
Ontem pela manhã eu estava em casa, escolhendo o que iria ver (tinha de ser algo relativamente curto, pois, não dispunha de muito tempo antes do almoço). Resolvi assistir
Copacabana Mon Amour, dirigido pelo mítico Rogério Sganzerla, afinal o filme tem somente 70 minutos. Sganzerla é um cineasta que respeito muito, e este respeito se deve à sua obra prima,
O Bandido da Luz Vermelha, em minha opinião um dos melhores e mais provocativos filmes brasileiros já feitos. Confesso que também já me decepcionei com Sganzerla, ao assistir seu derradeiro filme,
O Signo do Caos, que me pareceu mais um exercício de estilo, um tanto quanto monótono, do que qualquer outra coisa. Bom, voltando a
Copacabana Mon Amour, o filme é tão alegórico quanto
O Signo do Caos, e isso poderia soar pejorativo dado o meu comentário anterior de desagrado com este filme, mas, neste caso, não o é. A alegoria que orienta
Copacabana Mon Amour é um dos pontos fortes deste pequeno grande filme de Sganzerla (perdoem-me o uso de expressão tão batida). Acompanhamos Sônia Silk, loira oxigenada suburbana que tem o sonho de ser cantora da Rádio Nacional e vê espíritos baixarem em seres e objetos. Seu irmão, Vidimar, é apaixonado pelo patrão. O que vemos, nos 70 minutos do filme, são as andanças de Sônia, sua interação com uma sociedade podre carioca, que conflita com a imagem bela de Copacabana, seu irmão lutando contra espíritos e a luxúria que tem pelo patrão, tudo isso quase sempre acompanhado pela belíssima trilha sonora composta por Gilberto Gil. Não é um filme fácil, mas se conseguir entrar na sintonia do pensamento anárquico de Sganzerla, garanto que terá uma ótima experiência cinematográfica.

Já pela noite, fui à Sala de Cinema Ulysses Geremia, no Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, para assistir ao drama brasileiro (assim que a prefeitura o definiu para a divulgação)
Falsa Loura. Nunca tinha assistido a nada de Carlos Reichenbach, cineasta da velha-guarda, oriundo da chamada Boca do Lixo Paulistana. Silmara é uma operária que trabalha para sustentar a si e o pai desempregado. No início, ela é arrogante, toma uma postura de superioridade perante suas colegas, quem sabe por sua beleza, mas, mesmo assim, é admirada por elas em virtude de sua sinceridade e coleguismo. Aos poucos, num dos grandes méritos do longa, Silmara vai mostrando a menina sonhadora por baixo da casca de mulher inabalável. Ela é fã de músicas românticas, bregas para dizer a verdade, e este clima meio kitsch dá uma verniz diferenciado à narrativa visual.
Falsa Loura não é um filme perfeito, irrepreensível, por conta de algumas atuações pouco inspiradas e uma que outra inconstância do roteiro. Contudo, o que vi foi um filme ótimo, sincero, que tem na protagonista o epicentro narrativo, como se todos os acontecimentos e mesmo as experiências dos coadjuvantes servissem apenas ao propósito de enriquecer Silmara como personagem. O filme é muito bem dirigido e se vale da presença luminosa, belíssima e competente de Rosane Mulholland como a protagonista. Reichenbach se propõe a mostrar o universo feminino das operárias por meio dos anseios e escolhas de Silmara e isto resulta num filme de diálogo fácil com diversos públicos e fadado à ser incompreendido por outros tantos, devido à sua veia kitsch e escolha pouco convencional de elenco.
Dois diretores oriundos da cena alternativa das décadas de 60/70, com enfoque nas suas protagonistas loiras e sonhadoras, cada qual a sua maneira, bem distintas uma da outra, é verdade, mas com um diálogo possível, mesmo que uma sirva à alegoria da periferia carioca e a outra ao realismo kitsch do subúrbio paulistano.