domingo, 3 de agosto de 2014

Joe


Os personagens de Joe, novo filme do cineasta David Gordon Green, são filhos desamparados de um país negligente e avesso às responsabilidades patriarcais. Não à toa, a paisagem interiorana, novamente utilizada como que para descentralizar a visão essencialmente urbana dos Estados Unidos, reflete a dureza de crescer órfão (literal ou metaforicamente falando). Joe (Nicolas Cage) comanda uma equipe de envenenadores de árvores. Por lei, os madeireiros não podem derrubar espécimes vivos, portanto contratam peões para fazer o trabalho sujo. Homem de liderança, ele é atormentando por uma raiva que precisa contida se quiser manter-se longe da cadeia ou de qualquer problema.

Eis que ele emprega Gary (Tye Sheridan), jovem de 15 anos incumbido de sustentar a mãe, a irmã menor e o pai alcoólatra. À medida que percebe a tenacidade do garoto frente, principalmente, à bestialidade do pai, e à necessidade de chefiar sua família disfuncional, Joe o acolhe, pois dele se sente próximo. David Gordon Green estabelece a obviedade da ligação desde o primeiro encontro dos dois, como se eles fossem o retorno ao passado para um e possibilidade de futuro para o outro. Mais lugares-comuns aparecerão. Clichê não é pecado quando bem utilizado, pois, do contrário, filmes seriam respeitados única e exclusivamente pela originalidade.

Joe é violento. Algumas cenas podem chocar os mais sensíveis, como, por exemplo, a do velho matando com golpes incessantes, apenas para roubar míseros trocados e vinho barato. A câmera permanece impávida, firme no registro da barbárie. Fora esse teor gráfico, a brutalidade surge, entre outros momentos, também na relação de Gary com o pai, esta permeada de fúria, ressentimento e desejo velado (até certa altura) de subjugação mútua. No campo simbólico, a raiva de Joe é projetada na cadela que guarda a casa, grosso modo, o lado animal da sua personalidade irascível. O protagonista reutiliza esse sentimento, no mais das vezes, em prol do trabalho, da convivência com a vizinhança e funcionários, mas nem sempre dá para domesticar impulsos tão fortes e enraizados.

Acusado justamente de escolher “errado” muitos papeis, volta e meia esbanjando canastrice, Nicolas Cage prova, mais uma vez, seu valor quando bem dirigido. Tye Sheridam, num trabalho entre a vulnerabilidade infantil e a precoce maturidade, e Gary Poulter, sem-teto chamado para fazer teste de elenco (infelizmente morto ao voltar às ruas poucos meses após as filmagens), cuja interpretação do pai nos limites da maldade é admirável, completam o trio principal que amplia a dimensão humana do filme.

A metáfora situada no sustento, fruto ora da destruição, ora do plantio de árvores, morte e vida, luz e sombra enquanto caminhos paralelos e possíveis, pode até ser considerada meio óbvia, mas representa bem o percurso acidentado dos personagens sem eira nem beira, à espera do fim ou de algo que lhes impulsione rumo a um futuro sem tanto sofrimento.


Publicado originalmente no Papo de Cinema

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Doses Homeopáticas #25 (Especial Woody Allen)


Demorei um pouco para gostar de MARIDOS E ESPOSAS, um dos filmes de Woody Allen que menos parece dirigido por ele. Talvez o maior problema seja a experimentação visual desajeitada. A câmera inquieta, os falsos raccords, em suma, esse registro bastante incomum dentro da prolífica carreira de Allen soa deslocado. Em princípio, ao invés de servir à história, a técnica reivindica espaço demais. Contudo, aos poucos a ciranda amorosa dos personagens ganha consistência, os dramas conjugais são depurados e revelam o que os alimenta: as contendas internas de cada um. Ainda que esteja longe dos filmes mais memoráveis de Woody Allen, MARIDOS E ESPOSAS não pode, entretanto, ser acusado de negligenciar as complexidades do que se propõe a observar. 


SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO possui aquela ironia típica que Woody Allen utiliza tão bem para falar sobre relacionamentos. Na trama, Allen interpreta um inventor que, com sua esposa (com quem não está conseguindo transar), recebe na casa de campo dois casais para o fim de semana que antecede o casamento de um deles. Paixões do passado voltam como assombrações, outras surgem de repente, mas parece que o cineasta quer mesmo é fazer graça dos desmandos do amor e do desejo. Tem ali também o velho embate entre a razão e o desconhecido, mas acho que é mais para zombar de quem vive de certezas, do absolutismo, das convicções (sobretudo as intelectuais) inabaláveis.


O primeiro filme dirigido por Woody Allen não é totalmente dirigido por Woody Allen. O QUE HÁ, TIGRESA? é resultado da redublagem de um longa japonês, com texto novo e remontado para servir ao enredo que tem como protagonista um similar oriental do James Bond que recebe a missão de recuperar uma receita ultrassecreta de salada de ovos. Era para ser engraçado, mas infelizmente não é. A trama até que dá liga, mas apenas no seu básico, pois os diálogos são insossos e as piadas não são lá muita inspiradas, exceto algumas que até nos fazem rir um pouco. Em suma, melhor considerar que Woody Allen estreou com Um Assaltante Bem Trapalhão mesmo.

domingo, 27 de julho de 2014

CINEMA A DOIS | JIM JARMUSCH – Down by Law (1986)
















De tanto minimalismo, o conteúdo de Down by Law se esvai. Segundo reza a lenda, porém, este filme dirigido e roteirizado por Jim Jarmusch é um marco do cinema independente americano dos anos 1980. À margem da sociedade, três caras são presos por motivos diferentes e se encontram numa cela de Nova Orleans. Os personagens são interessantes, possuem traços peculiares, mas quando dialogam o que fica evidente é o tédio existencial que Jarmusch faz questão de reforçar em seus filmes.

O cafetão do bem e o DJ incompetente se deparam com o italiano vivido por Roberto Benigni e passam a ver luz no fim do túnel. No entanto, quando imaginamos que a narrativa pode se tornar um pouco mais dinâmica, o que ocorre é apenas o acréscimo de comicidade ao ritmo já tão estagnado do filme. Entendo que essa seja a proposta de Jim Jarmusch, mas a mim não agrada. 
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Apenas dois aspectos de Down by Law me agradaram: a imagem e a trilha sonora. O preto e branco é novamente explorado com muita expressividade por Jim Jarmusch, e as músicas, a cargo de Tom Waits, são realmente boas. De resto, me pareceu um filme tedioso, um exercício de estilo que esqueceu boa parte do conteúdo. Na trama, dois caras são sacaneados e vão presos, encontrando na cadeia um italiano mala que logo lhes propõe fuga. Até a escapada, porém, somos obrigados a testemunhar a monotonia da convivência deles, em minutos intermináveis. Dá-lhe conversa pra boi dormir.

O estrangeiro, figura já presente em Estranhos no Paraíso, aqui surge para salvar os americanos, tirá-los da pior e oferecer-lhes a possibilidade de uma segunda chance, mesmo que de maneira quase involuntária. Sem Roberto, Jack e Zack provavelmente passariam anos encarcerados, ruminando bobagem e matando o tempo. Decerto daí dê para extrair alguma coisa mais significativa, contudo, a meu ver, é pouco para justificar todas aquelas andanças e o falatório, no mais das vezes vazio. Down by Law um filme difícil de atravessar sem bocejos.


Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Doses Homeopáticas #24


CÍRCULO DE FOGO é entretenimento dos bons. Aquela papagaiada da conexão neural é só para inglês ver, um verniz superficial no que realmente importa: o quebra-pau entre os robôs gigantes e os alienígenas que invadem o planeta de vez em quando. Não lembro de ter visto algum filme que conseguisse parecer tão crível nessa escala de destruição, sem para isso apelar a exageros futuristas ou trucagens que escondessem efeitos ruins. Aliás, talvez neste caso a maior contribuição do cineasta de Guillermo Del Toro - longe de ter sua autoria soterrada no grande orçamento - seja mesmo esta: tornar orgânica a inserção dos efeitos no mundo de carne e osso. De resto, é torcer pra vitória dos humanos contra os ETs. Simples assim, mas sem qualquer agressão à nossa inteligência.


Uma das maiores realizações da história, O PODEROSO CHEFÃO engrandece ainda mais se visto no cinema, e não digo isso pela óbvia proporção da tela, mas porque nessa condição tudo fica mais evidente, da genialidade de Coppola aos trabalhos não menos impressionantes de Gordon Willis (o filme nunca havia me parecido tão sombrio como agora) e do elenco, sobretudo de Marlon Brando e Al Pacino. Entre tantos momentos de grandeza, dois, a meu ver, se sobressaem: a morte natural de Don Corleone, ele que sobreviveu a balas e outros contratempos, mas que sucumbiu à inevitável; e a montagem que paraleliza um batizado com o extermínio das lideranças das outras famílias, ou seja, os eventos simultâneos que fazem de Michael o novo Don Corleone. Pena que não vão exibir toda trilogia.



O título nacional A ILHA DE BERGMAN é um tanto enganoso, pois dá a entender que o foco deste documentário é a relação do cineasta sueco com Farö, ilha na qual ele decidiu passar boa parte da vida e que serviu de cenário para alguns de seus trabalhos. O que temos, na verdade, é o retrato de um grande artista em seu isolamento geográfico e sentimental (talvez aí o título faça sentido). Bergman fala muito da infância, da relação com os pais, empaca um pouco quando indagado sobre os múltiplos casamentos e a interação quase inexistente com os filhos, mas não foge de responder qualquer pergunta. Pouco importa que o filme tenha um formato quadrado, pois realmente o que lhe confere validade é a maneira como deixa Bergman retratar a si próprio, contudo sem autocondescendência. É um filme mais voltado ao humano que ao artista, ainda que o primeiro aspecto acabe revelando muito a respeito da construção do segundo.      

sábado, 19 de julho de 2014

CINEMA A DOIS | JIM JARMUSCH – Estranhos no Paraíso (1984)


Com bastante dificuldade, iniciei Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch, e só engrenei, me sentindo capturada pelo clima tedioso, non sense e aparentemente desprovido de emoção, a partir do 55º minuto do filme (ao todo ele tem 90). Mas, admito, mesmo que tenham me proporcionado sensação de estranhamento e desconforto, os personagens “sem vida” e as telas pretas que interrompem de tempo em tempo as cenas tediosas, são exatamente o contexto do filme. Parece que Jarmusch conseguiu trazer à tona não só uma estética própria dos anos 80, como também o modo de vida dos jovens americanos dessa época.

Em alguns momentos, a música “I put a spell on you” muda ligeiramente o fluxo dessa falta de esperança dos personagens, a inércia dos mesmos, bem como a melancolia presente em cada diálogo iniciado e finalizado de forma seca, por ser uma canção repleta de visceralidade e paixão. E são nesses paradoxos que o diretor se apoia para construir seu estilo indie, recheado de cultura pop, que passeia pelo existencialismo, ao meu ver, sem muito se aprofundar. Jim Jarmusch possui uma forma bem peculiar de contar suas histórias. No caso de Estranhos no Paraíso, mais parece uma autobiografia da geração que viveu os anos 80.
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O paraíso do título é, em tese, a América das oportunidades. Os estranhos, por sua vez, seriam os imigrantes, sobretudo aqueles que se esforçam para americanizar-se, como um dos protagonistas de Estranhos no Paraíso, ele que constantemente renega sua verdadeira nacionalidade, a húngara. Primeiro, insiste para que a tia fale somente em inglês ao telefone, repetindo a imposição à prima que acaba de chegar aos EUA. Depois, ostenta com orgulho hábitos locais, como as comidas congeladas e o gosto pelo futebol americano. Eva, a prima, é um corpo em princípio incômodo que o relembra da raiz. Na aparente estagnação narrativa do filme de Jim Jarmusch, há uma necessidade de falar sobre deslocamentos e seus efeitos.

As transições entre as sequências se dão como em piscares de olhos mais prolongados, nos quais a imagem nos foge, mas o som perdura, servindo de ponte. Não há propriamente um acontecimento no enredo, mas o contraste entre a inércia e o movimento. Os três protagonistas – numa dinâmica que alude a trios da nouvelle vague (vide Jules e Jim e A Banda à Parte) – têm em comum o vazio não preenchido por qualquer promessa de satisfação a médio e longo prazo. A vida para eles é agora, sem tempo para planos além do imediato. Estranhos no Paraíso é um filme bem mais de contemplação que de ação. Contudo, a sensação de não pertencer (à geografia, aos ditames sociais, etc) faz com que os personagens instintivamente se movam.

Por Ana Carolina Grether e Marcelo Müller

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Doses Homeopáticas #23


GREASE: NOS TEMPOS DA BRILHANTINA é um filme bom de ver, não cansa. A história de amor entre Danny e Sandy não tem nada de profundo. Quando muito, dá para tirar dali alguma observação a respeito de como o sexo era encarado entre as décadas de 50 e 60, com o puritanismo tentando segurar a onda dos hormônios, mas nada demais. O que importa é o desenho de personagens e situações, saturado pela encenação propositalmente exagerada que mostra essa geração da brilhantina e das corridas de automóvel, isso em meio a números musicais que figuram entre os mais legais do cinema americano pós-Guerra. Vê-lo em tela grande só confirmou o quão divertido ele é.


MEIA-NOITE EM PARIS fica ainda melhor na revisão. Owen Wilson se apropria dos trejeitos de Woody Allen – assim como outros fizeram - para construir seu personagem fascinado pela Paris dos anos 1920. Nas viagens no tempo, vemos figuras como o casal Fitzgerald, Hemingway, os surrealistas (Buñuel, Dali, etc), entre outros. Alguns que viviam naquela que o protagonista considera a época perfeita, por sua vez, preferem a anterior, ou seja, a nostalgia é um círculo vicioso. Segundo o filme, a vida é dura demais para a gente se sentir totalmente confortável no nosso próprio tempo. No mínimo, coerente com a visão romântica/realista/pessimista de Woody Allen, esta que a gente bem conhece não de hoje.


Que filmaço esse JERSEY BOYS: EM BUSCA DA MÚSICA, o antimusical de Clint Eastwood sobre Frank Valli e o The Four Season. Quando a gente pensa que virá uma cinebiografia convencional, com números musicais que só pontuam cronologicamente as fases da banda, Clint nos surpreende ao conduzir tudo pelas vielas mais sombrias, expondo as dificuldades sociais dos personagens, suas conexões escusas com a máfia, entre outros elementos que tornam as coisas mais complexas, enriquecendo, assim, a boa e velha trajetória de ascensão e queda, que surge de maneira não esquemática. E que baita elenco, na sua maioria de atores pouco conhecidos. A semelhança com Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, é evidente.

sábado, 12 de julho de 2014

O Morro dos Ventos Uivantes


A versão de O Morro dos Ventos Uivantes dirigida por Andrea Arnold é uma construção poética que mescla a natureza em curso e o amor condenado de Heathcliff e Catherine. Desde a chegada do menino, recolhido pelo pai da família como sinal de bom cristianismo, a mudança dos ciclos da natureza desempenha papel imprescindível, assim como as paisagens que parecem exteriorizar a geografia interna dos personagens. Muita chuva, ventos que sibilam por entre as colinas onde o afeto tenta furar o bloqueio da intolerância e do preconceito, closes de animais em seus rituais cotidianos, terrenos acidentados que dificultam os deslocamentos, enfim, essa relação do meio com o indivíduo é bastante acentuada na visão de Arnold, até onde lembro, um dos filmes recentes que melhor utiliza os cenários como elemento dramático.

O que temos não é uma reverencial versão cinematográfica do romance já bastante adaptado, mas sim a interpretação do mesmo segundo uma visão bastante singular, não escrava da palavra impressa, esforçada em traduzir em imagens as sensações e outros dispositivos intangíveis, ou seja, tornar visível o invisível. Arnold, que havia anteriormente trafegado pela urbanidade, se embrenha no inóspito como que para fazer emergir sentimentos mais elementares, mediados pela natureza, a externa e a dos personagens. Esta versão de O Morro dos Ventos Uivantes mostra que o ódio e a violência são inerentes tanto ao humano quanto ao mundo que o cerca, enquanto o amor e o carinho são árduas conquistas.