domingo, 24 de janeiro de 2016

Doses Homeopáticas #62



O estaleiro prestes a fechar deixará para trás um manancial de desempregados. A praga das vespas ameaça a existência das abelhas e, por conseguinte, o ganha-pão dos apicultores. O cineasta diz não saber muito bem como combinar os registros do filme que pretende fazer. AS MIL E UMA NOITES: O INQUIETO, primeira parte da trilogia dirigida pelo português Miguel Gomes, é um filme de linguagem vigorosa, com múltiplos vieses, que trafega com segurança pela linha que separa ficção e documentário, não fazendo muita distinção entre ambos. As histórias que Xerazade conta se conectam mais ou menos explicitamente, mas se conectam, com a difícil situação político-social que Portugal enfrenta. Burocratas e políticos acometidos por uma ereção intermitente aludem às negociatas de bastidores que, não raro, prejudicam o povo; um galo é processado por cantar à noite, demonstrando mais tarde antever o abismo como nenhum humano em cena; e o autoexplicativo banho catártico dos sem trabalho nas águas gélidas do primeiro dia de 2014, com direito à cena passada dentro de uma baleia. Os segmentos se comunicam num nível nevrálgico, cativando tanto pela singularidade de suas abordagens e focos quanto pelo painel que formam, um conjunto de insuspeita e pungente unidade que celebra a fábula sem descolar-se da realidade.


Em 45 ANOS sobressaem-se os trabalhos de Charlotte Rampling e Tom Courtenay, dois atores que dominam as nuances responsáveis por tornar seus personagens tão humanos e profundos. Casados há quase 50 anos, prestes a celebrar a longevidade da união, ele recebe a notícia insólita de que encontraram o corpo congelado de uma amada do passado. A notícia abala a ele, que passa a se recordar da mulher perdida em condições trágicas, e também a ela, que experimenta o sofrimento do ciúme e da insegurança. O filme do diretor Andrew Haigh vai mostrando aos poucos a vida conjugal sendo posta em xeque, com desconfortos surgindo numa convivência que parecia mais que solidificada, tanto em virtude do tempo quanto da força o sentimento que a propicia. Embora Haigh algumas vezes perca o rumo, deixando a trama navegar em águas calmas demais, o filme consegue exprimir as sutilezas que deflagram a fragilidade e o caráter quebradiço dos relacionamentos, instituições cuja solidez não está garantida, a despeito das aparências. Rampling e Courtenay dão conta de expressar muito bem essa tempestade que assola o casamento de seus personagens.


Uma casa misteriosa à beira-mar. Padres e uma freira vivem em clausura, às voltas com o treinamento de um cão de corrida que lhes permite vencer apostas. A chegada de um novo morador e a sequente tragédia expõem feridas da igreja católica, pois traz à tona a polêmica questão dos sacerdotes pedófilos. Um emissário do Vaticano vai até lá para resolver a questão. Assim, dois homens estranhos, três se contarmos aquele que circunda a casa vociferando a mágoa de ter sido estuprado quando pequeno, alteram a rotina desses serventes de Deus encerrados nos muros que representam punição. O CLUBE é um filme cinzento. O tom predominante oprime a beleza natural do cenário, denotando a atmosfera da casa em que os párocos convivem, numa dinâmica muito própria. Aos poucos, as intrusões se impõem, inclusive as da burocracia de uma instituição que prefere varrer para os porões do esquecimento, disfarçados convenientemente de local de penitência, os crimes cometidos pelos seus. Mas o diretor Pablo Larraín não fica somente no âmbito da denúncia, mostrando os pequenos dramas de todos que ali são acometidos, com mais ou menos violência, pela repressão de instintos e vontades. No fim, um cordeiro é escolhido para purificar os pecados do entorno, movimento que utiliza a simbologia religiosa para ressaltar a violência e a agressividade dos próprios procedimentos da igreja.  

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Doses Homeopáticas #61


Em OLMO E A GAIVOTA as diretoras borram com gosto os limites entre ficção e documentário, confundindo os registros para criar um filme que não se apoia apenas na linguagem, já que o conteúdo é de extrema relevância. A maternidade, estado celebrado ao longo dos tempos como ápice do sublime feminino, afinal de contas está a se gerar uma vida, é vista sem condescendência, despida totalmente da aura de santidade com a qual sempre foi revestida. A atriz que pensava poder conciliar apresentações e gravidez se vê enclausurada por meses a fio em virtude de um problema que pode ocasionar aborto. Antes eufórica por ser mãe, ela vai experimentando a angústia e certa solidão, ainda que o marido seja tão presente quanto possível. Ela divaga sobre a dificuldade de doar partes de si mesma a outra pessoa, não com isso expondo falta de sensibilidade, pelo contrário. Cena se desenrolando e ouvimos a voz de alguém pedindo para que a dinâmica do casal assuma outro tom. Documentário ou ficção? Há um hibridismo muito interessante, discreto, que não grita pela nossa atenção, justamente para que paulatinamente a diferença entre verdade e encenação passe a ser irrelevante, diante da intensidade dramática (forjada ou não) com que se aborda um tema tão complexo.


Em 007 SKYFALL, a obsolescência está à espreita. As relevâncias de James Bond, de M, do MI6, são postas em xeque pelos novos tempos dos terroristas virtuais, das grandes negociações conduzidas e, muitas vezes, seladas online. Após um acidente, Bond não parece o mesmo. O tempo é implacável e enquanto sua chefa defende a permanência do serviço secreto na ativa, ele parte em busca do inimigo escondido nas sombras, melhor dizendo, atrás da tela do computador. Sam Mendes faz um 007 com muita ação, entre outros elementos canônicos do personagem que possui licença para matar. Na medida em que a trama avança, torna-se urgente uma volta ao passado. É a chance que o diretor tem de fazer uma série de homenagens à franquia derivada dos livros de Ian Fleming, sendo uma delas a aparição do clássico Aston Martin utilizado pelo Bond de Seann Connery em 007 Contra Goldeney, entre alusões a outros filmes. A sequência na propriedade Skyfall é um dos pontos altos de toda a série, momento que permite a Daniel Craig mostrar as qualidades dramáticas que fazem do seu Bond um dos mais multifacetados e complexos de todos.



007 CONTRA SPECTRE é um filme morno, nem ruim, nem bom, apenas meio insosso. Muito embora as perseguições, as explosões, os flertes e a ameaça verdadeira à segurança mundial estejam presentes, nada é de fato aprofundado. Após Skyfall e toda aquela reflexão sobre o tempo, o obsoleto, que conferia camadas de profundidade tanto à narrativa quanto ao protagonista, aqui as coisas acontecem sem o devido peso dramático. Bond se depara com a iminente extinção do programa 00, encara um vilão com potencial para ser o mais significativo da era Daniel Craig, mas o resultado é um 007 banalizado pelo boicote constante de momentos pouco expressivos. Christoph Waltz decepciona, e bastante, como antagonista. Monica Bellucci é uma mera figura de decoração, lhe deram um papel insignificante, aquém de sua fama e talento. Léa Seydoux até que se sai muito bem como par romântico do personagem interpretado mais uma vez com competência por Craig, ator que consegue equilibrar força bruta e fragilidade. O problema maior é o roteiro, que desperdiça situações, ora as estendendo para além do necessário, ora se detendo menos do que deveria em passagens de muita relevância ao todo. O final é menos ambíguo do que pode parecer, não apontando realmente se teremos adiante uma nova era ou continuidade, bem ao gosto dos produtores que, assim, mantém o suspense e a marca em evidência.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Doses Homeopáticas #60


(500) DIAS COM ELA tem The Smiths na trilha sonora, um roteiro esperto que utiliza muito bem o vai e vem temporal, Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt ótimos como o casal cujo relacionamento nasce, cresce e morre na nossa frente, referências ao cinema europeu (Godard, Bergman, etc), entre outras qualidades. Acompanhamos o entusiasmo de Tom quando ele conhece Summer, garota que, desde o começo, diz não acreditar em relacionamentos. O sexo é bom, a convivência é legal, ele a faz rir, então porque cargas d’água Summer não aceita ficar junto, assumir namoro, fazer, quem sabe, planos para casamento? É justo ao lançar essas questões e tornar as respostas, ou melhor, as não respostas, tão naturais, que o filme de Marc Webb se diferencia de muitos congêneres. Os sentimentos em voga não são tratados como respostas óbvias e formatadas a certos comportamentos, mas sim condicionados a uma série de questões, bloqueios e anseios muito particulares, que nem sempre evanescem na vida a dois. A cena da tela dividida entre as expectativas e a realidade em determinado encontro dos protagonistas é um dos grandes achados do filme, bem como a sequência musical responsável por denotar a felicidade extrema do rapaz que acabou de passar a noite com a mulher amada.  


O jovem acordado cedo pela mãe afetuosa, uma típica matrona italiana, é o protagonista de O EMPREGO, segundo filme de Ermanno Olmi. A vocação neorrealista se vê na maneira como a câmera perscruta criticamente a Itália empobrecida. O menino passa por uma série de testes até conseguir a ocupação numa grande empresa. Tímido, ele se enrabicha por uma colega. A paixão e o primeiro trabalho marcam, a um só tempo, o crescimento desse rapaz constantemente trajado com um sobretudo, cuja voz claudicante é relativamente pouco ouvida em todo filme. Os demais funcionários da empresa demonstram os ambientes laborais viciados, a opressão à qual o homem se submete em busca de subsistência. A miséria vista em filmes italianos anteriores aqui aparece nas entrelinhas, como uma herança cuja maldição só será parcialmente quebrada com a penhora do suor em favor do crescimento econômico, ou seja, em prol do capital e seus ditames. O olhar do garoto expõe perplexidade e curiosidade em contato com a necessidade de crescer e assumir seu lugar de adulto numa Europa efervescente e voltada ao progresso, nem que para isso precise privilegiar uma realidade em que o lazer é exceção e o trabalho é valorizado como dádiva.  


VIVER É FÁCIL COM OS OLHOS FECHADOS é o tipo de filme que nos arranca facilmente sorrisos. Protagonista cativante, personagens secundários com luz própria, história muito bem contada, registro visual bonito, atores aparentemente bastante à vontade em seus papeis, humor na medida e certa dose de melancolia para não deixar tudo adocicado demais. O professor interpretado por Javier Cámara empreende uma viagem para conhecer seu ídolo, John Lennon. No caminho, dá carona a dois jovens que se tornaram amigos, e mais, parceiros nessa jornada. A singularidade das pessoas em cena é bem trabalhada pelo roteiro, assim como são precisas as viradas que vez ou outra dão uma chacoalhada na missão principal, evidenciado que há dramas humanos latentes nesse grupo que parte em busca do Beatle. Talvez seja essa precisão que ateste ligeiramente contra o filme, a sensação de conferirmos algo milimetricamente construído, sem espaço para arestas ou outros “detritos” que poderiam injetar organicidade à trama, enfraquecendo assim o engessamento do qual ela padece. Ainda assim, a realização de David Trueba tem a capacidade de emocionar, sem apelações, de nos prender na tela e nos fazer torcer para tudo dar certo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Doses Homeopáticas #59


FILME DEMÊNCIA é a descida ao inferno empreendida pelo homem que se depara com a falência do negócio herdado do pai. Livre adaptação de Fausto, de Goethe, o filme de Carlos Reichenbach acompanha o protagonista em andanças desnorteadas, em contato com todo tipo de representante do submundo, transitando por entornos onde a degradação é latente. O povo professa em prosa e verso as injustiças vigentes enquanto este Fausto moderno atravessa São Paulo mirando um oásis que lhe vem em sonho e cuja imagem o persegue durante toda trama, configurando-se numa espécie de ponto a ser alcançado. Carlão realça a condição terceiro-mundista das pessoas e de suas aspirações, ressaltando a importância do sexo por meio dos corpos nus das mulheres que se insinuam ao protagonista. O fluxo é onírico, instância em que matar pode significar libertação, enquanto morrer não é uma opção a quem já vive no fio da navalha. As deambulações de Fausto por prostíbulos de quinta categoria, bares infestados de fracassados, ruelas decrépitas, bem como a companhia de tipos estranhos, evidenciam a vontade de Reichenbach de mesclar o popular e o erudito, pintando com tintas de subdesenvolvimento a escrita original do alemão.


TERRA EM TRANSE é uma alegoria complexa da política terceiro-mundista, com seus personagens trocando de lugar, torcendo a própria ideologia em busca de votos e poder. O poeta apoia o candidato tecnocrata até que ele se eleja senador, depois transfere sua pena à causa do vereador populista que, então, vira um postulante ao cargo de governador. A intenção é abrandar a situação do povo, a miséria que toma conta das camadas menos abastadas da fictícia Eldorado. As forças econômicas são desmascaradas como manipuladoras da conjuntura social, elas que usam políticos como títeres para alcançar seus objetivos. Um magnata da mídia também escancara sua influência, o poder que comumente se intitula de o quarto, mas que pode assumir um protagonismo disfarçado de isenção, no que tange aos destinos da nação. Glauber Rocha fez um filme instigante, no qual a linearidade temporal é abertamente desrespeitada em prol de uma estrutura narrativa signatária do caos que se pretende deflagrar. Essa realização de Glauber é um convulsionado retrato da política brasileira, sobretudo do conturbado período do início dos anos 1960. Obra-prima.



Não há nada de mais em UM SENHOR ESTAGIÁRIO. Um cara resolve voltar a trabalhar depois dos 70 anos, virando estagiário numa empresa moderna, repleta de jovens. Claro que sua presença vai alterar a rotina, servir de contraponto experiente à imaturidade de muitos ali. O que faz o filme ser muito bom, divertido, é a maneira como Robert De Niro interpreta esse cara boa praça, acolhedor, que observa a todos com carinho, sem julgamentos excessivos. Há também méritos no trabalho de direção de Nancy Meyers, especialista neste tipo de filme que, se por um lado, navega em águas calmas, sacolejadas vez ou outra por ventos que sabemos serem passageiros, por outro, não se acovarda de apresentar as falhas e as dificuldades de seus personagens. Embarcamos, assim, nessa nau comandada por Meyers sabendo o tipo de narrativa que nos espera, algo não necessariamente ruim se estivermos em busca de uma história bem contada, protagonizada por gente carismática. Aqui, o estagiário de De Niro serve como uma espécie de anjo da guarda que ajuda a chefe a ser uma pessoa melhor, além de auxiliar os colegas nas mais diversas tarefas (inclusive amorosas) e encontrar, ele próprio, o amor. Cinema que deixa um sorriso no rosto do espectador ao fim da sessão.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Heli


Heli (2013) é o filme pelo qual Amat Escalante ganhou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes do ano passado. Já na primeira sequência, a câmera desliza por entre corpos que repousam machucados numa traseira de camionete. Então, nosso olhar é conduzido à estrada e posteriormente ao enforcamento de alguém em plena luz do dia. A mensagem está dada: quem se colocar contra o poder local vigente inevitavelmente se dará mal. Após essa passagem que culmina em morte, encontramos Heli (Armando Espitia) tentando fazer sexo com sua esposa, quando é interrompido por uma funcionária do censo. Desse ponto em diante, a família de Heli, constituída pelo pai, a irmã e o filho recém-nascido, será o núcleo de onde partirão as observações do filme, sejam elas a respeito da natureza das pessoas ou mesmo sobre a violência que predomina em certas localidades mexicanas.

Sem estudo e oportunidades suficientes para subir na vida, a Heli só resta seguir os passos do pai, trabalhando numa montadora automobilística, mesmo porque o lugarejo não oferece muitas opções. Trabalhador braçal, policial ou traficante, são essas as trajetórias mais evidentes. Estela (Andrea Vergara), a irmã do protagonista, namora com um recruta mais velho. Noutra cena em que o sexo não se consuma, ela impede que a mão do pretendente passe acima da linha da coxa, o que o deixa frustrado. A menina tem medo, engravidar assim tão nova está fora de cogitação. Apaixonado, esse rapaz que sofre humilhações cotidianas nos treinamentos militares sai em busca de alternativas para, então, casar com sua amada. Decide roubar drogas sabe-se lá de quem para viabilizar a união. Mas, dinheiro fácil nunca é fácil.

A potência da imagem em Heli é preponderante. De início, a violência crua e inclemente nos situa no território de aridez (inclusive emocional) que abriga os personagens. Logo, porém, o registro visual pende ao idílico, pois a fotografia é cuidadosamente construída numa dimensão poética. O artifício não chega a “embelezar” os acontecimentos, pois à câmera parece importante registrar a miséria a seu modo, sem nunca torna-la espetacular. Estranhamente, num terceiro momento a imagem volta a captar a violência de frente, só que desta vez em seu aspecto ordinário, quase pornográfico. O discurso é esvaziado justo por apoiar-se demasiado em determinados atos de tortura, como se eles, assim vistos, fossem imprescindíveis para dotar de relevância o discurso anterior bem como o do porvir.

Daí em diante, a trama de Heli fica refém de inconstâncias. Personagens tentam refazer-se ainda sob o efeito da tragédia, mas essa fase de luto surge sem o peso suficiente. Tentando retomar a contemplação inicial, a narrativa se prende numa teia de fatos um tanto quanto irrelevantes, ao menos pela maneira como são apresentados. É como se o processo de anestesia do protagonista contaminasse o desenvolvimento que, assim, acontece sem maiores acréscimos. O sexo, ou melhor, a impossibilidade de sua ocorrência, está ali para, quem sabe, sinalizar a não união dos corpos como prenúncio de morte. Heli tem momentos que justificam plenamente a ovação crítica em Cannes, mas, no geral, é vítima do descompasso entre sugerir e esfregar determinadas “realidades” na cara do espectador.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Doses Homeopáticas #58


Em LA SAPIENZA os personagens falam diretamente à câmera, como se o interlocutor fôssemos nós, espectadores. Em crise, matrimonial e profissional, um arquiteto francês parte com a esposa para o interior da Itália, pois planeja efetivar o estudo sobre uma de suas referências. Há uma frieza quase total no relacionamento do casal, eles mal se olham, interagindo burocraticamente. Tudo muda depois de encontrarem dois irmãos, uma menina fragilizada por determinada doença (talvez de fundo somático) e um garoto cheio de energia que sonha em ser também arquiteto. O cineasta Eugène Green faz um filme lento, no qual as imagens permanecem na tela tempo suficiente para delas apreendermos o que na pressa deixamos escapar. Progressivamente os mais jovens mostram aos mais velhos a chama que ainda pode inflamar suas vidas. Fala-se muito a respeito de luz, nos contextos literal e simbólico. Formalmente rigoroso, caudaloso, é o tipo de filme que pode afugentar alguns, enfadar outros tantos, mas que oferece a recompensa devida a quem embarcar na construção cinematográfica de Green, que dá conta de combater a aridez, o embotamento decorrente das tristezas cotidianas, com a beleza intrínseca à criação, aos encontros e às trocas.


Protagonista de LÉOLO, Léo se crê filho de um italiano onanista que contaminou os tomates esmagados por sua mãe após um acidente. Isso lhe veio por meio de um sonho. Preferindo ser chamado de Léolo, esse garoto vive às voltas com a própria imaginação para afastar a loucura hereditária que acomete quase toda a família. Narrando em prosa e verso seu cotidiano de experiências, entre as inerentes a qualquer criança e as bastantes singulares, ele cria um mundo próprio, no qual se refugia da realidade. Fácil se afeiçoar a esse menino que funciona como um dos pilares da casa, o outro é a mãe, sempre tão afetuosa com ele, mesmo em momentos bizarros como a vigília para garantir a evacuação, algo obsessivo para o pai. Aliás, mesmo num ambiente degradado como aquele, o que não falta é afeto, sentimento tornado âncora que mantém todos unidos, até onde possível, contra a patologia que ameaça a sanidade. O tom de fábula ameniza ligeiramente a miséria daquela gente, mas não dá conta de segurar a torrente de tristeza que marca o encerramento desse filme em que a esperança quase vence as probabilidades, quase.



TUDO VAI FICAR BEM é um desastre quase completo. Não fosse a engenhosa cena do acidente, em que o protagonista transita do alívio ao desespero em questão de segundos, o filme seria descartável de todo. Há um privilégio às emoções fáceis, à autocomiseração e à lamúria, opção que não encontra nos atores, e muito menos na direção, algum registro que dê conta de minimizar os danos. A recorrência das várias transições do tipo “tanto anos depois”, expediente que visa marcar a passagem do tempo, expõe a fragilidade do roteiro. No que diz respeito às atuações, não há um destaque sequer, ao menos não positivo. James Franco, que virou caricatura de si mesmo, escancara suas limitações, sempre recorrendo ao franzir do cenho e às caretas para tentar transmitir a angústia de seu personagem. Já a de Charlotte Gainsbourg só chora, desenha e, de vez em quando, solta alguma pílula que denota fé. Fosse obra de um diretor estreante, a precariedade estaria, até certo ponto, ao menos justificada. Mas, não, estamos falando de Win Wenders, um grande cineasta que já nos deu obras-primas, como Paris, Texas, mas que, infelizmente, não vem fazendo jus à própria trajetória. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Meninos de Kichute


Ainda que esteja pronto desde 2010, Meninos de Kichute só chega agora, em 2014, às salas de cinema, depois de exibido em alguns festivais. Particularidades da nossa cadeia produtiva que quando não “enforca” o filme nacional na gestação, o faz na distribuição. Na trama ambientada na década de setenta, o menino Beto (Lucas Alexandre) sonha em ser goleiro. Ele mora em Londrina, interior paranaense, com o pai extremamente religioso e contrário ao espírito competitivo do esporte, com a mãe que se submete aos desmandos do marido cuja autoridade parece legitimada tanto pelo machismo histórico quanto pela natureza patriarcal da religião, com a irmã mais velha e o irmão mais novo. A vida que lhe interessa está no campo, lá onde ele saiu da linha e foi para o gol, na posição entendida por muitos como a mais ingrata do futebol.

As rotinas escolares evidenciam um civismo imposto goela abaixo, em grande parte nas aulas de Moral e Cívica. Não esqueçamos, na época retratada o país ainda vivia no cabresto da ditadura militar. A rigidez de professores e funcionários é contraposta pela molecagem dos meninos que estão loucos para jogar futebol e transgredir as regras, inclusive vendo postais e revistas de mulher pelada, o que era considerado pouca vergonha. Há uma boa dose de memória afetiva na tela. Muito legal identificar nesse comportamento “ultrapassado” os costumes de uma realidade completamente analógica. Que menino de então nunca quis ter um Kichute, o famoso tênis da Alpargatas que imitava a chuteira? A tônica era ir para a rua, machucar o joelho nas partidas disputadas em campinhos de terra, fazer traquinagem, tudo menos ficar em casa. A vida estava lá fora.

Uma pena o diretor Luca Amberg desperdiçar esse potencial nostálgico, diluindo-o num simplismo que, aliás, permeia todo filme. O principal entrave ao sonho de Beto é o próprio pai. Interpretado por Werner Schünemann, esse homem evoca os dogmas de sua crença para castrar a aspiração do filho em nome de Deus. O que poderia ser um diálogo interessante, adquire contornos caricaturais, já que a figura paterna é unidimensional e está ali apenas como barreira, sem nuances mais claras. Até mesmo o destino desse pai dentro do filme é uma simplificação quase grosseira, pois choca sem sutilezas o discurso religioso com os atos posteriores que denotam hipocrisia, resvalando assim num evidente senso-comum. A narrativa infelizmente se apoia demais nessa estrutura frágil e monocórdica. 

Meninos de Kichute possui encenação meio desleixada e diálogos que batem pouco naturais na tela. O elenco, por sua vez, parece ora no piloto automático ora à deriva. Contudo, dificilmente o filme aborrecerá o espectador, desde que ele entenda limitações e abrace possibilidades. É um cinema intermediário, nem tão popularesco e muito menos voltado aos guetos da intelectualidade. Mas nem só de boas intenções vive o cinema, já que dele se espera um pouco de risco, que fuja vez ou outra da área confortável lá de onde as ressonâncias vêm enfraquecidas. Meninos de Kichute tem bons momentos, sobretudo as divertidas partidas de futebol, mas no geral fica a impressão de que a mistura de esporte, infância, anos de chumbo e família poderia render bem mais do que um filme simpático do qual, imagino, pouco lembraremos mais adiante. 


Publicado originalmente no Papo de Cinema