculhei. Descobri que me falta talento e paciência com os códigos de chamada do material.

Desisti. Encontrei outro, um usurpador de minha atenção. Carlos Drummond de Andrade. O título não recordo. Recordo a impressão que causou o primeiro poema lido. Erotismo. O segundo. Erotismo. O terceiro. Erotismo. Senti-me um adolescente pervertido. Folheando mais a frente o livro, descobri ser uma publicação de textos de cunho erótico, não recorrente na obra de Drummond, conhecido por sua timidez. Lembro do título, de um pedaço dele, para lidarmos com a exatidão, de um dos poemas: “Mulher Gulosa”. De “Gulosa” a certeza. Estabelecia uma analogia entre o picolé ou sorvete e o sexo oral.

Segue abaixo um poema de Drummond (excelente) que localizei na internet, o qual li lá na biblioteca. Sorte minha a capa prezar pela discrição:


Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante boca milvalente

o corpo dois em um o gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar e ser chupado

no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Caxias em Cena: A Julieta e o Romeu

Casa cheia. O que vi ontem foi o Teatro Pedro Parenti totalmente lotado para a exibição da peça paulista A Julieta e o Romeu. Existia, inclusive, grande número de crianças presentes. Teatro com palhaço é ideal para a criançada, pensam os pais. Ledo engano. A Julieta e o Romeu traz ao palco dois clowns em um espetáculo metalingüístico e adulto, com várias referências e cenas que fogem da compreensão dos petizes. Na trama, Mafalada Mafalda, atriz conceituadíssima e muito muito antiga, conta com a ajuda de seu estagiário na homérica tarefa de representar uma peça-mosaico, na qual estão presentes os mais clássicos textos de Shakespeare (sim, ele novamente, fonte inesgotável de inspiração). O espetáculo é um pouco longo - se tivesse vinte minutos a menos o ritmo seria ideal – mas o talento dos atores Andréia Macera e, principalmente, Ésio Magalhães, contagiou o público de tal forma que a mis en scène foi interrompida muitas vezes por causa dos aplausos. Realmente engraçadíssima, A Julieta e o Romeu ainda presenteou à platéia (pelos menos os mais atentos) com um subtexto bem bonito sobre amor e dedicação, por meio da figura do clown que tenta, mesmo sem talento, de tudo para agradar e fazer feliz a mulher que ama.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Caxias em Cena: Noite de Reis

Continuando minha incursão pelas atrações do Caxias em Cena, voltei, na noite de ontem, a assistir uma comédia, gênero que parece ter mais prestígio e aceitação, dado a maior quantidade de público nas peças desta natureza e mesmo pela oferta do festival, que tem neste gênero sua predominância. Será que, em geral, se prefere rir a chorar no teatro? Enfim, digressão, possivelmente inútil, mas que pode dar o que pensar. A peça em questão era Noite de Reis, monólogo oriundo de Portugal, baseado num texto clássico de William Shakespeare. Leonor Keil representa os onze personagens da peça, dez pessoas e um cão. Para quem esperava grandes cenários, trocas de figurino, ou mesmo achou estranha a opção pelo monólogo num texto em que há tantas figuras, acredito que a encenação foi uma surpresa total. A atriz utiliza apenas sua expressão corporal e desenhos feitos rusticamente em pedaços de papel para contar a história. Os méritos são de Leonor e da linguagem proposta, que dão verniz interessante ao texto de Shakespeare, nos convidando a embarcar numa viagem lúdica, onde os movimentos e jogos cênicos, muitas vezes, substituem a palavra. Os aplausos efusivos e gritos de “bravo” no final não foram exagero, e sim o reconhecimento à um grande trabalho, em forma e conteúdo.