quarta-feira, 16 de abril de 2014

Bling Ring - A Gangue de Hollywood


Há muito que absorver de Bling Ring – A Gangue de Hollywood, novo filme escrito e dirigido por Sofia Coppola. O enredo, baseado em artigo publicado na revista Vanity Fair, fala a respeito de um grupo de adolescentes que invadiam casas de celebridades para roubar joias, roupas, bolsas, ou seja, objetos-fetiche do nosso tempo. Tais jovens, cuja ambição tem menos a ver com dinheiro e mais com aproximar-se de seus ícones – estes, por sua vez, idolatrados apenas por parecer isto ou aquilo, por ditar esta ou aquela regra de moda e comportamento –, são o retrato até certo ponto deprimente de uma geração liderada ideologicamente por valores bem supérfluos, para não dizer totalmente servis à futilidade.

A estrutura do roteiro lembra a de A Rede Social, de David Fincher, não por acaso outro filme a “radiografar” a juventude atual. O desenrolar da trama é, da mesma forma, entrecortado por investigação, depoimentos “arrependidos” e os desdobramentos do caso, artifício que visa potencializar a hipocrisia e o cinismo por trás das atitudes imaturas e exibicionistas da galera. Nesse paralelo entre presente e passado, o único a salvar-se um pouco é Marc (Israel Broussard) que, ao contrário de Nicki (Emma Watson), Rebecca (Katie Chang), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian), realmente parece envergonhado, não apenas por ter roubado, mas também por conta do prestigio alcançado após o delito. Por sua vez, Laurie (Leslie Mann), ignorante quanto aos feitos das filhas e ávida por doutriná-las através das famigeradas “Leis de Atração”, representa o elemento paterno. Essa figura esquemática e quase cartunesca acaba insuficiente (muito por ser calcada no exagero) para estabelecer observação maior acerca da responsabilidade dos pais na formação da prole frívola.

Sofia Coppola tem no DNA a ciência da força da imagem, por isso não se coloca demasiada refém do dito, ainda que aqui e acolá surjam diálogos explicativos além do necessário. Toda vez que a patota de filhinhos-de-papai se refestela nas coleções exclusivas de artefatos caros, explicitam-se observações advindas, sobretudo, da encenação e da maneira como ela é capturada/articulada. Por que astros e estrelas têm tanto? Por que a adrenalina de roubar e fazer pose depois nas redes sociais, é tão atraente? Esses jovens não seriam resultado de uma cadeia comercial que celebra a cultura da posse como imperativo social? Contudo, Sofia peca, também, na reiteração de determinados procedimentos, por exemplo, o caminho anterior aos arrombamentos (procura do endereço da vítima e do destino dela na internet + entrada sem dificuldade na casa escolhida).

Bling Ring – A Gangue de Hollywood é filme bastante oportuno, justo por lançar luz sobre as veleidades da parcela adolescente consumista e esvaziada da nossa tão enferma contemporaneidade. É repleto das sutilezas típicas do cinema de Sofia, entretanto flerta perigosamente com facilidades, sejam elas vigentes na construção de certos personagens ou na necessidade de que esses mesmos tipos verbalizem algo já evidenciado. Ainda assim, vale nossa atenção, cinematográfica e antropologicamente falando.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Doses Homeopáticas #18


APENAS UMA VEZ é um filme que sempre me ganha já nas primeiras cenas. Gosto do clima meio desleixado da fotografia, que dá um tom cotidiano à narrativa, do amor que vai nascendo devagarinho entre os dois protagonistas, ele um músico de rua que levou um pé-na-bunda da namorada e canalizou a frustração às composições e ela uma imigrante que cuida da filha vendendo flores na rua. Mas excepcionais são as músicas, as baladinhas que ajudam a delinear os personagens e que nos guiam através da progressão da trama. Não adianta, pode parecer tudo indie demais para alguns, meio bobo para outros, mas eu continuo curtindo e me emocionando com essa pequena pérola inglesa.


KILL BILL – VOLUME 01 é um das realizações de Quentin Tarantino que mais deixam evidente seu fetiche por filmes B. As produções asiáticas de kung fu, repletas de lutas improváveis e sangue esguichando, são emuladas com habilidade, reverenciadas por um evidente fã. A narrativa possui tempo descontínuo, agrega anime e uma trilha sonora expressiva para dar início ao plano de vingança da Mamba Negra. A violência é quase cartunesca, bem ao estilo das produções setentistas às quais o filme remete, e faz jus ao itinerário de um diretor que não cansa de imprimir na tela sua paixão cinéfila.


KILL BILL – VOLUME 02 adquire um tom mais sério em comparação ao antecessor. As referências estão em toda parte, de John Ford a Sérgio Leone, passando pelos já citados filmes B de kung fu tão lembrados no primeiro filme. O rastro de morte criado por Beatrix Kido vai ficando mais evidente, pois próximo de Bill, o homem responsável por desgraçar sua vida. Tarantino balanceia muito bem as cenas de ação com momentos nos quais a palavra é mais valiosa, segue embaralhando a cronologia em prol da eficiência narrativa e mostrando sua aptidão muito própria para escolher a trilha sonora. No fim das contas, KILL BILL é um filmaço de quatro horas.


O que mais chama atenção em ENTRE NÓS não é propriamente a fotografia (muito bonita), a afinação do elenco, a sutileza das paisagens como molduras da geografia interna dos personagens, ou até mesmo a trama de culpa que cruza tragédia e literatura, mas sim a exploração da ideia de um dos confrontos mais dolorosos, aquele que coloca em lados opostos do ringue o “eu” do passado e o “eu” do presente. Ao desenterrar cartas endereçadas para si próprios, datadas de dez anos, cada qual se depara com suas ilusões perdidas, seus planos fracassados e frustrações. ENTRE NÓS é mais do que um filme sobre amizades que não resistiram ao tempo, é sobre utopias naufragadas e a traição ao “eu” jovial que um dia ousou sonhar e não resistiu ao peso da “realidade”.



INSÔNIA é um filme de quando Christopher Nolan ainda não tinha adquirido o status pós-Batman. Dois policiais vão até o inóspito Alasca para ajudar na resolução de um caso de assassinato, ou seria para dar uma esfriada no escândalo envolvendo eles, que está prestes a explodir? A investigação é quase uma desculpa, apenas conduto da trama superficial, porque o que está realmente em jogo é a moralidade dos personagens, suas escolhas dúbias e comportamentos enviesados, seja em busca da justiça que acreditam estar fazendo ou apenas para autopreservação. O final deixa um pouco a desejar, mas no geral INSÔNIA é algo bastante instigante de se ver.      

domingo, 6 de abril de 2014

CINEMA A DOIS | ANDREA ARNOLD – Aquário (2009)


A dura passagem da adolescência à vida adulta de Mia (Katie Jarvis) se dá num cenário nada atraente, mediado pelo olhar pessimista de Andrea Arnold. Um amor impossível, incestuoso e até certo ponto não correspondido, apenas reafirma a frustração da moça que a todo o momento se depara com as impossibilidades e amarguras da vida.

A diretora não poupa nada nem ninguém nesse panorama severo, escuro, não muito diferente de Marcas da Vida, seu filme anterior.

A trilha de Aquário é um de seus pontos altos, uma vez que as músicas marcam o desenrolar do drama pontualmente. Seja quando a protagonista está dançando, sonhando, sofrendo, California Dreamin a representa, pela letra que fala de um sonho, um sonho pessimista, mas um sonho.
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Em Aquário, segundo filme da diretora Andrea Arnold, partimos da imagem quadrada, inusitada perante a tela larga hegemônica e de hábito, como espaço delimitador. Tal aspecto, mais do que recurso puramente visual, procura denotar o aprisionamento dos personagens centrais, moradores da periferia inglesa, sobretudo Mia, a adolescente irritadiça e explosiva que se enreda pelo namorado da mãe, mais por ele representar, a principio, algo de bom no seu cotidiano viciado de agressões verbais, do que propriamente por tesão e/ou carinho.

As saídas para Mia parecem bloqueadas, como se o curso normal de sua vida fosse repetir a miséria da mãe e continuar patinando na mediocridade. Ao longo da trama, todo e qualquer elemento que momentaneamente abranda seus infortúnios, como o já citado namorado da mãe e a audição de dança para a qual é aceita, se mostra infelizmente enganoso ao ponto de corroborar com sua desgraça. Mia vai tomar atitudes condenáveis, quase cruzando irremediavelmente certos limites morais, mas em momento algum se dá ao nosso julgamento. A menina que se expressa por meio da dança cresce ao entender a falibilidade alheia e, por consequência, a própria fragilidade.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Pulp Fiction – Tempo de Violência


Dois bandidos pés-de-chinelo, um homem e uma mulher, debatem as dificuldades de seu “ofício” enquanto saboreiam típico fast-food americano no desjejum. Crentes que fazem o melhor, eles anunciam assalto após declaração de amor, em cena já antológica:
“I love you, Pumpkin / I love you, Honey Bunny / Everybody be cool this is a robbery! / Any of you fuckin' pricks move and I'll execute every motherfucking last one of you”.
A imagem congela e os créditos iniciais surgem junto da música-tema. De cara, Quentin Tarantino mostra a que veio, através de uma ocorrência aparentemente banal, ademais início e fim de Pulp Fiction – Tempo de Violência, filme cujo caráter circular compreende três histórias interligadas pela barbárie, como bem explicita o subtítulo nacional.

Noutro espaço, físico e cronológico, Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) aparecem para cumprir ordens de Marsellus Wallace (Ving Rhames), influente gângster das cercanias. O diálogo, em princípio, é descolado da ação: os capangas discutem sobre lanches e massagens nos pés, isso na iminência de cobrar dívida à força. Contudo, exatamente nessa oposição - seguida de atração - entre fala e evento, reside um dos maiores trunfos de Pulp Fiction – Tempo de Violência. A encenação algo nonsense de Tarantino, cineasta afeito a misturar gêneros, dando-lhes roupagem pop e conferindo paradoxal originalidade ao pastiche, abriga quase à perfeição tanto os tipos dados a verborragias antes e depois de matar, quanto os subtextos não rançosos e temperados de ironia.

Quem há de esquecer o twist dançado por Travolta e Uma Thurman, ela, esposa do chefe mafioso, ou seja, na qual ele não pode pensar em tocar por temer represálias ciumentas? E a injeção de adrenalina cujo efeito é “ressuscitar” a mesma mulher, resgatando-a da terra dos mortos por overdose? Pulp Fiction – Tempo de Violência avança fora da ordem cronológica, embalado por, quiçá, a trilha sonora mais expressiva e funcional da carreira de Tarantino, composta de hits, como: You Never Can Tell, Girl, You'll Be A Woman Soon, Son Of A Preacher Man, entre outros. Na cena em que Butch (Bruce Willis) escuta o plano para entregar determinada luta, por exemplo, toca Let's Stay Together, conhecida música romântica, aqui servidora tal contraponto sonoro e, por conseguinte, dramático à face consternada do boxeador impotente frente à crueldade do mundo e à sua própria fraqueza. 

Podemos dizer que Pulp Fiction – Tempo de Violência é o principal divisor de águas da carreira do diretor hoje tido cult e importante à própria cena independente americana, então sacudida artística e comercialmente. Tarantino utiliza homicídios, cabeças espatifadas, litros de sangue, coações morais, entre outras espécies mais ou menos físicas de violência, para esquadrinhar um mundo não tão subterrâneo, onde segredos e mentiras valem algo próximo do precioso grama da cocaína. O faz com bom humor, tiradas e personagens que grudaram no imaginário popular, revestindo, ainda, a sordidez com o verniz do trivial, e entregando a retórica pretensamente erudita, porém esvaziada, a párias ordinários e bastante semelhantes aos cidadãos acima de qualquer suspeita.


Publicado originalmente no Papo de Cinema 

domingo, 30 de março de 2014

CINEMA A DOIS | ANDREA ARNOLD – Marcas da Vida (2006)


Marcas da Vida se passa numa Glasgow atual, retratada, acredito, com mais tons de cinza e escuro do que o normal. Nada agrada no âmbito visual, nem no que diz respeito à construção dos personagens, à exploração dos lugares, tampouco às situações, estas quase sempre duras, torturantes e violentas. Quantos atos mecânicos, sem vida, sem luz, desde o sexo até os diálogos.

Este deve ser o tipo de filme que desponta pelo viés independente, autoral, e ah, isto ele é: bastante autoral, único, ímpar! Uma personagem que vive para vigiar e que assume o lugar de vigiada. No entanto, não há pistas ao longo do filme, exceto nos últimos momentos, nos quais entendemos algumas relações de A com B. O resto foi-se ao longo, sem muito esclarecimento. Quando os porquês são revelados a trama ganha sentido, mas até lá rola tédio, atenção redobrada pra não perder um gap, aqueles links que costumamos fazer para tentar dar sentido ao até então vazio do vazio.

É um estilo, como disse acima. Não faz muito a minha cabeça. Tons de cinza entremeados pelo próprio cinza como cor de base e pano de fundo. Nada mais compõe esse cenário: só o cinza. Paradoxalmente Red Road, título original e nome do condomínio vigiado e vigilante, se localiza na cinza Glasgow. Sei lá, é como se alguma redenção da personagem surgisse no meio da Red Road, e até surge, mas não é pra tanto. Ela não colore o todo. Ela nem colore.
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Em Marcas da Vida, primeiro longa-metragem da diretora Andrea Arnold, o relevo principal é dado à imagem. Primeiro, porque a protagonista é uma daquelas observadoras de câmeras de segurança, alimentada pelas pequenas narrativas do cotidiano alheio enquanto evita delitos e outras distorções da paz. Por meio de seu olhar, da manipulação que ela faz das tomadas, a gente vê uma série de histórias que adicionam curiosidade à trama, sem obscurecê-la no seu principal. Segundo, porque a palavra é rarefeita, utilizada no limite da necessidade diante de uma construção imagética que dá conta de unir fragmentos, pouco a pouco, para que saibamos o que se passa.

A protagonista é enigmática, no início parece apenas obsessiva por uma espécie de vingança contra o homem que a desgraçou, mas sua obsessão vai ganhando ares de patologia mais grave ao passo que elementos insólitos do seu luto são apresentados. Mas não se trata de um inventário clínico, pois mesmo nos comportamentos mais incomuns a diretora deixa entrever os efeitos compreensíveis da dor. Quando tudo parece se encaminhar para o previsível, Andrea Arnold nos lembra de que não vemos um filme fundado na obviedade, mas na investigação de sentimentos conflitantes e não raro contraditórios. Entende-se: o erro é inerente ao ato de existir.


Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller  

quarta-feira, 26 de março de 2014

Doses Homeopáticas #17


Foi com muito prazer que revi ACROSS THE UNIVERSE, musical dirigido por Julie Taymor e embalado pelas canções dos Beatles. Gosto da maneira como a trama evolui, da juventude do casal protagonista, ela uma estudante americana e ele um rapaz que vive num subúrbio inglês, aos dias de protestos contra a Guerra do Vietnã, da turma “paz e amor”. Se não há nada de novo no percurso amoroso de ambos, isso não se aplica ao entorno, pois ele é marcado pelas tensões entre um Estado firme em seu propósito bélico-imperialista e a geração que buscava justamente se libertar. O virtuosismo da construção visual é imprescindível e totalmente integrado à narrativa que nunca dissocia ver e ouvir.


DON’T DRINK THE WATER é uma produção feita para a TV, escrita e dirigida por Woody Allen. A trama bizarra da família presa numa embaixada americana na Europa, em plena Guerra Fria, rende ótimas piadas, como as intervenções do padre/mágico refugiado há anos no mesmo lugar, ele, quem sabe, o melhor personagem do filme. De resto, a incomum câmera na mão - isso se levarmos em conta o estilo recorrente de Woody Allen - confere despojamento em meio aos cenários de estúdio. Allen interpreta novamente a si mesmo, o que é sempre muito bom de ver. Os coadjuvantes estão ótimos e o todo não deixa nada a desejar se comparado ao de outros filmes cômicos menores do cineasta.


A versão sueca de OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES, primeira parte da Trilogia Millennium de Stieg Larsson, é um ótimo exemplar investigativo, daqueles em que o suspense dita as regras em meio a uma trama interessante.  Os atores estão excelentes, sobretudo a até então desconhecida Noomi Rapace, na pele de Lisbeth Salander. A direção é simples e eficiente, mas senti falta de um peso maior da imagem, da construção da atmosfera mais ostensivamente opressora que se pode ver na versão americana dirigida por David Fincher. Ainda comparando ambas as versões, a sueca é mais eficaz no que diz respeito ao relacionamento dos protagonistas, pois evita a história de amor um tanto forçada do equivalente americano.


A segunda parte da Trilogia Millennium, A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO, possui a mesma direção correta de sua antecessora (por mais que o diretor seja outro), mas é bem inferior a ela por não contar com uma trama interessante o suficiente, nem como matéria-prima de suspense e nem como plataforma para o desenvolvimento dos personagens. Tudo se foca em Lisbeth, inclusive a investigação do cartel de prostituição que conduz direto ao seu passado. Mikael Blomkvist é reduzido a coadjuvante de luxo e mesmo a protagonista surge um tanto apática, sem o mesmo vigor que a caracterizou no filme inaugural. Parece que seguiram a série no piloto automático, totalmente ancorados no sucesso literário, sem a preocupação de fazer cinema.



Já A RAINHA DO CASTELO DO AR, terceira e última parte da Trilogia Millennium, a recoloca nos eixos. Deixando de lado a dispersão (leia-se também enrolação) do segundo filme, tem-se outra investigação de ramificações maiores do que as aparências permitem ver num primeiro momento, e cujo epicentro é novamente Lisbeth Salander. Além da trama interessante, a direção é dinâmica, privilegiando, agora sim, o desenvolvimento mais profundo dos personagens que foram apresentados na primeira parte e quase negligenciados na segunda em prol de algo bastante mal elaborado. A Trilogia Millennium se encerra com saldo bastante positivo, um todo inteligente que faz bonito frente à tradição dos thrillers

domingo, 23 de março de 2014

Encaixotando Helena


Está aí um filme que muitos amam odiar. Encaixotando Helena é a estreia da diretora Jennifer Chambers Lynch, filha do grande David Lynch, e sua trama funda-se na obsessão do cirurgião Nick Cavanaugh (Julian Sands) frente à beleza tão esfuziante quanto perigosa da prostituta Helena (Sherilyn Fenn). Uma noite de sexo basta para virar a cabeça desse homem atormentado pela mãe recém-falecida, que parece adolescente demasiado afetado se próximo de seu objeto de desejo. Tomado, então, por paixão doentia, o médico armará joguetes destinados a trazer Helena para perto, mesmo sendo avisado constantemente da inutilidade de tais recursos. Após acidente, as coisas assumirão caráter ainda mais insólito, para não dizer bizarro.

Encaixotando Helena, de fato, é um filme repudiado por muitos. Basta rápida pesquisa, indo de cinéfilos a críticos, passando também por espectadores ocasionais, para constatar as dificuldades pelas quais o longa passa em busca de “compreensão”. Longe da dinâmica quase abstrata característica de seu pai (algo entre o onírico e o surreal), Jennifer opta por um viés kitsch, no qual, por exemplo, as interpretações deliberadamente exageradas combinam muito bem com o desenrolar que ressalta o estranho dentro do prosaico. Tudo é uma questão de pontos de vista, e aqui me parece ainda mais imprescindível abraçar sem preconceitos as propostas estética e dramatúrgica, ambas assumidamente fakes.

O Dr. Cavanaugh ama sem medida, de maneira patológica. Helena sucumbe, ou melhor, os membros de Helena sucumbem para fazê-la refém da obsessão de um adulto imaturo e inseguro, cuja psique remonta à criança bastante influenciada pela frivolidade sexual da mãe. As sequelas do trauma são óbvias quando observamos o tipo de mulher que o protagonista procura para adorar: justo alguém à imagem e semelhança de sua progenitora. O próprio simplismo dessa projeção aponta à influência do melodrama, aqui aditivado de algo dos chamados “Filmes B”. Tal imbricamento linguístico sublinha, com força particular, a tragédia mental de Cavanaugh e o calvário físico de Helena.

O saldo de Encaixotando Helena é, sem dúvida, positivo. A história do médico apaixonado que mutila sua amada para dela ser cuidador (mesmo o enredo sendo relativo), é reforçada por um peculiar senso de encenação que, repito, Jennifer não emula do pai. De David, ela parece apenas herdar o gosto por trabalhar gêneros, deformando seus cânones com prazer subversivo. A guinada final - movimento canhestro para alguns - soa quase sem importância ou reverberação, pois, verdade ou não, todo périplo de Cavanaugh e Helena já está impresso na percepção do espectador. Difícil tirar da cabeça a figura de Sherilyn Fenn, sem braços e pernas, num altar elevado frente ao submisso homem que precisa dela para, de fato, sentir-se homem.


Publicado originalmente no Papo de Cinema