terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Os Indomáveis

Direção: James Mangold
Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas, baseado num conto de Elmore Leonard
Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Logan Lerman, Dallas Roberts, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Alan Tudyk, Gretchen Mol

Na década de noventa, quando todo o mundo cinematográfico já imaginava o western como gênero morto, eis que surgiu um dos grandes ícones de outrora e fez um filme maravilhoso, laureado com Oscar e tudo mais. Estou falando de Clint Eastwood e seu genial Os Imperdoáveis. É um filme primoroso, nostálgico sem ser retrógrado, que virou consenso crítico e catapultou definitivamente a carreira de Eastwood como cineasta. Parece ter sido apenas um último suspiro, sabe quando a lâmpada brilha mais forte antes de se apagar definitivamente? Pois é o que aconteceu com os westerns de lá para cá. Chamados também de faroestes (não me venha com esta história de bang-bang, o nome baseado na onomatopéia é ridículo e reducionista em minha opinião) estes filmes pertencentes ao gênero americano por excelência, mas que também encontraram êxito nas produções italianas, conhecidas somo spaghetti-westerns, parecem simplesmente ter caído em ostracismo, seja porque o público não se identifica mais com seus personagens ou qualquer outro fator. Cineastas tentaram, em vão, fazer, ao longo destes quase vinte anos, alguns filmes que revisitassem o velho oeste americano. Digo em vão, pois os resultados, geralmente, foram de relevância duvidosa e mesmo quando saíram bons filmes, o público não respondeu aos esforços, ou seja, más bilheterias foram colocando mais pás de terra no sepulcro do western. Uma das mais recentes tentativas de se ressuscitar o velho gênero, foi feita pelo diretor James Mangold, utilizando o clássico Galante e Sanguinário, para fazer uma refilmagem, tendo como protagonistas dois nomes invejáveis: Russell Crowe e Christian Bale. Mais uma vez, o público não pagou para ver, o filme fez apenas bilheteria mediana, mas, garanto que os poucos que o viram em tela grande, apreciaram e muito o resultado da empreitada.

Dan Evans (encarnado com espantosa veracidade por Bale, um dos grandes atores da atualidade) é um rancheiro, cheio de dívidas por causa da seca. Ele perdeu uma das pernas, na verdade uma parte dela, quando servia nas tropas do norte e agora tem que lidar com a falta de dinheiro, a pressão pelos pagamentos e o desgosto que a mulher e os filhos no fundo sentem por sua situação paupérrima. Habitando outro mundo, temos Ben Wade (Russel Crowe, que demora um pouquinho a convencer como bandido, mas quando convence, é uma recompensa e tanto ver ele no papel) líder de uma gangue que acaba de assaltar uma diligência. Dan representa a vida pacata e sossegada no oeste, enquanto Ben é o próprio perigo em pessoa, sua chegada em qualquer lugar já é prenúncio de morte. Mesmo com realidades tão distantes, os dois se encontrarão e compartilharão uma jornada que os aproximará ideologicamente, mostrando-nos que ambos são muito parecidos, mesmo que tudo, suas motivações, seu caráter, sejam diferentes.

De saída, o grande acerto de James Mangold foi a escolha do elenco, e não falo só dos protagonistas que dominam o filme completamente, com atuações maravilhosas, mas também dos coadjuvantes que se saem muito bem na missão de ajudar na construção da história. Nesta área, a dos coadjuvantes, destaque todo especial para Ben Foster, que é dono de um personagem tão fascinante quanto os principais (menos profundo, é claro), numa clássica abordagem do convencionalmente chamado “segundo em comando do bando”. No entanto, o grande mérito de Mangold foi ter conseguido oferecer roupagem nova à história, por meio de uma direção muito inspirada, porém sem esquecer de obedecer a certos códigos que regem o gênero, ou seja, ele criou uma obra de linguagem contemporânea, dotada de um espírito clássico.

Os Indomáveis é, portanto, um ótimo filme, grande realização de um diretor que se mostrou apaixonado pelo projeto e que contou com o apoio de alguns profissionais que apostaram na ressurreição daquele que sempre foi um dos tipos de cinema prediletos, não somente dos americanos, mas de cinéfilos no mundo todo. Se não foi tão laureado quanto Os Imperdoáveis ou tão aclamado quanto os de antigamente, Os Indomáveis pode se gabar, sem dúvida alguma, de honrar e dignificar o gênero, oferecendo a esperança de que outros diretores competentes e apaixonados pelos cowbóis e outros seres que habitavam o velho oeste, os tragam do limbo, colocando-os de volta no Olimpo de onde nunca deveriam ter saído.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Gran Torino

Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk, baseado na história original escrita por de Dave Johannson, Nick Schenk
Elenco:
Clint Eastwood, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch, Cory Hardrict, Dreama Walker, Brian Haley, Doua Moua, Brian Howe, Lee Mong Vang, Bee Vang, Ahney Her, Sarah Neubauer, Christopher Carley, Nana Gbewonyo, Rio Scafone

Hoje, aos 78 anos, Clint Eastwood é um dos mais respeitados profissionais de cinema, seja pela história que construiu no passado, como ator, ou mesmo pela carreira que edificou, principalmente nos últimos 15 anos, como diretor. Cada vez que é divulgado um novo trabalho seu, paira sobre ele a expectativa de mais uma indicação ao Oscar, ou mais algumas, se levarmos em conta suas últimas obras. A academia parece gostar muito de Clint, parece ter um carinho especial com as realizações deste ator que já fez de tudo, mas que se tornou legendário por meio dos westerns, gênero americano por excelência (mesmo que Eastwood tenha se tornado notório nos spaghettis de Sérgio Leone). Neste ano, o quase octogenário cineasta dá provas de fôlego e disposição ao realizar dois filmes (tal qual tinha ocorrido em seus projetos anteriores, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima): A Troca, filme que tem como protagonista Angelina Jolie (muito elogiada no último Festival de Cannes) e Gran Torino, filme que, segundo o cineasta, marca sua despedida em frente às câmeras, ou seja, mantida a palavra, é a última aparição de Eastwood como ator. E que despedida.

No filme, ele interpreta Walt Kowalski, um veterano da guerra da Coréia, que se vê cercado de vizinhos imigrantes. O problema é que Kowalski, além de mal-humorado, é preconceituoso e não está nem um pouco preocupado em costurar laços com quem quer que seja (menos ainda com coreanos), mesmo com seus filhos e netos, que o tratam de forma distanciada. Morando com sua cadela, a única que consegue conviver fraternamente com ele, Kowalski é um tipo que, a priori, parece fazer de tudo para afastar as pessoas, por simplesmente não gostar do contato que tem com elas. Ele não tem fé, parece carregar mais culpa do que se imagina, como se fantasmas o visitassem toda noite e, ainda assim crê não precisar de ajuda alguma, é um solitário convicto. Conforme a história vai se desenvolvendo, e por alguns caminhos os quais não convém entregar aqui, o velho Walt começa a ter contato com a gente que antes desprezava por puro preconceito e a casca que parece cobri-lo vai se quebrando aos poucos, numa narrativa que endurece quando se espera sentimentalismo, mas que não perde a ternura.

É até difícil, falando das interpretações de Gran Torino, tentar avaliar os coadjuvantes, que tiveram a dura missão de fazer frente a uma atuação tão avassaladora como a de Clint Eastwood. O ator desenvolve seu personagem de uma forma tão visceral, tão orgânica e convincente que não tem como deixá-lo fora do quadro. Ele é o eixo da narrativa, o pilar de um filme feito com esmero e mãos de artesão. Gran Torino lembra aqueles exemplares de antigamente, que não precisavam de grandes estripulias para prender a atenção do espectador. Alguns podem acusá-lo de ter uma trama convencional, ou mesmo de ser esquemático, o que, em minha opinião, não é verdade. O que poderia justificar alguma ressalva é a mudança um tanto quanto radical de Kowalski em relação à seus preconceitos, algo que eu entendo como idéia que reforça a casca que cria em torno de si, não sendo ele tão ruim e rancoroso de fato, tendo a dita casca quebrada com certa facilidade então. Alguns subtextos tornam o filme ainda mais interessante e o personagem de Clint ainda mais humano. Se vai ganhar algum prêmio, um Oscar, aí eu já não sei, mas Clint Eastwood merece todo e qualquer pela vida que dedica ao cinema, à realizações de qualidade e profundidade. E se esta é sua despedida como ator, só tenho a agradecer e aplaudir pelo trabalho que ele desempenhou durante estes anos, encarnando tantos personagens diferentes e culminando neste que é uma obra-prima, e que habita num filme tão bonito e bem realizado.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dicas para o Ano Velho

Olá, caro Amigo-leitor.
Tenho consciência do tempo que deixei de lhe falar, mas como seria de costume, não darei qualquer tipo de desculpa, que de qualquer forma soará falsa e produzida a partir de um molde largamente utilizado.
Pois bem, deixemos de palavras e por conseqüência frases que por fim não nos levarão a lugar algum. Sem pretender tomar importância de jornalista, pretendo sim informar, na realidade é mais adequado escrever ao invés de “informar”, “alertar”. Amigo-leitor, não se assuste, porque não se trata de texto relacionado aos perigos do homem para a frágil natureza, por um simples exemplo corriqueiro, mas de questões que nos competem, a mim e a meus fiéis companheiros de blog, neste espaço. Alerto você para pontos que parecem pertinentes no momento presente. Aí vão:

1ª O Governo Federal através do MEC – Ministério da Educação lança em cunho comemorativo aos 100 anos da morte de Machado de Assis (?), tido como o maior literato brasileiro dos tempos até aqui, sua obra inteira digitalizada no seguinte link. Vale como dica, tendo em vista que não me agrada a leitura que não seja com papel em mãos, ao menos que o conteúdo seja leve e pouco.


2ª O site Projeto Releituras, possui, dentre outros inúmeros atrativos aos amantes da literatura, um interessante link “Rato de Sebo”, que nada mais são que tirinhas, como as que nos deparamos em periódicos, porém voltadas ao mundo cultural e principalmente ao das letras. Segue abaixo um exemplar:



3º (E último, para alívio de muitos) Segunda-feira, dia 29/12, às 19:30 na UCS TV, dentro do programa gravado Estúdio Aberto, o Celo e o Kon falam um pouquinho sobre nosso curta-metragem de estréia, “Famílias Felizes se Parecem”. Fiel, Amigo-leitor, se puder, se o destino não lhe reservar outro caminho, por favor, não perca.


Abraçosss aos que até esta linha me agüentaram. Aos demais, até mais ver. Se bem que os que não me agüentaram até esta linha deixam de receber meu “até logo”, mas o faço àqueles que, apressados, lêem o começo e o fim, sem se deter ao meio, negligenciado.
Sem mais delongas.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Crítica: Marley & Eu

Direção: David Frankel
Roteiro: Don Roos e Scott Frank, baseados em livro de John Grogan
Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Alan Arkin, Eric Dane, Kathleen Turner, Nathan Gamble.

Marley, o pior cão do mundo. Difícil pensar nessa definição para o animalzinho que aparece com uma fita vermelha no cartaz de Marley e Eu, filme familiar que chegou no natal aos cinemas e que apresenta um casal simpático se adaptando a diversas mudanças, sejam elas geográficas, profissionais, ou mesmo relativas ao aumento da família. Difícil pensar que o carismático labrador poderia ser o pior cão do mundo, mas não quando se assiste ao filme e se percebe os problemas que John e Jenny Grogan tiveram ao longo do tempo tendo Marley como animal de estimação.

Confesso que se mostra difícil não transformar um texto sobre Marley e Eu em algo pessoal. Não li o livro de John Grogan, best-seller que deu origem ao filme, mas a produção tocou quem vos escreve já nos créditos iniciais, quanto colocou Michael Stipe e Kate Pierson cantando a animada Shiny Happy People. Também não sou o maior fã de cachorros, mas quem pode resistir aos filhotes que aparecem em cena quando o personagem de Owen Wilson, que interpreta o já mencionado John Grogan, decide presentear sua esposa com um labrador? Outro ponto que devo mencionar é a escolha de Jennifer Aniston para viver Jenny Grogan, sendo eu um fã incondicional da extinta série televisiva Friends.

Uma vez mencionados todos os atrativos para mim na produção, não posso sobrepô-los aos erros do filme dirigido por David Frankel, que não são poucos e transformam Marley e Eu em outra produção gananciosa dos estúdios americanos, que se utiliza de diversos recursos apelativos para comover e ganhar seus espectadores. Frankel já fez trabalho semelhante em O Diabo veste Prada, outra adaptação de best-seller que dirigiu, e segue a mesma linha de trabalho tocando um filme que apela para a comédia inicialmente, mas que lentamente vai se transformando em algo mais sério e dramático.

O roteiro escrito a quatro mãos por Don Roos e Scott Frank é bem resolvido e opta por soluções interessantes vez ou outra para dar continuidade a trama, como alguns pulos no tempo em momentos onde a história poderia se tornar monótona. Outra opção inteligente dos roteiristas junto ao diretor foi a de inserir uma seqüência onde John narra uma série de acontecimentos em ‘fast forward’, o que apresentou diversas situações que provavelmente foram relatadas no livro e que seriam menos relevantes para a trama do filme se apresentadas integralmente, mas nem por isso descartáveis.

O enfoque do roteiro de Roos e Frank é bastante adequado pois não se limita apenas às peripécias do cão e as dificuldades de seus donos em educá-lo, mas abrange o desenvolvimento de boa parte da vida do casal Grogan. Por exemplo: é triste perceber que John nem sempre esteve satisfeito com aquilo que tinha em mãos, sempre buscando melhorar de vida sem desagradar os que o cercavam, o que nem sempre se mostrava uma satisfatória decisão. Sebastian, o amigo de John, não é um personagem gratuito por isso, já que sempre esteve fazendo o que quis, conquistando tudo aquilo que John sonhara, mas nem por isso é mais feliz que ele. Pelo contrário: quando ambos se encontram depois de muito tempo separados, John percebe que não trocaria sua família pela vida que o amigo leva (fato que inteligentemente fica implícito no filme). Os conflitos do casal também são exibidos sem muitos artifícios, assim como o nascimento de seus filhos e todas as adaptações necessárias para que a família siga vivendo.

Não conheço John Grogan e tão pouco vi alguma entrevista do mesmo para saber como ele é, mas Owen Wilson nunca deixa de ser Owen Wilson nos papéis que representa, por tanto a imaturidade do ator acaba comprometendo sua caracterização como o dono de Marley. O personagem se mostra tangível em boa parte da película, mas quando sua vida passa a mudar, também com a chegada dos filhos, ele simplesmente não se desenvolve, o que não o deixa permanecer crível. Já Jennifer Aniston se sai melhor nessa questão, criando Jenny como uma mulher forte que abdica de sonhos antigos por sua família. Curioso mesmo é perceber que nenhum dos dois atores foi caracterizado para se assemelhar mais aos donos de Marley, estando ambos exatamente iguais ao que são na realidade e como aparecem na maioria das produções que protagonizam. Ainda no elenco se encontra Alan Arkin como o editor chefe do jornal em que John trabalha, responsável pelas melhores piadas do filme. Eric Dane, que interpreta Sebastian, repete exatamente seu papel como o Dr. Sloan da série Grey’s Anatomy, um mulherengo bem sucedido que serve como amigo do personagem principal.

Marley e Eu é isso, uma produção comercial que tem seus erros ofuscados por vários acertos. Longe de ser um grande filme ou uma obra obrigatória, a comédia dramática vale ser vista por agradar facilmente, pelo tom leve com que se desenvolve e por relatar com veracidade o relacionamento entre humanos e animais. Se você já teve um bichinho de estimação fica impossível não se identificar com John ou Jenny, uma vez que ambos se mostram extremamente prejudicados pelo bagunceiro Marley, mas mesmo assim não conseguem deixar de gostar do querido animal.


Nota: 7,0
Publicado originalmente em
www.cineplayers.com

Crítica: Sete Vidas

Direção: Gabriele Muccino
Roteiro: Grant Nieporte
Elenco: Will Smith, Rosario Dawson, Woody Harrelson, Barry Pepper, Michael Ealy, Elpidia Carrillo.

Will Smith retoma a parceria com o diretor italiano Gabriele Muccino, após trabalharem juntos no drama À Procura da Felicidade, e aposta mais uma vez em seu talento dramático para interpretar Ben Thomas, funcionário da Receita Federal que decide ajudar a sete estranhos para se redimir de erros do passado.

Smith é um caso interessante do ator que cresceu tanto nos últimos tempos que tornou seu nome em sinônimo de bilheteria. Dois de seus últimos filmes, Eu Sou a Lenda e Hancock, arrecadaram tamanha quantia que é mal foram lançados e já se ouvia menções a seqüências, ou prequels, no caso do primeiro filme citado. Indicado ao Oscar por Ali e por À Procura da Felicidade, não é de se estranhar que Smith continue a aceitar papéis dramáticos, mas as indicações ao grande prêmio não garantem necessariamente a qualidade no desempenho de Smith em seu último filme.

E o trabalho razoável do ator em Sete Vidas é apenas uma de suas várias irregularidades. Escrito por Grant Nieporte, roteirista que tem dentre seus trabalhos episódios da série televisiva ‘Sabrina’ (sim, a série da bruxa adolescente, que nada tem a ver como filme homônimo de Billy Wilder), o roteiro do drama é o que mais deixa à desejar, uma vez que opta por sua desconstrução e a utiliza como forma de intrigar o espectador. Nieporte guarda muitas informações para o final de sua história, sendo uma delas a real intenção de seu protagonista por trás de suas ações, o que não garante que espectadores mais atentos não possam ir resolvendo as questões levantadas com antecipação, assim deixando a resolução do filme apenas previsível.

Se Smith por sua vez se esforça demais para ter uma atuação memorável, mas consegue parecer apenas descomedido em sua caracterização, duas interpretações valem o filme e até surpreendem, de maneiras diferentes: Rosario Dawson, bela atriz que nunca teve um papel suficientemente forte em suas mãos, faz de Emily Posa o grande destaque do filme, carregando sozinha todas as cenas que divide com o protagonista. Em contrapartida, Woody Harrelson, que já desperdiçou grandes chances de se mostrar um brilhante intérprete, desenvolve Ezra com simplicidade, impressionando por sua sagacidade ao desenvolver o introspectivo cego. A cena em que Harrelson e Dawson se encontram, no derradeiro final da produção, longes do pretensioso Smith, é um dos melhores momentos que o filme conseguiu desenvolver.

Se não quiser estragar uma possível surpresa, sugiro que pule para o próximo parágrafo.
A mensagem principal de Sete Vidas acaba por ser seu grande trunfo e, mesmo que não seja apresentada de forma completamente satisfatória, é um dos poucos pontos positivos do longa. A campanha no filme sobre a importância da doação de órgãos é o que se destaca, quando são apresentadas ao final da projeção as ações tão altruístas que o personagem de Smith tem ao longo da trama.

Apenas outro nome na produção, Gabriele Muccino não se faz notar em nenhuma cena do filme em particular, por desenvolver seu trabalho de forma demasiadamente simples e nada inspirada. Resta agora esperar pelos novos trabalhos de Smith e ver se ele é um dos grandes atores que aprende com seus erros, ou é daqueles que não se importa com os mesmos, contanto que continue atraindo milhões de pessoas para as salas de projeção, em filmes que colocam seu nome em tamanho proporcional ao título dos mesmos.


Nota: 5,0
Postado originalmente em
www.cineplayers.com

domingo, 14 de dezembro de 2008

Capitu

Segunda parte do projeto Quadrante, que tem como meta realizar duas microsséries por ano baseadas em talentos regionais da literatura brasileira, Capitu é, sem dúvida, superior à primeira adaptação, A Pedra do Reino. Não quero com este comentário dizer que houve claro amadurecimento narrativo, ou algo que o valha, depreciando a obra anterior. Também não quero que, aquele que se põe a ler, pense que não gosto desta adaptação televisiva do mítico livro de Ariano Suassuna. Muito pelo contrário. Sou um dos poucos que a defende, dizendo que, a minissérie (ou microssérie, como se chama por aí, afinal tem somente cinco episódios) foi uma das coisas mais criativas e inventivas que surgiram na televisão aberta brasileira nos últimos tempos. Alguns reclamaram do estilo teatral, do uso excessivo de alegorias e do hermetismo do trabalho de Luiz Fernando Carvalho, cineasta dono de um olhar muito particular, injustamente pouco reconhecido. A Pedra do Reino era instigante, nos restituiu o direito ao pensamento, à reflexão sobre uma obra audiovisual apresentada no maior disseminador da cultura de massa deste país (não por menos, uma das maiores redes de televisão do mundo), sem contar que nos enchia os olhos pelo visual apuradíssimo. Então, porque digo que Capitu, releitura do famoso Dom Casmurro de Machado de Assis, consegue ser ainda melhor?

Bem, a começar pelo próprio material a que se reporta como origem. O texto machadiano é riquíssimo (não que o de Suassuna não fosse, distante disto), e foi preservado na sua transposição às telas. Na verdade digo estas coisas baseado mais em informações, do que na opinião, já que não li (eu sei, vergonha) o famoso livro de Machado e muito menos o de Ariano. Não pense também que a fidelidade da qual falei, é uma prova da subserviência de Luiz Fernando à obra original, pelo contrário. Talvez seja a releitura o que faz de Capitu um êxito e, provavelmente, isto aponte uma direção para os que acham impossível transformar em imagens, grandes obras literárias. A servidão não é bem-vinda, a reverência sim e um diretor que sabe reverenciar sem apequenar suas intenções é mais bem-vindo ainda.

Se há os que se incomodam com o rock 'n' roll que embala a história, com os elementos que ligam a época ao nosso tempo, conferindo-lhe atemporalidade, ou os que acharam “um pouco demais” a intérprete da adolescência de Capitu ser tatuada, eu sinto muito, e falo isto sem medo de parecer pedante ou mesmo arrogante. Não é uma questão de saber ou não apreciar uma obra, é mais uma questão de aceitação, de se permitir outras leituras, outros formatos que não sejam tão quadráticos e, por vezes, errôneos em sua servidão cega e surda.

O êxito de Capitu não é obra de um homem só, e nem poderia ser. Confesso, porém, que se tivesse de dar crédito à apenas um homem por este trabalho magnífico, o daria a Luiz Fernando Carvalho, pelo apurado senso estético, por ter escolhido um elenco afinadíssimo e, principalmente, por não ter medo do novo, por não temer mexer com as concepções perceptivas de um povo acostumado à Donatelas e Floras, típicas personagens que ilustram o maniqueísmo e a falta de originalidade que infestam o horário nobre. Mas, não comparemos Capitu às novelas ou mesmo às séries mais tradicionais que acabam criando esta pasteurização narrativa que limita a aceitação de muitos e empobrece a percepção. Ao invés de aprofundar a comparação desleal entre a microssérie e outros formatos televisivos vigentes, permito-me uma travessura, a de romper com o combinado e eleger mais um destaque individual: Michel Melamed. A figura que ele interpreta, a do narrador Casmurro que acompanha e revive sua vida pregressa, ao tempo em que a escreve num livro de memórias é, com o perdão do joguete de palavras, memorável.

Só espero que o projeto Quadrante siga nesta toada e que, nem mesmo os baixos níveis de audiência, tirem de Luiz Fernando Carvalho a liberdade para continuar, através do lúdico e da narrativa que estabeleceu, nos brindando com programas tão necessários e enriquecedores. Parabéns também à Globo que, finalmente, está dando sentido ao chamado “padrão Globo de qualidade”, mesmo que timidamente.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

William Shakespeare

Desde muito cedo, até mesmo antes de me interessar por literatura, pelas peripécias da prosa e do verso, já ouvia falar de um bardo inglês, um tal de William Shakespeare. Mal eu sabia que este homem de tão vasta fama, era um dos maiores, senão o maior, dramaturgos de todos os tempos. Suas obras sobreviveram ao tempo, atravessaram os séculos servindo, como de origem, ao teatro e, com o passar do tempo, estendendo sua abrangência à quase todas as artes possíveis. Pois bem, mesmo ele sendo tão famoso, elevado à estatura de “incomparável”, particularmente nunca tinha lido nada dele, nenhuma de suas peças, no máximo tinha assistido algum filme que sorvia seus temas ou mesmo visto alguma coisa que se baseava em sua vasta criação. Há algum tempo, adquiri num sebo da cidade dois tomos, um que compila alguma de suas tragédias mais famosas e outro de comédias e sonetos. Acabo de terminar o tomo das tragédias, que continha as seguintes peças: Romeu e Julieta; Macbeth; Hamlet, Príncipe da Dinamarca; e Otelo, O Mouro de Veneza.

De todos, meu predileto, provavelmente, é Hamlet, o heróico filho que tem de lidar com a morte do pai e a "traição" da mãe. Otelo é outra peça magnífica, em grande parte pelo jogo criado por Iago, dos secundários, o mais protagonista dos personagens de Shakespeare que li até agora. Romeu e Julieta é um clássico eterno, uma história de amor embalada pelo réquiem que rege a relação entre Montéquios e Capuletos. Macbeth e sua esposa nas conspirações palacianas mais ardilosas, demonstram a insanidade que se confunde/mistura com uma ambição sem limites.

A experiência de ler Shakespeare foi excelente, enriquecedora, e não me furtarei o prazer de voltar às histórias do bardo, muito em breve.

sábado, 15 de novembro de 2008

Trailers

Bom, voltando ao assunto “trailers”, gostaria de compartilhar com os leitores (por mais que vocês sejam poucos, eu sei) três destas pequenas amostras cinematográficas que fizeram minha cabeça nestas últimas semanas. Nem preciso dizer que estou muito, mas muito curioso para conferir estes filmes.


SLUMDOG MILIONARE

Depois de ter visto Trainspotting tornei-me fã automático de Danny Boyle, diretor inglês que me instiga por seu senso estético e a preocupação com a atmosfera de seus filmes. Neste novo projeto, Boyle vira suas lentes para a Índia.

“Um jovem de um bairro pobre de Mumbai, cidade da Índia, decide participar de um programa de perguntas e respostas na televisão. Mesmo sendo analfabeto, ele surpreende a todos ao ganhar o jogo, o que levanta suspeitas de que pode ter trapaceado. O que o rapaz queria, no entanto, era apenas reconquistar a garota que ele ama.”


Aparentemente banal, o tema pode ser um mero pretexto para que Boyle fale sobre a questão social Indiana, para que nos forneça uma abordagem daquele país, sem estereótipos. O trailer é muito bem feito e já li por aí que tem gente achando este o melhor filme da carreira do diretor britânico. Ver para crer.


WATCHMEN

Com a ótima repercussão de Madrugada dos Mortos e o posterior sucesso de 300, adaptação da HQ escrita por Frank Miller, Zack Snyder tornou-se um dos nomes mais visados do cinema americano. Talvez por isso tenha sido convocado a tomar conta da adaptação cinematográfica da HQ mais cultuada de todos os tempos, Watchmen.

Watchmen é situado em uma América alternativa de 1985, na qual super-heróis fantasiados são parte da estrutura comum da sociedade, e o "Relógio do Juízo Final" - que marca a tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética - é permanentemente acertado em cinco minutos para a meia-noite. Quando um de seus antigos colegas é assassinado, o abatido, mas não menos determinado, vigilante mascarado Rorschach decide investigar um plano para matar e desacreditar todos os super-heróis do passado e do presente. À medida em que ele se reconecta com sua antiga legião de combate ao crime - um grupo desorganizado de super-heróis aposentados, dentre os quais somente um possui verdadeiros poderes - Rorschach vislumbra uma ampla e perturbadora conspiração que está ligada ao passado deles e a catastróficas conseqüências para o futuro. A missão deles é vigiar a humanidade... Mas quem está vigiando os Watchmen?”


O segundo trailer de Watchmen (este que está acima) consegue ser melhor do que o primeiro – e isto é muito, visto que ele era excelente – por contar mais da história e mostrar que, provavelmente, Snyder tenha feito o filme de heróis mais cerebral já visto. Aliás, pelas prévias, taxar Watchmen de “filme de heróis” pode ser um equívoco.


THE CURIOUS CASE OF BENJAMIN BUTTON

David Fincher, um dos diretores mais subestimados de Hollywood, está prestes a lançar este filme, que já vem dando polêmica devido a uma briga do cineasta com o estúdio, aquela velha história de :

Estúdio: Mas, peraí, quanto tempo teu seu filme?

Diretor: Quase três horas!

Estúdio: Mas isto é inviável do ponto de vista comercial...

Diretor: Mas não é comércio, é arte. Não vou cortar mais nada.

Estúdio: Ah, não vai? Quem te deu o dinheiro?

Enfim, esta é uma discussão que soa até como clichê. Porém, ao contrário das outras quedas de braço entre diretor e estúdio, em que o segundo sempre ganha, David Fincher tem o “poder” de, quase sempre, sair-se vitorioso e levar às telas o filme como ele concebeu. O resultado disto, na maioria das vezes, é pouco público e uma enxurrada de críticas positivas. Neste novo filme ele tem Brad Pitt como protagonista (repetindo a parceria exitosa de Clube da Luta) e Cate Blanchett como seu interesse amoroso.

“Um homem de 80 anos começa a rejuvenescer inexplicavelmente. No entanto, depois de se apaixonar por uma mulher de 30 anos, ele se vê em um dilema: como manter o relacionamento se continuar a ficar mais jovem, e ela, mais velha?”


As prévias são primorosas e revelam uma direção de arte apurada. Em se tratando de David Fincher, a expectativa tende a ser justificada.

Ps.: As sinopses foram retiradas do site Cinema em Cena.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Crime, castigo e outras divagações

Olá, pessoal!

O livro traça a história de Raskólnikov, jovem russo de origem humilde e de futuro promissor, tendo em vista seu intelecto privilegiado. O protagonista se vê repentinamente envolto em um mundo até então desconhecido. O crime. Sua consciência promove turbilhões, a confusão toma as rédeas da razão. O castigo. Dostoievski traça um interessante paralelo, sobretudo no final, com Jesus Cristo e seu destino.

Crime e Castigo. Não poderia passar em branco minha primeira experiência com textos de Fiódor Mikhailovich Dostoievski. Quando surge a oportunidade de apreciação, nem sempre essa palavra nos parece bem empregada, devido ao fato de nem sempre apreciarmos aquilo que nos é oferecido aos sentidos, de algo famigerado pela qualidade e, por vezes, no pedestal de obras clássicas, cresce qualquer coisa de estranho no íntimo do receptor, no caso a pessoa nós. Sem sabermos ao certo por quem, nos impõem obras que são tidas como fundamentais. E se não gostarmos? Terei argumentos de forte alicerce a fim de justificar meu nado contra a corrente? Será que não nado contra a corrente por pura e simples birra?

Aqui compartilho da corrente daqueles que ignoro a identidade. Fugindo da teia que nega a verdade, me ponho a dizer que conheço sim a identidade de alguns, que até mesmo têm seus trabalhos influenciados pelo escrito supracitado. Kafka. Woody Allen. E mais um amontoado de literatos, cineastas, artistas plásticos, músicos e por aí vai. Confesso que eu, enquanto não leitor de Crime e Castigo, já sofria tal influência sem o saber.

Os indivíduos devem expressar suas opiniões, porém se despindo de opiniões alheias que, na raiz, vão de encontro às suas convicções não publicadas. Temos de analisar o todo. Em qual estado de espírito nos encontramos? Estarei preparado à obra? Ela dialoga comigo? Se sim ou não, por quê? Digo que o escritor russo, com história de tamanha complexidade, me convenceu quanto à qualidade de sua obra. Confesso que muito me escapou, contudo o que reagiu de maneira oposta resultou em fascínio. Não, não é senso comum. Não serei menos ou pior por concordar com a maioria das pessoas, ao menos as que têm interesse em literatura. A qualidade existe e não me concedo o direito à negligência.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

CRU


Cru. Primitivo. Sentimento em estado bruto, difícil de domesticar por meio de nossas mentes super-desenvolvidas. Amor, daquele que dói, machuca, arde e, mesmo assim, nos parece necessário.

Tendo como centro narrativo o amor, a Cia Teatral Atores Reunidos estreou, na última sexta-feira, seu mais novo espetáculo: CRU. Nome apropriado à uma montagem que nos joga na cara, sem a intenção da ofensa e do choque, a fragilidade humana por meio de temas que dialogam com nossos recantos mais íntimos. O olhar de indiferença, a mortandade do sentimento e da carne, as teias que fabricamos em busca de amor, tudo está nesta obra intimista, difícil e catártica. O afeto se confunde (ou se funde) em uma antropofagia que faz com que tenhamos, quase como instinto, a necessidade de devorar o outro numa espécie de canibalismo sentimental. A morte espreita, aguarda o resultado de nossos joguetes sentimentais, contando com a perenidade desta busca pelo clichê “amar e ser amado”.

Tal qual a nudez dos atores em cena, somos levados, durante quase uma hora, a ficarmos expostos à nós mesmos. Sensação difícil esta, causadora de um desconforto, a priori, inexplicável. Após decantar o espetáculo, vemos que ele estabeleceu o diálogo supracitado com nosso íntimo, provocando algo mais do que o racional pode explicar. Em CRU nosso sensorial manda, é como a sentimos que faz toda diferença.

Gostar ou não, envolver-se ou não, é muito subjetivo. Por isso mesmo eu digo: vá e tire suas próprias conclusões. Espero, sinceramente, que para você seja uma experiência tão edificante quanto foi para mim.

sábado, 11 de outubro de 2008

Sociedade do Espetáculo Banal


Há algum tempo o cinema passa por transformações radicais. Com “transformações”, não quero falar sobre as formas de distribuição, o fato de a indústria lidar com a pirataria, as novas tecnologias ou algo relacionado ao mercado cinematográfico. Falo mesmo do cinema, dos filmes. Pergunta-se muito se a banalização que nos é apresentada em grande profusão ultimamente, principalmente na forma dos blockbusters americanos, é ocasionada pela própria indústria, preocupada em vender para mais público, ou será um reflexo direto de tempos em que as pessoas não tem o costume de ler, de se informar, de se engajar em causas urgentes e necessárias. Sem rodeios? A pergunta é: o cinemão ficou burro porque o consumidor é mais conivente ou esta conivência advém da falta de conteúdo passada pelo cinema e outros meios de comunicação? Reflito sobre esta questão inúmeras vezes, afinal, como apreciador de cinema e outras formas de expressão, sinto-me curioso quanto a este comportamento antropológico das mídias e dos públicos. Retomei hoje esta indagação ao ver Rede de Intrigas, filme dirigido em 1976 por Sidney Lumet . Será que um filme genial como este, que fala sobre a pasteurização dos meios de comunicação, sobre o modelo de vida imposto pelas corporações, a sociedade do espetáculo, sobre o limiar que separa o jornalismo do apelo barato, sobre as pessoas, e sobre tantas coisas mais, teria espaço, seria sucesso nos dias de hoje? Consternado, chego à conclusão que não. Afinal, Rede de Intrigas aposta no brilhantismo de seu roteiro, nas interpretações magistrais de um time estrelado de atores e numa direção de mestre para, em quase duas horas, primordialmente nos fazer refletir sobre diversas questões pontuais da sociedade. Será que a sociedade atual quer refletir, ou prefere ver aquele herói que, de arma em punho, briga pela supremacia americana? Ou mesmo aquela comédia que robustece estereótipos, reforça a crosta de velhos preconceitos? Não há nada de errado em entretenimento, muito pelo contrário, precisamos dele. Porém, é com muito pesar que chego à conclusão de que cineastas como Lumet, preocupados com muito mais do que fazer cinema para aparecer nas revistas de celebridades, são raros e, após suas mortes, terão poucos herdeiros. Não quero aqui ser o cavaleiro do apocalipse cinematográfico, longe disso. Acredito que há muitos bons nomes no cinema contemporâneo, fazendo filmes comparáveis aos que os mestres faziam outrora. Pena que até mesmo estes bons nomes tenham que se refugiar nos guetos dos festivais, em mostras menores, nos circuitos fechados, prestigiados por uma parcela pequena (se compararmos com o todo) de pessoas que vêem no cinema muito mais do que pipoca e divertimento. É uma pena. Ou somos assolados pela falta de qualidade artística ou pela falta de interesse do público quando ela existe. Eis a complexidade do tema.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Simplesmente CRU

Amor, sentimento quase orgânico nutrido entre criador e criatura.

Paixão, atração, inebriação – independe a nomenclatura, “amor inorgânico”, edificado entre um ser e outro sem relação direta. As “metades da laranja”. Balela. Por vezes, e são inúmeras por sinal, nem mesmo laranja são, quanto mais metade do mesmo fruto. Todavia, me vem agora algo curioso, que em nossas vidas muito é pensado em função da árvore: a historieta de “Eva e Adão”; a “Árvore Genealógica” de uma família, clã ou qualquer que seja o tipo de organização; os “frutos de uma relação”; as “raízes da sociedade (de um pensamento, de uma teoria)”...

Hitler via os judeus como frutos estragados, podres a serem sacrificados em prol da manutenção da “árvore humanidade”. Que sentimento, não se atendo à ideologias, tomou papel de motor em suas ações? Amor pela causa? Talvez. O amor deturpado, aquele que há pouco comentei, inorgânico. O amor cego, surdo e mudo, omisso e trágico. O amor sem gênero, número e grau, tal qual o é entre criador e criatura. O amor com e sem preconceitos. O amor platônico, galgado na idealização e que refuta, embora há negação, sua concretização. O amor de ônibus. O amor de boate. O amor de cama. O amor de segundos e anos. O amor assim, difícil de definir. O amor simplesmente CRU.

sábado, 4 de outubro de 2008

Gritos e Sussurros

Direção: Ingmar Bergman
Roteiro:
Ingmar Bergman
Elenco:
Henning Moritzen, Harriet Andersson, Inga Gill, Erland Josephson, Ingrid Thulin, Liv Ullmann, Kari Sylwan, Anders Ek, Malin Gjörup

Como já devo ter dito em algum texto (me repito com uma freqüência irritante) Ingmar Bergman foi o diretor que melhor capturou a dor humana, o sofrimento a que somos impelidos em alguma parte de nossas vidas, ou durante toda ela. A inquietação do cineasta sueco perante estas dores que atingem o ser humano, foi matriz para que, como artista, ele nos desse algumas das obras mais significativas, não só do cinema, mas da arte como um todo. Esta introdução, que demonstra a admiração que tenho por Bergman, é só para dizer que re-assisti hoje àquele que, em minha opinião, é o mais denso, o mais profundo e, por conseguinte, meu filme favorito de Bergman: Gritos e Sussurros.

Reza a lenda que Bergman teve a idéia trabalhando em uma imagem que não saía de sua cabeça, que lhe veio através de um sonho. Mulheres vestidas de branco contra um fundo vermelho. O que isto queria dizer? Acometido pelo desejo de tirar alguma idéia daquela imagem, o cineasta “compreendeu” que eram três irmãs, estavam juntas e tristes porque uma delas iria morrer. Gritos e Sussurros começa com imagens estáticas que, aos poucos, vão nos inserindo aonde tudo ocorrerá. A casa de campo, rodeada por uma natureza exuberante e que, internamente, tem seus cômodos e móveis abundantemente escarlates. Neste cenário somos levados à uma mulher que repousa lividamente em seu leito. Aos poucos, Agnes vai mudando sua expressão, nos transmitindo a dor que sente em virtude de uma doença terminal. Cuidando dela estão as duas irmãs, Karin, a mais velha, e Maria, a mais nova, juntamente com Anna, a empregada.

Mais do que abordar a doença de Agnes, Bergman aqui nos leva, ao longo de mais ou menos 90 minutos, à uma experiência única, uma sutil e contundente exploração da personalidade das quatro mulheres. Não ficamos presos a imagem de Agnes, mortificados por sua dor apenas. A narrativa intercala o desespero pelo fim próximo, a agonia que Agnes sente, com ao desnudamento moral e ético de Karin e Maria, personagens riquíssimos, interpretados com genialidade por Ingrid Thulin e Liv Ullmann, respectivamente. Karin vive um casamento de mentiras, não infidelidade ou algo que o valha, e sim mentiras cotidianas, que abalam a estrutura de seus sentimentos, de sua sanidade, tornando-a uma mulher fria, dura e até mesmo cruel em sua postura gélida. Maria pode ser mais facilmente comparada a uma boneca, por sua beleza exuberante e falta de conteúdo, sendo ela oca sentimentalmente. Sua frivolidade e capacidade de dissimulação, lentamente descobertas por nós espectadores, tornam ela mais do que uma boneca, mostram uma faceta tão calculista quanto a de Karin, aproximando-as quando as tínhamos quase como que antagônicas. Tentei, mas creio que, mesmo assim, não tive competência em caracterizar duas personagens tão bem construídas, cheias de variações e inconstâncias. Bergman tinha isso, aproximava, mesmo quando usava situações surreais, seus personagens do ser humano cotidiano, aquele de caracterização rasa fácil, mas de difícil definição completa e, geralmente, não definitiva.

Emolduradas pelos belos cenários, iluminadas de forma brilhante pelo mítico Sven Nykvist, tratadas com uma delicadeza espantosa pela câmera genial de Bergman, temos estas mulheres, irmãs de sangue, porém, distantes , e Anna, empregada devotada que cuida de Agnes como se ela fosse sua filha, morta precocemente em virtude de uma doença súbita. Ela, a morte, nunca foi tratada com o mesmo peso, com a mesma densidade que Bergman empregou neste filme. A finitude, o desespero, a insegurança, os traumas e o amor, seja ele apresentado sob qualquer faceta, se misturam em uma obra sem comparações, genial nos quesitos técnicos e em sua significação. Gritos e Sussurros é meu filme favorito, não somente por ser maravilhoso em todos aspectos mas, por mostrar muito mais do que intenções, por efetivamente atingir um ponto em mim que raras obras conseguiram, nenhuma com a mesma intensidade.

domingo, 28 de setembro de 2008

Crítica: Gritos na Noite

Direção: Marc Forster.
Roteiro: Marc Forster, Adam Forgash e Catherine Lloyd Burns.
Elenco: Radha Mitchell, Megan Mullally, Jacqueline Heinze, Catherine Lloyd Burns, Justin Louis, Matt Malloy, Mark Boone Junior e Courtney Watkins.


Existe uma vertente do cinema contemporâneo que tem levado diversos cineastas talentosos a enxergarem nos subúrbios americanos histórias até então não contadas, utilizando o ambiente aparentemente pacífico como pano de fundo ou mesmo como personagem em suas narrativas. O espaço foi desconstruído e a imagem da família moderna perfeita, imaculada, já fora desmistificada, não sendo mais vista como exemplo de estrutura familiar “ideal”. Todd Solondz foi um dos pioneiros com os filmes desse gênero, se já é possível o classificar como um, quando em Bem-Vindo à Casa de Bonecas e Felicidade abordou o cotidiano de personagens que viviam nos tais subúrbios. Com Solondz se destacam Sam Mendes com Beleza Americana e Todd Field e seus Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos. Em Gritos na Noite o mesmo espaço é alvo de uma análise crítica, junto a outros temas passíveis de reflexões, raramente abordados com tamanha crueza pelo cinema americano.

Gritos na Noite é o segundo filme dirigido por Marc Forster, cineasta de talento reconhecido e que hoje tem em seu currículo filmes voltados ao grande público, como Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas. Faz-se notar a incrível disparidade dos filmes subseqüentes de Forster com este trabalho menor, sendo a maior característica de Gritos na Noite a experimentação feita pelo diretor em suas escolhas estéticas. O diretor venceu o Festival de Sundance em 2000 na categoria de Melhor Direção, justamente por apresentar o uso de elementos fílmicos simplistas e pouco utilizados com tamanha competência.

O que temos aqui é um trabalho filmado em um digital cru, quase caseiro, que tem papel importante por aproximar o filme a uma realidade palpável. A escolha pelo digital tosco casa perfeitamente com o ambiente onde o filme se passa, e a maioria das cenas funciona incrivelmente bem, como em uma seqüência de um aniversário infantil, que apresenta todo o núcleo de personagens se relacionando, como se um parente próximo estivesse captando tudo aquilo através de uma câmera doméstica, para rever posteriormente com sua família.

A forma original aplicada pelo trio de roteiristas Adam Forgash, Catherine Lloyd Burns (que também atua no filme) e pelo próprio Forster à trama, muito recorrente por sinal - mãe perturbada pela precoce morte de um filho -, é um dos grandes feitos de Gritos na Noite. Não há espaço no filme para momentos gratuitos, ou cenas descartáveis, pois toda a relevância de algumas seqüências aparentemente desnecessárias acaba subentendida, como em um dos primeiros diálogos, onde a protagonista, então grávida, reflete e exterioriza seus pensamentos acerca do movimento cíclico da vida. A passagem faz referência ao próprio filme, que tem em sua derradeira seqüência o nascimento de uma nova realidade para a vida da personagem, extremamente semelhante à inicial.

O mundo perfeito que Forster analisa através de sua direção por vezes frenética vai se metamorfoseando ao decorrer do filme. As pessoas vão aos poucos apresentando outras faces, lados desconhecidos, enquanto a atormentada personagem de Radha Mitchel, Angie, é machucada por uma série de acontecimentos desencadeados com o falecimento de seu filho, como os recorrentes problemas com suas amigas, pessoas que assim não mereciam ser classificadas. Quando a banalidade em seus relacionamentos se resume a encontros e discussões vazias, as amigas de Angie visivelmente transmitem a felicidade por terem o controle de suas previsíveis vidas. Quando o inesperado ocorre com Angie, no entando, as tais mulheres sempre presentes passam a evitar a companhia daquela que julgam agora ser uma estranha, pelo simples fato de estar mudando o curso no qual tudo deveria estar acontecendo.

Não se pode esquecer a composição extraordinária de Radha Mitchel para Angie, atriz que posteriormente não foi tão bem aproveitada por outros diretores (talvez por Woody Allen, em Melinda e Melinda), que merece grandes elogios já que sem um desempenho visceral como o seu o filme ficaria em parte vazio. Espero que se inserindo em projetos como o novo James Bond Marc Forster consiga posteriormente certa independência criativa e volte a trabalhar em projetos menores, singulares como este, e de grandes resultados.

Caxias em Cena: Contas Diárias e o encerramento

De boas intenções o inferno está cheio! Assim, com este pensamento, se encerrou o Caxias em Cena, pelo menos para mim. Explico. Na verdade este foi o paralelo que fiz entre a peça vista ontem e o festival como um todo, levando em conta seus aspectos.

No espetáculo paranaense Contas Diárias, somos levados a ver três histórias que, acredito eu, pretendiam, mesmo em segmentos diferentes, apresentar uma unidade, mostrando através de fatos diferentes uma visão convergente sobre a natureza humana. Na primeira, um casal de velhinhos; na segunda, duas crianças brincando e um pai vendo televisão; e na terceira, uma menina e um menino fazendo uma prova na escola enquanto o professor lê um livro sobre arte. Utilizando máscaras (muito mais expressivas em sua inércia do que alguns atores são em movimento) a companhia nos apresentou uma obra um tanto quanto insossa e morosa, não despertando muito o interesse da platéia que aplaudiu timidamente ao final. Fiquei com a impressão de ver algo desnecessário, possuidor de uma boa idéia, dotado de trilha sonora interessante, mas que, no todo, foi falho por não conseguir nada além do visual, no máximo, nos cativando por certas encenações, porém, num nível de consciência muito raso, onde as intenções de profundidade mostraram-se somente como vontade.

Pois bem, o Caxias em Cena foi um festival ótimo este ano pelas inúmeras peças de qualidade que trouxe, pelo preço acessível que permitia maior adesão do público. Não sei, porém, se por causa da soberba do título fajuto de Capital da Cultura ou mesmo pela aproximação das eleições, o que poderia ter sido amplamente divulgado, festejado como uma mostra de arte para o povo caxiense, terminou sendo um aglomerado de peças, ótimas repito, mas que não tiveram a divulgação necessária, não foram tratadas com a devida atenção que mereciam. Prova disso o baixo comparecimento de público, na maioria das apresentações. Até quando vamos ficar reféns de intenções, que não são levadas a sério nem mesmo por quem as têm? Afinal, de boas intenções o inferno está cheio.

Drummond e as Gatinhas

Olá, pessoal!

Tenho a necessidade de compartilhar com vocês uma experiência, no mínimo, curiosa. No último dia 25, minha aula na UCS terminaria às 16 horas ou meados dessa. Pois bem, tecnicamente acabou antes. Às 15 horas. O problema: o ingresso para uma peça do Caxias em Cena, às 20 horas. O que fazer? Devo confessar que a vontade de retornar para casa existia, porém a vontade de “matar tempo” na biblioteca também. Na procura de material: “Crime e Castigo”. Encontrei a mesma edição que estou lendo e, desbravei o capítulo próximo, após alguns poucos minutos nas prateleiras o localizando. Terminada a leitura, sobrava tempo, menos de uma hora, mas não dispensável tempo. A poesia nunca foi alvo de minha atenção, contudo queria ler algo curto e pus em minha cabeça um autor: Mário Quintana. Só eu e, a entidade superior que nos controla e governa, segundo a Bíblia, sabe o quanto vasculhei. Descobri que me falta talento e paciência com os códigos de chamada do material.

Desisti. Encontrei outro, um usurpador de minha atenção. Carlos Drummond de Andrade. O título não recordo. Recordo a impressão que causou o primeiro poema lido. Erotismo. O segundo. Erotismo. O terceiro. Erotismo. Senti-me um adolescente pervertido. Folheando mais a frente o livro, descobri ser uma publicação de textos de cunho erótico, não recorrente na obra de Drummond, conhecido por sua timidez. Lembro do título, de um pedaço dele, para lidarmos com a exatidão, de um dos poemas: “Mulher Gulosa”. De “Gulosa” a certeza. Estabelecia uma analogia entre o picolé ou sorvete e o sexo oral.

Segue abaixo um poema de Drummond (excelente) que localizei na internet, o qual li lá na biblioteca. Sorte minha a capa prezar pela discrição:


Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante boca milvalente

o corpo dois em um o gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar e ser chupado

no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Caxias em Cena: A Julieta e o Romeu

Casa cheia. O que vi ontem foi o Teatro Pedro Parenti totalmente lotado para a exibição da peça paulista A Julieta e o Romeu. Existia, inclusive, grande número de crianças presentes. Teatro com palhaço é ideal para a criançada, pensam os pais. Ledo engano. A Julieta e o Romeu traz ao palco dois clowns em um espetáculo metalingüístico e adulto, com várias referências e cenas que fogem da compreensão dos petizes. Na trama, Mafalada Mafalda, atriz conceituadíssima e muito muito antiga, conta com a ajuda de seu estagiário na homérica tarefa de representar uma peça-mosaico, na qual estão presentes os mais clássicos textos de Shakespeare (sim, ele novamente, fonte inesgotável de inspiração). O espetáculo é um pouco longo - se tivesse vinte minutos a menos o ritmo seria ideal – mas o talento dos atores Andréia Macera e, principalmente, Ésio Magalhães, contagiou o público de tal forma que a mis en scène foi interrompida muitas vezes por causa dos aplausos. Realmente engraçadíssima, A Julieta e o Romeu ainda presenteou à platéia (pelos menos os mais atentos) com um subtexto bem bonito sobre amor e dedicação, por meio da figura do clown que tenta, mesmo sem talento, de tudo para agradar e fazer feliz a mulher que ama.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Caxias em Cena: Noite de Reis

Continuando minha incursão pelas atrações do Caxias em Cena, voltei, na noite de ontem, a assistir uma comédia, gênero que parece ter mais prestígio e aceitação, dado a maior quantidade de público nas peças desta natureza e mesmo pela oferta do festival, que tem neste gênero sua predominância. Será que, em geral, se prefere rir a chorar no teatro? Enfim, digressão, possivelmente inútil, mas que pode dar o que pensar. A peça em questão era Noite de Reis, monólogo oriundo de Portugal, baseado num texto clássico de William Shakespeare. Leonor Keil representa os onze personagens da peça, dez pessoas e um cão. Para quem esperava grandes cenários, trocas de figurino, ou mesmo achou estranha a opção pelo monólogo num texto em que há tantas figuras, acredito que a encenação foi uma surpresa total. A atriz utiliza apenas sua expressão corporal e desenhos feitos rusticamente em pedaços de papel para contar a história. Os méritos são de Leonor e da linguagem proposta, que dão verniz interessante ao texto de Shakespeare, nos convidando a embarcar numa viagem lúdica, onde os movimentos e jogos cênicos, muitas vezes, substituem a palavra. Os aplausos efusivos e gritos de “bravo” no final não foram exagero, e sim o reconhecimento à um grande trabalho, em forma e conteúdo.

domingo, 21 de setembro de 2008

Caxias em Cena: Começar a Terminar

Do alto de seus 76 anos, esta semana, durante o Porto Alegre em Cena, Antônio Abujamra estreou mais uma peça, dirigindo e atuando. Começar a Terminar teve como seu segundo palco, hoje, o Teatro Pedro Parenti, da Casa da Cultura. A peça é uma declaração de amor do artista à um dos maiores dramaturgos do século XX, senão o maior, Samuel Beckett. Durante mais ou menos quarenta minutos, Abujamra conversa com o público se utilizando de alguns personagens clássicos do dramaturgo irlandês. Interagindo com dois personagens, um homem e uma mulher, que parecem saídos diretamente do imaginário daquele que foi um dos fundadores do teatro do absurdo, Abujamra transborda segurança e transmite à nós, espectadores, a força de um grande artista reverenciando a obra de outro grande artista. A encenação não se curva à linearidade ou mesmo ao entendimento, servindo sim ao pensamento por meio dos signos, atingindo um plano mais sensorial. A reflexão sobre o papel da arte e sua implicação cotidiana aparece, disfarçada no tom satírico, no deboche de um texto adaptado com intenções de mostrar que, ao entendermos a arte, possivelmente entendemos o que somos, para que servimos e, quem sabe, para onde vamos.

O Caderno de Rafael

José Saramago. Há um tempo diria ser um nome não estranho à minha memória, porém de cunho íntimo inexistente. Talvez até diria mesmo ser escritor, contudo a certeza não me acompanha em tal afirmação. Ano passado (2007), a disciplina “Laboratório de Criatividade” contava com a tarefa de resenhar um livro do autor português, O Homem Duplicado. Tendo em vista que minha curiosidade literária já se fazia presente e a busca pelo livro nas prateleiras da biblioteca universitária seria digna de gladiadores, resolvi comprar o livro, edição brasileira da Companhia das Letras. Sobre essa experiência nada mais relatarei, pois caso tenha lhe instigado por informações mais delineadas a respeito desse, segue link de minha autoria.

Fã ardoroso. O que sou em relação a Saramago. Um exemplo de alguém que começou sua carreira literária tardiamente e de êxito singular, bem como a maneira que usa para se expressar. Fabuloso jeito com as palavras. Fiquei surpreso com a notícia de que as rugas de Saramago não o impediram de lançar um blog. Não apenas um blog, lança mão de estigmas próprios de pessoas de idades avançadas, que vêem na internet um estranho, avesso às suas ideologias. José Saramago usa desse para lidar com sua famigerada inquietação intelectual.

No post de abertura nos deparamos com texto de sua mulher, Pilar. Informa do término de um novo livro, para deleite dos fãs, A viagem do elefante, cujo trecho pode ser apreciado no endereço eletrônico do autor.

No link “O Caderno de Saramago” pode-se ler alguns textos do mestre português. O prazer das páginas de seus livros disponível agora, em escala menor e com objetivo diverso, na grande teia. Que Saramago continue tecendo seus pertinentes textos por muito tempo, seja na rede e, principalmente, nas páginas inebriantes de seus livros.

Crítica: Ben X - A Fase Final

Direção: Nic Balthazar
Roteiro: Nic Balthazar
Elenco: Greg Timmermans, Laura Verliden, Marijke Pinoy, Pol Goossen.

“Para os seres atentos, o mundo é um só”.
Heráclito

Nunca se viu tempo onde essa frase fizesse maior sentido do que o presente, onde as tecnologias virtuais gradativamente proporcionam (ou causam?) mudanças de aspecto extraordinário em nossa sociedade.

Ben apenas é uma das muitas pessoas que, infelizes com a própria realidade, se apegam a esse mundo virtual deixando em segundo plano suas legítimas vivências. “Ben X” fala sobre Ben e seu grau de envolvimento com o jogo Archlord e os desdobramentos implicados pelo mesmo em seu cotidiano, somados com o que o torna ainda mais desigual perante aos outros: a síndrome de Asperger, uma espécie mais leve de autismo.

A premissa por si só, que já é genial, quando inserida no roteiro e direção visionários de Nic Balthazar é levada a proporções fantásticas. O roteiro de Balthazar é complexo, porém guiado de forma branda e muito bem resolvida. As questões levantadas por sua narrativa vão desde o amplamente discutido conceito da virtualidade contra a realidade até a abnegação do ser ao seu “eu - próprio”, quando sugere o descarnamento de Ben perante a ficcionalidade de seu jogo.

Greg Timmermans, o intérprete de Ben, desenvolve seu personagem de forma brilhante e coesa, e deixa em evidência juntamente com o trabalho de Balthazar as dificuldades enfrentadas por seu personagem, dada sua condição. Ben já seria um pária por viver fantasiando seu dia-a-dia, e isso somado à síndrome que o afeta gera incompreensão por parte de seus colegas de escola, o que provoca conseqüências extremamente lamentáveis.

Se for difícil para o espectador compreender as ações de Ben, basta analisar a febre que causa jogos como “Second Life” ou mesmo os semelhantes ao Archlord (que realmente existe), como “World of Warcraft” e “Ragnarok”. O jogador vive uma outra realidade e passa a se relacionar com outros jogadores, a fazer amigos e compartilhar experiências, porém muitas vezes sem nunca ver ou falar diretamente com a outra pessoa. Essa possibilidade muitas vezes causa o afastamento da pessoa de sua realidade, e com Ben isso é potencializado também por sua condição psicológica.

Em sua direção Balthazar se arrisca e inova, ao utilizar uma técnica chamada Machimina (híbrido de machine cinema, ou cinema maquínico), que consiste na utilização de atores criando interpretações para personagens virtuais do jogo Archlord. Toda a seqüência inicial de “Ben X” e diversas outras de grande importância para a trama são geradas através dessa técnica, o que em nenhum momento torna o filme enfadonho ou causa estranheza. Da forma com que são inseridos e dispostos na história, são de fundamental importância, como na cena onde Ben divaga sobre a facilidade com que um personagem pode ganhar os atributos físicos que seu criador desejar, enquanto se olha no espelho e analisa sua própria fisionomia, com certo desgosto. Uma outra opção do diretor que é acertada, a de trabalhar com depoimentos dos personagens secundários que vez ou outra interrompem sua narrativa, gera expectativa ao público que espera saber qual a utilidade de tais cenas para o filme. Se por vezes os comentários são repetitivos e o recurso não seja inovador, o todo e principalmente o desfecho da trama compensam essas pequenas seqüências.

O que assusta, e pode causar certas crises de consciência ao espectador de “Ben X” diz respeito à forma com que nós vivemos nossas realidades. Estou escrevendo esse texto fazendo o uso de uma tecnologia virtual, não palpável. E você leitor, faz parte da mesma realidade, lendo os mesmos escritos através desse meio cibernético. O filme aqui analisado, por mais que supostamente seja baseado em fatos, é irreal, fictício, assim como o cinema (salvando a produção documental, porém não em sua totalidade). Estaríamos por tanto vivendo um simulacro, onde o real fica em segundo plano pelo tempo necessário para que se viva a realidade de outrem.

Como se pode então criticar Ben ou outras pessoas por recusar o real e se apegar tanto no virtual sendo que nós próprios, aficionados a um meio em comum, o cinema, deixamos de lado nossa realidade para cultuar algo não concreto? Existem muitas teses que responderiam essa questão através de diversas perspectivas, porém não se faz necessário expressar minha opinião própria a respeito, já que cabe a cada um, quando o interesse existir, refletir sobre as razões que o faz despregar-se de seu “eu próprio” para viver o fascinante ficcional do cinema.


Texto publicado originalmente em: www.cineplayers.com

sábado, 20 de setembro de 2008

Caxias em Cena: Chalaça - A Peça


Bom, e na Capital Brasileira da Cultura (hehehehehehe, desculpem, não me contive), teve início, nesta semana, o décimo festival de teatro Caxias em Cena. Acho a iniciativa da prefeitura de Caxias do Sul absolutamente louvável, afinal não é sempre que podemos ver boas peças da cidade e, principalmente, vindas de outros estados e até mesmo de outros países, por míseros e simbólicos 5 reais. Sim, toda e qualquer apresentação que ocorrerá até o dia 30 de setembro, custa somente 5 reais (menos o show do Cidadão Quem, mas este, na opinião deste que vos fala, é totalmente dispensável). E por este valor, o que se espera? Casa cheia, certo? Sim, certo, é isto que se espera, mas, infelizmente, não é isto que está acontecendo, pelo menos não nesta primeira semana. Informações obtidas com amigos dão conta de que, os primeiros espetáculos possuíam um público estreitamente ligado com a arte teatral (atores, diretores). O público em geral, o povão mesmo que não freqüenta teatro regularmente, público alvo do baixo valor do ingresso, não tem comparecido. Falta de divulgação? Descaso da parte da prefeitura? Mais um sinal de que a Capital da Cultura é um título tal qual o da família real brasileira nos dias de hoje, ou seja, bonito, porém sem valor real algum? Bom, deixemos esta discussão pertinente, porém cansativa e batida, para uma próxima vez. O que quero falar agora é que, ontem, fui ver a minha primeira peça do Caxias em Cena (tenho ingresso comprado para mais quatro).


Chalaça – A Peça é uma adaptação feita pela Cia. Les Commediens Tropicales, de São Paulo, para o livro Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça, de José Roberto Torero. A peça tem por mote a família real brasileira, e/ou portuguesa, ou seja, aquela da nossa pátria mãe. Filha da mãe! Somos portanto, e invariavelmente, uma pátria filha-da-mãe, fato. A encenação fala, mais precisamente de Francisco Gomes da Silva, conhecido como Chalaça, figura interessantíssima de nossa história, chamado de A Sombra do Imperador, famoso também por ter apresentado Domitila, a futura amante de D. Pedro e Marquesa de Santos, ao nobre. Como isto não é uma aula de história (eu nem teria conhecimento para tanto), vamos à peça. A encenação começa com um pandemônio, os personagens correndo de um lado para o outro com suas cadeiras e figurinos ora discretos, ora extravagantes. A correria acaba, somente quando um dos personagens senta no centro do palco, com um microfone em sua frente e começa a falar, tal qual estivesse a dar um depoimento, melhor ainda, como se estivesse sendo interrogado sobre a sordidez que existia nas relações familiares reais e o envolvimento de Chalaça em todas estas. O tom começa mais sério, um pouco didático (natural em se tratando de história), mas, aos poucos, a comédia começa a tomar forma, uma forma inapelável, irresistível. Personagem vai, personagem vem, e numa dança das cadeiras muito bem pensada, acompanhada de palavreado erudito misturado com linguagem popular, vemos um pouquinho do nosso passado como colônia e, depois, como império se mostrando por meio das ações de Chalaça, que não aparece como personagem físico na peça, mas, torna-se tão palpável e rico como nenhum outro encenado. Não tenho aqui a pretensão de fazer um texto crítico (tal qual ocorre no caso da história, não tenho bagagem para isso, não sou um conhecedor profundo de teatro), mas devo dizer que Chalaça – A Peça marcou um dos momentos mais divertidos que já tive no teatro. A comicidade, o ótimo texto e a ousadia da companhia contribuem para que se tenha quase uma hora e meia da melhor e mais divertida aula (no melhor sentido da palavra) de história. Destaque para os momentos que são utilizados como transição, para dar uma revigorada na narrativa. Num destes momentos o joguete que se faz é tão engraçado que, nem a genitália masculina exposta, soa como ofensa, soa sim como limite a que o brasileiro chega para sacanear o próximo. Isso mostra um pouco do povo que fomos naquela época e no qual nos tornamos, ou seja, não mudou muita coisa.

domingo, 14 de setembro de 2008

Trailers

Sou um cara que adora trailers de filmes. Nada melhor para divulgar uma produção futura, do que um trailer eficiente. Está certo que, às vezes, estes vídeos de, mais ou menos, três minutos contém tudo que o filme pode oferecer, ou seja, nem sempre um trailer maravilhoso vem a ser o aperitivo de um filme maravilhoso. Nos últimos tempos tenho me irritado com aqueles trailers que contam o filme todo, literalmente do início ao fim. Será que os departamentos de marketing dos estúdios pensam que assim, ao entregar tudo num vídeo curto e editado a seu bel prazer, farão com que as pessoas se interessem mais, freqüentando assim seus cinemas e abarrotando seus cofres de dinheiro? Não sei, questão difícil esta de saber o que passa na cabeça dos outros. Só sei que um trailer, quando bem feito, pode determinar se uma pessoa vai ou não ver um filme, se ela vai ou não procurá-lo numa prateleira de locadora.
Esta semana vi dois trailers que fizeram minha cabeça.

The Soloist

Começo por The Soloist (ainda sem título em português), dirigido pelo talentosíssimo Joe Wright (responsável pelo ótimo Desejo e Reparação). O filme conta a história real de Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), um homem que vive sob um viaduto de estrada em Los Angeles e que é um virtuoso no trompete, violoncelo e piano. Ayers sofre de esquizofrenia e se afastou da sociedade por conta da doença - até que o jornalista Steve Lopez, interpretado por Robert Downey Jr., o encontra. Parece-me digno de, pelo menos, muita atenção um filme como este, dirigido por um dos mais virtuosos e plásticos diretores que surgiram nos últimos anos (mesmo que alguns o tenham como pernóstico), interpretado por dois grandes atores como Jamie Foxx e Robert Downey Jr., este último vendo sua carreira ressurgir das cinzas num ano inesquecível.




007 - Quantum of Solace
Confesso que nunca fui fã ardoroso dos filmes de 007, devo ter visto uns dois ou três dos mais de vinte. Ontem mesmo assisti a 007 Contra Goldfinger, filme do qual gostei bastante, mesmo soando datado e um tanto quanto ingênuo. Em 2006 resolveu-se começar a franquia quase que do zero, já que acompanhamos o momento em que o agente James Bond recebe sua famosa licença para matar. O enfoque ficou mais realista, a mitologia do personagem foi respeitada até o limite das novas ambições e tivemos em 007 – Cassino Royale um grande filme, do qual sou apreciador. O trailer da seqüência acaba de sair e, sob a batuta de um diretor competentíssimo como Marc Forster, 007 – Quantum of Solace (ainda sem título em português) promete ser ainda melhor.

Dragon Ball?

Olá, pessoal.
30 minutos. Tempo que destinava à televisão, grudado ao sofá, durante mais de um ano, 5 dias por semana. Ansiava por aquela metade de hora que, em dado momento, para meu júbilo na época, chegou a quase uma hora integral. Revistas abarrotadas com o mesmo assunto. Boatos mil. Goku e companhia Ltda. Não renego o passado, que me serve agora de combustível.

Não pretendo expressar qualquer tipo de opinião leviana e vazia a cerca da adaptação cinematográfica de Dragon Ball. Contudo, as informações e imagens divulgadas até então são decepcionantes. Difícil dizer “decepcionantes” quando não há perspectivas positivas quanto ao produto final. Como argumentar perante roteiro que, segundo fontes ligadas à produção do longa, ignora características marcantes de seu protagonista, tomando por exemplo sua galopante burrice e ingenuidade?

Espero que as esferas ainda sejam do dragão.


Abraçossss

domingo, 7 de setembro de 2008

Estamira

Que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!

Trecho fortíssimo do ótimo documentário Estamira, dirigido por Marcos Prado. Um filme sobre as dificuldades de alguém, ciente de sua condição psicótica, que precisa catar lixo para sobreviver e, mesmo assim, mantém o pensamento ordenado e uma clareza de idéias invejável. Um documentário sobre a perda da fé, sobre a visão de que Deus é somente um alívio paliativo para as dores dos que sofrem. Nada mais. E se as pessoas preferirem viver à sombra da verdade, encarando, sem apegos intangíveis, seus problemas? A realidade é dura, mas, para alguns, ainda é melhor do que jogar esterco ao céu esperando que dele caia, ao invés de merda, adubo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Duas Louras do Cinema Brasileiro

Ontem pela manhã eu estava em casa, escolhendo o que iria ver (tinha de ser algo relativamente curto, pois, não dispunha de muito tempo antes do almoço). Resolvi assistir Copacabana Mon Amour, dirigido pelo mítico Rogério Sganzerla, afinal o filme tem somente 70 minutos. Sganzerla é um cineasta que respeito muito, e este respeito se deve à sua obra prima, O Bandido da Luz Vermelha, em minha opinião um dos melhores e mais provocativos filmes brasileiros já feitos. Confesso que também já me decepcionei com Sganzerla, ao assistir seu derradeiro filme, O Signo do Caos, que me pareceu mais um exercício de estilo, um tanto quanto monótono, do que qualquer outra coisa. Bom, voltando a Copacabana Mon Amour, o filme é tão alegórico quanto O Signo do Caos, e isso poderia soar pejorativo dado o meu comentário anterior de desagrado com este filme, mas, neste caso, não o é. A alegoria que orienta Copacabana Mon Amour é um dos pontos fortes deste pequeno grande filme de Sganzerla (perdoem-me o uso de expressão tão batida). Acompanhamos Sônia Silk, loira oxigenada suburbana que tem o sonho de ser cantora da Rádio Nacional e vê espíritos baixarem em seres e objetos. Seu irmão, Vidimar, é apaixonado pelo patrão. O que vemos, nos 70 minutos do filme, são as andanças de Sônia, sua interação com uma sociedade podre carioca, que conflita com a imagem bela de Copacabana, seu irmão lutando contra espíritos e a luxúria que tem pelo patrão, tudo isso quase sempre acompanhado pela belíssima trilha sonora composta por Gilberto Gil. Não é um filme fácil, mas se conseguir entrar na sintonia do pensamento anárquico de Sganzerla, garanto que terá uma ótima experiência cinematográfica.

Já pela noite, fui à Sala de Cinema Ulysses Geremia, no Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, para assistir ao drama brasileiro (assim que a prefeitura o definiu para a divulgação) Falsa Loura. Nunca tinha assistido a nada de Carlos Reichenbach, cineasta da velha-guarda, oriundo da chamada Boca do Lixo Paulistana. Silmara é uma operária que trabalha para sustentar a si e o pai desempregado. No início, ela é arrogante, toma uma postura de superioridade perante suas colegas, quem sabe por sua beleza, mas, mesmo assim, é admirada por elas em virtude de sua sinceridade e coleguismo. Aos poucos, num dos grandes méritos do longa, Silmara vai mostrando a menina sonhadora por baixo da casca de mulher inabalável. Ela é fã de músicas românticas, bregas para dizer a verdade, e este clima meio kitsch dá uma verniz diferenciado à narrativa visual. Falsa Loura não é um filme perfeito, irrepreensível, por conta de algumas atuações pouco inspiradas e uma que outra inconstância do roteiro. Contudo, o que vi foi um filme ótimo, sincero, que tem na protagonista o epicentro narrativo, como se todos os acontecimentos e mesmo as experiências dos coadjuvantes servissem apenas ao propósito de enriquecer Silmara como personagem. O filme é muito bem dirigido e se vale da presença luminosa, belíssima e competente de Rosane Mulholland como a protagonista. Reichenbach se propõe a mostrar o universo feminino das operárias por meio dos anseios e escolhas de Silmara e isto resulta num filme de diálogo fácil com diversos públicos e fadado à ser incompreendido por outros tantos, devido à sua veia kitsch e escolha pouco convencional de elenco.

Dois diretores oriundos da cena alternativa das décadas de 60/70, com enfoque nas suas protagonistas loiras e sonhadoras, cada qual a sua maneira, bem distintas uma da outra, é verdade, mas com um diálogo possível, mesmo que uma sirva à alegoria da periferia carioca e a outra ao realismo kitsch do subúrbio paulistano.
UPDATE: Outro ponto coincidente entre as obras supracitadas: o sobrenome Sganzerla. No primeiro, Copacabana Mon Amour, o de Rogério, o diretor. No segundo, Falsa Loura, o de Djin, a coadjuvante de bela atuação. Ela, por sinal, é filha de Rogério com Helena Ignez, protagonista de Copacabana Mon Amour.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Crítica: Lars and the Real Girl

Direção: Craig Gillespie
Roteiro:
Nancy Oliver
Elenco:
Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Kelli Garner, Patricia Clarkson, Nancy Beatty.


Se convencionalmente a fórmula das comédias românticas se mantém igual em essência, alterando apenas nomes, lugares e atores (ora se vê Cameron Diaz, ora Hugh Grant), uma curta sinopse de “Lars and the Real Girl” pode assustar espectadores desavisados. Lars, jovem trabalhador com distúrbios de convivência social, decide apresentar sua nova namorada a seu irmão mais velho e sua cunhada. São duas as surpresas do casal: a primeira, por verem orgulhosos Lars se relacionando com alguém. A segunda é Bianca, a então namorada, que nada mais é do que uma boneca (normalmente utilizada para fins não exemplificados em filmes com conteúdo para menores de 18 anos).

Indicado ao Academy Award na categoria de melhor roteiro original em 2008 (perdeu para “Juno”), “Lars and the Real Girl” traz vitalidade para uma indústria cinematográfica cada vez mais direcionada à produção do cinema de entretenimento, e mostra através de uma premissa inusitada as (des)aventuras desse rapaz em sua cidade interiorana, que é confrontada pela situação incômoda à que são apresentados: os moradores devem aceitar o namoro de Lars, submetidos ao respeito que sua família possui no local e não problematizando ainda mais o estado mental do jovem.

O que é evidente em “Lars and the Real Girl” é a fluidez de seu roteiro, que se resolve frente às situações e temas que são conectados ao seu plot. O filme aborda o mote controverso enquanto cria mais e mais personagens secundários incrivelmente bem caracterizados e críveis (algo raríssimo no cinema contemporâneo), demonstrando suas necessidades e relevâncias para a trama. Como exemplo, temos os diversos moradores da cidade, que demonstram uma aceitação aparentemente irreal perante o relacionamento do protagonista com a moça de borracha. Irreal até que o roteiro guie diversas cenas em que se possa entender o relacionamento que essas pessoas criam com Bianca, onde o que primeiramente é apenas uma questão de altruísmo por Lars, passa a ser a solução de diversas necessidades desses moradores.

É então nesse momento que Bianca nasce. Ela deixa de ser apenas fruto da estranheza do personagem principal e passa a ser uma pessoa, com personalidade própria, singularidades e um próprio caráter. Os responsáveis por tamanho feito são os próprios personagens secundários, que agregam valores e características desejadas por si próprios à boneca e, com isso, desenvolvem uma identidade para a mesma. E cabe a Lars aceitar cada vez mais essa nova Bianca, que não está se comportando como aquela que ele idealizou (no extremo do literal). E Nancy Oliver, a roteirista do projeto, é a “culpada” por essa fantástica realização.

Inseridos no ótimo roteiro, os personagens são interpretados por de um time de atores de primeira, vez ou outra envoltos com bons projetos independentes, encabeçados pelo grande ator em ascensão Ryan Gosling. Gosling tem um carisma único, perfeitamente cabível à personagens não-convencionais como Lars. Também ganham destaque na película Patrícia Clarkson, como a médica da família e Emily Mortimer, que orquestra de forma incrível cenas cômicas e dramáticas como a doce cunhada de Lars.

Mesmo sem uma direção elaborada ou muito rebuscada, “Lars and the Real Girl” faz rir e emociona através de elementos muito puros. Nada como um suspiro de inovação no massificador cinema atual.


Texto publicado originalmente em www.cineplayers.com.