Alain Resnais é uma lenda viva.
Sua contribuição para o avanço da linguagem cinematográfica já está lá,
impressa nas páginas da história. Não contente, vem ele aos 91 anos com um
diálogo aberto entre cinema e teatro, em VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA. Confesso
ter achado o início genial, mas depois, quando desfraldado o caminho a ser
percorrido, tudo meio enfadonho na proposta de imbricar atores e seus
respectivos personagens da peça Orpheu e
Eurídice. Cenários artificiais, figuras de interpretação duplicada, às
vezes triplicada, e o que ficou para mim foi a beleza da própria peça, acima da
forma utilizada por Resnais para contá-la.

Baseado na canção Olhos nos Olhos¸ de Chico Buarque, O
ABISMO PRATEADO é circunscrito na tradição das obras mais voltadas à criação de
sensações que propriamente ao desenvolvimento direto e reto de uma trama.
Violeta é abandonada pelo marido, e a partir daí vemos a imediata absorção da
dor e seus desdobramentos. Muito barulhento e urbano, o filme falha, a meu ver,
não por apostar na reiteração e nos tempos mortos para transbordar de Violeta
ao público o lado menos tangível da perda, e sim por fazê-lo exasperando
esse caráter lacunar.

CABRA MARCADO PARA MORRER em tela
grande e cópia nova é experiência e tanto. O longa mais famoso do cineasta
Eduardo Coutinho, mesmo atento a uma época, envelhece pouco se retermos dele
sua atemporalidade: a luta de classes, os desmandos dos latifundiários
(empresários) e a força do povo. Pessoas
humildes de pouca escolaridade se apresentam como força motriz da revolução
camponesa nordestina, a inteligência da sociedade orgulhosa de sua cultura
acadêmica, porém cega diante dos problemas mais elementares. A recordação, o
filme dentro do filme, é só um afluente, pretexto para a criação de algo que
realmente discute o Brasil.

SOMOS TÃO JOVENS não é um grande
filme. A preocupação do roteiro em dar conta de TUDO acerca de determinado
período (grande) da vida de Renato Russo exclui, por pressa, dos momentos em si
um tanto de sua real importância. Há também olhar pudico, sobretudo com relação
ao sexo. Contudo, há beleza no registro daquela geração emblemática do rock
brasileiro. Renato às vezes soa quase como moleque mimado e irritante na tela,
mas quem disse que ele não era assim mesmo? As revoltas e chiliques desse “punk
de apartamento” no seio da burguesia (assim ele é pintado), em nada diminuem
seu talento poético.

Ainda que seja refém de algumas
soluções fáceis (nós desatados quase como num passe de mágica), DUETS - VEM
CANTAR COMIGO tem personagens interessantes, trilha sonora inspirada e alguns
momentos de graça genuína. O inusitado encontro de tipos tão diferentes em
busca de sucesso num circuito de karaokê é base para algo que, ainda de
soslaio, discute a pátria-mãe América e seus órfãos desgarrados. Fora isso, os
números musicais são ótimos e até Gwyneth Paltrow, tão insossa, sai-se muito
bem. Um filme que se deixa ver entre a emoção e o deleite sonoro.